Daqui não passa
 
Busca

Posts arquivados em Agosto 2002

Arquivado em notas |
25 8 2002 0 00 00

 

Lido 2 vezes


 

Sem comentários »

Já faz duas semanas que o Quadradinho bateu as botas. Nessas duas semanas, no entanto, nós não ficamos parados: a dissidência do Quadradinho arregaçou as mangas e, depois de muito trabalho e horas criando e recriando o design do site novo, está funcionando o Rabisco! Visite bastante, se inscreva na newsletter, e colabore se quiser!

Pequenos grandes mistérios

Arquivado em textos |
25 8 2002 0 00 00

 

Lido 14 vezes


 

Sem comentários »

- Modess tem adesivo?! Como assim?

Numa exausta tarde de fechamento, o diretor da redação onde eu trabalhava deixou escapar, abismado, esta frase. Ele olhava atônito para o folheto com as instruções de como se colocar um absorvente, que seria usado para ilustrar o sumário da edição. A frase saiu tão espontaneamente que ficava claro que a existência do adesivo era algo que jamais havia lhe passado pela cabeça.

Depois de um segundo, boa parte da redação olhava espantada para esta cena. Minha chefe, pasma com a ignorância do diretor, disse que claro que tinha, ué, como ele achava que o modess ficava preso na calcinha?

- Não é pra isso que servem as abas??

Não, as abas também têm adesivos, respondeu ela. Dei uma risada levemente irônica, tentando disfarçar que eu, também, desconhecia esses detalhezinhos do misterioso mundo da higiene feminina. Logo percebi, no entanto, que não era o único: as instruções que tinham surgido na redação com um propósito tão ilustrativo e inocente rodaram a sala toda, repetidamente causando perplexidade em homens que até então sequer cogitavam esta possibilidade autocolante. Um dos repórteres, assustado e sem entender bem de que lado ficava o quê, não se conteve:

- Ué, mas daí não dói pra tirar?

Fiz esta enquete sobre o adesivo dos absorventes, várias vezes, para grupos diferentes, e praticamente todos os homens ficaram pasmos ao descobrir este segredo tão bem guardado. E todas as mulheres se indignavam que nós ignorássemos um fato para elas tão corriqueiro. Um dia uma amiga até sacrificou um de seus próprios absorventes para fazer uma demonstração. Impressionante como em algo que deveria ser tão simples há tantos avanços tecnológicos, até na maneira que, em alguns, o envólucro do novo pode ser usado para embrulhar o usado, criando pacotinhos hiperlacrados que só fazem colaborar para manter-nos, homens, na ignorância.

Existem vários destes mistérios entre os dois sexos: coisas que as mulheres não dizem por considerarem óbvias demais, e que os homens não perguntam porque jamais pensaram nesta possibilidade. Outro exemplo: os seios realmente pesam. "Claro, pode até causar desvios de coluna numas que têm muito peito!", me disse uma colega no dia em que fiz esta descoberta. Simplesmente chocante.

Foi durante um almoço com um grupo de amigas, em que uma delas dizia que pretendia fazer plástica para aumentar os peitos. "Será que vou me acostumar com o peso?", dizia ela. "Será que vai aumentar tanto?", disse outra. "Quanto eles pesam agora? Setecentos? Oitocentos gramas?" Imediatamente as cinco se esqueceram da minha presença e começaram a apalpar os peitos, tentando avaliar sua massa. "Mas como faz pra saber o peso direito?", eu ouvi, levemente constrangido. "Sei lá, segura um peito numa mão, um saco de açúcar no outro, e compara!".

Mas o dia em que eu fiquei mais envergonhado mesmo foi quando ouvi, na faculdade, ainda outra amiga comentar com a menina ao lado: "Xiii, acabou meu remédio". Até um pouco preocupado, me intrometi: "O que você está tomando?". Apenas para receber um olhar de desprezo e riso. Homem é bicho burro, né? Recebi em resposta: "Marcinho: quando mulher fala sobre ‘o remédio’, se refere a… você sabe. O Remédio". A ficha caiu. Anticoncepcionais, óbvio! Nem precisava ter escrito isso aqui, não é verdade? Mas deixo escrito para poupar algum homem deste tipo de situação.

A lista desses pequenos segredos entre os gêneros poderia se estender indefinidamente. Afinal, os homens também têm seus pequenos mistérios que poucas mulheres conhecem. Existe uma razão por que nós urinamos fora do vaso, por exemplo. Qual é? Eu que não vou contar. Você, leitora corajosa, que vá perguntar para seus colegas, amigos, amantes, pague o preço em constrangimento por essa informação tão importante. É tão simples que vocês jamais descobririam sozinhas, eu posso apostar.

Esse foi um texto que eu escrevi originalmente pra ser publicado na revista UMA. Infelizmente as editoras não gostaram - fui descobrir depois que acharam que ele era escatológico demais - então eu fiz dele minha primeira coluna no Quadradinho. Agora que o Quadradinho acabou, achei uma peninha que esse texto ficasse perdido lá na kit.net, então estou colocando-o aqui.

Arquivado em notas |
23 8 2002 0 00 00

 

Lido 2 vezes


 

Sem comentários »

Seu ente querido passou desta pra uma melhor. O que fazer? Enterrá-lo, e deixá-lo lá, distante, para os vermes comerem? Não! Cremá-lo e deixá-lo numa urna na sala de estar, pro seu sobrinho um dia derrubar todas as cinzas no chão? Também não! Obviamente, a melhor solução é transformar o presunto numa jóia!

Pensa só, eles dizem que você consegue fazer até 100 diamantes do corpo da pessoa. Eles seriam ótimas lembrancinhas para a missa de um ano! Ou então usar alguns para fazer brincos, para ter a oportunidade de comentar um dia "Gostou? É o papai!". E, imagina, se um dia a situação apertar, você pode vender o defunto e resolver seus problemas financeiros. É o fim do cadáver inútil!

Difícil conclusão

Arquivado em textos |
17 8 2002 0 00 00

 

Lido 12 vezes


 

Sem comentários »

Os cursos da USP, principalmente os de Comunicações, em geral não deixam seus alunos se formarem em paz. Exigem que seus aplicados alunos façam um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre algum tema relacionado ao curso que freqüentou por quatro ou mais anos. Não tem escapatória: ou você faz esse trabalho ou não se forma.

Aqui no departamento o pessoal tem verdadeira fixação por TCC. Pra começar, eles reservaram todo o último semestre apenas para a realização do trabalho. Não sei que mil coxambras acadêmicas eles fizeram para que isso acontecesse, mas o fato é que, segundo o regulamento, você não pode fazer NENHUMA junto com o TCC aqui no CJE. E, como eu não estaria escrevendo sobre isso se não tivesse dado um pepino no meu TCC, sim, já vou adiantando, eu tive problemas com o meu.

No começo do primeiro semestre eu pedi uma avaliação de currículo, descobri que me faltavam dezesseis créditos em optativas, e fiz minhas matrículas de acordo. Infelizmente, quatro anos de humanas corróem sua habilidade com números. Não sei se eu me confundi, se eu fui enganado ou o quê, mas eu me matriculei numa matéria de 3 créditos crente que ela tinha 4. Resultado: chegou o final do semestre e eu tinha um mísero crédito me faltando para completar o curso.

Para piorar a situação, a Comissão de Graduação daqui do CJE tinha a fama de má. Anos e anos de pessoas pedindo pra fazer uma matéria junto com o TCC, pedidos negados sem dó nem piedade porque "pra fazer um TCC direito você tem que se concentrar só nele". Ah tá. Tá bom então.

Desconsolado com a minha má sorte (e imcompetência própria, tenho que admitir), fiz matrícula em uma única matéria esse semestre, para completar o número de optativas, e sem muitas esperanças eu fiz um requerimento para fazer o TCC junto com a matéria. Fiquei julho todo me conformando em ficar fazendo facu mais um ano, colocando todas as minhas habilidades polianísticas em uso para melhorar a situação.

Mas vejam como o mundo até que é bacana. Exatamente na reunião em que avaliaram o meu pedido, entrou uma nova comissão de graduação, com professores menos frescos e que querem mais é que os alunos se formem logo mesmo. Aprovaram meu pedido. E daí, de alguém que tinha um ano inteeeiro até ter que apresentar o TCC, eu passei a ser um aluno prestes a se formar que tem apenas três meses para aprontar isso!

Como as coisas não podiam ser simplesmente simples, no entanto, a história deu mais uma reviravolta no finalzinho. O contrato com o professor que tinha ficado de me orientar acabou mês passado. Ele ainda dá aulas como conferencista, mas não pode assinar meu TCC como orientador legítimo. Então tenho que fazer como vários outros colegas meus estão fazendo: achar um professor que assine o TCC para satisfazer a burocracia, enquanto o outro orienta o trabalho. Felizmente eu tenho alguns professores que gostam de mim, e achar alguém que assinasse o formulário não foi problema.

Agora eu tenho que correr atrás do trabalho! Passarei os próximos três meses estudando encartes de CD, caixinhas de CD, vendas de CD, pessoas que fazem CD etc. e tal. Entrar numa luta sem fim para encontrar as pessoas que criaram os benditos encartes. Não deverão ser mais difíceis que os oito diretores de redação das revistas femininas que eu persegui ano passado, espero.

Arquivado em notas |
16 8 2002 0 00 00

 

Lido 3 vezes


 

Sem comentários »

Anteontem eu fui almoçar na Psicologia e vi à venda um livro com o título Jovens mongolóides - Como tratar crianças com o cérebro lesado. Deus meu, o que aconteceu com o politicamente correto?!

Show grátis

Arquivado em textos |
16 8 2002 0 00 00

 

Lido 26 vezes


 

Sem comentários »

Eu sou um ardente seguidor do ditado "de graça, até injeção na testa". Pego amostra grátis de qualquer coisa que estejam oferecendo, participo de qualquer teste de paladar que encontrar e sempre pego um pedacinho ou dois de pretzel que as mocinhas do Mr. Pretzel oferecem. Quando o que está sendo oferecido é qualquer coisa cultural, então, eu entro até em fila se for necessário.

Foi assim que eu consegui assistir ao Rent duas vezes e meia. Um amigo meu tinha um amigo que conhecia um dos atores da peça. Um dia, depois de comentar sobre o musical, esse amigo do amigo disse que iria de novo assisti-lo na semana seguinte e perguntou se eu não queria ir também. Eu, obviamente, aceitei antes mesmo dele terminar a frase. Fui e gostei muito. Um mês depois, perguntei se não tinha como arranjar mais um par de convites pra eu ir assitir com meu irmão. Tinha, e fomos nós dois lá assistir de novo. No último dia da peça me chamaram de novo pra ir lá assistir e depois ir pra festa de encerramento do Rent. Saí de Campinas no domingo à noite pra ir assiti-lo, cheguei no meio do primeiro ato, só pude entrar um pouco antes do segundo, mas valeu a pena.

Nessas de contato com a amiga do amigo eu consegui ir de graça num dos shows mais trash da minha vida, do grupo Alphaville. Você provavelmente nem sabe quem são eles: são um grupo que fez sucesso nos anos 80 cantando "Forever Young" e "Big in Japan". Eu não sabia disso, nunca tinha os visto mais gordos, mas o show era de graça, ia um pessoal legal, fui. Quando chegamos lá, tinha quase cem pessoas na platéia, ou seja, o show estava muito vazio. E, pior, sessenta delas estava com uma cara de quem obviamente só estava lá porque também tinha conseguido um ingresso grátis. Fiquei sabendo uma semana depois que essa amiga do amigo, que era quem tinha arranjado de trazer o grupinho pra cá, quase foi demitida por causa do fracasso retumbante do evento.

Semana passada a Júlia mandou um e-mail pro pessoal da lista do TioMega que a tia dela tinha convites para o camarote do show do A-ha no Credicard Hall, e perguntou quem gostaria de ir. Eu aceitei imediatamente, ninguém mais quis, acabei indo. No dia do show saí do trabalho, peguei um busum até a casa da Júlia, e de lá fomos eu, ela, o irmão dela e um amigo do irmão fazer essa jornada de volta aos anos 80 grátis.

As coisas bizarras já começaram no caminho. O show estava impressionantemente lotado - as ruas em torno do Credicard Hall estavam lotadas de carros que procuravam um estacionamento. Várias pessoas mais afoitas deixavam seus carros na calçada e pagavam preços extorsivos para os flanelinhas. Vários outros flanelinhas anunciavam que compravam ingressos que estivessem sobrando por mixaria e os venderiam por preços mais extorsivos ainda. Todo um comércio de refrigerante, cerveja, cachorro-quente e batidas havia se instalado por perto, tentando ganhar uma graninha do monte de gente que se apressava para não chegar atrasado no espetáculo.

A gente entrou com o carro no Credicard Hall, descobriu que não tinha vaga nenhuma, saiu pelo outro lado e deixou no estacionamento mais próximo. Eram vinte pras nove, e o show oficialmente começaria às oito e meia; andamos o mais rápido que o fluxo de gente que havia redescoberto o A-ha permitia. Quando chegamos lá, comecei a sentir o gosto do poder: ignoramos as filas que ainda existiam nas entradas gerais e fomos para a entrada lateral dos camarotes. Algo totalmente inédito pra mim: nas outras vezes que tinha ido pro Credicard Hall, nunca tinha tido cacife pra ir na parte rica da casa, tendo sempre ficado na senzala. Eu recomendo altamente: o pessoal só falta te carregar nas costas. Uma mocinha nos mandava até a outra que nos mandava até a próxima que nos levava até o camarote. Eu nunca pensei que subir uma escada rolante fosse me fazer sentir com tanto status.

O show foi fraquinho, mas era de graça mesmo, então quem se importa? O A-ha tem uma empatia muito baixa com o público, todas as músicas conhecidas deles têm mais de dez anos, e o cantor deve ter colocado tanto botox que perdeu quase todas as expressões faciais. Eles arranjaram uma backing-vocal que tentava animar tudo, ficava lá batendo num pandeirinho, pulando de um lado pro outro, dançando animadamente músicas que não eram animadas e fazendo sinais pro público. Que provavelmente se perguntava que que ela tinha tomado antes de chegar lá.

Mas o mais bizarro foi que, no camarote logo em frente ao nosso, tinha dois homens barbudões, com mais de trinta anos, junto de suas respectivas namoradas. Para o espanto meu e da Júlia, eles eram os dois fãs mais animados da casa toda: cantaram junto todas as músicas, batiam palmas, daí não se controlavam e se levantavam para dançar com todo o molejo de um engenheiro naval. Nós ficamos passados.

E, pior de tudo, o A-ha não cantou a música do Laka. Nós ficamos uma hora e meia inteirinha esperando por essa música, e neca. O show acabou, eles voltaram pro bis, deram tchauzinho de novo, e nada e "Crying in the Rain". Decepcionante.

Na hora de sair eu pude sentir o gostinho de ser rico de novo. Enquanto o pessoal da geral entrava na manada da saída, nós elegantemente saíamos do camarote na escada rolante. Gente fina é outra coisa. De graça, então…

Arquivado em notas |
13 8 2002 0 00 00

 

Lido 2 vezes


 

Sem comentários »

Um carinha mandou um cheque pra Com-arte para comprar alguns livros. Eu coloquei a encomenda, toda solta, num megaenvelope, e o dei para a senhora do xerox, que é a encarregada de levar as correspondências do departamento pro correio. Depois de uns quinze minutos ela me vem lá na Com-arte com os livros num envelope um pouco menor, mais adequado, e me diz "Marcio, passa o endereço pra esse envelope pra mim, por favor?". Meu primeiro impulso foi responder "Por que, você não sabe escrever?", mas felizmente me contive e não disse nada, porque me manquei que provavelmente ela não sabia mesmo. Escrevi o endereço no outro envelope sem dizer nada.

Geralmente eu não colocaria esse tipo de nota aqui, mas ela não vai ter como lê-la mesmo, então…

Bananas

Arquivado em textos |
9 8 2002 0 00 00

 

Lido 18 vezes


 

Sem comentários »

Marcio!: E aí, o que vocês acharam do Cidade de Deus?

Marcel: Muito bom, muito bom mesmo.

Bárbara: Realmente!

Katia: Mas O Invasor me deu um mal-estar maior do que o Cidae de Deus.

Marcio!: Como assim, Katchu?! E aquela cena do "escolhe aí, mão ou pé"?! Meu, como eu sofri com essa cena. O cinema inteiro sofreu. Era aquele puta silêncio na sala…

Katia: Ah, meu, mas nessa hora você já está tão dentro da lógica do mundo deles que você até que acha normal, sei lá.

Marcel: O Invasor pega mais pelo lado psicológico, é mais desconfortável.

Bárbara: Agora, o que é aquele lance da banana?

Katia: AHAHAHA, é mesmo! Cara, como pode?

Marcio!: Como era o esquema mesmo? A mulher tinha que enfiar na frente quando o cara fosse enfiar por trás…

Bárbara: E ela ia "chegar no céu"!

Katia: Tinha que dar uma esquentadinha…

Marcel: Puta, a mulher que consegue fazer isso merece um prêmio.

Bárbara: É, cria uma nova modalidade de pompoarismo.

Katia: Pompoarismo? Como assim?

Bárbara: Pompoarismo, aquele negócio da mulher controlar os músculos, daí consegue fumar com a vagina, soltar anéis de fumaça…

Katia: QUE É ISSO?! Eu não consigo soltar anéis de fumaça nem com a boca, é mó difícil, e tem mulher que consegue fazer isso com a buceta?!

Marcio!: Próximo passo é conseguir descascar assim a banana…

Marcel: Já pensou? Segura a banana, aperta, sai voando o miolo e fica só a casca!

Mais um serviço do Chão, sempre capaz de transformar assuntos sérios em besteiras absurdas.

Arquivado em notas |
8 8 2002 0 00 00

 

Lido 5 vezes


 

Sem comentários »

Desde que arranquei os sisos, todo dia, às quatro da manhã, as crateras cranianas que os dentes deixaram me acordam pontualmente às quatro da manhã. Tô começando a ficar viciado em Dalgex.

26 dentes

Arquivado em textos |
5 8 2002 0 00 00

 

Lido 62 vezes


 

Sem comentários »

Siso se escreve com S e S, e não com C e S como eu pensava. Siso, e não ciso. Impressionante. Vai pra minha lista de palavras simples que eu não sabia como se escrevia, junto com exceção. Tipo de coisa que só se aprende quando se tem dois arrancados da sua boca.

Pois sim. Agora, segundo a lenda, eu deverei estar muito mais sábio. Ou será que perdi a sabedoria agora que não fazem mais parte de mim? Não sei. Mas precisei arrancar dois dentes do siso.

Por uma dessas brincadeiras do destino, meu irmão gêmeo, geneticamente igual a mim, só desenvolveu os dois dentes superiores do siso. Eu, muito mais eficiente, desenvolvi os quatro, mas na pressa eles ficaram todos fora de prumo. Mal conseguiam sair da gengiva, tadinhos. E, portanto, teriam que sair na marra.

Mãinha, sendo ortodontista, já estava com comichão de dar um jeito neles faz tempo, mas eu não queria. Até que, duas semanas atrás, eu fui me consultar ela pela primeira vez em mais de um ano. Ela olhou a boca, falou (para meu espanto, já que escovo muito os dentes) que eu estava com cárie, e podia aproveitar pra trocar as obturações de metal por umas de resina que parecem dente de verdade. E podia aproveitar o embalo e fazer branqueamento dos dentes, além de poder também resolver um vãozinho que surgiu nos meus dentes da frente depois que tirei o aparelho. Mas, se fosse fazer isso tudo, a primeira coisa a se fazer era dar um jeito nos dentões do ciso, deitados lá no fundo da boca na maior preguiça. Não tinha muita vontade, já que não me incomodavam, mas marquei duas consultas para o começo de agosto para fazer o serviço.

Pois que, quatro dias antes da consulta, eles começam a incomodar. Então foi até com certa resignação que eu fui pra Camps no sábado, me preparando para as extrações que faria na segunda. Tinha eu acabado de almoçar quando mãinha vem e me diz "Hmmm, sabe, acho que é maldade arrancar seus sisos e te colocar no ônibus pra São Paulo em seguida. Acho que a gente podia fazer isso hoje mesmo, que daí eu cuidava de você hoje e amanhã". A idéia realmente era boa. Mas eu não estava preparado pra isso. Mas, já que não tinha solução mesmo, juntei minha pouca coragem e fui pro consultório.

Não havia muita razão pra temer, na verdade. Mãinha tem uma grande reputação por extrações de siso rápidas e indolores. As pessoas saem tão felizes com a eficiência do processo que mãinha tem que lembrá-los que aquilo não é bolinho e eles não podem sair saltitando por aí como gostariam. A do Danilo foi tão bem que ele foi malhar na academia trinta minutos depois da extração.

A pior parte é a anestesia mesmo. Já faz quase vinte anos que Mãinha me anestesia, e o processo não mudou nada: primeiro um creminho anestésico com gosto de laranja muito forte. Depois ela pega uma mega injeção de ferro com uma agulha do tamanho do meu nariz (que não é pequeno) e a enfia em vários pontos da gengiva. Depois disso, no entanto, não teve problema: ela pegou na minha mandíbula de jeito com uma mão, alicatão na outra, e tloc-ttlloloc-tloc-tloc, tinha virado os sisos pra cima. A sensação é ruim (você ouve sons na sua cabeça que nunca pensou que seus ossinhos seriam capazes de fazer), mas não dói. E daí TLAC, o dente sai.

A ironia de se ter uma mãe ortodontista que faz o serviço ela mesma é que, apesar de você ter certeza de que está em boas mãos, não tem ninguém pra segurar na sua enquanto a dentista faz essas barbaridades.

Você não tem noção de como são grandes os sisos até que você os vê lá, na palma da sua mão, olhando pra você.

Durante o procedimento eu tremia com o corpo todo. Depois do desfecho rápido e indolor, eu estava tão grato que mal me segurava de pé. Daí veio a euforia de que tinha dado tudo certo, me senti que nem comercial de modess, com vontade de correr, saltar, andar de bicicleta e jogar tênis, e mãinha teve que me lembrar que ela tinha acabado de causar duas fraturas na minha cabeça e tinha que descansar. O que é verdade, apesar de ninguém nunca ver isso desse jeito. Receitou uns analgésicos e antiflamatórios e fomos pra casa.

Os dias seguintes que são problemáticos. Além do fato de acordar no dia seguinte com o travesseiro cheio de baba com sangue, é só você bobear no analgésico que a dor toda volta. E daí você toma o analgésico e fica com sono. Dorme e acorda, horas depois, com a boca toda doendo, porque dormindo deixou passar a hora de tomar analgésico.

Sábado que vem eu vou arrancar os sisos do outro lado da boca. O suspense está me matando.

Quase meia-noite. Só mais trinta minutos pra poder tomar o analgésico e poder dormir.