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Posts arquivados em Agosto 2003

Mudança

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21 8 2003 0 00 00

 

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Quando eu vim pra Sampa, eu fiquei morando num apêzinho na Vila Madalena, rachando quarto com o Louis e o apê com mais a Thais e três irmãos que eram os donos do imóvel. Tinha coisas boas e ruins nisso, mas minha estadia lá não durou muito mais depois que Mãinha visitou o lugar e ficou horrorizada com a situação precária em que vivíamos. Em duas semanas ela e Pai arranjaram um apê em Pinheiros, ajeitadinho, que em teoria eu racharia com mais alguém, mas depois que Pai arranjou um emprego em Sampa, passei a rachar com ele.

O apê tinha dois quartos grandes, sala e banheiros pequenos, e cozinha ridícra. O que fazia que tivéssemos que colocar mesa, geladeira e microondas na sala, porque na cozinha não cabia mais que o fogão. O apê nunca me inspirou muita confiança, mas depois de dois anos morando lá comecei a pegar bode dele. Se queria fazer qualquer comemoração lá, tinha que instalar os convidados no meu quarto, porque não cabia muita gente na sala - a qual meio que dava vergonha também, com sua televisão em cima do frigobar e pacotes de bolacha e vidros de nescafé enroscados no fio da antena. Depois que eu arranjei uma faxineira as coisas melhoraram um pouco, mas depois de um tempo ela começou a destruir o box e a instalação telefônica, o que só me fazia depreciar mais ainda o lugar onde morava.

Bem, depois de anos tentando sair de lá, a gente finalmente se mudou de Pinheiros pra Vila Madalena de novo. Na verdade o bairro se chama Sumarezinho, mas, como eu moro a dois quarteirões do metrô Vila Madalena e o nome do bairro é muito cafona, Vila Madá fica sendo. Mãinha e Danilo encontraram o apê caindo aos pedaços, com portas cor-de-rosa e cozinha e banheiros nojentos, um carpete que dava vontade de chorar, mas com um pouco de pensamento positivo encontraram as qualidades que se escondiam debaixo da gordura e dos ácaros. Depois de um processo que levou uns dois meses, compramos o apê (financiado a perder de vista) e começamos a reforma, que foi surpreendentemente rápida.

Quando ele ficou pronto, glória das glórias, eu moraria num lugar em que a promiscuidade entre aposentos não mais exitiria. A sala é sala e cozinha é cozinha. No banheiro há espaço pra guardar todos os apetrechos de higiene pessoal, e na área de serviço será possível até instalar uma máquina de lavar roupa!! Impressive!!

Pois bem, num sábado, lá vamos eu e Pai fazer a mudança. Eu já tinha encaixotado meus livros e gibis todos em cinco caixonas que eu pedi no supermercado. Os CDs eu decidi que iriam na estante mesmo, o que seria mais prático e seguro. Na manhã seguinte, começou a difícil missão de carregar tudo de uma morada para a próxima. Os objetos mais pesados nem são tanto problema - afinal, são em geral caixas cheias de coisa dentro, o que com um esforço razoável se leva de uma vez até o carro, e do carro para o outro apê. O problema são as coisas desmontáveis - cama, armário etc. São levinhas, mas demoram váááárias idas e voltas até conseguir-se levar todas as partes, encaixá-las na Matilde, o Carro Monstro, subir a serra, descarregá-las no outro prédio, subir de elevador, colocá-las num quarto, montar um, montar outro, descobrir que se usou a peça de um no outro, desmontar os dois, corrigir os erros, e daí colocar o móvel no lugar.

Sem falar que o apê novo, por mais lindo que seja, fica numa bagunça que dá vontade de fechar a porta e só voltar quando estiver tudo arrumado - o que não acontece sem que você mesmo arrume, infelizmente.

Pois foi com esse intuito de passar a ter tudo arrumado como não era antes no apê precário que eu resolvi investir um pouco no novo. Minha primeira resolução foi não colocar mais nada debaixo da minha cama - agora o que eu não sei onde colocar e não quero que ninguém veja, coloco debaixo da cama do meu pai. Comprei também uma big estante (duas, na verdade, mas uma é acessória da outra) onde meus livros, gibis, álbuns de fotos e computador cabem todos confortavelmente.

Depois de tomar dois banhos sem box que inundaram o banheiro, decidi comprar uma cortina para o banheiro também. Da Imaginarium, que é mais chique e descoladinho, e que acabou combinando com o banheiro. Infelizmente, com tanto gasto, tive que cortar a faxineira, mas, agora que o apê é um frigorífico todo feito em piso frio, eu posso fazer a faxina eu mesmo, com um pouco de boa vontade, e nunca mais ter a surpresa de chegar em casa e encontrar algo quebrado.

Infelizmente alguns hábitos não morrem. Eu ainda estou readestrando painho para que ele não deixe as comidas em cima da mesinha, que agora fica na cozinha. Temos montes de armários só pra isso. Mas, depois de quatro anos tomando café da manhã assistindo Bom-Dia, Brasil e a Ana Maria Braga, fica difícil olhar pro azulejo enquanto come. Já improvisamos uma mesa na sala, pra deixar as comidas enquanto comemos no sofá.

Anselmo em NY

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14 8 2003 0 00 00

 

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Durante o dia 11 de setembro o Danilo estava nos EUA. Não estava em Nova York, felizmente, mas sim em Wisconsin. De qualquer maneira, enquanto nós acompanhávamos os acontecimentos de outro hemisfério pela televisão, preocupados com o início da III Guerra Mundial, as repercussões disso na ordem mundial, com o fato de que seríamos todos convocados para os esforços militares e acabaríamos morrendo solitários numa trincheira do outro lado do mundo, ele estava lá em Wisconsin, fresquinho que nem chicória, nem ligando pro que acontecia a algumas centenas de quilômetros de onde estava.

Bem, anos depois, o Anselmo descolou um emprego na HAL, e tinha que ir para os Estados Unidos fazer um treinamento das funções que desempenharia aqui no Brasil. Muito chique, pagaram a passagem, pagaram o treinamento, deram salário, buscaram ele de van em casa pra levar ao aeroporto, serviço completo. Eu, que não sou bobo, deixei ele ir com várias encomendas, afinal, por mais globalizados que sejamos, ainda há coisas que só se encontram nos States.

Pois bem, semanas depois, estou eu trabalhando na Recesso quando dá na UOL que aconteceu um megablecaute em Nova York. Algumas horas depois, já com a TV ligada, a gente acompanha algumas imagens de toda aquela gente gorda e feia andando a pé por falta de semáforos e metrô, levemente temerosos de um ataque terrorista. Só depois de olhar a cena por alguns bons minutos que a ficha caiu e eu me liguei - "Ó Céus, o Anselmo tá lá em NY, e, pior, num emprego que em teoria tem que previnir que os servidores saiam do ar numa situação como essa. Eles devem estar perdendo MILHÕES!!!".

Liguei pra casa pra saber se por algum milagre da telepatia o Anselmo tinha mandado notícias, mas Mãinha me deu a resposta obóvia, que ele não tinha ligado porque não tinha como, já que não havia energia elétrica no lugar. Fiquei o resto do dia aguardando alguma notícia.

Por um instante eu imaginei alguém encontrando o Anselmo agachado num quarto de hotel, congelado, com um isqueiro vazio preso entre os dedos enregelados, numa versão mais moderninha do conto da menina dos fósforos, mas logo me liguei que lá era verão e que a gente devia estar passando muito mais frio do que ele. Imaginei um monte de nova-iorquinos xenófobos, que, sem energia elétrica pra assistir a seus programas de luta-livre, colocariam toda a culpa dos eventos naquele pobre brasileiro e o perseguiriam Manhattan adentro, mas, apesar de muito mais provável, me confortou o pensamento de que eles todos, como já disse, são gordos, e o Anselmo, apesar de não conseguir encostar as mãos nos pés, ainda é magrinho e deixaria eles comendo poeira.

Depois de dois dias aqui inventando cenários apocalípticos, me chega a notícia de que Litoubrou estava bem, e que estava placidamente pescando fora da cidade com o pessoal do trabalho no dia que começou o blecaute. Mais uma vez a gente aqui do lado debaixo do Equador ficou se preocupando à toa enquanto o outro estava lá fresquinho que nem chicória. Mas melhor que seja assim mesmo. E mais um membro da família presencia os eventos da história mundial.

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12 8 2003 0 00 00

 

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Coisas que só acontecem aqui na Editora. Estou eu na banquinha, comprando o Olga, do Fernando Moraes, quando chega O Grande Guru de Design da Editora. "Marcio, você resolveu que vai ler o Olga?", diz ele. "Sim", respondo eu, "tô querendo ler algo um pouco mais realista". "Você sabia que fui eu quem fez a primeira capa desse livro, décadas atrás, antes dele ser republicado pela Companhia das Letras?", diz ele. "Não…", respondo eu. "Pois é, conversei com o Fernando várias vezes enquanto ele preparava o livro, para fazer uma capa que combinasse com o livro. Depois ele me deu um exemplar com uma dedicatória especial". Meu impulso na hora foi pedir pra ele autografar a capa do livro, então, mas a capa não é mais a dele há mais ou menos umas 17 edições…

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8 8 2003 0 00 00

 

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Aliás, fiquei tão ocupado fazendo a edição do Rabisco ontem, que o Roberto Marinho morreu e eu nem notei. Fui descobrir só hoje de manhã. É o fim de uma era!! O pior é o e-mail que já está circulando, dizendo que, enquanto o Seu Sírvio só falava, o Marinho foi lá e fez…

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8 8 2003 0 00 00

 

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Dei um jeito de comprar o livro do Harry Potter o quanto antes, para evitar descobrir por meio de terceiros quem morria no final. Comecei a ler as setecentas e tantas páginas num sábado, e terminei na quarta. Agora que eu já sei o final, dei uma de espírito de porco e contei tudo numa matéria pro Rabisco. Quem pode, pode.