
Braço branco de criança sob pequena mesa também branca que acompanha a curva do braço, feitos de couro e ferro, acumulando fuligem desde 1993, entitulado Despelamento braço criança: US$ 1000,00.
Bloco de madeira clara e esmalte sintético, com a base pintada, canto superior frontal direito retirado, 88 x 54 x 33 cm, empoeirando desde 1997: US$ 3500,00.
Duas esferas de pele de vaca sobre madeira, medindo 20 x 60 x 30 cm, alimentando traças desde 1991, antende pelo singelo nome de Bagos: US$ 10000,00.
Dezesseis bolas de vários tamanhos utilizadas para vários esportes, desde vôlei até bolinhas de gude, mais duas luvas, tudo alojado numa maleta de madeira com buracos sob medida para cada objeto, medindo 83 x 60 x 10 cm, por alguma razão entitulado To L. C.: US$ 20.000,00.
As risadas que você dá vendo os preços destas obras de arte: não têm preço.
Dia do embate final com a temível Paradigma, eu e a Mari usando nossa criatividade para inventar um relatório, grupos trementes apresentando seminários. Mais um final de semestre padrão.
Agora a Ana Paula inventou de brincar com um trambolhinho muito curioso: minha máquina de escrever.
Há uns dez anos, eu pedi de Natal pra minha mãe uma máquina de escrever, e ela me deu uma Olivetti Lettera portátil verdinha. A máquina vinha com um manualzinho com exercícios ensinando a datilografar com os dez dedos. Eu e o meu irmão fizemos todos pelo menos três vezes. O que veio a ser muito útil na não tão distante época computeira, não nos fazendo passar pela vergonha de catar milho no teclado.
Eu não tenho histórias muito comoventes sobre a maquininha verde, não escrevi meu primeiro conto nela nem nada. Ela veio a ser muito útil nas oportunidades em que era necessário preencher algum formulário a máquina. Nunca precisamos tacar ela na cabeça de ninguém para nos defender.
E ontem a Ana Paula me aparece com a máquina. É engraçado ver ela, que já nasceu toda tecnológica, tentando se virar com a Olivetti. A começar pelo pré-histórico conceito de colocar papel no rolo. Flechinhas para começar a escrever onde quer? Nada disso. Só dá eu "Ó, Ana Paula, se quiser mudar de linha, empurra esse ferrinho aqui, pra voltar na linha é só empurrar o rolo pra direita, se quiser avançar na linha você puxa esse outro ferrinho aqui que ele vai sozinho". Ela fez uma cara de quem entendeu, e puxou o ferrinho pra avançar na linha. O rolo avançou rapidíssimo pra esquerda, nada mais natural para nós, mas a Ana Paula, que não esperava nada tão abrupto assim e não estava segurando o rolo do outro lado, morreu de susto.
Passada essa fase de preparação, ela começa a digitar - e não bater a máquina: demorou muito pra ela se acostumar com o quanto você tem que empurrar as teclas até que elas cheguem no papel. Quando ela pegou o jeito, começou a apertar várias letras, o que fez com que os tipos ficassem enroscados perto do rolo. Eu digo "Ana Paula, tem que apertar só uma letra de cada vez!", e ela "Como assim, só uma??". Ainda achando esse conceito meio bizarro demais, ela fala "Tá bom, então, como é que apaga?". "Não apaga", digo eu. "NÃÃÃO????", ela me responde, assustadíssima. Depois disso ela chegou à conclusão que não valia a pena escrever nada que fizesse sentido naquele monstrinho, e ficou brincando de apertar teclas aleatórias até encher o papel.
O pior foi quando eu fiquei com saudade da maquininha e resolvi escrever um pouco nela. O Anselmo ficou abismado. "O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO??", ele vinha me dizer. "Escrevendo, ué, não posso?", eu respondia. "Mas a máquina??"
Tem gente que nunca teve infância mesmo.
Comprei a revista da MTV só para saber do Acústico do Roberto Carlos, vim pra aula lendo-a no ônibus, e cheguei todo cantante. Daí uma bixete me olha e fala "Você?! Gosta de Roberto Caaarlos?!?", e eu fiquei todo triste, achando que o mundo estava perdido. Mas daí a Ju me disse "Marcio, você também é súdito do Rei?!", a gente se abraçou, nos demos os parabéns mutuamente e o mundo voltou a ter jeito.
Já está na hora do CD do Acústico RC sair, cadê, cadê, cadê?
Os dias passam, sem eu perceber
e nada de me vir inspiração,
uma idéia, alguma situação
besta que eu possa usar para escrever
qualquer coisa. Mesmo tagarelar
é melhor que assistir televisão
ou ficar nessa maldita aflição
de não ter nada novo pra contar.
Fazer o quê, se essa minha rotina
de trabalho tanto me desatina,
não me deixa dormir, por mais que eu teime.
No computador, só dá video game.
Minha vida está chata. Então o jeito
é sentar e escrever mais um soneto.
E esse frio insano? Domingo, calor, segunda, frio. Parece o Orlando, da Virginia Woolf. Daqui a pouco os passarinhos vão congelar em pleno vôo, vão ficar lá, parados, no ar, esperando a próxima mudança brusca de temperatura.
Continuando a saga Sims, fiquei ontem quatro horas tentando instalar o maldito joguinho no computador aqui em São Paulo. O pobre, pra variar, não aguenta o tranco, e o jogo pára na tela inicial. The Powers That Be estão protegendo a minha vida produtiva…
Existem famílias para as quais "festa junina" é sinônimo daqueles eventos que acontecem nos clubes, no qual você paga pra entrar, fica todo anônimo na multidão, brinca em algumas barraquinhas e depois volta pra casa comendo maçã do amor.
Não na minha.
Na minha família, festa junina é sinônimo do evento que acontece todo ano na chacrinha que os tios compraram. É um daqueles eventos que reúnem a família inteira, mais que o Natal até. Todos os oito irmãos do meu pai se encontram, os que não moram em Araraquara levam a família toda pra casa da minha vó, as cunhadas colocam a fofoca em dia, os primos se vêem, os primos menores brincam dias a fio, minha vó vê todo mundo. Pra quem gosta de família é um prato cheio.
A festa junina já acontece há pelo menos dez anos. Começou como um evento só para a família mesmo, o que já garante montes de gente na festa. Mas daí começaram a convidar os amigos de um, amigos do outro. Um ano fizeram até convite impresso, pois a festa era em homenagem ao meu vô. O evento foi crescendo, crescendo, crescendo.
Esse ano resolveram aproveitar o feriado para fazer a festa, de forma que todos os irmãos pudessem vir. O plano original era que fôssemos todos na quinta mesmo, mas a festa ia ser só na sexta, e a minha família resolveu que seria bom descansar em casa um dia antes de se entranhar no ambiente familiar Carlos.
Meu pai é o irmão que toca violão e, conseqüentemente, o responsável por animar as festas. Nós, filhos, nos acostumamos desde pequenos a sermos os primeiros a chegar nas festas e os últimos a sair, o que nos deu a capacidade incrível de sermos capazes de dormir em qualquer canto, de juntar três cadeiras de bar e dormir como se à nossa volta não houvesse cinqüenta pessoas falando alto. Vem bem a calhar isso quando você precisa dormir em avião, ônibus, carro, na frente da porta de casa quando esqueceu a chave…
Esse ano meu pai montou um conjunto, e resolveu levar a bateria na caminhonete, o que não seria um problema se nós não tivéssemos que ir junto na mesma caminhonete. Nos amontoamos como pudemos entre tambores, malas, travesseiros e equipamento de som, e rumamos para Araraquara city na sexta de manhã.
Duas horas depois chegamos em Araraquara e fomos direto para a chacrinha, onde as tias estavam estendendo bandeirinhas, fazendo decoração de papel crepom, preparando as comidas, enquanto a criançada corria de um lado pra outro, ficando mais sujas de terra que tatu. Tudo ao som de modas sertanejas. Minha família não só é típica, como autêntica.
Ficamos lá a tarde toda, e eu usei a já citada habilidade para dormir num quartinho, apesar do calor, do cheiro de cavalo que vinha das selas que lá estavam guardadas e do vai-e-vem das pessoas pegando decorações. Depois fomos pra casa da vó, descarregamos a caminhonete, tomamos banho e voltamos para a chácara.
Como sempre, fomos os primeiros a chegar. Meu pai foi acertando o aparelho de som, os tios foram acender a churrasqueira, e as primas menores conseguiram fazer uma barraca de pescaria. Com uma burocracia impressionante: você entrava numa fila, pegava um papelzinho com a prima, daí ia pra outra, entregava o papelzinho pra mesma prima, e daí podia pescar; quando ganhava o prêmio, a mesma prima o entregava pra você.
As pessoas começaram a chegar. Lá pelas oito da noite os presentes rezaram o terço, colocaram as imagens novas dos santos no mastro e o som começou. Eu comecei a conversar com a Vanessa, uma prima minha, três anos mais nova do que eu, que está fazendo Jornalismo, mora em Uberlândia e só vem ver a família uma vez por ano, na festa junina. A gente conversou por um tempão. Quando eu fui dar atenção pro resto da família, percebi que não conhecia um décimo das pessoas que estavam na festa.
Fui pra churrasqueira, e encontrei meu primo Rodrigo trazendo uns baldes d’água. Tinham montado a churrasqueira (de ferro) em cima de cavaletes de madeira, e agora que ela estava acesa os cavaletes estavam começando a pegar fogo. O Rodrigo estava tentando evitar acidentes, jogando água nos cavaletes para que não fossem queimados.
Fui então falar com as tias organizadoras. O diálogo com todas foi mais ou menos assim:
"Tia, quanta gente tá aqui, hein?", dizia eu.
"Pois é, a festa tá cheia", dizia a tia.
"Pior que eu não conheço quase ninguém aqui!"
"Olha, sabe que nem eu? De onde será que veio tanta gente?"
E este ficou sendo o mistério. A festa estava lotada de gente que, quando trazia alguma coisa, trazia um prato de salgadinho, ficava bebendo as cervejas e ainda reclamava da carne. E nem pra aplaudir o meu pai tocando.
Chegamos à conclusão que os amigos deviam estar convidando os amigos que convidavam os amigos que traziam os amigos, as namoradas e a família da namorada.
Felizmente nenhuma desgraça aconteceu, os bêbados foram todos pacíficos, nenhuma criança perdeu dedos com as bombinhas (apesar de que algumas mereciam) nem caiu na fogueira. O Anselmo ganhou o prêmio Mr. Caipirinha que as primas menores instituíram, e eventualmente os cavaletes pegaram fogo e a churrasqueira caiu no chão.
Eu voltei pra casa da vó cedo, de carona. As tias ficaram até o último convidado (desconhecido, aliás) ir embora, saíram catando as latinhas do chão, daí foram pra casa, acordaram no dia seguinte cedo, voltaram para a chacrinha e limparam tudo. Já resolveram que ano que vem vão dar um jeito de ir menos gente, porque assim não dá. Eu duvido, porque a notícia da festa só tende a espalhar, mas, enfim. Eu só usufruo, não organizo.
Nova mania: The Sims. Muito viciante, esse joguinho. Agora eu fico trocando figurinha com a Mari sobre os nossos sims. Ontem o Anselmo me perguntou "por que você gosta tanto de jogar The Sims?", e eu respondi "Porque SIMS!".
Ai, que fraquinha essa piada…