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Posts arquivados em Outubro 2001

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31 10 2001 0 00 00

 

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Se você estiver tristinho hoje, lembre-se que podia ser bem pior: você poderia ter um monte de crianças batendo na sua porta e pedindo doces a noite inteira hoje! Que bom ser brasileiro, onde em vez de comemorações bestas tipo Halloween, temos feriados de verdade a cada quinze dias até o fim do ano!

Pinçado do cotidiano

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26 10 2001 0 00 00

 

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De manhã: Cheguei na faculdade carregando o gabinete do meu fiel computador debaixo de braço, e chamei mais atenção do que achava ser possível. Parece que ninguém nunca viu alguém levando um computador pra baixo e pra cima. Os mais bonzinhos perguntavam se eu estava doando o computador para a Com-Arte, os mais malandros perguntavam se ninguém ia acabar roubando o micro, os maldosos de verdade não diziam nada e bolavam planos secretos.

Hora do almoço: Desço do fretado em Campinas, perto de casa, ainda carregando o fiel computador. Almoçando, descubro que a Olívia, nossa tartaruga, sumiu! Ninguém sabia onde foi parar a coitada. Mais uma história trágica de bichos de estimação lá em casa. Espero sinceramente que ela esteja num comercial de cerveja.

À tarde: Levo o micro pro lugar onde eu o comprei, e eles consertam a cagada que eu fiz quando o formatei, instalando todos os drivers. Meu computador, que só estava com 16 cores no monitor, volta a ter os milhões de praxe. Agora ele poderia voltar a executar sua principal função, a de rodar jogos.

Mais tarde: Pego a fita onde a Ana Paula está gravando os episódios do Sítio do Pica-pau Amarelo e assisto todos os episódios da semana. Estou virando o fã número 1 da Cuca, ela é a minha heroína. Desde o banho de poluição que ela tomou na segunda até seu momento poético na quinta, quando transformou a Narizinho em pedra: "No meio do sítio havia uma pedra, havia uma pedra no meio do sítio! Bwah-ah-ah-aha-ha-ha!!".

À noite: O Danilo liga lá em casa dos States. A gente está aqui fazendo contagem regressiva para a volta dele, que vai acontecer no próximo domingo. Ele me contou do show da Tori Amos que ele assistiu, para me deixar com inveja, e contou que foi numa exposição sobre o John Lennon, atendeu o telefone branco que estava tocando e conversou com a Yoko Ono!

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25 10 2001 0 00 00

 

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Comessei a escrever os testos pra próssima Artigo Definido, e vóuta e meia eu me pego escrevendo "ceja" e outras barbaridades acim. Talvês eu esteja ficando dislequissico. Agora eu cei como o Lui sessente.

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25 10 2001 0 00 00

 

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O Windows XP saiu hoje, como anunciou um balãozinho atravessando o rio Pinheiros. E o mundo é um lugar um pouquinho pior por causa disso.

Proteínas místicas

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25 10 2001 0 00 00

 

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Nos áureos tempos em que eu trabalhava nA Revista, eu e o Danilo, que estava nos EUA, conversávamos todos os dias pelo ICQ. Soltávamos montes de abóboras interessantes. Agora que ele está prestes a voltar, eu estava lendo o histórico das nossas conversas, e pincei umas interessantes:

Ares 23/02/01 17:00 O que você vai fazer além do mapa de RH?

Danilo 23/02/01 17:01 Nao sei, eu estou pensando em analise de microarray, que eh muito mais legal…

Ares 23/02/01 17:01 E que seria…?

Danilo 23/02/01 17:01 Tah preparado para outra sessao de "Conheca a Tecnocracia por dentro?"

Ares 23/02/01 17:02 Nunca se está preparado pra estes momentos de Iluminação do Mal, mas manda ver…

Danilo 23/02/01 17:05 Eles montam umas plaquinhas de vidro com milhares de pocinhas de DNA (muitas vezes eles nem sabem o que estes DNAs fazem…) diferentes, e depois eles fazem PCR (que eh uma tecnica que multiplica DNA exponencialmente) usando bases marcadas com moleculas fluorescentes. O PCR eh feito a partir do tecido do animal que voce esta estudando, e se o tecido tem mais ou menos daqueles milhares de DNAs do inicio, ele vai formar pocinhas mais ou menos brilhantes. Comigo so far?

Ares 23/02/01 17:07 Não, mas tudo bem… go on.

Danilo 23/02/01 17:08 Eles fazem isto para duas situacoes (animal doente e sadio, por exemplo) e depois leem as duas plaquinhas. Cada situacao eh colorida com um marcador fluorescente de cor diferente, assim quando os computadores leem as plaquinhas e formam uma imagem da sobreposicao das duas plaquinhas, uma DNA que so estava presente na situacao 1 vai brilhar com a cor 1, um DNA que so estava presente na situacao 2 vai brilhar com a cor 2, um DNA que nao estiver em nenhum vai ficar preto e o que estiver nas duas situacoes vai ficar com a mistura das cores 1 e 2. Depois eles pegam estas matrizes de bolinhas coloridas e tiram altas conclusoes ou pistas para orientar quais DNAs eles vao estudar entre os milhares. Eh meio que uma maneira de selecionar quais sao os DNAs mais importantes para o seu estudo…

Ares 23/02/01 17:10 Hmmm…. e que proveito místico para o bem da humanidade se tira disso?

Danilo 23/02/01 17:14 Por exemplo, eu quero saber por que certas pessoas respondem muito bem a medicamento X enquanto outras nao. Dai, usando isto, eu descubro que grande parte das pessoas que respondem bem tem um conjunto de DNAs que as outras nao tem (nas pocinhas daqueles DNAs so a cor do grupo que responde brilhou). Estudando o que estes DNAs produzem, eu posso descobrir uma maneira de fazer as pessoas que nao respondem ao remedio respondam. Pode ser que nao tenha nada a ver, mas pode ser que tenha.

Ares 23/02/01 17:15 DNA serve basicamente pra fazer proteína, não é?

Danilo 23/02/01 17:15 Eh. Basicamente.

Ares 23/02/01 17:16 Proteína tem poder, hein? Mais que sangue de cristo!

Danilo 23/02/01 17:17 Voce nao imagina o quanto proteina eh mistica!

Ares 23/02/01 17:18 Acho que a gente devia criar o culto da proteína. Milhões de pessoas ajoelhadas na frente de um bife…

.o0o.

Danilo 07/03/01 16:43 Uh-huh! Vou comecar tudo de novo! Yay!

Ares 07/03/01 16:43 A mor de que?

Danilo 07/03/01 16:44 A mor de que eu tenho que dar um peso estatistico decente para os meus mapas, o que nao estava acontecendo. Yiiiipeee!!

Ares 07/03/01 16:47 Você já tá aí faz cinco meses e não fez nada útil! Weeeeee!!!!

Danilo 07/03/01 16:47 Whooooooooopiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

Ares 07/03/01 16:49 Será que até você ir embora você vai conseguir fazer algo decente?

Danilo 07/03/01 16:50 EU VOU!!! Fora que eu demorei este tempo todo porque os chineses sao uns incompetentes!

Ares 07/03/01 16:52 Bem, eu vou rezar pras minhas proteínas, você reza pras suas, quem sabe assim a Proteína Mãe de Todas ouve nóis.

Danilo 07/03/01 16:52 Quando o abismo parece muito grande, sempre surge uma ponte de sulfeto para te ajudar.

Danilo 07/03/01 16:53 Ou uma ponte de hidrogenio…

Ares 07/03/01 16:53 Meu deus, imagina o que vão pensar quando publicarem nossas conversas??

Danilo 07/03/01 16:54 Que a gente eh muito criativo, ue.

Danilo 07/03/01 16:55 Fora que voce vai ser o editor, entao voce pode editar as nossas conversas para a posteridade.

Ares 07/03/01 16:58 É verdade. Mas vou deixar uns pedacinhos pra criar polêmica e vender mais.

Danilo 07/03/01 16:59 Sabia que eu conversei com Ogum ontem e ela me entregou 15 mandamentos novos para eu guiar o povo atraves do oceano Atlantico?

Ares 07/03/01 17:00 Como?? Explica do começo, evidenciando o nível de ironia.

Danilo 07/03/01 17:01 eu so estou criando umas conversas polemicas para ficarem registradas para a posteridade…

Ares 07/03/01 17:01 Ah, ótimo, então quais são? (eu vou cortar as duas frases anteriores).

Danilo 07/03/01 17:02 O mundo nao tem axeh suficiente ainda para esta imensa revelacao, vou ter que esperar ate o 4o. ciclo de mercurio.

Ares 07/03/01 17:03 Bem, considerando que já estamos na era de aquário…

Danilo 07/03/01 17:03 Aquaaaaaariiiiiuuuuuuuuuussss!!!!

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22 10 2001 0 00 00

 

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Há duas semanas a Veja espalhou um outdoor onde se lia "Fundamentalistas: quem são e o que pensam. Porque o que fazem você já sabe". Esta semana, na seção de cartas, pediu desculpas a seus leitores por ter feito um outdoor de mau gosto, na semana passada, no qual pedia que Osama Bin Laden fosse técnico da seleção porque prometia fazer ataques. Aparentemente, não há problema em espalhar mensagens intolerantes (nazistas?) pela cidade, mas mexer com a seleção é muito, muito feio.

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21 10 2001 0 00 00

 

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Depois de quase nove meses e compras e compras e mais compras, hoje eu finalmente ganhei mais um brinde com o meu cartão Pão de Açúcar Mais: um bonequinho de borracha do Taz, que nem aqueles que você dá para bebê morder. Consumidor é um bicho besta mesmo.

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17 10 2001 0 00 00

 

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A melhor frase da TPM desse mês está na entrevista com a universitária que resolveu ser atriz pornô, sobre quando faz sexo anal: "Com xilocaína eu pulo, sento e rodo. Amortece tudo".
    Hmmm. As revistas femininas estão começando a virar assunto recorrente. Preciso começar a obcecar com outra coisa.

Teste imunoenzimático

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17 10 2001 0 00 00

 

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Você não sabe a coragem que precisa para fazer certas coisas até que você resolve fazê-las. Teste de HIV, por exemplo.

Eu nunca transei sem camisinha, nunca tomei drogas (eu nem tomo café, menos ainda drogas…) nem tive transfusões de sangue. Mas enfim, achei que tava na hora de ver se o fator shit happens não tinha acontecido, e passar a ter a tranquilidade de saber que estava tudo nos conformes.

Mas entre resolver que deve fazer e fazer mesmo tem um GRANDE passo. Bate aquele medo irracional (e natural) do teste dar positivo, por mais impossível que seja. Dá medo de fazer. Afinal, se você não fizer não vai receber notícias desagradáveis, não é mesmo? Parece que fazer o teste é que vai te deixar com AIDS, e não trepar mais que macaco em zoológico sem as devidas precauções.

Cheguei pra mim mesmo um dia e falei "Marcio, larga mão de ser BUNDA MOLE!!". Tomei banho e fui para o posto de saúde mais próximo. Cheguei lá onze e meia da manhã, e perguntei onde é que fazia teste de HIV. A moça me disse que eu teria que assistir a uma palestra sobre DSTs, e a próxima era só à uma da tarde. Então estiquei até a casa da Thaís, que era perto, coloquei a fofoca em dia, e meio-dia e meia voltei para o posto, com as pernas meio bambas.

Falei que queria fazer o teste de novo, e a moça me deu um formulário para responder. Sentei perto de duas meninas que também estavam preenchendo o formulário e comecei a responder. No fim estava "Esta é a primeira vez que você faz exame?". Sim, coloquei. Abaixo estava "Se não é, por que você está fazendo de novo? A) Teve relações sexuais sem preservativo B) Compartilhou seringas" e mais algumas opções. Eu fiquei lá pensando em como tem que ser besta para se fazer passar por isso mais de uma vez, só da primeira eu já estava achando o suficiente para o resto da vida. Então eu espiei as minas ao lado, e a que estava lá para fazer o teste (a outra só estava acompanhando) estava marcando uns dois ou três quadradinhos na parte dos reincidentes…

Perto da uma chegou um pessoal de uma comunidade próxima, todos com um jeito meio ignorante e bastante velhos, alguns com uns dentes faltando na boca. Entraram na salinha da palestra, um deles começou a distribuir folhas de caderno para que todos anotassem a "aula", e o médico entrou.

A minha paciência para assistir aquela palestra era mínima, já que tudo que o doutor estava falando ali eu já sabia de trás para frente. Eu só queria que acabasse logo para eu poder fazer o teste de uma vez. Mas eu vi que é algo necessário mesmo. O povo não sabe nada. Quando o doutor perguntou, por exemplo, quais eram as DSTs, começaram falando o óbvio, "AIDS!", "Sífilis!", e, pouco depois, "Câncer!", o que foi desmentido pelo médico. Aí levanta uma outra senhora e pergunta "Doutor, hemorróida passa assim?". Não, não, disse ele. E foi, foi, foi, explica, mostra, aconselha. Chegou uma hora que ele disse "Por isso, para evitar pegar doenças, vocês têm que diminuir o número de parceiros! Não fiquem aí saindo com todo mundo!", ao que a acompanhante deu uma sutil cotovelada na amiga como quem diz "Tá vendo?", e as duas começaram a ter ataque de riso. Eu, que não tinha feito nada de errado, muito mais preocupado que a mina, que provavelmente tinha dado mais que chuchu na cerca.

Finalmente a palestra acabou, e um tempinho depois me chamaram para fazer a coleta. Estendi o braço, fiquei valente e deixei a enfermeira me furar. Ela encheu três frasquinhos com o meu sangue, colou adesivos neles e me mostrou. Neles estava escrito meu nome, minha data de nascimento, e meu número de identificação, blablablablabla-seis. Depois de fazer entrevista, recebi meu cartãozinho do posto de saúde, e fui pra casa esperar duas semanas.

Já estava na rua quando resolvi ver o meu cartãozinho. Olhei o número e vi que estava blablablablabla-cinco. Eu quase entrei em parafuso, voltei correndo para o posto, e fui falar com a enfermeira. Ela fez meio que uma cara de "ai, saco", fechou a porta, e foi encontrar meus frasquinhos, onde realmente meu número estava errado. Ela corrigiu na hora, e me mandou ir com deus.

Hoje eu fui buscar o resultado. Fui o caminho todo ensaiando a reclamação que eu faria para seja quem for que me atendesse e me desse o resultado. Cheguei lá, tinha uma médica, que pegou minha carteirinha, encontrou o exame e me levou pra uma salinha. Depois de fechar a porta, abriu o resultado, confirmou se o meu nome e minha data de nascimento eram aquilo mesmo, e disse que estava tudo bem, estava tudo negativo, não-reagente, limpinho da silva. Para HIV, sífilis e hepatite B e C. Me baixou uma alegria que eu nem me preocupei mais com a reclamação, eu só sabia agradecer e agradecer. Fui para a faculdade todo feliz e contente, pulando e cantando.

Esse é o fato interessante de se fazer testes sem necessidade: você se preocupa à toa, mas fica alegre sem motivo também quando tudo dá certo, como deveria dar.

Velhice

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10 10 2001 0 00 00

 

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Eu conheci uma bisavó só, a vó Iracema, e não muito. O que eu me lembro dela é das vezes no final de ano em que a família da minha mãe se juntava na casa da bisavó para os bisnetos todos ganharem as surpresas que a Tia Cely (filha da vó Iracema) preparava. A vó Iracema ficava sentada numa poltrona no meio do corredor o tempo todo, não falava muito, e nas vezes que a gente ia lá cumprimentar ela ela não fazia a menor noção de quem a gente era. Ela deve ter sido muito legal, porque minha mãe adorava ela (e ainda adora, na verdade). O banheiro da casa dela era cheio de corrimões e banquinhos. Eu nem lembro direito que idade eu tinha quando ela morreu.

Hoje foi o casamento do meu primo de segundo grau, o Ciro, e todo um lado da família da minha mãe se reuniu de novo para comemorar. A cerimônia foi muito bonita, numa capela barroca em que não cabia todo mundo, e depois teve a festa num salão que não tinha mesa direito para todos. A festa cheia de tias-avós cujo nome eu nunca aprendi direito e cuja relação entre si ainda é algo meio emaranhado para mim. E os primos distantes todos assustados de como nós todos crescemos, não é mesmo?

No fim da festa, depois que mãinha e pai voltaram pra Campinas, eu fiquei lá para pegar carona até meu apê com um dos primos. Enquanto esperava, interceptei uma conversa da Tia Zilda, avó do noivo, com um dos primos da minha mãe. Ela já tem 91 anos, e está num estágio em que não registra mais de cinco minutos de conversa, o que proporciona interessantes conversas em espirais como a que ela teve comigo:

"O Celso devia fazer que nem eu, ia me agradecer muito! Sabe o que eu fiz? Parei de jantar. Agora eu só como na janta o que eu como no café da manhã: um leite, um pão com manteiga… Você vai dormir muito mais leve, não sente mais aquele peso quando se deita. O João Alfredo também agora não janta, sabe por que? Porque eu não faço mais janta! Já faz um tempo que eu só como de noite o que eu como de manhã. Nada muito pesado, um café, um leite, um pão com manteiga. É por isso que eu estou com 91 anos e estou me sentindo muito bem, tem gente com a minha idade e que fica devagar, se sentindo pesado… Eu não. Parei de jantar e agora eu vou dormir muito mais leve, sem aquele peso de ter que digerir carne, arroz, feijão, batata. Sabe por quê? Porque eu parei de jantar. Melhor coisa que eu já fiz. Já faz uns dois anos. Eu parei de comer, mas também não precisa passar fome, pode comer aquilo que você come no café da manhã: um leite, um café, um pão com manteiga…"

E assim ia. Teve uma hora que eu tentei mudar de assunto, perguntei para ela se ela continuava pintando.

"Ah, continuo, tanto que eu dei de presente para os noivos um dos meus quadros, era de um… que que era mesmo? Não lembro. Mas eles gostaram muito. E eu continuo pintando, é algo que eu gosto muito mesmo. Eu sento lá e esqueço da vida… Às vezes eu começo a pintar e esqueço até de comer! E olha que eu parei de jantar. Parei. Agora eu só como de noite o que eu como no café da manhã: pão, leite, café…"

Já faz um tempo que eu tenho um projeto de entrevistar minhas avós, que devem ter um monte de história para contar sobre a vida delas e dos meus tios (e pai e mãe). Tinha que criar vergonha e fazer logo.

Enquanto isso, eu continuo firme e forte no meu projeto de viver 120 anos.