Daqui não passa
Chão

Expo Shanghai 2010: o Playcenter das nações

Quando eu programei as datas da minha viagem para o outro lado do mundo, eu nem sabia que a Expo 2010 seria em Xangai, muito menos que ela ia começar pouco antes da minha chegada na China. Aliás, mal registrava que ainda se fazia essas feiras mundiais – e a única que eu tinha registrado na mente era aquela primeira, em 1815, feita em Londres pelo Príncipe Albert (designers aprendem sobre essa feira, inevitavelmente).

Mas dei sorte que a Expo começou algumas semanas antes da minha chegada, e assim passar lá um dia tornou-se programa obrigatório assim que coloquei os pés em Xangai. Logo na chegada, enquanto o taxista começava a me aterrorizar costurando em alta velocidade no caminho do aeroporto para o apartamento do Louis, já deu para perceber que a cidade estava respirando Expo. E que a escala do negócio era assustadora. Quando atravessamos a ponte de Lumpu, uma das maiores da cidade, a Mari me apontou “olha a Expo!”. Olhei pela janela e vi ao longe o duvidoso pavilhão da China, enorme. “Ah, é lá naquela parte?”, disse eu, inocentemente. “Não. É tudo dos dois lados da ponte”, ela me corrigiu.

Nos dias seguintes, ficou claro que nem que eu quisesse dava pra escapar da Expo. Onde houver um jardim público, há um canteiro com a palavra “EXPO” escrito em flores. A figura do Haibao, o mascote do evento, está por todos os lados – tanto em imagens da prefeitura como por desenhos dos próprios xangaienses. Em todos os lugares de fluxo de gente (principalmente de turistas), pequenos estandes da Expo com dois ou três voluntários, prontos para orientar quem estivesse perdido.

A organização da Expo também não mediu esforços para garantir o sucesso do evento. Quatro dias depois da minha chegada, bateram na porta do apartamento três pessoas de terninho. Perguntaram quem morava lá, e informaram que tinham ingressos grátis da Expo para todos os moradores. Além disso, um cartão de transporte para cada um, com crédito de sobra para ir e voltar. O pessoal tem que garantir a presença das multidões.

E assim, com os ingressos da prefeitura, fomos numa segunda-feira visitar a Expo. Como os chineses não brincam em serviço, construíram uma linha de metrô de 3 estações para levar as pessoas para a Expo. No acesso a essa linha, estruturas prontas para receber filas gigantescas (que não duvido que são necessárias vez ou outra), mas vazias, felizmente. Todo mundo antes de pegar o trem é revistado e passa pelos detectores de metal.

A área da Expo parece grande de fora, mas só quando se está lá dentro que se tem noção de seu tamanho. Para se ter noção, ela ocupa uma área de pouco mais de 5 km quadrados. O Parque do Ibirapuera tem pouco menos de 2.

A melhor analogia que eu encontrei para a Expo é que ela é o Playcenter das nações. É exatamente o mesmo esquema: você vai de bloco em bloco andando pelas ruas asfaltadas, só que ao invés de brinquedos, tem os pavilhões. Todos enormes e em shapes extravagantes; imagino que a Expo deve ter feito a alegria de muito arquiteto entediado.

Outro ponto em comum com o Playcenter é o tamanho das filas. Aliás, me corrijo: as filas do Playcenter são fichinha perto das filas da Expo. Passam por lá centenas de milhares de visitantes todos os dias, a imensa maioria de chineses, claro, dispostos a tudo para fazer sua viagem ao redor do mundo sem sair de seu país. Então dá-lhe fila. Os pavilhões dos países mais conceituados tinham filas de até 3 horas para conseguir entrar. Três horas debaixo do sol. São poucas as coisas pelas quais os chineses arriscariam brancura de sua cútis.

Mas talvez a persistência dos chineses tenha um outro grande culpado: o passaporte da Expo. Algum gênio do marketing teve a ideia de vender passaportes oficiais da Expo, que os visitantes podem carimbar em cada pavilhão visitado. Como alguém que já fez o Caminho de Santiago, eu sei o que as pessoas podem fazer para mostrar que têm mais carimbos que os outros. Na Expo isso era elevado a N. Os chineses querem guardar para o resto da vida seu passaporte megacarimbado, e fazem de tudo para completar a coleção. Não era raro ver aglomerações maiores em torno dos balcões de carimbo que em volta do que o pavilhão realmente queria mostrar. “NO STAMPS HERE” foi o cartazinho colocado em todos os balcões que calhavam de ter outros propósitos (menos nobres, ao ver dos chineses) dentro de um pavilhão.

Sem a menor disposição de gastar nossa preciosa vida em fila, nossa primeira decisão foi que a espera para entrar seria o fator determinante na escolha dos pavilhões. E assim nós começamos a ver os que os países desprestigiados acham que têm de melhor para mostrar. Descobrimos que Portugal é o segundo maior produtor de cortiça do mundo, e que a Estônia é o país com mais crateras de meteorito por quilômetro quadrado do globo. O pavilhão de Cuba era basicamente um bar em que serviam mojitos grátis, excelente ideia, na nossa opinião. O da Coreia do Norte era todo um espetáculo kitsch com sérias restrições orçamentárias tentando convencer que o país é o “paraíso para as pessoas” (sério). O pavilhão coletivo árabe na verdade não passava de uma série de lojinhas de produtos típicos.

(Os portugueses em certo ponto de seu pavilhão também afirmavam orgulhosamente que “80% dos portugueses já marcaram um gol”. Soa bem estranho para os brasileiros, já em que nosso país 100% das pessoas já marcou um gol em algum ponto da vida, mas deve fazer sentido na lógica lusitana.)

Quando anoiteceu, as filas se dissolveram e então começamos a visitar os pavilhões mais populares. Entramos no da Dinamarca, em que se podia andar de bicicleta dentro, e no da Inglaterra, a Catedral de Sementes, uma estrutura linda que te deixa pensando sobre vida e futuro por muito tempo depois de sair dela. Queríamos entrar no da Suíça, que tem um teleférico dentro, mas não deu tempo – nove e meia da noite a maioria dos pavilhões fecha, apesar da Expo ficar aberta até meia-noite.

No fim da semana, voltamos para o dia do Brasil na Expo, e vimos os shows da Martinália e de Carlinhos Brown no teatro principal da Expo. O primeiro show já animou os chineses, mas Brown, com toda sua experiência com as multidões brasileiras, levou o teatro abaixo. Os seguranças chineses não sabiam o que fazer com aquele monte de gente aglomerada na frente do palco, e um showman que descia para ficar entre a platéia, organizava um trenzinho em torno da plateia, e pedia para que todos levantassem e interagissem o tempo todo. Já a plateia amou de paixão, e tentavam imitar os movimentos da brasileirada presente o melhor que podiam – acabavam parecendo uns lango-langos, mas o que vale é a intenção. Ao som de Brown, me despedi da Ásia, com um peso no coração que não esperava sentir quando embarquei 30 dias antes.

 

Xangai vs. Seul: estilo

Já aviso de saída que esta é uma luta injusta e covarde. Querer comparar Xangai e Seul em termos do bem-vestir de seus habitantes é como querer fazer com que Rio e São Paulo compitam com base no bronzeado de sua gente. Não há duvida sobre quem vai ganhar – e mesmo que os paulistas argumentem que de nada serve em termos práticos ostentar uma pele dourada sobre músculos torneados, não há como esconder a inveja que sentem debaixo de seus ternos, coçando a pança.

Seul é uma das cidades mais fashion e modernas que eu já vi. De todas as minhas andanças pelo mundo, lá foi o único lugar em que, ao andar de metrô, eu comparava meus trapinhos com o que o populacho em geral estava usando e me sentia mal vestido. Os coreanos têm um fashion-sense mais afiado que as agulhas que costuram suas roupas; as bancas oferecem inúmeras revistas gigantes com as últimas tendências da moda, e fica claro que todo alguém que quer ser alguém faz a lição de casa, lendo as revistas com a avidez com que no Brasil se lê os resumos da novela.

Além disso, o povo lá não tem pudor de ser moderno. Seja nos cabelos com cores improváveis e cortes de mangá, seja vestindo cotidianamente aquelas peças que o estilista nunca imaginou que sobreviveriam à passarela, os coreanos sustentam suas escolhas de aparência com uma segurança invejável, principalmente os jovens. Agora com a moda do nerd chic, não é muito difícil cruzar com garotos e garotas usando óculos de armação grossa – mas sem lentes, já que não têm problemas de visão e estão portando os óculos como um mero acessório pendurado na cara. Um cara que vestir uma calça-samurai em Sampa dificilmente vai sobreviver ao escracho dos colegas. Em Seul, vão perguntar onde ele comprou.

Os coreanos são provavelmente os orientais mais bonitos e bem-acabados da Ásia, e sua capacidade de combinar 6 camadas de roupa impecavelmente me enche de admiração. No meu último dia em Seul, vi no metrô um cara que desfilava de um vagão para outro de mão dada com sua namorada, vestido dos pés à cabeça com um terno de xadrez escocês azul e preto slim fit, e um brinco pendurado na orelha esquerda que deixaria Boy George com inveja. Eu observava o cara e não pensei que ele parecia uma cortina ambulante, mas sim que tinha vontade de ser jovem e coreano pra poder sair com esses modelitos com tanto gusto. Eis o poder do fashion sense de Seul.

A China, em comparação… coitados. A Revolução Cultural fez inúmeras vítimas, e o senso de estilo da nação certamente foi uma das primeiras. Depois de décadas em que as pessoas, tanto homens como mulheres, tinham que usar o mesmo uniformezinho cinza todos os dias, a população ainda não sabe o que fazer direito com tanta opção. As lojas de marca e o fake market oferecem todo o necessário para se vestir bem em qualquer parte do mundo, mas o povo ainda está inseguro sobre como ornar tudo e prefere não arriscar muito. Constrastando com a exuberância sul-coreana, a juventude aqui se veste num estilo correto-bleh que não impressiona at all. E sem um contraponto forte da moçada, os faux-pas dos coroas é que chamam a atenção.

Uma das visões mais típicas nas calçadas de Xangai é a de um tiozinho andando pelo bairro vestido de pijama. Não é um esquema “calça e blusa de moletom que parece pijama”; é pijama mesmo, listradinho, levinho, com fileira de botões no meio do tronco. Em geral o tiozinho também está de meia e chinelo. Meus assessores expats brasileiros me apresentaram duas justificativas quase complementares para esse fenômeno. Primeiro, o pijama como consequência do já citado uniforme cinza do Mao. Depois de tanto tempo em que cada chinês só tinha uma muda de roupa, sair de pijama na rua é uma forma de mostrar que você está bem de vida, já que obviamente tem duas mudas de roupa, o dobro de todo mundo. De alguma maneira isso ainda continua a funcionar no inconsciente coletivo, apesar de que hoje em dia todos devem ter pelo menos três mudas de roupa, espero. Além disso, desfilar de pijama nos bairros mais chiques significa que você claramente mora por lá, já que saiu de pijama para “ir até a esquina” e já vai voltar pra casa.

Outra coisa bem comum de se ver nos tiozinhos chineses são os combovers: na tentativa de esconder ou compensar a careca, o infeliz deixa crescer bastante as mechas que lhe restam de um lado da cabeça e penteia essas melenas por cima do cocoruto, na esperança de disfarçar sua falta de cabelo. Uma solução horrorosa que apenas os mais iludidos são capazes de experimentar. Tudo preso por cima do crânio com montes de gel, fica parecendo que passaram contact por cima da cabeleira. O mais engraçado é quando uma mecha se solta do resto, e lá vai o chinês com meio metro de cabelo flutuando por cima da orelha…

 

Explorando Xangai: Comércio

Se existe um lugar que veio ao mundo a trabalho, é Xangai. Porto comercial desde sempre, com um passado de puteiro da Ásia, hoje o maior centro financeiro da China, a cidade quer ganhar dinheiro, e não tem a menor vergonha disso.

Então não chega a surpreender que, andando pelas ruas de Xangai, você se sinta o tempo todo num mercado. Desde que cheguei por aqui, não consegui encontrar ainda uma área puramente residencial – elas devem existir, mas bem, bem longe. Sejam os shopping centers lindos e gigantes, sejam as lojas de comércio popular, sejam as barraquinhas ao pé da calçada, sempre tem alguém querendo te vender alguma coisa. À chinesa.

Quando você sai das lojas de grife para uma relação mais téte-a-téte com o vendedor, o preço passa a ser algo totalmente negociável. Por terem certeza que o comprador vai regatear, os vendedores jogam o preço lá em cima; por saberem que o preço proposto vai ser um absurdo, os compradores oferecem quase nada de volta. É um ovo ou galinha econômico. Com o tempo pode-se adquirir uma certa apreciação pelo teatrinho obrigatório na hora de pagar, mas é algo bastante desconcertante, principalmente para culturas como a brasileira que não costumam fazer esse tipo de negociação. O vendedor vai fazer drama, vai dizer que o produto é de ótima qualidade, que você quer acabar com o negócio dele, e o comprador tem que segurar firme, soltando a linha muito lentamente, não importa a choradeira, até chegar-se num acordo. Mostrar desprezo pelo que se quer ajuda. Ter uma atitude de desapego também: nem sempre a negociação dá certo e pode-se sair sem o produto, mas também sem pagar o preço absurdo. Uma boa medida é que se deve pagar entre 1/4 e 1/3 do preço que o vendedor ofereceu inicialmente.

Minha visita ao Fake Market, guiado pela Mari, teve exemplos primorosos disso. Seguindo o modelo StandCenter de comércio, o Fake Market é um edifício de uns oito andares, em que lojinhas se enfileram numa sucessão initerrupta de camisas, ternos, calças, tênis, óculos, relógios… todos das mais respeitáveis marcas, vendidos por frações do que custariam nas lojas. Nike, Adidas, Abercrombie & Fitch, Louis Vuitton… estão todos lá aguardando que se combine o preço certo. Não sabemos se são parcelas das produções dessas marcas que são desviadas (afinal, quem não tem produtos Made in China hoje em dia?), ou se são apenas cópias muito bem-feitas.

Um gringo andando pelo Fake Market é alvo de assédio constante. Os chineses vão te buscar no meio do corredor, entram na sua frente, imploram com vozes mais ou menos chorosas, tudo pra fazer você entrar em sua lojinha. Eu queria comprar bermudas, e fui andando com o olho atento para alguma em exposição que me agradasse. Quando encontrei o que queria (outra dica: nunca comece a negociação se não for levar), assessorado pela Mari, criei coragem e perguntei qual era o preço. Com valores já convertidos para reais:

- As duas? Posso te fazer por R$ 160,00, diz a vendedora.
- R$ 160?!? Que absurdo! Muito caro, respondo. Dou R$ 30.
- R$ 30? Não posso! Muito baixo! R$ 150.
- Não não. R$ 30 as duas, em dinheiro, agorinha.
- Essas são roupas de qualidade! Tecido bom!
- Não. R$ 30 ou nada.
- Você quer acabar comigo! Qual é seu top price?
- Hmmmm. R$ 40.
- Que absurdo! Eu baixo para R$ 120, pronto.
- Vamos embora, Mari.

Estávamos saindo quando ela nos chamou de volta.

- Eu posso fazer por R$ 100, disse a vendedora em chinês para a Mari.
- De jeito maneira, Mari respondeu em chinês. Já disse, R$ 40.

E viramos as costas e saímos da loja. Quando já estávamos quase virando a esquina do corredor, a gente ouve um grito doído partir da loja: “OOOOOOQUEEEEEEEIIIIIIII!!!”.

Voltamos e lá estava ela, ao lado da entrada, quase se escondendo atrás da arara de roupas, enfiando as bermudas numa sacola como quem pode mudar de ideia a qualquer momento. Paguei o valor em dinheiro, agradeci e saí rapidinho. E assim eu comprei 2 bermudas Abercrombie & Fitch.

Com um brilho no olho, Mari me disse “agora é hora de você ter a outra experiência de compras essencial no Fake Market”. Subimos para o andar dos artigos de couro, rodamos um pouco, desviando dos vendedores, até encontrarmos uma loja que vendia bolsas e carteiras e estava meio deserta. Olhamos tudo com um certo desprezo, e Mari começou a exigir da vendedora: “Good quality! Good quality!”. Depois de um diálogo em chinês, a mocinha olhou para os lados, e nos pediu para a seguirmos pela salinha dos funcionários, no fundo da loja. Serpenteamos entre prateleiras de estoque, esquerda, direita, até que a vendedora chegou numa estante, girou uma maçaneta escondida, e a prateleira na frente dela abriu-se como uma porta: sim, era uma passagem secreta! Do outro lado da passagem, uma salinha com os últimos lançamentos da Louis Vuitton, Dolce & Gabbana, Giorgio Armani, tudo do mais fino. Depois de vermos tudo, Mari começou a pedir por coisas que ela sabia que não teriam, e assim conseguiu sair de lá sem enfurecer a vendedora.

Agora, mais acostumado, sou capaz de negociar sozinho. Ontem fui passear nos arredores dos Jardins de Yuyuan, basicamente alguns quarteirões de calçadões megalotados, com lojas modernas em prédios novinhos de arquitetura tradicional chinesa. Uma Disneilândia do consumo chinês para turistas. Virando de ruela em ruela, ignorando os vendedores que me acossavam (“Ipod! Iphone! Watches! Sunglasses!”), consegui encontrar souvenires para meu pai e minha sogra. E negociei direitinho. Talvez pudesse ter economizado um ou dois reais a mais, mas cheguei num preço que me agradava. Não me importo dos chineses me fazerem de otário. Um pouquinho só.

 

Taxistas e massagistas

Quando saí do Brasil para meu tour pela Ásia, levava uma mala bem cheia e outra pela metade, com encomendas e apetrechos de viagem. Achava que tinha espaço de sobra nelas para a viagem toda, já que as encomendas ficariam pelo caminho. Pois ao refazer as malas no dia de zarpar para Xangai, qual não é minha surpresa ao descobrir que as duas já não davam conta da minha bagagem. Algo me diz que comprei coisas demais nos megashoppings de Seul… Foram duas horas de Tetris, compressão, fé no zíper e alguns replanejamentos, mas consegui deixar a bagagem pronta para embarcar. Mas tive que deixar alguns livros para trás, que eu torço para que meu irmãozinho mande pelo correio.

A viagem para Xangai foi tranquila, saiu no horário correto e não teve maiores percalços. De notável, apenas que a companhia tinha a pior comida de avião que eu já tive que engolir na minha vida – um tijolo de arroz ao lado de um macarrão esquisito com poeira de carne era a versão deles para “beef”. O entertainment deles me deu um flashback das viagens de fretado na faculdade: telinhas no teto a cada quatro fileiras de assentos, passando um filme legendado (em chinês), a trilha sonora do filme tocando baixinho na cabine inteira para os interessados. Felizmente o voo não passava de uma hora e meia.

Imigração, esteira de bagagem. Antes de se libertar do limbo da chegada num país, a China já mostrava seus dentes de Mao: todo mundo tinha que passar todas as bagagens por um aparelho de raios-x antes de sair pelo portão de desembarque. Seguro de que não tinha armas nem bombas na minha bagagem, não passei por incômodo algum, mas preferia o sistema da Coreia do Sul, em que um seu guarda passa entre as malas com um cãozinho farejador tão simpático que dá vontade de fazer cafuné nele.

Quem me hospedaria em Xangai é Louis, meu amigo de longuíssima data que foi pra lá trabalhar já faz quase dois anos. Mas como ele estava num treinamento da empresa de dois dias, quem foi me buscar no aeroporto foi a esposa dele, a Mari. Alta, bonita, esperta e descolada, ela me recebeu com os braços abertos, e imediatamente começou a facilitar os atritos com a cultura chinesa. Nesses dois anos ela garrou para aprender chinês com os nativos, e, apesar de jurar que não passou do intermediário ainda, ela trata de tudo em mandarim com uma facilidade desconcertante. O segredo, disse ela, foi pagar a empregada chinesa uma hora a mais por dia, para ficarem papeando em mandarim.

O primeiro conselho que Mari me deu assim que colocamos as malas na bagagem do táxi foi “olhe para a paisagem, não olhe para o trânsito”. Sábio conselho, que recomendo que todos que venham para a China sigam à risca. Basta considerar que, pouco mais de cinco anos atrás, 70% das pessoas que dirigem hoje não dirigiam. O tráfego pelas ruas de Xangai é uma luta constante para ver quem tem o pau maior (tadinhos), e nisso não se considera fatores como o tamanho relativo dos veículos ou a velocidade em que se encontram. O taxista vai acelerar para tentar entrar na faixa ao lado apesar do carro ao lado estar parelho, frear bruscamente para não bater no carro da frente, e daí voltar bruscamente para a faixa anterior porque a nova faixa não vai no ritmo que ele gostaria. Em busca do espaço vago à frente, não importa se um ônibus já está entrando na faixa, o taxista vai acelerar para se jogar no spot em que o ônibus quer entrar, na esperança em que o busão vai ceder e frear. Quando isso (obviamente) não acontece, a freada é nossa, parando a dois centímetros da jardineira. Não demorou muito para eu compreender por que a Mari ficava tão feliz quando entra num táxi que tem cinto de segurança no banco de trás.

Nessa primeira noite em Xangai, Mari começou a me mostrar as maravilhas da vida laowai me levando para comer na Taikang Lu, um hutong (conjunto habitacional da época da Revolução) convertido em bulevares cheios de butiques e restaurantezinhos bacanas. Um os restaurantes exibia na entrada seu maior motivo de orgulho: num banner de mais de dois metros, uma foto do Jude Law comendo lá.

No dia seguinte, fui apresentado a uma das maiores maravilhas da cidade: os spas de massagem. Depois de acordar e virar gente, embarcamos num táxi (baratíssimos) e Mari mandou o intrépido taxista nos levar para Dagu Lu, onde há a maior concentração de salões de massagem e de lojas de DVD pirata. Na China, as massagens são oferecidas por preços tão acessíveis, por massagistas tão entendidos, que não tem como fazer da massagem parte da sua rotina. Fomos num primeiro spa que Mari e Louis frequentam, onde conseguiríamos uma hora de massagem nos pés pelo equivalente a R$ 30, mas teríamos que esperar uma hora. Então fomos para outro meio quarteirão para cima, onde podiam nos atender imediatamente, com uma hora e meia de massagem nos pés por R$ 35.

Eu não conseguia imaginar o que possivelmente poderiam fazer com meus pés por uma hora e meia, mas mal podia esperar para ver. Colocaram nós dois numa sala à meia-luz, sentados em poltronas reclináveis de couro, e daí veio uma chinezinha miúda para mim e um chinês rechonchudo para a Mari. Apresentaram-se, informaram o número de cada um caso a gente queira que eles nos atendam novamente no futuro, e perguntaram se a gente queria assistir a algum filme (dissemos que não – nada vai disputar nossa atenção com a massagem!). Então trouxeram uma tina de água quente com ervas para cada um e deixaram nossos pezinhos cozinhando lá um pouco. Enquanto os pés amoleciam no chá da tina, nos pediram para sentarmos num pufe de costas pra eles e começaram a fazer massagem nos ombros. Eu aproveitei o ensejo para dizer (via Mari) que estava com dor na lombar, se minha chinezita não podia fazer algo para ajudar.

Foi então que eu descobri que dentro daquela estrutura de passarinho tinha uma britadeira. A mulherzinha tinha a força de um dentista arrancando dente do siso, mas no corpo inteiro. Cotovelo, nós dos dedos, antebraço, todos eram armas para subjugarem os nós musculares, sem chance de armistício. Quando eu achava que meus ombros estavam virando patê, a forçuda me pegou pelos dois braços, colocou o joelho à direita da minha coluna e puxou meu tronco para trás, enquanto pressionava cada vértebra com o joelho, de alto a baixo. O susto foi enorme. Estava me recompondo, pensando em que modelo de cadeira de rodas eu ia usar quando saísse dali, e ela repetiu a operação à esquerda da coluna vertebral.

Devo dizer no entanto que o efeito dessas artes marciais sobre seu corpo é fantástico – você acaba realmente todo soltinho. Ao fim disso tudo, era a hora de cuidar dos pés. E lá foi a chinesa forçuda apertar todos os pontos do meu pé com seus dedinhos de talhadeira. Tenho certeza que ela tem uma intimidade maior com meus pés do que eu mesmo, que convivo com eles há quase 31 anos. Como estudei por oito anos num colégio de freiras, tive vários momentos de remorso por ter aquela moça lá se atracando com meus pés – se nem Jesus achava que merecia uma dessas na última ceia, quem era eu pra vir aqui na China explorar a mão de obra barata pelo prazer egoísta de ativar todos os meridianos do meu corpo? Mas daí vinha uma onda de relaxamento e todo remorso católico se dissolvia. E lá seguia a chinesa martelando os recônditos dos meus pés com suas falanges de aço.

Quando já estava com os dois pés amaciados e hidratados, ela passou a subir para as panturrilhas, joelho e coxas. Estou eu lá entrando e saindo da minha névoa de Nirvana quando a chinesa faz um comentário ling li ling para a Mari, que começa a ling li lingzar de volta com ela até que, depois de bastante diálogo, Mari começa a rolar de rir.

- Que foi?, pergunto eu.
- HUAAHUAHAUAHA! Ela virou e disse que você era muito yundong. E eu já tinha visto essa palavra mas não lembrava o que queria dizer. Ela toda yundong, yundong, até que eu tive um estalo e perguntei “Yundong como quem faz natação, futebol, etc.?”, e ela “Isso, isso!”. Yundong quer dizer atlético. Ela está encantada que você é muito musculoso.

Como não estou nem perto dos músculos que gostaria de ter, chego à conclusão que é tudo uma questão de referência mesmo.

 

Explorando Seul: comércio

Chega o fim de ano, no Brasil, e os shoppings deram pra ficarem abertos até meia-noite para dar conta das compras de final de ano. A gente se assusta, e tem até um pouco de dó dos funcionários que vão ficar trabalhando até altas horas (e certamente não devem receber toda a hora-extra a que teriam direito), mas achamos ótimo que o comércio fique aberto até tão tarde. Tão conveniente!

Agora, imagine o pasmado de passar na frente de um shopping em Seul e se deparar com a plaquinha: “Horário de funcionamento: 10:15h – 05:00h”. Sim. Das dez da matina às cinco da madrugada. Nonstop.

Características como essa fariam minha mãe passar dias insone em Seul, fazendo compras. Quando eu tinha 12 anos e ela arrastou a família inteira para Serra Negra porque lá tinha malhas de frio baratíssimas – BARATÍSSIMAS! – eu me encostava pelas quinas para aliviar as pernas doloridas de tanto andar, tentava ler um gibi mas sempre era interrompido para experimentar uma blusa, e caminhava por quarteirões sem fim, para só mais uma loja, e mais uma, e mais uma, e mais uma… mas tinha o consolo de que seis e qualquer coisa da tarde aquele suplício ia acabar, e a gente ia voltar para casa, e, no escuro, eu ia tentar ler o meu gibi que AINDA não tinha conseguido terminar. Estivesse em Seul, essa judieira ia durar até o sol raiar; pelo menos então eu conseguiria ler o gibi na volta.

Não tendo assim essa grana toda, quando resolvi aproveitar a viagem para renovar o guarda-roupa, eu e Anselmo visitamos os shoppings noctívagos genéricos. Há os que têm todas as melhores e mais finíssimas marcas de todo o mundo, mas eu ainda consigo viver sem uma bolsa Louis Vuitton. E, sendo o coreano um dos povos mais fashion e descolados do mundo, mesmo no genérico havia mais coisa bacana e diferente que nos melhores points descolados de Sampa.

Mesmo com dinheiro e disposição para comprar, resolvemos exercitar o tradicional esporte da pechincha. Apesar de não ser algo tão agressivo como dizem ser na China, os coreanos em geral não se ofendem se você pede para dar um desconto. Inclusive, meio que esperam isso. Comprei uma blusa, pedi desconto, ganhei uma camiseta branca básica de brinde. Fui comprar uma calça, o Anselmo pediu desconto por mim, me deram uma regata cinza de graça. Escolhi uma pólo, perguntei o preço, achei OK, disse que ia levar… a mocinha pegou o dinheiro, colocou a pólo na sacola, e tacou junto um par de meias infantis de menina. Achou injusto eu pagar o preço da etiqueta.

Outra coisa marcante do comércio em Seul é que quando eles pegam pra focar num tipo de produto, foca mesmo. Passamos numa galeria mais popular, pra tentar encontrar coisas mais em conta ainda. Trombamos com um estande que vendia cintos – literalmente milhares de cintos num espaço de 3 x 4 metros, empilhados por cima uns dos outros, formando paredes de cintos. O mesmo no estande que vendia chapéus um pouco mais pra trás. Fora dos shoppings e galerias, o fenômeno se repete. Nos arredores do apê do Anselmo, há a rua das motos. Quarteirões e quarteirões de motos à venda. No outro lado, a rua das cadeiras. Preste atenção, não é de móveis, não é de cozinhas, é de cadeiras, e daí tem todas as cadeiras que você conseguir imaginar, com todas as cores e todos os números de pés possíveis, quarteirões a fio. A rua do lado do hotel é especializada em gráficas: todos os dias, indo ou voltando do metrô, eu passava por gráficas imprimindo flyers e cartazes e caixas furiosamente, e tinha que desviar das colunas de papel em branco que deixam na calçada, e fugir dos carrinhos de carga que levam essas colunas para dentro dos estabelecimentos.

Talvez o maior exemplo de compra à coreana que tenho para compartilhar foi quando eu e Anselmo resolvemos comprar um videogame. Depois de bater muita perna no shopping, trombamos com uma loja da Nintendo, olhamos tudo com os olhos de quem queria poder jogar SuperMario na sala de casa desde os 10 anos e nunca conseguiu, fizemos a conta e pasmos vimos que dava pra comprar o Wii, um controle extra, 2 jogos e 1 volante por 400.000 wons, o que dá pouco mais de R$ 600. Já estávamos puxando o cartão de crédito quando perguntamos se tinha como deixar os jogos em inglês, e disseram que NÃO! Korean only! Tristes, fomos embora vendo Mario e Luigi correr na outra direção.

Mas, persistentes, fomos no StandCenter de alto nível de Seul, em que se encontra todos os eletrônicos possíveis e imagináveis, para comprar um HD externo para mim. Subindo as escadas rolantes, passamos pelo andar que vende videogames. Encontramos o estande do coreano mais simpático, perguntamos do Wii. E daí, numa sequência de Koringlish e mímica, conseguimos: que ele destravasse o Wii coreano, que vendesse 4 jogos piratas, que vendesse 2 volantes, que incluísse 2 controles nunchaku, que baixasse o preço, que vendesse um outro controle-padrão, e que desse um jogo de brinde. No fim das contas, saímos carregados e felizes do camelódromo high-tech, cheio de coisas, pelos mesmos 400.000 wons.

E Anselmo ainda promete voltar lá no próximo mês pra comprar um PS3.