
No primeiro dia em Cajaíba, quando eu desci do bote que nos deixou na praia, não consegui evitar as ondas e acabei encharcando meu tênis. "Ah, tudo bem", pensei, "amanhã ou depois, quando fizer sol, ele seca".
O fato foi que não fez sol nenhum durante a viagem, e eu o coloquei tão molhado quanto antes na minha bolsa quando voltei pra metrópole. Cheguei em casa na manhã e tinha que trabalhar à tarde; tinha que dar uma solução nisso.
Aqui cabe explicar meus hábitos com relação a tênis. Meus tênis todos duram muito. Até demais, pra dizer a verdade. Apesar de andar muito, devo fazê-lo com muito cuidado inconsciente, porque eles não furam, não abrem o bico, nem sequer estouram o cardarço. Depois de uns seis meses, eu acabo trocando de calçado, mais por ter enjoado do velho mesmo, porque ele continua perfeitamente utilizável.
Assim sendo, eu posso tranquilamente contar que meu tênis do momento estará num estado decente para me levar aonde quer que seja. Portanto, desde que me mudei para São Paulo nunca me preocupei em ter mais que um par de sapatos comigo. Meu pisante se torna meu companheirinho de aventuras para o que der e vier, e vem comigo em todas as ocasiões, chiques ou cafonas.
Nunca tinha sofrido com isso até essa fatídica quarta-feira. Não querendo calçar um tênis encharcado, e com o motor da geladeira inacessível demais para meu nível de canseira, tive uma idéia genial. Acendi o forno, coloquei os calçados lá dentro, e fui tomar banho. Ainda dei uma conferida antes de relaxar no chuveiro, para ver se o cadarço não estava pegando fogo ou algo do tipo, e daí, tranquilo, fui tomar meu primeiro banho quente em dias.
Bem, depois de ter tomado banho, trocado de roupa, trocado a fronha do travesseiro e escovado os dentes, lembrei dos pobres pisantes, mas daí já era tarde demais. A cola havia derretido, a sola de borracha tinha se soltado, o resto da sola tinha se contraído, a palmilha havia virado um tubinho. Lastimável. O que a praia não tinha feito, eu fiz em meia hora de forno. Se antes não tinha tênis seco pra ir trabalhar, agora não tinha mais tênis nenhum.
Depois de um soninho reparador, me aprontei pro trabalho, botei minhas havaianas verdes, e fui, debaixo da chuva incessante, até a Teodoro comprar um sucessor baratinho para os tênis que eu havia sacrificado cruelmente no forno ao deus das chuvas. Já com altas dívidas do cheque especial, todos os calçados das vitrines piscavam pra mim com cara de caríssimos. Andei de loja em loja, comparando preços, achando todos ou caros demais ou ordinários demais, até que me bateu uma iluminação.
Me lembrei da Eva, minha chefe na Tropeço, e como ela vivia feliz e contente com um par de All Star. Como dizia que não tinha nada melhor pra andar do que eles. Pedi pra vendedora me trazer um par 42 pra eu experimentar, e ela veio com um par azul marinho. Foi amor à primeira vista; o All Star coube bem, e olhou pra mim com cara de cachorro sem dono. A música do Nando Reis "All Star" não me saía da cabeça. Parei de lutar contra o destino, e saí da loja caminhando com meu All Star azul.
Nessa semana, ele apertou meus dedinhos por alguns dias, mas agora já laceou um pouco e está bastante confortável. Me sinto muito mais estiloso andando com ele, o que me faz pensar em quanto dinheiro já gastamos com tênis quando a satisfação é tão mais em conta. E, melhor, de repente eu agora até encontro um All Star preto, de cano alto, que combine com o meu.
Dica pós-carnavalesca: ao chegar em casa com os tênis molhados por quatro dias de chuva initerrupta, não tente secá-los no forno, principalmente se precisa utilizá-los para ir ao trabalho logo em seguida. A borracha se expande, o resto da sola se contrai, a cola derrete, tudo se descola, a palmilha se enrola num tubinho, é uma tristeza.
A Editora, tão zelosa do bem-estar de seus funcionários, me convocou pra fazer um exame de percentual de gordura hoje. Resultados assaz satisfatórios: 11,7% de gordura (atletas, me disse a enfermeira, têm 10%), nenhum quilinho a perder, tudo bacana. Tanta academia serviu pra alguma coisa…
Carnaval chegando e proibição de propaganda de bebidas alcólicas antes das dez da noite. Resultado: depois da novela, as cervejas todas estão se acotovelando pra conseguir seu espacinho no Big Brother. Mas o que mais me deixou injuriado foi ver meu grupo querido, o Cordel do Fogo Encantado, fazendo propaganda da Brahma. Se, por um lado, é sinal de que eles estão bombando (afinal, haveria todo um público que beberia cerveja porque eles bebem), por outro, me parece descaso com sua imagem artística eles toparem ser garotos-propaganda. Daqui a pouco só falta o Lirinha recitar sobre carnaval e Brahma em versos rimados. O Cordel me parece muito menos encantado rescendendo a cerveja.
Rumo a Jerusalém
Um dia uma devotada freira no século XV decidiu fazer a peregrinação até Jerusalém. Ela fazia parte de uma ordem que usava sempre sacos cobrindo suas cabeças; sua Madre Superiora disse à freira que se ela fizesse o caminho com a cabeça enfiada num saco ela assustaria as pessoas.
A freira, porém, insistiu, então a Madre Superiora concedeu que ela caminhasse em volta do convento, todos os dias, por três anos, até que ela cobrisse uma distância equivalente à da Cidade Santa.
Ao fim da jornada, a freira desmoronou, exausta. Chamaram um médico, que, após examiná-la, anunciou que ela estava fraca demais para fazer o caminho de volta.
A freira morreu pouco depois.
Tradução do conto “On the way to Jerusalem”, da Laurie Anderson, presente no disco The ugly one with the jewels.
O mundo pode não estar preparado para isso ainda, mas agora é tarde demais: está pronto o “Funk da Monga”, autoria de Zé Will, o que conhecia todas as funkarias antes de virarem moda. Ouçam, apreciem, espalhem!
Eu achava que o Life Gem (que transforma em diamantinhos coloridos seus defuntos queridos) já era o fim, mas daí, lendo a Details desse mês…
“If he was proud of it, and he enjoyed sharing it with you, wouldn’t he like you to have his penis and testicles to keep, treasure, and remember him by?”
From a promotion for Intimate Mementos, whose $2,400 “plastination” service preserves dead wood forever
A Perpétua, de Tieta, já fazia isso há dez anos.
Quando a Déia me mandou um e-mail convidando pra passar o Carnaval com ela numa vila de pescadores, sem luz elétrica nem água tratada, meu primeiro impulso foi dizer não. Não só pelo esquema meio "no limite", mas também porque deveria fazer economias se os planos que eu tenho para o resto do ano vão se concretizar.
Mas daí, ainda com as lembranças das praias em Floripa na memória, eu refleti melhor. Seria uma ótima oportunidade de conhecer um lugar novo, passar tempo com uma amiga querida, pegar um bronzeado e conhecer gente nova. Resolvendo me apertar pelos meses futuros, respondi que iria sim.
Uma semana depois, conversando com Cynthinha, ela disse que não sabia o que faria no Carnaval. Eu contei pra ela dos meus planos, e disse que se ela quisesse podia ir também que tinha lugar. Para minha surpresa, ela aceitou!
E foi assim que na sexta, dia 20, fugi do fechamento da Recesso (com o consentimento da Pri Chefinha) para pegar um busão às dez e meia da noite que nos levaria a Parati, numa viagem de seis horas, em média. Junto conosco ia Ruben, suas amigas paraguaias, Uana, sua ex-vizinha, e três amigas dela.
A viagem foi praticamente insone, com altos papos com Cynthia, e bastante rápida. Três e pouco da manhã estávamos na rodoviária de Parati, e carregamos nossas malas pelas ruas alagadas do centro histórico, pulando de pedra em pedra. Ruben conseguiu logo um barco que nos levasse até Cajaíba, a vila para onde íamos. Eu, que nunca tinha andado muito de barco, me surpreendi com o medo que senti da viagem de duas horas e tanto que iríamos fazer. Pegamos um chamado Mirage III, que saiu do cais ainda no escuro. Demorou vários minutos vendo os pontinhos fosforecentes que surgiam na água deslocada pelo barco pra eu me acalmar e deixar pra lá o que aconteceria se o barco balançasse e eu caísse no mar.
Chegamos em nosso destino pouco depois do dia raiar nublado. Íamos ficar numa casa amarela, na ponta da praia, feita de tijolos com puxadinhos de bambu em cima e ao lado. Me instalei numa cama do segundo andar, e peguei pra mim um mosquiteiro que estava lá dando sopa. Depois de comer um PF de lula típico, passei o resto do dia dormindo, me recuperando da viagem.
Havia quinze pessoas na casa, sendo a Déia o elo entre todos. O Luiz, marido da Déia, tinha comprado provisões barateiras para a sobrevivência sem geladeira: seis latas de leite em pó, quarenta pacotes de bolacha, R$ 0,50 cada uma, e alguns pacotes de macarrão que acabaram não sendo feitos. Logo aprendemos que andar de chinelo nas areias grossas da praia mais fazia mal que bem, e passamos a andar descalços.
No segundo dia de viagem resolvemos fazer uma trilha até a Praia Grande. Em teoria, em uma hora e meia chegaríamos lá. A verdade é que dias e mais dias de chuva haviam transformado o caminho, que já não era muito fácil, num lamaçal arriscadíssimo. Demoramos quase três horas pra chegar numa praia vizinha à que íamos, depois de encarar barrancos difíceis de subir e pior ainda pra descer, formigas canibais e raízes traiçoeiras. Nesse ponto, voltar a pé já era plano esquecido; metade do grupo ficou por lá mesmo, e seguimos nós, os destemidos bem-dispostos, até a tal Praia Grande, achar um barco que levasse todos de volta.
Mais uma hora e tanto pra chegar nela; meia hora pra chegar numa cachoeira, que era o objetivo de tanto esforço, onde perdi metade das unhas do pé esquerdo num escorregão numa pedra. Mais uma hora esperando surgir um barco que nos levasse de volta à nossa choupaninha, que àquela hora já nos parecia um Hilton. Quando o barco chegou na praia onde havíamos largado os outros, descobrimos que os facinhos tinham pegado o primeiro barco que passou e já deviam estar todos em casa. Só não ficamos com mais raiva porque as chaves estavam comigo, então todos passariam frio do mesmo jeito. Depois de quase cinco horas de sofrimento voluntário, a Déia não aguentou, e, tremendo de frio pela chuva que caía nela, somada ao vento inclemente (natural e do barco), começou a se castigar, dizendo "E eu que escolhi isso tudo!! Eu que escolhi!! AAAAAAA!!".
Os outros dias foram menos aventureiros, repletos de boas conversas, mosquitos famintos, banhos gelados, risadas calientes e nada de sol. No terceiro e quarto dias a Cynthinha descobriu a vida noturna da praia, o que a fazia sair de casa às dez da noite e voltar com o dia raiando. Se o protetor solar ficou quase inutilizado, o repelente de insetos foi essencial para nossa sobrevivência.
No último dia deu um mormaço (mas nada de sol), e eu não tive dúvidas: deitei na praia e fiquei lá cozinhando no vapor. Podia ir embora sem ver o sol, mas não ia voltar pra metrópole tão branco quanto fui. O plano deu certo; fiquei vermelhinho de um tanto que eu sabia que não ia nem descascar, e que no dia seguinte eu estaria mambo jambo como desejava.
Voltei para a civilização bastante feliz com meu feriado, contente por ter reforçado amizades antigas, ter feito algumas novas, e conhecido bastante gente. Não descansei tanto; disso aprendi que, para um ser urbanóide como eu relaxar, são necessárias luz elétrica e água tratada. Mas não voltei decepcionado nem tão pouco infeliz; como bem disse a Déia, "fui eu que escolhi!".
Não sei se pra todo mundo é assim, mas eu sempre prestei muita atenção nos retratos que se espalhavam à minha volta.
Na casa da Vó Maria, por exemplo, tinha um retrato do Vô Dico vestido de jogador de futebol, agachado no gramado, olhando pro infinito. A foto era em preto-e-branco, com o uniforme dele pintado de verde. O que sempre me deixou com uma interrogação na cabeça, já que o Vô Dico sempre foi corintiano.
(Isso sem mencionar um quadro na sala da vó, de um pescador escurinho e triste, que eu demorei até uns onze anos pra sacar que não era um retrato do meu vô, também pescador.)
Por um bom tempo, no corredor de que casa fosse que a gente estivesse morando, teve um retratão preto-e-branco de Mãinha, novinha em folha, que eu sempre achei muito bacana, mas ela não. Um belo dia o colchão ortopédico do Danilo quebrou no meio e o retrato sumiu. Descobrimos mais tarde que o retratão foi enfiado dentro do colchão, pra dar suporte à madeira quebrada que o fazia ser ortopédico.
Quando o tio Benê ainda tinha esperança de fazer de nós corintianos, tiraram um retrato meu e do meu irmão com a camisa do time, que virou uma folha de retratinhos 3×4 com vários níveis de exposição. Uma tirinha dessas fotos sobrevive até hoje na minha estante.
Mas, sem dúvida, o retrato mais legal de todos é um não fotográfico. Enquanto o Vô Anselmo teve o Locanda, um hotel em Nova Viçosa, sul da Bahia, Pai, Mãinha e filhotes iam passar o Ano Novo lá.
Me lembro de algumas coisas dessas viagens, a começar pelo suco de saquinho que nós bebíamos durante a viagem: pai enchia uma garrafa térmica enorme de gelo, e conforme o dia de viagem passava, a gente parava o carro e fazia qui-suco com a água que tinha derretido.
Uma vez a gente passou à noite numa ponte de madeira e corda, sem guarda lateral, que parecia que ia virar. Pai passou a pé por ela antes, pra testar sua resistência. Sei lá o que fariam se a ponte não resistisse aos pulinhos que ele deu e ela caísse como num filme do Indiana Jones.
Já no hotel, Pai saía pela praia e achava argila. Lembro de ele uma vez fazendo um pato meio com cara de homem, o que me impressionou muito já que eu só conseguia fazer minhocas. O pato ficou na prateleira da sede de praia do Locanda muito tempo.
A gente ficava sempre no mesmo quarto, o que eu achava muito chato. Os cafés da manhã eram enormes, cheios de sucos de frutas que eu não gostava, manteiga e geléia em potinhos redondos muito engraçados, e frutas que eu não comia. Em compensação, os funcionários do hotel faziam misto quente no Tostex pra mim sempre que eu pedia (o fato de eu ser neto do dono deve explicar isso). Um dia Vô Anselmo apareceu no café da manhã de camisolão, o que eu achei muito estranho. Em época de novela Roque Santeiro, a gente infernizava o povo do balcão de entrada, tocando a campainha em imitação à abertura da novela cada vez que passávamos por lá.
E, um belo dia, não sei da onde, como ou por que, um tio lá fez caricaturas da gente. Sei que o cara chama Jorge Braga porque, afinal, está assinado no desenho. Foram dois desenhos, posteriormente fotografados, ampliados e colocados na parede da sala: um de Mãinha, outro de Pai, eu e Meirmão. O de Mãinha era mais caricatural, com ela de duas bolinhas pretas de olhos, cabelo curto, bocão, dedicado à "mamãe gaga". Não durou muito o quadro desse; Mãinha logo deu sumiço na reprodução (percebemos um padrão aí?).
Já o dos meninos da família ficou muito, mas muito semelhante mesmo aos modelos. Lá está Pai, ainda cheio de cabelos pretos, com cara de paizão, uma mão no ombro de cada filhote, e cada filhote com cara de bobo e dentuço de dar dó. Eu sei que eu sou o da direita porque eu tinha feito um machucadinho no alto do nariz alguns dias antes, e o cara registrou para sempre no desenho o que, de outra maneira, seria apenas mais uma casquinha na minha vida. A dedicatória se explica pelo desenhista brincar que o pipi de Pai havia gaguejado fazendo a gente, razão de termos saído gêmeos.
Ironicamente, meu cabelo no momento, por indefinição de corte, está assustadoramente parecido com o que eu exibo no desenho, feito há exatos vinte anos. Queria ver o desenho que Jorge Braga faria hoje da gente. Se é que ele ainda faz isso.
Da Nova deste mês:
Descobri que meu namorado se masturbava vendo fotos de sites e vídeos com mulheres nuas. Não consegui aceitar e fiquei totalmente transtornada. Perdi até o interesse sexual por ele, pois pensava: “Já que o fofo pode se satisfazer sozinho, não precisa de uma namorada”. Brigamos e tive o pior mês da minha vida. Comecei a fazer terapia e a me tratar com homeopatia, mas foi só depois de ler “Confissões de um masturbador” (novembro) que me senti um pouco mais à vontade para lidar com o assunto. Estou começando a entender que essa prática é normal, que não tem a ver com traição.
Espero sinceramente que o “fofo” namorado dela não tenha reatado o namoro. Tenha dó…