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Posts arquivados em Junho 2002

A final, afinal

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30 6 2002 0 00 00

 

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Cumprindo minha obrigação patriótica, acordei cedo no dia 30 de junho para assistir à final da Copa do Mundo. Não que eu teria muita opção, já que estava na casa da Vómaria, para onde todos os tios e primos presentes em Araraquara City iriam assistir ao jogo juntos.

Afastei o sono com um bocejo. Na noite anterior havíamos todos ido à chácara da família, agora não mais uma propriedade coletiva de alguns tios, mas sim devidamente retalhada, um pedaço para cada um. Ao contrário da festa do caqui que foi a festa junina no ano passado, esse ano resolveram fazer uma comemoração superintimista, só família próxima e mesmo assim faltando alguns. Eu fui a caráter, de camisa xadrez, macacão, bigodinho de pincel de sobrancelha feito por mãinha e chapéu de palha emprestado da tia Ly. Ficamos cantando, comendo e jogando baralho até uma da manhã, quando eu já estava quase encostando numa parede para dormir. Mais uma noite de pouco sono não fez nada para diminuir minhas olheiras, mas, como já disse, não havia muita opção, não conseguiria dormir nem que quisesse.

Na hora de cantar o Hino Nacional reuniam-se na sala de Vómaria a própria, cinco tios, três tias, oito primos e três cãs. É uma pena que a gente não consiga nos reunir todos mais vezes. Não havia lugar para todos, cada um se esparramava como podia, em volta da televisão, para assistir aos jogadores e ouvir o Galvão Bueno.

Até que estavam todos comportados nessa manhã. Já vi jogos do Corínthians bem piores, em que tios e sobrinhos xingavam todas as gerações dos jogadores, juízes e técnicos, aos berros, gritavam instruções via satélite e discutiam entre si qual seria a solução salvadora. Dessa vez, reações mais fortes, apenas quando a bola passava perto do gol ou batia na trave, quando Painho batia no chão com o chinelo, todo mundo falava "aaaahn", as cãs latiam e as crianças riam à beça com o forfé que presenciavam. Mãinha, menos resistente aos poderes de Morfeus que eu, dormia com a cabeça encostada no Danilo, alheia a tudo. Painho tentava fazer o Anselmo segurar o jogo com ele, mas daí se dava conta de que o desnaturado tinha ficado em Campinas.

Finalmente fizeram os dois gols, devidamente comemorados aos pulos até por Vómaria. Depois foi só aguardar a hora do pódio, todos felizes em ver a alegria dos jogadores no Japão, todo mundo com um sorriso na cara, momento muito bonito mesmo.

Quando ia à rua na hora dos outros jogos, além do trânsito bem mais amigável, eu achava impressionante e até comovente como onde quer que houvesse um televisor havia três ou quatro pessoas assistindo à seleção brasileira. Depois da final, em Araraquara City, pude ver isso de novo: o pessoal ajeitando mesas na calçada dos bares para comemorar enquanto acompanhavam as festanças ao vivo na tevê, duas velhinhas que conversavam cada uma de um lado da rua, de trás das grades de suas casas como se fossem presidiárias, animadas com o resultado. Na casa da vó, quem tinha acessórios de bandeira os vestia, e ficava acompanhando aos poucos as comemorações.

Sim, por mais ranzinza que eu fui durante a copa, meu coração não é de pedra e ficou contente pelo pentacampeonato. Mas, mais ainda, ficou contente por poder estar junto com a grande família, para comemorá-lo adequadamente com o suquinho de cenoura e limão do tio Eraldo. Espero ainda ser capaz de fazê-lo quando chegarmos ao hécha.

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26 6 2002 0 00 00

 

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Greve de ônibus ontem e anteontem. Para sair daqui da USP distante, tive que pegar táxi nos dois dias. Com o dinheiro que eu gastei pra fazer o mesmo caminho de todo dia, eu poderia ter ido pra Campinas umas três vezes, de ônibus. Não há nada que me deixe mais ansioso que ver o taxímetro subindo com o carro parado (em sinal vermelho, engarrafamento…). Eu podia comprar CDs com esse dinheiro. Podia comprar comida. Mas não, dei ele prum taxista ficar dando voltas em Sampa. Próxima vez vou a pé.

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19 6 2002 0 00 00

 

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Ontem foi só eu tirar o pé de casa para o Brasil fazer seu primeiro gol. Hoje foi só eu chegar na frente da televisão do CA para a Coréia empatar com a Itália, e eu retornar com meu lanchinho na mão pra ela ganhar o jogo. Minha influência sobre os jogos é enorme. A teoria do caos pode provar.

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19 6 2002 0 00 00

 

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O Último Segundo põe qualquer coisa nas notícias dele mesmo. Dei uma bizoiada lá e estava:

18/06/2002 20h49
Economia Bolsa sobe 1,16
18/06/2002 20h49
Economia Bolsa sobe 0,74 por cento
18/06/2002 20h49
Economia Bolsa fecha sem variações

Indecisão editorial? Derivada instantânea?

Picaretas

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19 6 2002 0 00 00

 

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Este final de semestre está sendo bem pauleira. Claro que, se compararmos com os finais de semestre que o Danilo tem, o meu é fichinha dilícia, mas está sendo bastante pauleira se compararmos com os outros meses do semestre.

Um dos lados bons e ruins de se fazer um curso de humanas é que quase não se usa provas. O que significa que a gente não tem que ficar se descabelando para estudar, mas, em compensação, em junho temos milhares de trabalhos, fichamentos e etecéteras para entregar. Felizmente já estou entregando os meus.

Os alunos da ECA aprendem desde cedo a elevar a picaretagem a uma forma de arte. Quando se chega no penúltimo semestre, como eu, você já perdeu a vergonha há alguns anos. Não cheguei ainda no nível da Katia, que semestre passado passou no escaner setenta páginas de um livro sobre o Miró, corrigiu as letras que o programa de escaneamento tinha entendido errado, colocou o nome dela, imprimiu e entregou como se fosse uma pesquisa original. Mas quase cheguei nesse ponto.

Ontem Katchu e eu tínhamos que apresentar um seminário na aula de Logos e Tekhné. Depois de já ter passado semanas enrolando para prepará-lo, sentamos na frente do computador, discutimos um pouco as idéias do artigo no qual iríamos basear a palestra, e começamos a escrever o relatório. Deu dez minutos eu falei "Ah, Katchu, isso aqui tá muito chato. Que tal se a gente só parafrasear o texto e entregar pra professora?" Katia Abreu olhou pra mim e disse "Tinha acabado de pensar na mesma coisa!". Mesmo assim, não conseguimos terminar de redigir o relatório. Então fomos para a aula, passamos o seminário todo conversando sobre pirataria de CDs com a classe (sim, esse era um tópico válido e relevante), e prometemos entregar o relatório escrito semana que vem.

Hoje, na aula de Redação em Publicidade e Relações Públicas, Marcelo, eu, Raquel e Mário fomos apresentar nosso trabalho final, um catálogo de uma cooperativa de cerâmica. O fato de que o Mário já tinha feito esse catálogo ano passado, para um frila que não deu certo, e nosotros não pusemos um dedo nele não vem ao caso. O que importa é que a professora achou lindo e nos acha o máximo.

A aula de amanhã não me preocupa: Desenho de Observação, uma aula muito lúdica na qual o professor já mandou a gente desenhar coisas em 360 graus, ou desenhar o espaço entre as coisas. Eu e Mari desistimos de tentar entender as propostas já faz mais ou menos um mês. Como a nota é com auto-avaliação mesmo, já decidimos que merecemos oito.

Como já disse no começo, eu sei que é picaretagem. Mas é picaretagem altamente acadêmica, tá?

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14 6 2002 0 00 00

 

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Depois de ter visto o programa eleitoral do Ciro Gomes ontem, cheguei a uma conclusão: Patrícia Pillar para primeira-dama!! Ela é mó simpática, mesmo careca!

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4 6 2002 0 00 00

 

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Estou eu no meu sagrado soninho hoje de manhã quando sou acordado por rojões. "Ai caralho", penso eu, "o Brasil fez gol". Não consegui mais dormir, então fiquei torcendo pra Turquia pelo menos virar o jogo, mas ele já tinha acabado. Pelo menos o gol foi roubado.

Agora, não é interessante como não existe mais nada fora da Copa? A Globo toda se mudou pra Coréia, não se fala de outra coisa no Jornal Nacional! Do balacobaco!

Piercing

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3 6 2002 0 00 00

 

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Há quase dois anos eu me dei um piercing de aniversário. Tinha feito21 anos, estava com vontade de colocar um fazia tempo, e o salário que eu estava recebendo nA Revista me permitia isso. Contei a idéia pra Juliana, uma colega minha que já tinha vários piercings e tatuagens, e ela fez questão de me levar fazer piercing com um amigo dela. Fui lá para ver como era, saí de lá com um piercing preto de titânio no alto da orelha, muito chique.

Quase um ano depois minha orelha, que havia se comportado bem, resolveu se rebelar e tentar engolir o piercing. Depois de meses de luta, eu cedi e tirei o ferro (agora uma argola de ouro branco, mais chique ainda), na esperança que o calombo diminuísse. Que nada. O buraco fechou, mas o calombo continuava.

Sendo assim, dois meses atrás fui eu, munido da carteira de funcionário, no HC da USP para consultar com um dermatologista de plantão. Depois de esperar meia hora numa fila e uma hora em outra, fui atendido por um chinês jovenzinho chamado Dr. Ruh. Mostrei azoreia pra ele; o dotô me explicou que minha pele tinha feito uma supercicatrização, e me receitou um remédio creminho a ser feito em farmácia de manipulação. "Passe isso duas vezes por dia, e volte em 35 dias."

Fiquei eu, com a maior paciência, aplicando o dito remedinho antes de dormir e depois de acordar. Um mês depois, a bolota onde era meu piercing não tinha diminuído muito. Semana passada voltei eu pro HC.

Depois de esperar duas horas para ser atendido, meu curandeiro chinês me recebeu. Depois de lembrá-lo da minha desgraça, ele olhou bem, disse que isso ia demorar, e me perguntou se ainda sobrava bastante creme. Sim, disse eu.

"Então você compre um rolo de magipack, corte um quadradinho, e cole-o sobre a cicatriz com micropore. E daí pegue um brinco de pressão ou um prendedor e o coloque em cima, e o deixe lá quanto tempo você aguentar.." E fez uma cara tão desenxabida que eu fiquei esperando ele falar "BRINCADEIRINHA!!!". Mas ele não disse isso. Conferi se o procedimento era esse mesmo, e saí do hospital me perguntando por que eu.

Três dias depois, encontrei o Guilherme, um amigo meu que faz Medicina com o meu irmão, e ele me confirmou que o procedimento fazia sentido. Graças a isso, meu apartamento viu um rolo de magipack pela primeira vez desde que mudei pra cá. E, numa noite solitária do feriado, fui tentar fazer o dito curativo.

Nada podia ser mais difícil. Tente cortar um quadradinho de magipack e mantê-lo esticadinho enquanto corta as fitinhas adesivas. O lixo do meu banheiro ficou cheio de bolinhas de plástico. Depois, aplicar toda a minha coordenação motora pra conseguir colar o troço na orelha. Sobra fita para todos os lados, que gruda no cabelo, não gruda direito nas curvinhas auriculares, e, dependendo de pra onde se estende, causa surdez temporária.

Mas o pior mesmo é o maldito prendedor. Quando é colocado pela primeira vez, nem dói tanto, mas conforme o tempo passa a dor vai surgindo, até que, uma hora depois, a orelha está latejando, doendo demais. Tortura chinesa receitada pelo médico chinês. Isso sem falar da cena ridícra de eu com um prendedor verde preso na orelha, como estou agora.

Espero que esse sofrimento todo pelo menos sirva pra alguma coisa. Não vejo a hora de isso sarar logo, pra colocar um brinco em outro canto da orelha. Paguei caro demais pela argola de ouro branco pra ficar sem usar. Mas nesse momento agora, só consigo pensar na música do Zeca Baleiro: "tire o seu piercing do caminho que eu quero passar, quero passar com a minha dor".