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Posts arquivados em Maio 2001

Cultura grátis

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31 5 2001 0 00 00

 

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Um dia bastante cultural, hoje.

Não começou muito bem, está certo. "Marcio, você não quer ir assistir aos Saltimbancos lá no teatro?", me pergunta a Mariana. Eu, cheio das minhas memórias de infância e da lavagem cerebral chicobuarquiana que minha mãe me fez a vida inteira, aceitei o convite todo animado. Chegando lá, a gente descobre (depois que a peça já começou) que é uma montagem pobre da comunidade pobre do pobre musical do Chico. Os pré-adolescentes no palco sequer tinham acompanhamento, saber cantar então, nem se fala. Cantando daquele jeito, os saltimbancos jamais conseguiriam emprego na cidade mesmo.

A eles se seguiu uma apresentação de um quarteto de cordas. Eu olhei bem pra Mari e fiz ela jurar que, se eles também não soubessem tocar nada, a gente ia sair logo, e não ia ficar sofrendo a apresentação inteira. Felizmente eles eram alunos da Música, e tocavam bem.

Estávamos indo embora quando fomos coagidos por um pessoal na saída a ir assistir a uma peça ao ar livre que ia começar naquele momento. Apesar da minha fome, a Mariana conseguiu me convencer de que meia hora a mais ou a menos não fazia diferença, e lá fomos nós. Qual não foi a minha surpresa quando eu descobri que uma das atrizes dessa peça era a Tatí, uma amiga minha amiga minha que eu não via há uns quatro anos? A peça era do teatro do absurdo, em que um povo lá ficava desmembrando um boneco e tocando pandeiro. A Mari logo perdeu a paciência e foi trabalhar. Eu fiquei até o fim, para cumprimentar a Tatí. Ela demorou uns trinta segundos pra me reconhecer, talvez porque da última vez que ela me viu eu tinha cabelo comprido, barba e aparelho nos dentes.

Às seis da tarde eu fui assistir ao Casa de Cachorro, um documentário que um colega meu dos tempos do COTUCA e que hoje faz Cinema, o Thiago, dirigiu. Um documentário muito bom, sobre o povinho que vende casinha de cachorro na beira da Anhanguera. Bastante tocante, sem ser babaca, mostra uma situação triste mesmo quase sem passar julgamento nenhum.

É engraçado pensar como quase ninguém que fez colégio técnico comigo virou técnico, ou, pra falar a verdade, sequer continuou no ramo. Eu lembro do Chico (nosso professor de Técnicas de Programação), na primeira aula dele, dizendo "Tem TRINTA E CINCO pessoas para cada lugar desses que vocês estão ocupando que gostariam muito de estar aqui, e para os quais o diploma de técnico seria MUITO MAIS ÚTIL!!!". Não adiantou muito querer fazer o povo se sentir responsável e culpado, porque no fim serviu mais pras pessoas descobrirem que não gostavam de programar do que para lhes garantir emprego. Foram para a Medicina, Biologia, Veterinária, Editoração, Cinema… Poucos sequer viraram engenheiros, e acho que só uns dois dos quarenta que entraram continuam programando.

Na verdade foi bom fazer esse tipo de coisa, eu não fazia esses programas culturais gratuitos desde quando eu estava na Unicamp, em que volta e meia você tropeça numa performance. Essa é uma das vantagens de não estar mais trabalhando.

Fica a recomendação, se alguém tiver a oportunidade, vá assistir o Casa de Cachorro, é curtinho e vale a pena.

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29 5 2001 0 00 00

 

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Um dia a humanidade ainda vai desenvolver a telecinésia. Então eu nunca mais vou precisar ficar carregando bolsas no ombro, meu pescoço vai ter todos os músculos soltinhos da silva e eu vou conseguir passar pela catraca do ônibus sem ter que fazer malabarismos.

Alma e armazém

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27 5 2001 0 00 00

 

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Uma das principais características tanto da minha coleção de CDs como da do Danilo é o enorme número de cantoras, muito maior do que o de cantores. Cássia Eller, Gal Costa, Tori Amos, Björk, quase qualquer uma.

Naquele dia, dois anos atrás, em que teve o blecaute, ele estava no show da Marisa Monte em Campinas, enquanto eu estava lavando o meu apartamento em São Paulo. Ele teve a chance de ficar me fazendo inveja durante várias semanas. Mas como a vingança é um prato que se come frio, agora que ele está nos EUA eu pude retribuir em dobro.

Duas semanas atrás eu abri a Vejinha e vi um anúncio enorme do novo show da Zélia Duncan. Já que eu estava com uma grana sobrando, eu resolvi que já estava na hora de começar a usufruir destas facilidades de se morar numa metrópole e ir assistir ao show.

Dois dias depois fui até o DirecTV Music Hall, munido de carteira de estudante, comprar o ingresso. Quando olhei a tabela de preços no caixa, vi que não só tinha o show da Zélia Duncan naquela sexta, mas também tinha o da Ana Carolina na próxima. Também tinha o da Wanessa Camargo entre um e outro, mas não só ela não vale o esforço como também o ingresso pro show dela custava o dobro do das outras. Então comprei só dois ingressos, e deixei a Wanessa Kamargo para as leitoras da Contigo! gastarem as economias do semestre.

Três dias depois lá estava eu de novo, para o show da Zélia Duncan. Cheguei meia hora antes, pedi orientação para encontrar o meu lugar entre o mar de mesinhas, sentei e fiquei esperando o show começar, sem consumir absolutamente nada. Depois de ver vários comerciais da DirecTV no telão, eles anunciaram a ficha técnica do show, apagaram as luzes e acenderam os holofotes. O show foi muito bom, o cenário era simples mas bonito, a banda era muito boa e a cantora também. Ela cantou músicas do disco novo, alguns sucessos antigos e algumas músicas que ela compôs e/ou cantou com outros artistas (incluindo a que escreveu com a Rita Lee, "Pagu", que tem um refrão que eu adoro: "Nem toda feiticeira é corcunda / Nem toda brasileira é bunda / Meu peito não é de silicone / Sou mais macho que muito homem").

Depois de um pouco menos de duas horas, o show acabouu e teve o bis. O bis é uma parte de todos os shows que eu acho meio marmelada. Todo mundo já supõe que vai ter bis mesmo, o artista finge que vai embora mas não vai, a platéia pede mais músicas porque sempre se pede mesmo, não tem emoção nem suspense. Quando eu cantava em coral, por exemplo, o bis era um pouco mais emocionante, porque tinha vezes que a platéia não pedia bis, e a gente, que tinha a intenção só de fingir que ia embora, acabava tendo que ir embora mesmo.

Depois de tudo terminado, fui eu pra porta do camarim, entrar na fila e esperar pra pedir um autógrafo. Uma hora de espera mais tarde os seguranças deixaram o povo entrar em grupos de vinte, e fomos todos encontrar Zélia Duncan pessoalmente. Ela foi muito simpática, conversou com todos, parecia realmente feliz de receber os fãs (apesar de já serem quase duas da manhã, e ter mais uns cem fãs pra receber ainda), tirava foto, assinava CD, dava beijo, enfim, tudo que os tietes podiam querer. Levei uma caneta de tinta permanente, e contei pra Zélia a razão da supercaneta: quando eu fui pro show do Cordel do Fogo Encantado, na hora de pegar autógrafo, a bic não escrevia de jeito nenhum no encarte do CD, e o coitado do baterista ficou lá cavando sulcos no encarte, inutilmente. Saí de lá com o disco (o disco mesmo) autografado "Para Marcio, música e alma, Zélia Duncan".

No show da Ana Carolina eu já tinha uma noção melhor de onde eram os lugares, e não precisei de ajuda pra encontrar meu lugar. Cheguei meia hora antes do show também, mas desta vez os lugares à minha volta já estavam todos ocupados. Quinze minutos de observação depois eu notei que estava cercado por casaizinhos de lésbicas, todas felizes da vida que iam assistir à Ana Carolina. Foi uma delas que me deu a notícia de que a AC tinha sofrido um acidente e quebrado o pé (ou algo assim), e que ia fazer o show todo sentada.

Se com ela sentada o show foi como foi, eu imagino como deve ser com ela andando. Simplesmente fora de série. A voz da Ana Carolina é impressionante, muito forte, muito expressiva. E ela mandava ver mesmo estando sentada, posição muito ruim para cantar, principalmente cantar alto. A Ana Carolina cantava as músicas animadas bem animadamente, as tristes com um sentimento de partir o coração, e ainda leu textos e poemas (um deles eu sei que era da Ana Cristina César), contou casos.

O bis nesse show foi mais besta ainda, porque, como ela estava de pé quebrado, ela nem pôde fingir que ia embora; a cortina fechou e abriu logo em seguida, e ela começou o bis tocando pandeiro.

Assim que o bis acabou eu fui de novo pra porta do camarim. Foi então que eu pude notar como os fãs desse show eram diferentes, apesar de provavelmente serem mais ou menos os mesmos. Em vez da fila organizadinha e quietinha que eu tinha encontrado no show da Zélia Duncan, eu me achei cercado por lésbicas em polvorosa, todas querendo ficar na frente da fila, reclamando que tinham chegado antes e que as outras que estavam tumultuando deviam ir pro fim da fila. Demorou uma hora até que conseguissem fazer uma fila decente. Quando essa façanha estava feita, chegou a informação de que a Ana Carolina estava indo embora e não ia dar autógrafo. Ninguém acreditou, porque os seguranças estavam ameaçando não deixar ninguém entrar desde o fim do show. Ficaram todos lá ignorando os seguranças por um tempo, depois começaram a querer brigar com os seguranças, e por fim começaram a xingar a Ana Carolina. Sem pensar de que ela tinha todo direito de estar cansada, com o pé quebrado e com vontade de descansar um pouco sem ficar até as três da manhã assinando encarte de CD.

Tá, eu fiquei triste de não ter conseguido autógrafo nem foto, mas fazer o quê? As lésbicas queriam cercar a van da banda e pegá-los de refém até que a Ana Carolina arrastasse a perna engessada de volta pro camarim e desse autógrafo. Eu fui atrás de um táxi pra voltar pra casa. O mais importante, que era assistir a um puta show e ter com o que fazer inveja ao Danilo, já estava feito.

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26 5 2001 0 00 00

 

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O Anselmo, pra quem eu não passo de uma fonte inesgotável de CDs para copiar, já tá querendo que eu coloque webmail, banners e o diabo a quatro nesse site. Ele precisa se descapitalizar um pouco. "Tem que ganhar dinheiro!", diz ele. Ha ha…

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25 5 2001 0 00 00

 

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O que significa quando surge uma linha nova na sua mão? Isso é bom? É ruim? The Powers That Be mudaram de idéia e alteraram o rascunho da minha vida?

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24 5 2001 0 00 00

 

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Ze alguém zouber de alguma zimbadia bra dão ficar resfriado durante o inberno, eu tô azeitando. Qualquer coisa, benos ficar resfriado. Binha bão e beu nariz já tão doendo.

Mind the gap

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23 5 2001 0 00 00

 

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O autor do qual eu tenho mais livros na minha estante é o Neil Gaiman. Não só tenho toda a coleção do Sandman, como também tenho quase todos os outros quadrinhos que ele escreveu, e todos os livros que ele já lançou. Um investimento um tanto caro que eu venho fazendo desde 1995, e do qual eu tenho muito orgulho.

Assim sendo, eu não podia deixar de ir hoje na FNAC, às seis da tarde, onde ele estaria esticando sua visita ao Brasil (ele veio pra Bienal do Rio de Janeiro) numa sessão de assinaturas para promover a versão em português do Book of Dreams.

Eu já estava sabendo que ele vinha para cá fazem uns dois meses, mas só vim a ter certeza do onde e quando duas semanas atrás. Foi quando eu comecei a ter noção do quão não desconhecido meu querido autor era, pois de repente tinha um monte de gente comentando e perguntando se eu estaria lá. Começando a desconfiar de que essa sessão teria muita gente, resolvi chegar na FNAC, que é perto de casa, às quatro e meia da tarde, pra conseguir lugar na frente.

Encontrei a fila já um pouco grandinha, mas nada drástico. Sentei no chão e comecei a esperar, cercado de todo tipo de gente. Muita, muita gente feia, é impressionante, o uglyface.com ia fazer a festa nesta fila. Eu vi duas pessoas com a Death tatuada no corpo, exibindo orgulhosamente as tatuagens numa das poucas ocasiões em que não precisavam explicar quem era aquela garota que eles desenharam no corpo, e talvez fossem até invejados. Muitas meninas, um pouco mais razoáveis, apenas se fantasiaram de Death, vestindo preto e desenhando uma espiral no canto do olho.

Eu particularmente estava cercado de nerds.

Em pouco menos de meia hora a fila cresceu de forma assombrosa. O barulho e a multidão foi aumentando, até que uma mocinha anunciou que o Neil já estava lá e que logo apareceria para ler uma história. Nos ansiosos dez minutos que se seguiram, qualquer palavra em inglês que saía dos alto-falantes fazia o povo todo silenciar imediatamente. O que era até meio engraçado, já que vinham de uma repórter que o estava entrevistando, e não do Mr Gaiman em si.

Pouco depois chegou uma tia lá querendo botar ordem em tudo, dizendo que só ia deixar assinar um livro, que, como ele era muito simpático, era pra falar pouco com ele porque ele não ia interromper a conversa, e que podiam dar as máquinas pra ela mesma quando chegasse a hora, que ela tirava as fotos. Só faltou falar pra fazer fila colocando as mãos nos ombros do coleguinha da frente.

Quando Neil Gaiman entrou, como era de se esperar, todos começaram a aplaudir. Ele imediatamente tomou controle da situação, pediu pro pessoal da frente se sentar no chão para que todos pudessem vê-lo, pediu desculpas por não saber falar português e disse que leria algo rapidinho. Perguntou se nós preferíamos que ele lesse um pedaço do Dream Hunters, que já foi publicado, ou do American Gods, que ainda vai sair. A última opção foi a escolhida quase com unanimidade; ele perguntou se nós sabíamos quem era a Lucille Ball, e, obtendo uma resposta afirmativa, começou a ler um trecho do livro.

Teve muita gente que ficou meio revoltada com o fato de que ele ia ler uma história pro povo, o que sinceramente me surpreendeu. Acho que esta é uma iniciativa muito simpática dele, sem falar que é interessante saber como que o autor lê o texto. É bastante diferente de como eu o leria, por exemplo, tem pedaços que ficam mais irônicos e engraçados do jeito que ele lê. É algo melhor do que o Saramago, por exemplo, que deixou o Raul Cortez ler um trecho de A caverna, quando foi dar autógrafos. Eu preferiria que ele mesmo tivesse lido o livro, nem que fosse só pra sentir o sotaque português. Mas enfim, aqueles que se revoltaram, em sua imensa maioria, ficaram assim porque não entendiam patavine de inglês, e para eles a leitura era apenas um tempo a mais que ia demorar até que a fila começasse a andar. Para esses, tudo que eu posso dizer é que o CNA fica no quarteirão ao lado, move your fat ass and start learning English, idiots.

Terminada a leitura, ele começou a assinar os livros, e a fila começou a andar. Muito. Len. Tamen. Te. Até porque o autor, com toda sua simpatia, conversava com as pessoas, cumprimentava, tirava foto, etc. etc. A tia catou o microfone e ficava dizendo que era pro povo já vir com o livro aberto, pra escrever o nome em letra de forma num papel pra não perder tempo soletrando, pra não gastar todo o filme da máquina no fundo da fila que na frente era melhor pra tirar fotos, e pra esperar a tinta dourada com a qual ele estava assinando os livros de páginas pretas secar antes de fechar os livros. Esse último recado ela fez questão de dizer várias vezes.

Fiquei eu ensaiando o que ia falar pra ele na uma hora que demorou até ser a minha vez. Corajosamente avancei com a minha pilha de livros, apertei a mão dele e disse "Hello!"

"Hello!", ele disse.

"My name is Marcio", disse eu, mostrando o papelzinho. Ele catou a caneta dourada e assinou a capa do CD dele que eu levei.

"I’m the one who asked to publish your text about editors", continuei.

Pequena pausa. Eu olhei pra ele e vi que ele tinha cabelo castanho claro, como assim, nas fotos o cabelo parece preto, o Sandman tem cabelo preto, também, todas as fotos dele são em preto-e-branco, é lógico que parece preto.

"Oh yea", ele disse, assinando o Neverwhere, com dedicatória e tudo mais. "Has it been published already?"

"Not yet, hopefully it’ll be out by the end of July," disse eu, empurrando o Smoke and Mirrors. A tia começou a reclamar que era um livro só. "Please do sign it", eu pedi.

"I can’t, the lady has screamed at me for doing it a couple of times already, I still have six hundred more pages to sign tonight", ele disse, assinando o livro mesmo assim. Daí ele olhou pra mim, eu disse "ok, look to the camera for the photo", e notei que ele tinha olhos verdes, como assim, nas fotos eles pareciam pretos, quando não estão atrás dos óculos escuros, o Sandman nem olhos tem direito, também, todas as fotos dele são em preto-e-branco, é lógico que parecem pretos.

A tia tirou a foto, eu agradeci, e quase indo embora perguntei se ele não estaria indo logo pra Montreal. Ele disse que estaria indo pra Vancouver, Toronto e Winnipeg. Eu agradeci e saí, com os livros na mão. Quando eu parei um pouco depois pra guardar tudo na bolsa, notei que tinha colocado o caderninho do CD entre os dois livros antes da tinta dourada secar e que tinha borrado um pouco. Fui embora antes que a tia visse e dissesse "eu te disse! eu te disse!".

Ele escreveu "Marcio - Mind the gap! Neil Gaiman" no Neverwhere, o que é bastante apropriado, já que grande parte do livro se passa no metrô de Londres. No outro ele só assinou o nome.

Desci a escada rolante do terceiro andar da FNAC e fui acompanhando a fila, que seguia na outra escada rolante até o segundo andar. Até o primeiro. Até o térreo. Enquanto eu olhava os CDs, anunciaram que a loja fecharia em quinze minutos (às oito, e não às dez, como acontece normalmente). Os funcionários, contentes da vida, diziam que isso estava acontecendo para que a fila parasse de crescer. E eu que achava que Neil Gaiman era quase desconhecido no Brasil.

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21 5 2001 0 00 00

 

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Leitura científica:
Ordinarily, expletives appear in front of an emphatically stressed word; Dorothy Parker once replied to a question about why she had not been at the symphony lately by saying "I’ve been too fucking busy and vice-versa."
- Steven Pinker, "The Language Instinct"

Ilusão auditiva

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21 5 2001 0 00 00

 

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É bastante raro que eu fique em Sampa no final-de-semana. Em geral eu volto pra Campinas, na casa de pai e mãe. Mas esse final-de-semana eu resolvi ficar, por conta de um show que eu assisti na sexta à noite, e a festa supresa que o pessoal da minha classe ia dar pro Wagner no sábado.

Durante o sábado eu fiquei tratando de assuntos domésticos como mandar a roupa lavar, descongelar a geladeira e derrubar a torre de louça suja da pia, e depois fui encontrar o Louis e a Amanda na praça Benedito Calixto. Duas horas depois, quando já tínhamos visto tudo o que tinha pra ver na feira, o Zé chegou, e fomos todos para o meu apartamento fazer uma hora até ir pro cinema (ocasião em que meu apartamento foi muitíssimo elogiado, como nunca tinha sido antes). Nesse meio tempo a carona pra festa do Wagner furou, então fomos assistir Snatch, depois fomos pro apê do Louis, enrolamos mais um tempo, saímos pra dançar, dançamos até as cinco da manhã, depois o Zé nos deixou os três na casa do Louis no caminho pra casa dele.

Eu acordei meio-dia e meia, depois de ter dormido sozinho na cama de casal king size do irmão do Louis, que tinha ido passar o fim-de-semana em Campinas. Pouco tempo depois a Amanda e o Louis levantaram. A Amanda, que não tinha chinelo, calçou um tênis do Louis num pé e um sapato social também do Louis no outro. Estávamos os três tomando café da manhã (à uma e meia da tarde) quando a Amanda vira e diz "Sabe, Louis, eu sou uma sapata gelada, mas o seu pênis é muito quentinho."

Eu parei, assim, sem reação, e fiquei olhando pra cara dela, que não entendeu por que eu estava olhando, até que os meus neurônios acordaram e descobriram que o que ela tinha realmente falado era "Sabe, Louis, o seu sapato é gelado, mas o seu tênis é muito quentinho…". Isso que dá ficar na balada até tarde.

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20 5 2001 0 00 00

 

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Você começa a notar que está muito muito viciado em e-mail quando faz praticamente qualquer coisa por quinze minutos de internet - incluindo pagar um cybercafé, onde estou agora…