
Se tem uma coisa que foi unanimidade entre meus colegas ecanos de quarto ano, é que a ECA deixa a gente passar quatro anos picaretando pra daí no último semestre querer que a gente faça um trabalho decente. Como se os hábitos de quatro anos pudessem passar assim, de um semestre pra outro.
A gente não tem noção do trabalho que dá para fazer um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) até que faz um. Acho que a universidade é a única que faz tanta questão dessa experiência acadêmica, mas é ela que nos dá o diploma, então temos que dançar conforme a música.
Como já expliquei, meu trabalho foi sobre encartes de CD. Fácil dizer, difícil fazer. Não há bibliografia nenhuma sobre o assunto. As únicas fontes seguras sobre isso que eu encontrei foi o site da Sony, com a história da empresa, e um material que a Philips International me mandou da Holanda. Infelizmente, metade estava em holandês, mas as partes que eu consegui entender me foram muito úteis. Outra parte grande do trabalho consistia de entrevistar os designers de encartes de CD, o que também não se provou fácil. Mas, de pouquinho em pouquinho, eu consegui juntar as informações necessárias. A complicação é que, por causa disso tudo, eu só consegui começar a escrever o trabalho um mês antes da data de entrega.
O lado bom de se ter um bom orientador, como eu tive, é que ele te orienta. O ruim é que ele te orienta. A duas semanas da data de entrega, ele me mandava corrigir várias coisas, e procurar informações faltantes em vários livros. O trabalho foi crescendo, e eu tendo que colocar as malditas referências bibliográficas, refazer introduções, parir conclusões e tudo mais, conforme manda o figurino. Uma semana antes da data derradeira, consegui chegar numa versão aceitável.
Daí entra o capricho pessoal. Como meu trabalho era sobre encartes de CD, nada mais apropriado, pensei eu, que entregá-lo diagramado para caber numa caixinha de CD. Segunda-feira eu passei preparando as fotos que usaria na versão final e ilustrada do trabalho. Não pude dedicar a terça a ele porque tinha que fazer um trabalho para a matéria da Folha que fiz esse semestre, cuja data de entrega era aquela noite. Quando dizem pra gente que não se deve fazer matérias junto com o TCC a gente acha que é exagero. Acredite, a última coisa que você quer fazer, quando já está se descabelando por causa do risco de não se formar por falta de TCC, é ter que se descabelar mais ainda por risco de não se formar por falta de trabalhinho da matéria tapa-buraco que você pegou. Assim sendo, diagramei meu TCC todo na quarta, o que me deixou desperto até tarde da noite.
Quinta-feira, um pouco mais calmo, fui até uma dessas gráficas rápidas saber quanto custaria fazer as cinco cópias do meu trabalho, em impressão colorida. Os olhos do atendente brilharam, ele sacou a calculadora e, com um sorriso nos lábios, me disse que eram 430 paus. Assim, como se isso fosse comum. Ainda com a faca encravada no peito, fui pesquisar em outros estabelecimentos. Ao fim da jornada eu parecia o Pula-Pirata. Já achando que ficaria mais um semestre sem nível superior, decidi recorrer a uma opção mais barata e mais desesperada: liguei pro Danilo, mandei-o comprar cartuchos de tinta legítimos para nossa impressora em Campinas (o que sairia "apenas" 260 reais), que eu iria para lá depois do trampo imprimir esse maldito trabalho. Comprei as caixinhas vazias de CD e fui trabalhar.
Cheguei em Campinas meia-noite e pouco. O Danilo e o Anselmo ainda tiveram a coragem de brincar dizendo que o computador tinha entrado em pane, mas depois que eu comecei a chorar convulsivamente eles pararam de achar isso engraçado. Fiquei noite adentro imprimindo o trabalho, cortando papel-cartão, colando, grampeando, dobrando e guardando 104 páginas do meu TCC. Às vezes dava pra tirar um cochilo entre uma impressão e outra, mas isso não era muito eficaz. O lavor acabou às seis horas da manhã seguinte. Às dez da matina eu já estava no fretado de volta para São Paulo.
A entrega do amigo secreto da Editoração era nesse dia, mas eu mal prestei atenção nele, fazendo os últimos ajustes nos meus cinco bebês enquanto eles faziam a revelação. Depois tive que aprontar a papelada e dar para a orientadora oficial assinar, marcar dia de apresentação e todo um processo que me prendeu na ECA até as duas e meia da tarde.
Mas nada se compara à sensação de quase liberdade que se tem quando se deposita o trabalho na secretaria. Dá quase para sentir o diploma nas mãos. Não fosse a aterrorizante apresentação de TCC, eu diria que estava feliz e tranquilo.
O TCC está chegando ao fim!! Está praticamente diagramado; amanhã vou gastar todos os meus cobres imprimindo cinco ou seis cópias dele a laser numa gráfica rápida X qualquer. Depois de amanhã, ele é entregue, e estarei livre!! Vou poder voltar a me preocupar com outras coisas, e cuidar melhor desse meu pedacinho de chão…
A vida sexual dos cães é uma coisa complicada, sobre a qual eles têm muito pouco controle. Quando não são condenados à castidade eterna, em geral não têm o direito de escolher seus parceiros, sendo vitimizados por seus instintos à vontade de seus donos. Provavelmente a única vantagem de se ser um cão de rua é poder ficar seguindo uma cadelinha no cio o dia inteiro junto com seus outros colegas babões, e quem sabe deixar um filhotinho pra ela carregar mais tarde.
A Luana, nossa poodle-que-pensa-que-é-gente, por ser uma cãzinha de família, tem que se conformar com uma vida sexual mais restrita que as das sinhazinhas de engenho. Quando ela virou mocinha e entrou no cio pela primeira vez (ocasião em que assediou sexualmente todos os bichos de pelúcia da Ana Paula), Mãinha resolveu não deixar aquilo se repetir, e o veterinário começou a aplicar hormônios nela a cada seis meses. Há um ano resolveram que era melhor castrá-la de uma vez, mas para isso ela tem que ter uma ninhada na vida pelo menos. Então pararam com os hormônios, para que ela pudesse aproveitar os prazeres da carne uma última vez antes de ter sua luxúria semestral removida.
A primeira surpresa foi que aqueles hormônios que "não duram mais do que seis meses" continuaram fazendo efeito na Lulu por quase mais um semestre. Mas, depois de bastante esperar, ela começou a raptar o dálmata de pelúcia para a caminha dela e passar a noite se esfregando nele como antes. Mãinha então arranjou um distinto poodle toy, seis anos mais velho que nossa virgenzinha, para deflorá-la, ainda deixando como dote o primogênito da pobrezinha. Se fizer uma versão humana dessa história, todo mundo vai achar muito cruel, mas para cães, tudo bem.
Se serve de compensação, a Lulu sugou até as últimas forças do cãozinho velhote. Sabemos disso porque o Anselmo não deu sequer um momento de privacidade para o casal. Acabada a horinha de luxúria e lascívia, no entanto, o cão levantou as calças e voltou pra casa, tendo cumprido sua missão de embuchar tão jeitosa cadelinha. A comprovação da eficácia do velhinho tarado não demorou muito a aparecer.
Tem-se que explicar que a Lulu é tem trinta centímetros mas pensa que tem dois metros, defendendo vorazmente nossa sala de estar de quaisquer estranhos que adentrem nossa casa. O fato dela também ser míope faz com que qualquer um a mais de meio metro de distância seja um estranho pra ela (eu inclusive) até que ele a comprimente, o que a transformou numa excelente campainha, mas uma péssima cã de guarda.
Bem, os instintos protetores da Luana aumentaram pelo menos dez vezes. Agora não tem carinho que a faça parar de latir para os seres alienígenas que volta e meia adentram nossa casa. Outro dia o Davi caiu de pára-quedas lá em casa, e a Lulu cumpriu sua obrigação tentando expulsá-lo no grito. Não deu certo, e ele ainda comentou "Eu sei que vocês gostam dela e tudo mais, mas, se ela antes era insuportável, agora ela está inconcebível!". Eu tive vontade de responder que inconcebível era sua pessoa, e que a gente gosta muito dela que dele, mas minha educação humana não me permitiu. Já a Luana, muito mais sensata, não parou de soltar o verbo um minuto.
Conforme as semanas passam, ela vai ficando cada vez mais choca. Ela faz xixi a cada trinta minutos, e, por causa do que lhe deve pesar os filhotes, não corre mais quando vai passear. Na verdade ela agora tem medo até de pular pra cima do sofá, o que antes fazia sem pensar duas vezes. Agora ela passa o dia quieta no alto da escada, com o olhar distante, quem sabe a pensar naquele sessentão que tomou sua pureza numa tarde de primavera…
Depois desse texto, pode-se chegar à conclusão de que a Luana não é a única a pensar que ela é gente.
Às vezes eu tenho a impressão que a cada ano o Natal começa mais cedo. Tipo, semana passada já estavam vendendo chocotone no supermercado. Fui no xerox da biblioteca da ECA ontem e os funcionários já tinham feito uma caixinha pro Natal. Só quem não tem direito a lucrar com o Natal sou eu.