
Com-arte - Segundo dia do novo semestre, quase todos os alunos no conforto de seu lar, depois de uma decisão coletiva de boicotar o mês de julho porque as aulas só deveriam começar em agosto. Depois de várias manobras envolvendo um Macintosh, o disco virtual da Terra e um PC, eu consigo gravar um CD com os arquivos que eu preciso mandar para a Publifolha a fim de finalmente fazer os fotolitos da revista Artigo Definido, na qual eu trabalhei o semestre passado inteiro.
Metrô - No carro lotado, a caminho da Praça da República, para o meu espanto alguém cede um lugar - que nem era reservado - para uma velhinha de 90 e tantos anos. Quinze minutos depois, ela levanta, abre espaço no vagão dizendo duas palavras, e diz que vai descer na Liberdade. Duvidou de todos à sua volta que diziam que ainda faltavam duas estações, e que a porta pela qual ela teria que sair era a do outro lado. Foi necessário um esforço coletivo dos passageiros para que a velhinha não ficasse mais perdida do que já estava descendo na estação errada.
Publifolha - Eu acostumado com os ambientes decoradíssimos dA Revista e da Zip.Net, entrei na sala da Publifolha e fiquei chocado com aqueles cubículos jogados no meio das salas, sem um nada nas paredes, tudo branco, cinza e vazio. Tive que controlar a minha vontade de perguntar se a mudança estava chegando ou saindo.
Praça da República - Depois de entregar com sucesso os arquivos, fui cumprir minha função de eterno turista e dar uma voltinha no centro. Vi todas as bancas, depois fui tomar um mate gelado com leite. O lugar, além de vender mate e vitaminas com todas as frutas, também vendia sanduíches de "frango com chedeer". Seria limpinho se não se olhasse o chão.
Metrô Clínicas - A poucos metros da saída da escada rolante, tinha um caixotão de madeira de mais ou menos um metro de altura. Quatro cachorros estavam amarrados à sua entrada, latindo para todos que passavam. Atrás deles, um cartaz, escrito com giz num papelão: "TRABALHO COMO EMPREGADA. QUALQUER DINHEIRO. PRECISO COMPRAR COMIDA PARA OS CACHORROS". Fiquei imaginando até quando a mulher ia conseguir morar lá com seus cães.
Surgiu uma questão que não quer calar: como faremos as já tradicionais jogatinas de sábado a noite aqui em casa quando o Danilo voltar? Ou nós arranjamos mais três pessoas para abrir uma nova mesa, ou sacrificamos um dos familiares. Ou nos condenamos a jogar mau-mau pelo resto da vida.
Quatro dias na praia, com fuso horário próprio, acordando tarde, almoçando quase de noite e só fazendo o que gosto. Sem internet. Não fez sol, mas e daí? Deu pra ver como as nuvens de lá são as mesmas daqui. Horas e horas jogando Mario Party 3.
Continuando o assunto sobre simpatias, também estou aceitando uma para arranjar emprego. Ou um emprego mesmo, se alguém que ler isso aqui se comover…
Quinta-feira eu voltei para Campinas, e encontrei a Ana Paula toda empolgada ajudando a Méris a fazer o tradicional bolo de chocolate com morango que a Méris sempre faz no meu aniversário. Fiquei todo contente que a tradição estava sendo mantida, descarreguei as malas e fui cortar o cabelo. Voltei para casa uma hora depois, minha mãe vem correndo e fala "Que bom que você chegou, a gente estava só esperando você!". Entro em casa e encontro as duas secretárias do consultório da minha mãe, o Anselmo e a Ana Paula com a micropoodle dela, a Luana, no colo, todos sentados em volta da mesa. E em cima da mesa, o bolo.
No qual estava escrito "LUANA e Marcio".
Afinal, como se não fosse o suficiente ter sempre dividido meu aniversário com meu irmão gêmeo, agora eu tinha que dividir o bolo com a cã de estimação, que acontece de fazer aniversário dois dias depois de mim! A Ana Paula estava lá toda feliz que iam cantar parabéns para a Luana em "au au au au au au", as secretárias com uma cara de "Olha o que a gente não faz para manter o emprego e comer bolo da Méris", e minha mãe ligando para os meus primos virem participar do aniversário da Luana também. Quando vimos que eles não iam chegar tão cedo, criamos coragem e au-au-au-zamos um parabéns para a Luana. E ainda tiramos foto. Só faltou os chapéuzinhos com elástico debaixo do queixo.
No dia seguinte chamamos Os Primos para almoçarem em casa, pois no dia anterior nós saímos de casa três minutos antes deles chegarem e eles bateram com o nariz na porta, e, pior ainda, ficaram sem comer o bolo da Méris. Vieram tia Celira, Fernando mais a esposa Yara e o filho Adriel, Flávia, Francely com o marido Juninho, e o Filipe. Juntamos todos na copa e realizamos a já rotineira proeza de fazer treze pessoas almoçarem numa mesa feita para oito.
Foi um almoço muito agradável, em que a cada dez minutos todo mundo interrompia os assuntos para reparar e achar lindo o Adriel, que, aos cinco meses de idade, comia diligentemente uma folha de alface com uma cara de sofrimento, sem ter ainda desenvolvido o conceito de que podia parar de comer aquilo no momento que quisesse. Todos estufamos a barriga e conversamos animadamente, e assim pusemos fim na festa do Divino que foi meu aniversário 2001.
Quando se faz intercâmbio se ganha irmãos que não são irmãos mas que são irmãos. Afinal, você morou um ano na casa deles, ou vocês se odeiam ou passam a se gostar. Eu tinha dois host brothers e uma host sister. Já o Danilo caiu numa casa com sete filhos, na qual uma das filhas mais velhas, a Nora, tinha passado um ano no Brasil. Eu infelizmente não vi mais minha host family desde que voltei para cá, há cinco anos, mas nós mantemos contato. Os irmãos do meu irmão volta e meia vêm para o Brasil.
No começo da semana passada minha mãe me ligou dizendo que a Nora e uma amiga dela estavam no Brasil, visitando o Nordeste, e que voltariam para os EUA no domingo, mas que devido às escalas iam ter que matar dez horas no aeroporto, e se eu não podia levá-las para passear em São Paulo. Claro, disse eu.
Fiquei a semana inteira tentando descobrir algo emocionante e tipicamente brasileiro em que levar as duas, sem sucesso. No domingo eu acordei, comprei o jornal e olhei meticulosamente a seção cultural, crente de que numa cidade de dez milhões de habitantes com certeza haveria algo cultural, brasileiro e de graça à tarde. Nada.
Meio-dia a Nora me liga dizendo que estava no aeroporto, eu combinei de encontrá-la na estação Tietê, e fui tomar ônibus, conformado em pelo menos levá-las para a feira da Benedito Calixto. Quando eu passo por lá, vejo que está completamente deserta. Hora de acionar o plano B: feira do MASP.
Um ônibus e um metrô depois, estou eu descendo na Tietê quando a Nora me liga dizendo que tinha perdido o ônibus, o qual de qualquer maneira era caro demais, e que pegaria um outro, muito mais barato, que a deixaria na estação Bresser. Lá fui eu desvendar os mistérios da Linha Vermelha. Felizmente a estação não era muito longe, consegui chegar lá sem problemas, e quinze minutos depois a Nora e sua amiga, Laura, chegaram.
Decidimos que comeríamos algo antes de começar a bater perna. No metrô, a Nora me perguntou dos livros que ela tinha que levar para o Danilo, e eu me dei conta que tinha esquecido eles em casa, o que nos fez mudar os planos para "vamos almoçar perto do apartamento do Marcio!". Nas conversas no metrô eu também descobri que a Laura, provavelmente temendo mazelas tropicais, tinha passado duas semanas no Nordeste comendo só pizza. E duvidando muito da qualidade da água. Nisso, um plano cruel se formou na minha cabeça, e eu disse pra elas que iríamos almoçar num restaurante mineiro, para comer torresmo. "O que é torresmo?", me pergunta a Nora. "É PELE DE PORCO frita! Dilícia!!". A Laura quase caiu para trás com a barbárie da nossa culinária.
Infelizmente o restaurante mineiro estava com uma fila de espera de uma hora, então eu as levei para um outro restaurante, meio chique, que não tinha torresmo mas tinha churrasco. Pelo que elas me agradeceram imensamente, porque não tinham tido uma refeição decente há mais de uma semana. Fiz a Nora experimentar coração de galinha, enquanto a Laura destrinchava cuidadosamente o pedaço de picanha que tinha pegado, para não comer a parte mal passada.
Fomos para o meu apê, onde descansamos depois de tanto andar. Impressionantemente, elas acharam divertidíssimo ficar vendo as minhas coisas, mais do que ir na feira do MASP ou ver os japoneses da Liberdade, meu plano C, tanto que não fizemos nenhum dos dois. Ficamos lá batendo papo.
Às seis pegamos o metrô de volta para a Bresser, experiência emocionantíssima em que a cada baldeação corríamos o risco de deixar a Laura pra trás. A qual, depois de ver um vagão cheio, comentou que não devíamos ficar pegando no corrimão do metrô, porque todo mundo fica passando a mão lá, que nem ela faz com maçanetas. Eu e a Nora ficamos bobos. Mas o pior foi quando, vendo uma campanha do metrô que mostrava um bolso com um escorpião dentro como alegoria para "proteja seu bolso", a Laura me pergunta "What’s that?". "Um escorpião, ué", disse eu. E ela diz "Tá vendo, Nora, eu te disse que tinha escorpião aqui!!!". Eu não resisti. "Laura", eu disse, "olha em volta, aqui não tem nem GRAMA, como é que vai ter escorpião??". Ela não se convenceu.
Mas enfim, deixei as duas no ônibus para o aeroporto, esperei elas subirem e fui embora. A Nora ficou morrendo de vontade de ficar, ela adora o Brasil. A Laura também disse que pode voltar, depois que ela ficou duas semanas sem pegar nenhuma doença.
Mendigos, mendigos, sempre por toda parte. Mas hoje, quando eu resolvi doar meio metro de sanduíche para o primeiro que aparecesse, onde estão? Sumiram todos. Tive que descer metade da Teodoro para conseguir interceptar um atravessando a rua. Pedintes, nunca estão lá quando se precisa deles…
Já fazia duas ou três semanas que eu anunciava que daria uma festinha de aniversário para o pessoal de Sampa na quarta-feira, dia 18. As pessoas fixaram tanto essa data que, no dia 17, fiquei eu esperando alguém me ligar para dar os parabéns e nada, pois todos pensaram que eu fazia aniversário dia 18 e deixaram para me dar os parabéns pessoalmente.
O Anselmo ficou para a festa de aniversário, o resto da família voltou para Campinas. Ficou, teve que ajudar a arrumar o apartamento, e ficar me seguindo enquanto eu ia para o banco depois até a padaria encomendar dois sanduíches de metro. Depois eu o levei para assistir os peitos da Angelina Jolie no Tomb raider.
Um pouco depois que nós voltamos para casa o primeiro convidado, Marcel, chegou, pois esse era dia de rodízio para ele e ou ele chegava muito antes ou muito depois do começo da festa. O que foi muito bom, pois precisávamos de ajuda para abrir espaço para os convidados no micro-apê e buscar os dois metros de sanduíche. O Anselmo depois pagou a estadia indo buscar dez quilos de coca-cola na Pão de Açúcar.
Pontualmente às sete horas Kika e o namorado Tiago chegaram, enquanto eu ainda estava tomando banho. Um pouco depois Miguel chegou. Uma hora depois chegaram Wagner e Sandra, momento em que estrategicamente os convidados foram transferidos da sala para o quarto, onde havia mais espaço. E então vieram Thaís e Vanessa, uma hora depois chegou a Ju e Thaís e Vanessa foram embora, então chegaram a Andréia, a Mariana e Marcel Iha.
Nesse ponto decidimos cantar parabéns, então colocamos as duas velinhas de 2 em cima dos dois bolos Pulman (a verba foi toda para os sanduíches de metro). E então fomos todos para a segunda parte da festa, numa danceteria a dois quarteirões de casa chamada Showbar.
O plano era entrar antes da meia-noite para, com os flyers que eu tinha conseguido, entrar de graça. É claro que enquanto estávamos na fila a Renata me liga dizendo que tinha chegado ela mais Zé e Amanda no meu apartamento, eu falei para ela ir nos encontrar, mas então fizemos a contagem de flyers e vimos que faltava para eles. Então eu voltei, encontrei-os no caminho, peguei msid flyers, fomos para a danceteria, a Renata tropeçou atravessando a rua e quase foi atropelada por um ônibus, tivemos que voltar para o fim da fila e conseguimos entrar lá às 23:58h.
O lugar é bem legal, grande e com vários ambientes, e teoricamente inspirado pelo flme Coyote Ugly. Volta e meia a gente via algumas garrafas voando no outro lado da pista, mas estava tão cheio de gente que dava preguiça de chegar perto do balcão. À uma da manhã ia começar o show dos barmen e barwomen, então nós abrimos caminho até o bar para vermos o espetáculo de perto.
Eu esperava acrobacias com garrafas e copos e umas coreografias decentes. O que vimos foi um monte de popozudas, que com certeza não sabiam a diferença entre gin e vodca, e que subiram no balcão e mostraram que também não sabiam dançar. Quando elas fizeram o mesmo passinho pela vigésima vez, resolvemos voltar para a pista onde estávamos e aproveitar melhor o resto da noite.
Anselmo, O Menor de Idade, tinha entrado com a carteira de motorista que o Marcel tinha emprestado. Chegou a hora de irmos embora, toca a procurar pelo Anselmo, e nada. Depois de muito procurar, localizamos o garoto, todo alegrinho, que, aproveitando-se da sua maioridade temporária, tinha tomado duas cervejas e um "Sex on the hell". E eu, que tinha ido lá porque era de graça e tinha tomado só uma coca-cola, tive que morrer com 26 reais para pagar as empolgações do irmão menor.
É engraçado como aniversário muda conforme passa o tempo. Quando se é menor, mal se pode esperar pelo dia, você fica ansioso, perguntando quanto tempo falta. A Ana Paula está neste estágio, no dia do aniversário é só chegar na porta do quarto dela e falar "Fe…" que ela já acorda e pula da cama, e você não tem jeito a não ser dizer "…liz aniversário, Ana Paula!", apesar de que o que você queria dizer mesmo é "…z a lição de casa, Anselmo?".
Já em compensação, quando se começa a ser gente grande, não se fica mais ansioso assim. Mas, pelo menos para mim, ficou mais importante, é o MEU dia. Tem gente que não gosta de fazer aniversário. Eu adoro. Sigo a linha de uma colega minha de quando eu trabalhava nA Revista, que no dia do aniversário dela saiu abraçando todas as árvores que estavam no caminho dela.
Este ano teve mais uma particularidade: foi o primeiro ano que só eu fiz aniversário. Meu irmão gêmeo, o Danilo, está nos EUA, e pela primeira vez na vida nós não estávamos juntos no dia do nosso aniversário. O que não é tão super assim, depois de 22 anos você se acostuma e até sente falta a fazer aniversário em dupla.
Mãinha tinha resolvido vir para Sampa comemorar o meu aniversário, e me encontrou às três da tarde na USP, de onde fomos para um shopping bater perna e comprar presente para mim e para o Danilo. Depois fomos para o meu apartamento, chegamos junto com o meu pai, e enrolamos um pouco até irmos jantar.
Eu resolvi que queria ir para o Friday’s, porque lá os garçons cantam parabéns para os clientes. Mas disse para Anselmo e mãinha que eles que iam ter que dizer que eu fazia aniversário, porque ficava chato eu dizer isso. Então a gente entrou no restaurante e a mocinha disse "Mesa para quantos?". "Cinco. Ele faz aniversário hoje!!", disseram os dois. "Ah, é? Vocês fizeram reserva?" "Não. Ele faz aniversário hoje!" "Certo. Fumante ou não fumante?" "Não fumante. Ele faz aniversário hoje!" "Tudo bem. Podem ir para o segundo andar." Subimos a escada, uma garçonete nos pergunta "Quantas pessoas?" "Cinco! Ele faz aniversário hoje!" "Me sigam por favor. Podem sentar nessa mesa, vocês já serão atendidos." "Ele faz aniversário hoje!!" Dali a pouco chega um outro garçon. "Oi! Eu vou ser seu garçon." "Ele faz aniversário hoje!!" "Quem?" "Marcio, sai debaixo da mesa e pro moço ver que você faz aniversário hoje!!"
Pegamos o cardápio, meu pai fez uma cara feia com o preço, depois uma pior ainda porque não conseguia encontrar uma caipirinha no cardápio. O Anselmo, todo se sentindo gente grande, pediu um drinque. O garçon perguntou se ele tinha 18 anos, ele disse que não, então o garçon disse que não podia servir, o que fez com que minha mãe pedisse o drinque e o Anselmo pedisse a coca-cola da minha mãe. A Ana Paula pediu um milkshake de banana e jurou que nunca tinha tomado nada mais gostoso.
Minha mãe começou a reparar na decoração do Friday’s, nas roupas dos garçons, e começou a achar tudo lindo, tudo diferente, puxou a máquina fotográfica e começou a tirar foto de tudo. Daí foi a vez do Anselmo ficar com vergonha.
A comida chegou logo, comemos todos até sair pelos olhos, daí pedimos a conta. Esperamos, esperamos, e nada. Quando já íamos pedir a conta de novo, chegam todos os garçons do Friday’s batendo palma e começam a cantar parabéns para mim. Minha mãe achou a coisa mais linda e ficou tirando fotos. Eles me fizeram subir na cadeira e cantaram Macho man. Quando o furdúncio acabou, o menor de idade Anselmo puxou o cartão de crédito e pagou a conta…