
Sábado agora é Valentine’s Day, o dia dos namorados na terra de George Bush. Apesar de não ser uma data oficial aqui, se alguém for pressionado para mandar um cartão ao cacho, mande um destes. São fantásticos. O com “You’ll do” é o melhor de todos.
Assisti com a Kika, no sábado, a Encontros & Desencontros. Muito bom. Não tem pressa, toma todo tempo necessário para construir a relação entre os dois. Nunca torci tanto pra um casal não se beijar como nesse filme. Me incomoda um pouco ler críticas que dão mais ênfase aos seus trechos engraçados do que a seu conteúdo humano. Acho que o que mais toca nele é a proximidade daquela situação à vida real; todo mundo já se sentiu deslocado, sem ter ninguém que lhe diga o que você precisa ouvir, mas por outro lado também sem conseguir ter o ímpeto (ou a coragem) de mergulhar na alternativa quando ela se apresenta. Essa é a parte que realmente importa; não é preciso estar no Japão para passar por isso.
Terminei de ler Meu País Inventado, da Isabel Allende. Ficam aqui dois trechinhos bacanas, de vários:
“Na América Latina circula a seguinte piada: ‘Sabe por que nos Estados Unidos não há golpes militares? Porque lá não há embaixada norte-americana.’“
“Incorporei-me em tal medida à cultura californiana que hoje pratico meditação e faço terapia, embora esteja sempre a praticar minhas trapaças: durante a meditação invento histórias para não me entediar e, na terapia, invento mais algumas para não frustrar o psicólogo.”
Filme: “You’re in a middle life crisis. I’m sure your next step will be to buy a red Porsche”.
Kika: O Kil nem fez cinqüenta anos ainda e já quer comprar um Porsche!
Marcio!: É mesmo… O Kil é alguém que já nasceu com crise de meia-idade!
Kika: E aí, Anand, tá aprendendo muito com o MBA?
Anand: Ah, só tive uma aula até agora, mas posso te dizer uma coisa que eu já aprendi: tudo na vida é uma questão de projetos. Você tem que fazer planos.
Kika: Ah, não sei, não gosto de fazer planos, eles podem dar errado e você acaba se frustrando…
Anand: Mas eu não estou falando de expectativas, estou falando de projetos. O plano dar errado tem que estar incluído em todo projeto que você faz. Tem que ter planos. Por exemplo, Marcio, você tem planos?
Marcio!: Ah, eu tenho… Eu quero chegar um dia a ser diretor de arte de alguma revista, talvez ter estúdio, mas só bem pra frente; eu quero fazer um mestrado em design gráfico em uns dois anos; e eu pretendo deixar de estar solteiro em uns seis meses, espero.
Anand: Uau, legal, você tem planos para longo, médio e curto prazos.
Marcio!: E você, quais são os seus?
Anand: Eu quero ser pai.
Marcio!: Puta, que nobre.
Kika: Putz, sabe que eu às vezes não me vejo nesse papel?
Anand: Mas eu me vejo. Todas as outras conquistas, em carreira, dinheiro, é tudo para tornar possível esse meu plano.
Kil: Mas você vai deixar seus filhos usarem roupa, né?
Anand: Ah, meu, só porque eu andei pelado até os seis anos não quer dizer que eu necessariamente vá fazer a mesma coisa com meus filhos. Eu vou botar roupa neles. Talvez, depois de eles fazerem cinco anos…
Kil: Eu quero ganhar dinheiro, que daí a mulherada, etc., tudo vem junto.
Marcio!: Você quer um Porsche vermelho?
Kil: Com certeza!
Anand: Pode ser que eu não consiga, que meus planos dêem errado…
Kika: E que quem consiga a filharada seja o Kil!
Anand: É, daí eu vou passar na frente da sua casa, com uma loira com a metade da minha idade, um carrão importado, e vou dizer, entre lágrimas, “Você que é feliz, Kil! Você não sabe como eu te invejo!”.
Kil: Só…
Marcio!: Então, vamos ver um filme às nove e quarenta da noite amanhã?
Kil: Não dá, eu tenho que dormir, tenho que acordar cedo na segunda…
Marcio!: Larga mão, Kil, nós temos só 25 anos, perde algumas horinhas de sono, seja jovem!
Kil: Não, não dá, tô velho demais pra isso…
Kil: Vocês precisam ver que absurdo a profissão que tem lá o povo que faz videoclipe. Tem cara que é pago pra ser nipple tweaker
Miguel: Hein?! O que que é isso?
Kil: Meu, é um cara que é pago pra manter os bicos dos peitos dessas cantoras, tipo Jenniffer Lopez, Britney Spears, duros durante toda a gravação, pra aparecerem através da roupa no clipe!
Kika: Ah, cê tá brincando, não é possível!
Kil: É sim! Eu vi as fotos, numa tá ela com o peito normal, depois tem outra só com a mãozinha aparecendo, apertando o peitinho dela, e depois tá ela, de farol alto!
Marcio!: Mas, meu, ela não pode fazer isso sozinha, tipo, passar um cubo de gelo nela mesma…?
Kil: Sei lá! Só sei que tem até sindicato de nipple tweakers! É sério!
Kika: Kil, essa história tá com muito jeito de ser paia…
Kil: É verdade! Eu vi!
Terminados os Cadernos de Lanzarote e devorado o Equal Rites (mais um livrinho do Discworld pra coleção…), já cheguei na metade de Meu País Inventado, da Isabel Allende. Muito gostosinho; é impressionante como ela continua escrevendo sobre a família dela, e mesmo assim a gente não enjoa. Ela tem observações muito boas. Por exemplo:
Era bonita, tinha aquele jeito etéreo e vulnerável de algumas jovens de tempos anteriores, completamente desaparecido nesta nossa época em que mulheres praticam levantamento de peso.
Tudo começou na segunda vez que eu fui na Harmonia 698 assitir ao paredão do Big Brother com a Rê e a Barbara. Havia vários hóspedes novos no apê, chegados na última semana: a Simone, namorada do Manuka; um fotógrafo cujo nome ainda não aprendi, que veio fazer o Curso deste ano; e a Paula, que veio trabalhar no São Paulo Fashion Week como beauty.
Cheguei para a visita e encontrei-a cortando o cabelo da Rê no meio da cozinha deles. Pouco depois descobri que ela já tinha feito o cabelo da Barbara também. Fiquei com uma vontade de pedir que ela cortasse o meu, mas fiquei sem jeito.
Mas daí, na semana seguinte, passei na casa deles de novo, a Paula continuava lá, e, papo vai, papo vem, soltei uma indireta educada, ela disse que cortava meu cabelo sem o menor problema, se quisesse podia ser até naquele exato momento. Em respeito à sua canseira (tinha acabado de fazer o último dia do SPFW) deixei para o dia seguinte.
E assim, na caruda, surgi no apê dos Famous Frogs no dia seguinte, às dez da noite, para fazer o meu hair. Espalhamos jornal na cozinha deles, molhei o cabelo, sentei num banquinho, o Manuka amarrou um lençol preto enorme em volta do meu pescoço, e fiquei esperando por alguns minutos, feito um corvo gigante, a Paula vir exercer seu ofício.
Ela nem perguntou o que eu queria; e tudo bem, porque a idéia era mudar meu visu de acordo com os preceitos moderninhos vigentes. Ela catou uma navalha, um pente, e vup vup vup, foi desfiando minhas madeixas. Eu, suando debaixo do lençolzão preto, ia conversando com a Rê, confiando que ia ficar bom. Demorou mais do que o tempo que costumam dedicar ao meu corte no SoHo ou no Jean-Luc David, pelo menos. Quando terminou, eu estava com uma franja bagunçada e o cabelo elegantemente desarrumado. O conselho dela: "É bom você bagunçar aqui atrás, que tem uns buracos, e não põe mais o cabelo pra trás!".
Fui tomar uma cerveja com a Barbara, a Rê e alguns outros alunos do Curso. Por mais que eu tentasse, não conseguia esquecer que meu cabelo não tinha mais arquinhos em cima da testa como antes, não sabia o que fazer com a franja, não sabia avaliar se tinha ficado bom ou não… Que tinha ficado moderno eu sabia, só não sabia como ser moderno do jeito que meu corte merecia.
Hoje de manhã, então, a rotina mudou toda. Em geral arrumar meu cabelo era bem fácil, eu penteava ele pra trás, dependendo do dia balançava a cabeça pra ele ficar mais soltinho, e daí ele caía do jeito que me apetecia quando secava. E pra deixar ele desarrumado, com o cabelo mais ou menos pra frente, de um jeito que me agradasse? Dificílimo! Experimentei bagunçá-lo molhando e mexendo com os dedos, mas depois que ele secou virou uma qualquer coisa que me encheu de desgosto. Deixar as madeixas desarrumadas do jeito certo é mais difícil que parece.
Resolvi então tomar uma decisão drástica: desci até a farmácia e comprei um pote de gel. Acho que não tinha um desde que ganhei meu primeiro de Natal, quando tinha uns doze anos. Depois de analisar as opções disponíveis, comprei um "out of bed para efeito despenteado", que me pareceu o mais adequado. O fator decisivo na compra foi o texto do rótulo, que mostra como o gel nesses tempos modernos se desvirtuou e perdeu toda aquela que seria sua função primeva:
"Um creme que cria efeitos despenteados de longa duração, um look de quem acabou de acordar: arrepiados, despenteados e indisciplinados!! A textura é inacreditável: não é oleosa e facilita a separação dos fios e o movimento das mechas. É super fácil (sic) de modelar!"
(O grifo é meu, mas as exclamações são deles mesmo.)
Assim, fiz meus cabelitos ficarem indisciplinados como deveriam, e fui pro trabalho. Obviamente, o medo do que o povo acharia foi grande, mas aparentemente ficou muito bom, as pessoas gostaram (ou são todos mais falsos que nota de 40). E, agora que eu estou mais acostumado à minha nova realidade capilar, também estou gostando muito. Vai ser divertido brincar de amassar o cabelo todo dia. Provavelmente hei até de manter esse corte (ou falta de) por algum tempo.
Por isso, agradeço à Paula, que soltou a navalha no meu cabelo. Mudar é meio difícil, mas é bom. Valeu!
Morreu a Hilda Hilst, fiquei triste… Não vou fingir que conheço horrores a obra dela, que não conheço, mas tenho muita simpatia por ela. A “XV Trova”, baseada num poema dela, era uma das músicas que eu mais gostava de cantar quando estava no Gilberto Mendes. “Só quem ama é que sabe viver além da verdade e dar vida à fantasia…”. Vou tentar ler mais coisas dela. A começar por esse livro que a Déia resenhou para o Rabisco.
Fato por demais inusitado: estava aqui na redação trabalhando, quando chega uma mocinha com uma pasta debaixo do braço. “Oi, vocês poderiam preencher esses formulários com seus votos para o Troféu Imprensa?”. Inacreditável! Agora só falta surgir alguém do Ibope pra pedir minha opinião sobre qualquer coisa…
Citando meu ídalo Neil Gaiman, que expressou o que penso com a competência usual:
“In a world in which Bush and Blair can be nominated for the Nobel Peace Prize, ‘for having dared to take the necessary decision to launch a war on Iraq without having the support of the UN’ I find myself agreeing with Tom Lehrer: satire is dead.”