
As pessoas que não vivem, como eu, na minha família há vinte e três anos (quase vinte e quatro, já), dificilmente entendem todas as mecânicas que fazem a gente conviver tão bem. Não só da família direta, pai, mãe, irmão, cachorro e tartaruga, mas também do restante, que convive (em geral) numa paz rara de se encontrar por aí.
Os Primos, por exemplo. Eles são crentes da Congregação Cristã no Brasil, uma religião que, entre outras coisas, não os permite ter televisores e insiste que os meninos tenham cabelo curto e as meninas, cabelo loooongo. Tão diferentes da minha família, que passou a infância assistindo Xuxa e já me permitiu ter mullets, cabelo comprido, cavanhaque e etc. No entanto, sem dúvida, os Primos foram meus melhores amigos durante a infância até eles se mudarem para o Canadá (o que já é uma outra looonga história…), principalmente quando eles se mudaram para dois quarteirões de distância da minha casa.
Pois então, quando eu explicava para os amigos que tinha que ir para Campinas no sábado por conta do noivado do meu Primo Fábio, eles desentendiam. "NOIVADO? Quem fica noivo hoje em dia?!" Os Primos ficam. "Mas nem é casamento! Por que você tem que ir?" Porque são os Primos, já anda tão difícil nós todos conseguirmos nos ver, eu que não vou perder uma oportunidade dessa, inda mais num momento importante para eles.
Foi assim então que, quase duas da tarde, estávamos eu, Danilo, Ana Paula, Mãinha e Pai entrando num salão estilo muçulmano para uma festa crente num país católico. Este era o salão de festas do condomínio onde o Fábio, no resplendor de seus 21 anos, já comprou um terreno para construir a casa onde vai morar com a Lílian, sua agora noiva, com quem namora há cinco anos.
Os Primos já estavam todos sentados numa mesa, onde nós nos assentamos. Logo a gente começou a puxar o fio da conversa, sobre carreira, família, até chegar nas memórias desenterradas da infância.
De como, quando tínhamos entre cinco e onze anos, brincávamos de corrida maluca no corredor da casa da tia Celira, correndo de um lado pro outro em cima de skate quebrado, um pé só de patins, cabo de vassoura, patinete com guidão solto, pogobol e o que mais tivesse por ali. O que era um feito, principalmente quando se considera que o corredor tinha um metro de largura e eram seis crianças correndo alucinadas.
De como a gente descia a ladeira da rua da tia de skate, de pé ou sentado, ralando dedos, cotovelos e joelhos, só pra subir tudo de novo, descer e se ralar mais ainda. Ou brincar de esconde-esconde na rua, à noite, e como a Flávia se escondia simplesmente ficando imóvel na sombra da árvore, e eu, tonto, nunca conseguia distinguir ela lá.
Da gente nadando na banheira de hidromassagem da tia, se jogando lá dentro pra ver quem achava o sabonete primeiro, o que é outro feito quando se pensa que eram quatro ou mais pimpolhos se estabacando numa banheira de solteiro.
Do ferrorama dos Primos que a gente montava na sala deles, ou do Playmobil, que perdia os cabelos, e a gente só encontrava a peruca dos coitados quando pisava em cima, ficando com aquelas pontinhas grudadas na sola do pé.
(O que me faz pensar, agora, que a casa dos Primos era muuuito mais legal que a nossa, que tinha muito mais coisa pra se fazer lá do que no apartamento que a gente morava.)
Mas o que mais me surpreendeu foi quando o Fernando disse que tinha lido aqui no Chão um texto sobre quando ele casou. Meio constrangedor a princípio, já que eu nem lembrava o que tinha escrevido. Fui encontrá-lo mais tarde, um texto de quatro anos atrás, de quando eu ainda escrevia em inglês no Obvious. E um texto muito mais cruel do que o necessário, que eu jamais faria hoje. Mas ele disse que concordou com várias coisas que eu escrevi, o que eu achei mais surpreendente ainda… Mas enfim, Priminho, sorry for anything.
E agora as memórias vão continuando: o filho do Fernando se ralando na festa, a champanhe dos noivos que estourou mal e porcamente, a Lily judiando de seus pezinhos mas se recusando a deixar de usar salto alto… Essa história ainda vai longe.
Na terça, polvorosa no andar onde eu estava trabalhando. Na redação ao lado da nossa estavam o MC Serginho e a Lacraia, criadores do crássico "Egüinha Pocotó". Todo mundo querendo dar uma fugidinha da Revista de Mulher Pelada pra ver as figuras. Acabou não sendo necessário; os dois deram uma esticadinha lá por alguma razão que eu ainda exatamente não sei, mas deram o ar de sua graça. Tiraram fotos ao lado dos totens das peladonas das edições anteriores, conversaram com quem estava por perto. Um repórter, sentindo que iam fazê-lo pagar algum mico com eles se ficasse, fugiu rapidamente. Depois, vendo algumas fotos de divulgação da dupla que estavam no jornal, vimos que estavam com exatamente as mesmas roupas com que tinham aparecido ali, o que nos faz suspeitar seriamente de que eles só têm um figurino.
Na quarta, uma apresentadora do SBT apareceu lá no fim do expediente, para negociar o contrato de um ensaio que pretende fazer na RMP. Muito simpática, muito mais peituda que eu pensava que era, com o sorriso estranho de sempre e um cabelo que parecia peruca. Mas não era, era só muito tingido mesmo.
Na sexta de manhã, cheguei para ver os homens todos babando com a presença da Maryeva, que será a próxima capa da RMP. Ela tinha ido lá para assinar o contrato, e deixou todos encantados, principalmente o diretor de arte, que ficou com coraçõezinhos nos olhos o dia inteiro. Já a tinha visto de perto quando eu trabalhava na Tropeço e ela posou pra eles. Muito simpática, ela quis ver como eram retocadas as imagens, deu atenção para todos, muito bacana. Assinou o contrato, depois do que estouraram champanhe. Sobrou um terço de garrafa, que foi guardado na geladeira para ser reaproveitado com alguma coitada coadjuvante.
Recebi meu pagamento, finalmente, e fiquei rico rico rico! Daí resolvi deixar aflorar os instintos consumistas e fui pra FNAC comprar CDs. E quase que eu gasto muito muito mais do que eu queria. Empilhadas na sessão de MPB estavam várias caixas Construção, com os vinte primeiros discos do Chico Buarque em CD. O precinho, 565 reais. Mas eu fiquei muito tentado a levar pra casa. Não só porque era um puta conteúdo cultural, mas porque lá tem CD dos Saltibancos Trapalhões, que eu nunca achei em lugar nenhum!! Eu preciso ter esse disco!
Quando eu fiquei sabendo eu não acreditei.
Eu tinha acordado ontem de manhã decidido a não ir pra academia. Me demorei no café da manhã, assistindo Ana Maria Braga, li os e-mails sem pressa. Pouco depois das oito meu celular toca, mostrando que quem ligava era Paulo Rowlands, com quem eu não falava há muito tempo.
Atendi todo animado; ele estava com uma voz péssima. Depois dos cumprimentos normais de todo telefonema, ele me dá a notícia: a Vange, uma amiga minha de quando eu cantava no coral Gilberto Mendes, havia sofrido um acidente de moto numa estrada próxima a Campinas. A moto se desequilibrou, ela caiu, e três carros passaram por cima dela. Ela tinha morrido. Com a minha idade.
Na hora eu não acreditei. Era uma história tão absurda, que eu fiquei esperando a qualquer momento o Paulo me dizer "Rá, brincadeira, peraí que a Vange quer falar com você". O telefonema acabou e a piada não veio.
Liguei para o Rô Spina, que me confirmou a história. Eu não sabia o que fazer. Fazia mais de um ano que eu não via a Vange. Eu nunca tinha ido num enterro na minha vida. Eu não sabia se eu devia - se eu queria - ir para o enterro. Era tristeza demais para encarar assim de repente.
Mas daí comecei a me dar conta de que ela tinha morrido mesmo. E que, se a gente não se via há um ano e tanto, nós convivemos e nos divertimos muito por quase três anos. E todo meu carinho pela Vange estava guardado ainda, esperando encontrá-la de novo. Algo que não aconteceria mais. Decidi ir.
Essa é uma situação muito irreal. O dia é como sempre, não há nada de diferente no caminho, você quase se esquece da razão pela qual está tomando um ônibus na rodoviária e partindo para Valinhos.
Não fosse, claro, as lembranças que você vai puxando nesse meio-tempo. De como a Vange ficou mais bonita quando começou a usar o cabelo, cheio de cachos, solto. A voz linda que ela tinha, que cantava tão leve e tão bonito no coral. De tantas vezes que a gente riu e conversou sério, em bares, na casa de amigos, em festas. Toda a presença da Vange que a gente só separa um tempo para se dar conta quando se vê nessa situação.
O Rô Spina me pegou na rodoviária e me levou para o velório pouco depois da uma da tarde. Meu primeiro velório: não sabia bem o que fazer, como agir. Encontrei a Karina, minha ex-professora de piano e grande amiga (com quem também não falava há um ano e tanto) chorando perto do caixão. Eu a abracei, e ela chorava de soluçar.
Pouco depois eu parei para olhar o caixão, lacrado, pois parece que o que sobrou da Vange não ficou nada bem. E me pareceu errado, muito errado, que tudo que a Vange era coubesse ali, numa caixa tão pequena. O pensamento de que o corpo dela estava lá dentro era assustador. Como assim, você no fim se resta a isso?
Eu sou espírita. Eu sei que a Vange mesmo não era só aquilo, não estava preso ao que restava dentro da caixa. Mas aquela Vange que eu abraçava e conversava e ajudava a desembaçar os óculos estava lá. Só.
Em cima da tampa do caixão, um retrato que eu tinha tirado dela quando a gente foi fazer oficina de canto coral em Itajubá, a carteirinha de estudante dela, e um desenho que seu sobrinho tinha feito do acidente da tia. Eu não consegui encostar no caixão. Já tinha chorado um pouco em casa, chorei mais um pouco na hora, e rezei pela minha amiga.
E o mais irônico é encontrar tanta gente que você gosta, amigos que não via há muito tempo, reunidos por algo tão triste. E se dar conta do quanto gosta deles, e do quanto os vê pouco por achar que sempre vai ter uma oportunidade para vê-los de novo.
Paulo Rowlands, melhor amigo da Vange, falou muito durante o velório. Da Vange para quem estava lá, para ela. Cantamos uma música de coral em sua homenagem - eu nunca a tinha ouvido, mas fiz o melhor para acompanhar quem sabia na hora.
E, às cinco da tarde, levaram o caixão até o cemitério e o colocaram no túmulo. Rowlands puxou a "Canção da América", que todos cantaram sem requintes coralísticos, com o coração e com a amizade que estavam deixando lá debaixo daquele murinho de cimento.
Mas a voz e o sorriso da Vange, estes seguem com a gente.
Estava eu todo inocente procurando filmes de vampiros no IMDb para uma pesquisa de imagens para a Revista de Mulher Pelada. Faço uma busca por "vampire", e eis que, junto com clássicos como Rainha dos Condenados e Drácula 2000 me surgem as pérolas Vampire Vixens from Venus, Erotic Vampire in Paris e, o melhor de todos, Vampire Lesbian Kickboxers. Fariam Ed Wood se morder de inveja.
Se tem uma coisa que estou aprendendo trabalhando em revistas é que TODO MUNDO TEM ESTRIAS.
Dois meses atrás, por exemplo. Eu tinha acabado de arranjar um frila na revista Jota. O ensaio de capa tinha acabado de chegar, e a diretora de redação estava soltando fogos de artifício, porque a modelo de capa era linda de morrer, o fotógrafo era ótimo e tinha feito um excelente serviço, a capa ia ficar fabulosa etc. Todos se alternavam para dar uma espiada nos cromos e ver a maravilhosidade toda por si mesmos. Até que uma diagramadora chegou, olhou bem e disse "Gente, o peito da modelo tá CHEEEEIO de estrias!!". Pronto, quebrou o encanto. A coitada, com um puta decotão que fazia os seios quase pularem para fora da foto, soprava suas estrias ao vento, sem nada que as contivesse.
Claro que essa realidade nua e crua não chega às bancas, mas pra quem trabalha lá (e para o prazer secretamente perverso das pessoas normais) a fantasia desce pelo ralo. Você, mais do que ninguém, sabe que, como dizem onde estou frilando agora, "Deus ajuda e cria lindo, a gente dá uma forcinha".
Outro dia, fazendo uma pesquisa de fotos das hollywoodianas célebres, descobri que realmente aquele e-mail que mostra "As estrelas sem maquiagem" é real. As belas do cinema são puro pancake. Depois de percorrer centenas de fotos de paparazzi, cheguei à conclusão de que a Cameron Diaz é um monstrinho virado do avesso. Ela é CHEIA de marcas vermelhas na cara, as bochechas dela parecem duas bolinhas de ping-pong, o cabelo dela é uma palha… Não dá. Isso só pra dar UM exemplo.
Agora eu estou numa revista de mulher pelada, e vejo que a tão afamada mágica do Photoshop é realidade. Quem baba pelas nuas da revista nem sequer imagina que a coitada estava toda arrepiada de frio, que sua cintura não é assim tão definida e que ela, assim como todos, digo novamente, tem ESTRIAS. As despudoradas chegam todas lindas nas páginas da revista.
Portanto, quando você se olhar no espelho e perguntar "POR QUE JUSTO EU TENHO ESTRIAS?", fique mais aliviado por saber que todas as pessoas do globo compartilham de sua desgraça.
Obviamente, se você chegou até aqui, terá reparado que eu finalmente desencantei o portfólio on line. Essa parte ancestral do Chão está em processo de redesenho, e deverá ganhar uma carinha nova logo. O que, se você acompanha esse site, sabe que significa "sem muita previsão de data, mas, se tudo der certo, em pouco tempo". Nesse meio-tempo, resolvi voltar a escrever as entradas com o lay-out velho mesmo, então, oficialmente, o hiato acabou.
ASTOLFO: Mas enfim, eu acho que fim do mundo mesmo é underwear furado. Isso não dá pra encarar.
JUREMA: Virge. Eu tenho uns sutiãs beeeem xexelentos…
LAURINDO: Magina! É tão lindo quando você descobre que a menina tá com aquela calcinha quase desmontando…
PRAXEDES: Hein?!
LAURINDO: É, porque daí você vê que ela nem tinha planejado ir pra cama, foi uma coisa expontânea…
ASTOLFO: Hmmmm… não. O mínimo que eu espero é não encontrar um elástico arreganhando os dentes pra mim.
PRAXEDES: Bem, eu não estou em situação de se fazer exigências… Não sei, acho que eu assusto as mulheres.
JUREMA: Só um pouquinho. Mas isso um dia passa.
PRAXEDES: Eu sou muito honesto. Não sou capaz de me aproveitar da menina. Que nem quando eu saí com aquela freak lá. Ela não saía do meu pé, então, na terceira vez que a gente saiu, eu tive que chegar pra ela e dizer "Olha, cê não tem nada de errado, mas eu não gosto de você…".
ASTOLFO: Como assim, na terceira vez?
PRAXEDES: Ué, a gente já tinha saído duas vezes antes…
ASTOLFO: Praxedes, se você aceita sair com alguém, só vocês dois, cê tá aceitando ficar com ela!!
PRAXEDES: Como?!
ASTOLFO: Quando a mina não quer ficar com você, ela não aceita nem sair. Se vocês saem sozinhos, ela espera que você fique com ela! Não é?
JUREMA: É sim. É um pacto silencioso. Ninguém diz nada, mas fica tudo subentendido.
PRAXEDES: Ai…
LAURINDO: Ela deve ter ficado toda pensando "Meu deus, será que ele não
gostou de mim porque eu não tenho peito?".
PRAXEDES: Putz, então eu dei a maior bola fora…
JUREMA: Não, também não é tão trágico assim.
PRAXEDES: É sim. Ela me ligou, e perguntou "Então, você quer assistir Xuxa e os Duendes comigo?". Daí eu parei e respondi "Bem, eu já vi esse filme duas vezes, mas what the hell, eu vou ver ele de novo com você".
LAURINDO: Ó deus.
ASTOLFO: Você praticamente disse "Olha, tô tão a fim de você que vou encarar esse filme pela terceira vez, só pra não deixar essa chance passar."
PRAXEDES: Mas fazer o que, eu tinha gostado do filme!! Eu só queria ver ele de novo, eu não queria ficar com ela.
JUREMA: Troféu joinha pra você…
Não, o Praxedes não gostava de Xuxa e os Duendes. Todos os nomes (inclusive o do filme) são falsos, para proteger a identidade dos interlocutores. O resto é pura verdade.