
Me peguei num momento "Bridget Jones" ontem. Almocei assistindo um especial da MTV sobre os Backstreet Boys. Quando acabou, fui levar o prato até a cozinha, e quando volto pro corredor me olho no espelho e me pego cantando "All you people, can’t you see, can’t you see, how’s your love affecting our reality…" e imitando a coreografia deles. Parei, me enxerguei, e comecei a rir sozinho. Next: "All by myself" com a escova de cabelo.
Semana passada a professora de Arte Contemporânea perguntou pra todo mundo se tinham lido os textos que ela tinha pedido pra ler, e eu tive que admitir que não tinha. Ela, com a maior cara de mãe decepcionada, "Mas e o COMPROMISSO que você aceitou quando entrou nessa aula?? COMO eu posso te ENSINAR se você não faz a SUA PARTE? PROMETE que vai ler os textos para a PRÓXIMA AULA??". Prometo, prometo. E não li. Tô com tanta vergonha que nem vou pra aula hoje.
Ai que vergonha, a tarde inteira sem fazer quase nada de útil, só na Internê. Pelo menos consegui conversar com manobroda.
"Oi, Fulano? Tudo bem? Você não me conhece, eu sou o Marcio, da USP, estou fazendo uma matéria para uma revista do curso de Editoração, gostaria de marcar uma entrevista com você, isso seria possível?" Eu já falei isso pra tanta gente nas últimas semanas que nem fico mais sem graça. Até o fechamento da edição eu vou acabar conhecendo todo mundo na Abril, desse jeito.
Fui assistir ao show da Marisa Monte ontem. De graça, no Ibirapuera. Sentadinho e confortável. Tinha até um metro quadrado em volta de mim! Que diferente da outra vez.
A primeira vez que eu fui num show da Marisa Monte foi quando o Pão de Açúcar começou a fazer estes shows de graça no Ibirapuera. Foi um dos primeiros, se não o primeiro, com a Marisa Monte e o Carlinhos Brown. Eu e o Louis, ainda vestibulandos, resolvemos aproveitar que o Louis tinha acabado de tirar carteira de motorista, catar o carro do pai dele e ir pra Sampa assistir ao show. Oportunidade barata de fazer um programa legal. Há.
Chegamos lá uns quinze minutos antes do show. Todas as avenidas em volta do Ibirapuera estavam intransitáveis. Flanelinhas por todos os lados. Todas as vagas de verdade já ocupadas. Como já tinha um monte de gente estacionando nos canteiros, cedemos à pressão de um flanelinha que estava "organizando" um estacionamento num dos canteiros maiores e estacionamos lá. E tivemos que deixar dez paus adiantados.
Seguimos o formigueiro até a Praça da Paz, no Ibirapuera, avançamos o quanto conseguimos no meio da multidão, e assistimos ao show morrendo de calor, apinhados no meio de milhares de pessoas. O show foi bom, o Carlinhos Brown levantava o povo, a Marisa acalmava com uma musiquinha. Saímos dali umas três horas depois de termos chegado. Chegando no canteiro, encontramos o nosso carro e os de todos os outros otários que tinham parado lá e pagado dez paus adiantados devidamente multados por estacionamento em local proibido.
Desta vez, todos os jornais noticiaram um evento ecumênico pró-paz que aconteceu de manhã, com 8 mil pessoas, e esqueceram de falar das 200 mil que apareceram à tarde para assistir ao show.
Fomos eu, Pri, Dani e Léo. Sim, os flanelinhas continuavam lá. Um até se jogou na frente do carro da Pri, agarrou a janela, mas nós o ignoramos e paramos num pseudo-estacionamento com um segurança de crachá, onde se pagava cinco reais, na volta. No caminho até a Praça da Paz, o Léo e a Pri acionaram seus contatos, e eventualmente conseguiram fazer nós quatro entrarmos na área VIP do show. Recebemos os crachazinhos, ignoramos a comida grátis que estavam oferecendo, e confortavelmente sentamos numas cadeiras de plástico próximas ao palco. Enquanto isso, cinco metros atrás da gente, 200 mil pessoas se esmagavam para ficar mais perto do show. Cada vez que eu pensava nisso, eu esticava as pernas.
A Marisa estava passando o som quando nós chegamos. Meia hora depois dela ter saído do palco, os Meninos do Morumbi foram fazer uma apresentação de percussão e dança. Como acontece com qualquer um que faz uma apresentação abrindo um show, seu principal problema era que ninguém lá queria vê-los, queriam mais que acabassem logo para que o show de verdade começasse. O que só aconteceu às quinze para as seis, pontualmente quarenta e cinco minutos atrasado.
O show foi muito bom, na minha opinião. Mas eu sou um daqueles que sinceramente gosta muito do último disco da Marisa, Memórias, crônicas e declarações de amor. A maioria das músicas do show veio daí. Ela começou com Amor, I love you, emendou com Eu te amo, eu te amo, eu te amo, do Roberto Carlos e continuou com Arrepio. E o povo da platéia gritando "Beeem que se quiiiiiiss!!!".
Sem precisar me preocupar com a minha integridade física devido à minha posição privilegiada, eu conseguia admirar a cenografia do show e todo o trabalho de iluminação e projeções durante o show (detalhe irrelevante para quem se esforça para conseguir ver ou o telão ou o pontinho cantando ao longe). E ficava pensando como é interessante que em shows brasileiros sempre tem um baterista e um percussionista, quando não mais de um. Isso não acontece nos shows internacionais. No caso do show da Marisa, havia três. Já no meio do show ela cantou algumas músicas mais populares, Magamalabares e Beija eu. E o povo da platéia bradava: "Beeem que se quiiiiiiss!!".
Impávida em sua presença de palco, dona Monte cantou (conforme explicou depois) uma música de 1908 com letra de 1918, cantada originalmente por Vicente Celestino. A essa se seguiu uma das músicas religiosas do Roberto Carlos, "pela paz", que não era nem Jesus Cristo nem Ave Maria; ela não disse o nome e meu conhecimento do Rei não chega a tanto. Por fim, Não vá embora. E a platéia se esgoelando: "BEEEM QUE SE QUIIIISS!!".
Depois do suspense besta que sempre tem em todo show, ela voltou para o bis, repetiu Eu te amo… do RC, a música das sereias de seu primeiro disco, e Não vá embora. E saiu. A platéia arrancava os cabelos: "BEEEEEEEMM QUEEEE SEEEE QUIIIIIISSS!!!".
Volta a tia Marisa de novo, com sua câmera digital, pede permissão para tirar fotos da platéia (como se alguém fosse impedir), e, finalmente, a capella, canta Bem que se quis com a platéia. Encerrou muito bem o show.
Não teve como escapar do povão na hora de ir embora. Saímos os quatro cantando músicas da Marisa, como todo mundo. E ainda não fomos multados por estacionamento indevido. Ê beleza.
"Oi, Fulano? Tudo bem? Você não me conhece, eu sou o Marcio, da USP, estou fazendo uma matéria para uma revista do curso de Editoração, gostaria de marcar uma entrevista com você, isso seria possível?" Eu já falei isso pra tanta gente nas últimas semanas que nem fico mais sem graça. Até o fechamento da edição eu vou acabar conhecendo todo mundo na Abril, desse jeito.
Hoje o Teco morreu, tadinho.
Eu nunca tive bichinho de estimação. Minha mãe dizia que não gostava de bicho. E olha que teve vezes que eu e o Danilo pedimos. Tá certo que a gente também passou um tempão morando em apartamento.
Na verdade, quando a gente morou no apartamento a gente teve o Nicolau. O Nicolau foi um pintinho que a gente ganhou numa festa de aniversário (que tipo de pai espírito de porco sai dando pintinhos de lembrança de aniversário, só deus sabe) e trouxe pra casa, numa noite de inverno. Todos muito felizes, fomos dormir e deixamos o Nicolau numa caixa no lavabo. Uma hora depois ele começou a piar. Eu virei pro lado e dormi. Minha mãe levantou pra esquentar o Nicolau, que estava piando de frio. Ficou ela nessa situação ridícula de ficar esquentando o pintinho no lavabo. No dia seguinte eu acordei e a minha mãe disse que tinha mandado o Nicolau pra uma granja, encontrar a mãe dele. Só anos depois que eu descobri que o Nicolau tinha ido encontrar a mãe dele na granja do céu, que tinha morrido de frio apesar dos esforços da minha mãe, e que estava no saco de lixo o tempo todo.
Também teve uns peixinhos que a gente ganhou numa pizzaria. Pusemos eles dentro de um galão de pinga cheio d’água, no qual colocamos umas plantinhas dentro, e colocamos o galão em cima da geladeira. Só nos lembramos dos coitados meses depois. Qual não foi a nossa surpresa ao descobrir que naquela água verde ainda restava uns dois peixes vivos?
Depois que a gente se mudou pra casa e passou a ter quintal, um dia uma amiga da minha mãe deu pro Anselmo uma cadelinha de aniversário, misto de collie com vira-lata. Já que a desgraça já estava feita, minha mãe não teve como aplicar o método anticanino que vinha funcionando tão bem comigo e com o Danilo. A cã se chamou Biba, e durou até quando a minha mãe engravidou da Ana Paula, e resolveu usar a explicação de que bebê não podia conviver com pelo de cachorro pra se livrar dela.
Anos depois, a gente descolou o Toquinho. O Toquinho é o fruto de incesto (sua mãe era sua avó, já que fez cachorrinhos com o próprio filho) que o Louis nos deu. Vivia sozinho no quintal, tadinho, e os parafusos soltos causados pela sua paternidade escandalosa não ajudava muito. Ele ficava pulando na porta de vidro da copa cada vez que nos via passar, querendo ficar com a gente. E como latia, coitado. Tanto que, quando o Tio Maluquinho veio passar seus meses dormindo aqui em casa, ele se incomodou com o cão, e, quando ia almoçar, passou a deixá-lo solto na calçada na frente de casa. "Ele não foge mesmo", dizia o Tio Maluquinho. Até o dia em que ele foi buscar o Toquinho na calçada, e Toquinho não tem. Não sabemos até hoje exatamente o que aconteceu.
Como a minha mãe foi ficando boba com o passar dos filhos, ela mesma resolveu suprir a Ana Paula de bichos de estimação. Primeiro veio nossa tartaruga, a Olívia. Depois mãinha resolveu dar uma cã pra Ana Paula no aniversário dela. A gente foi até a puta que o pariu buscá-la (entrada 55 da Superficie), uma filhote de beagle legítima que foi batizada Lady pela Ana Paula. Ela cresceu, cresceu, cresceu. Quando a gente reformou a casa pela enésima vez, ficamos sem quintal, e a mandamos para a casa da Vó Maria, onde ela está até hoje.
Para compensar a perda, minha mãe arranjou uma poodle toy preta "que nem a do doutor Interlandi", a Milli. Durou exatamente três semanas. Ela foi ficando cada vez mais quieta, até que bateu as quatro botas, vítima de alguma doença que ela pegou no canil onde nasceu mesmo. Minha mãe foi lá reclamar, e recebeu uma outra de indenização, de pêlo creme, que hoje atende pelo nome de Luana, ou Lulu.
Nossa última aquisição foi o Teco, um passarinho. Ele chegou com sua gaiola aqui em casa faz umas três semanas. Ficava lá na sua vida besta de pular de um poleirinho para outro.
Hoje eu cheguei, tirei a gaiola dele de cima da máquina de lavar roupa, coloquei-a no chão e comecei a lavar minhas roupas. A Lulu chegou, começou a cheirar a gaiola, o pássaro ficou todo aflito, batendo as asas, morrendo de medo, e eu pensando "Que bobo, está com medo da Lulu, tão boba ela!". E fui cuidar da vida.
À noite, estávamos eu, mãinha, pai e Anselmo jogando baralho, quando a Ana Paula chega e pergunta "Cadê o Teco?". "Lá na área de serviço, Ana Paula!", dizemos. Ela vai, volta e diz que não achou. A gente manda ela procurar de novo, você viu a gaiola dele no chão? Ela vai e volta com uma peninha dele na mão, dizendo que não encontrou Teco. O Anselmo levanta, vai até lá, encontra a gaiola vazia, um monte de peninhas espalhadas, e faz o prognóstico inevitável:
"A Lulu comeu o Teco!"
Olhamos debaixo da pia da cozinha, e encontramos uns pedaços de Teco. Quem poderia pensar que por trás daqueles vinte centímetros de comprimento e dos lacinhos cor-de-rosa se escondia uma assassina.
Como se já não bastasse toda essa desgraça pelada, eu ainda tenho que ficar aguentando gente me mandando e/ou comentando como Nostradamus tinha previsto isso tudo. Podiam todos supositar estas previsões.
PAI: E esse negócio do World Trade Center hoje hein?
EU: Puta, foda. Nem fala, fiquei todo deprimido ontem.
PAI: Quem poderia imaginar…
EU: Tem louco pra tudo.
PAI: Pois é.
EU: E o Danilo tá na maior calma lá, não tá nem aí. Se fosse eu pegava o primeiro avião de volta.
PAI: O impressionante é a maldade e a crueldade do negócio mesmo. Pegar um avião cheio de gente, pra jogar num prédio cheio de gente.
EU: Quando me falaram que tinha batido um avião no World Trade Center, eu pensei que tinha sido azar puro. Depois foram falando que tinha batido outro, e que ia cair o prédio…
PAI: Nem em filme podiam imaginar isso.
EU: Foi todo mundo da ECA pra uma salinha ver tudo acontecendo ao vivo.
PAI: Mas tá meio mal-explicada essa história. Não é possível que um cara com um cursinho de piloto consiga acertar a rota e tudo mais pra poder acertar o prédio.
EU: Ah, não sei, pra se matar não deve precisar muita perícia.
PAI: Mas não é possível! Com certeza não é simples assim controlar um Boeing.
EU: O pior foram os bombeiros, que estavam subindo no prédio quando ele caiu… Quando você vê pela televisão você nem tem noção de que tem montes de gente lá dentro.
PAI: Eles jamais imaginavam que o prédio fosse cair.
EU: Eu não aguento mais eles mostrando as cenas da colisão na TV, já mostraram umas quinhentas vezes.
PAI: São cenas muito impressionantes.
EU: Bem que podiam não fazer guerra em cima disso. Já basta o que morreu de gente lá mesmo.
PAI: É. Mas vão.