
Trabalhando em revista semanal, a correria é tão grande que só fui me dar conta de que as olimpíadas estavam chegando quando, duas semanas antes, fomos fazer matérias sobre o evento. Quer dizer, ela não estava totalmente esquecida; ela estava lá, no fim da fila, assim como a morte do papa, etc: coisas que você sabe que vão acontecer um dia, mas só vai se preocupar com isso quando chegar a hora.
Pois então, meio de agosto, a gente resolve dar um gás na quinta-feira porque queria assistir à abertura das Olimpíadas na sexta. Não funcionou muito. Mesmo assim, na sexta, depois do almoço, lá estavam as TVs da redação ligadas em Atenas.
A primeira Olimpíada que eu me dei conta na vida foi a de Seoul, principalmente porque se escrevia com esse "o" no meio que não se fala, e só lembro da abertura do fato que o Brasil era um dos últimos a entrar porque a ordem alfabética lá era diferente. A primeira abertura de Olimpíada que eu lembro é a de Barcelona, com uns bonecos em forma humana estilizada enormes, mil cores, etc. A de Atlanta eu lembro de achar bem ridícra. A de Sydney eu acho que não vi. Tenho que reconhecer que não tinha grandes expectativas pra de Atenas.
As TVs ligadas, o Galvão Bueno começou a falar, as imagens começaram a vir… e eu não conseguia parar de ver. Lindo de tudo, montes de água, coisas voando, nada extremamente tecnológico, apenas cenas emocionantes se sucedendo uma depois da outra… Designer tem esse encantamento com coisa linda, quando olhei pros lados nem parecia que era fechamento de edição, os quatro da arte olhando pra TV, soltando uma exclamação de vez em quando.
A gente desencanou de trabalhar e ficamos assitindo até as delegações começarem a entrar. O espetáculo era fantástico. Não sei como era ver ao vivo, mas via-se que tinha sido feito pra ser televisionado, o pessoal passando, a câmera pegando tudo no melhor ângulo… Só estragava a Glória Maria dando estatísticas de cinco em cinco minutos, e o mala do Galvão Bueno que não calava a boca.
A Pri disse que gostava de Olimpíadas porque o tom do mundo mudava, os jornais ficavam mais felizes, e é verdade. Por duas semanas a gente chegava no trabalho e ligava num canal de esporte pra assistir o que estivesse passando. A preferência era pras provas de ginástica, mas vimos esgrima, handebol, natação, arremesso de disco, salto ornamental, futebol feminino… No último set do primeiro jogo de vôlei do Brasil contra a Itália, o povo foi dispersando aos quinze pontos, estavam todos de pé aos 21, e, quando terminou aos 34 pontos, o andar todo estava comemorando. Ficamos frustrados com a Daiane, xingamos as meninas do vôlei que perderam um jogo ganho, e lamentamos as do futebol feminino, que mereciam ter ganhado.
Existem as questões filosóficas. Uma delas me acompanha desde criança: como é que um evento que tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo dura só duas semanas, numa cidade só, enquanto a Copa do Mundo, que é só de um esporte, dura um mês e ocupa um país inteiro? As outras são mais recentes. Como, por exemplo, quem foi o insano que um dia pensou "Hmmmm, já sei o que vou fazer. Vou fazer uma barra assim, mais estreita que seu pé, e vou fazer umas meninas ficarem dando saltos mortais em cima dela. Isso aí, parece bacana, acho que até vai ter umas doidas dispostas a fazer isso". Ou o que faz alguém saltar de dez metros de altura várias vezes por dia, sabendo na pele que, se cair errado, quebra um dedo ou algo assim. Ou por que as roupas da ginástica olímpica e do nado sincronizado são tão cafonas. Assuntos que só vêm à tona em tempos olímpicos.
Hoje fui adiantar uns serviços na Editora, e deixei a TV ligada. Sofri sozinho as duas horas da maratona, quis bater no maluco que sabotou o Vanderlei, e daí mudei de canal pra não perder o encerramento, já que aparentemente a ESPN não ia exibi-lo. Dessa vez fui mais esperto e deixei a TV ligado na Band, que o Carlos Nascimento é muito mais legal que o Galvão.
E foi de arrepiar. Não tão plasticamente bonito quanto a abertura, mas genial mesmo assim, usando idéias simples de efeito enorme, tudo muito bem filmado, a ponto de dar vontade de comprar o DVD pra assistir depois. O trabalho não rendia, mas tudo bem. Valia a pena trabalhar um pouco mais tarde pra ver aquilo.
E, pelo pouco que os chineses mostraram, a próxima, em Pequim, vai ter uma abertura mais exuberante ainda. Só a fichinha que eles deram lá foi de perder o fôlego. Esperarei ansiosamente. Até lá, a televisão volta à programação normal.
Num dos livros do Neil Gaiman, Crowley, um demônio que vive na Terra desde a expulsão de Adão e Eva do Paraíso, afirma que o homem é muito melhor em inventar coisas diabólicas e sem solução do que qualquer habitante oriundo das profundezas infernais. Eu tenho certeza de que um dos melhores exemplos disso é o cheque especial.
Não importa o quanto você se esforce, você acaba usando-o. E você jura que é a última vez e que mês que vem você vai segurar as pontas pra não cair no vermelho de novo. Triste ilusão. Na realidade, em geral se acaba usando quanto se tem de limite. Eu sei disso porque usava todo meu limite de duzentão quando tinha conta universitária. Agora eu tenho uma conta de gente grande, que, para meu desgosto, tem limite maior, que já foi usado inteiro várias vezes. Nada mais triste do que seu salário cair e mal cobrir o que você devia pro banco.
Volta e meia eu tenho surtos de anotar num caderninho (comprado especialmente pra isso) tudo o que eu gasto. Em geral não dura mais que algumas semanas. Até porque nunca a conta dá certa, com encargos do banco, CPMF, etc. e tal, daí o que já é mala de se fazer além de tudo fica frustrante. E, várias vezes, você esquece de alguma despesa, computa tudo errado, gasta mais que devia, e, quando vai ver, já está lá negativo de novo.
Mês passado, por N razões, eu estava no bico do corvo. Tão afundado no poço escarlate que não tinha como tirar dinheiro porque não ia sair nada mesmo. Fazendo valer o máximo possível a existência desmonetarizada que a Editora possibilita, me transportando só com vale transporte, comendo só no crachá. Tentando voltar antes de duas horas pra pagar uma condução só no bilhete único.
Tinha esquecido de pagar o telefone de um mês, e aguardava cair o pagório pra pagar essa e a atual, quando cortaram meu telefone. Não podia nem ler e-mail mais em casa. Nada mais deprimente.
Quarta-feira, com uma hora entre um compromisso e outro, morrendo de fome, resolvi tirar um saldo pra ver se dava pra espremer dérreal da sangria desatada que era minha conta.Fazia três semanas que não olhava pra minha conta pra não ficar deprimido. Longe dos olhos, longe do coração. Mas estava com tanta fome que estava desposto a comer uma coxinha com sabor de dívida. Entrei no banco sob os olhares cobradores dos caixas eletrônicos, me sentia mais e mais inadimplente a cada tecla pressionada, esperei segundos até imprimir o saldo, e… tinha cenlão na minha conta. Eu tava no azul.
O salário não podia ter caído ainda, só podia ser fraude. Tirei um extrato pra descobrir o que havia acontecido. E daí tive mais uma das experiências novas da vida adulta. Descobri que tinha caído minha restituição do imposto de renda. Dinheiro mágico assim do nada.
Fiquei tão feliz por não estar mais devendo nada que quase comprei uma revista francesa em comemoração. Mas tive que conter meus planos perdulários. Qualquer comprinha deve ser evitada até seus planos acontecerem, dizia eu. Comi um salgadinho sabor economia. Dois dias depois caiu o salário, e paguei tudo que devia à Telefónica, à Eletropaulo, ao condomínio, à loja de sapatos, e ainda sobrou uns troquinhos que estou tentando fazer durar o máximo possível. Segundo minhas contas, ainda devem restar vinte na beirada da conta corrente.
Correção. Fui conferir no site do banco. Tinha esquecido o pagamento do sapateado. Estou no vermelho outra vez.
Não vou conseguir me segurar. Acabei de ver um comercial de pasta de dente. A moça feinha dá um sorriso branco Omo pra um bonitão na piscina. Daí, quando ele vê a belezura do sorriso perolado dela, ela ganha olhos verdes, lábios grossos e peitão. E daí então a moça, depois do extreme makeover de dentifrício, levanta e dá um beijo nele. Benzadeus. Eu achava que esse tipo de comercial sexista e estúpido não acontecia mais.
Minha conta está no vermelho há tanto tempo que eu parei de olhar o saldo da conta pra não ficar deprimido. Ontem, num momento de fome e aperto, fui conferir a conta pra ver se dava pra espremer mais dez reais que eu não tinha e comer alguma coisa. Para a minha surpresa, descobri que ela estava positiva! Sem entender bem o que estava acontecendo, tirei um extrato, e, alegria alegria, já fazia uma semana que eu tinha recebido a restituição do imposto de renda e não sabia! Agora a meta é não entrar mais no cheque especial!! Disciplina, é o que é necessário. Se eu consegui passar essas duas últimas semanas sem gastar um tostão (graças aos vales transporte e às refeições crachazadas na Editora), eu consigo não entrar mais no vermelho.
Num país onde o presidente Juscelino Kubitschek levara a capital para o cerrado goiano por conta de um provesso decisório próximo daquele em que se escolhe um sabor de sorvete, a palavra planejamento soava mágica. O que fosse planejado, por não ser improvisado, seria necessariamente melhor.
- Elio Gaspari, A ditadura envergonhada
Aquilo que se devia à espontaneidade do sentimento popular desapareceu para em seu lugar surgir essa coisa que se chama “escolas de samba”, onde o mais sofisticado mau gosto se alia ao marginalismo de uma população que não soubemos até agora integrar no organismo nacional. [...] Não é a participação que o Continente Negro tenha fornecido para a nossa grandeza e cultura que está presente nesse triste espetáculo; o que dele se infere é que permanece ainda no seio da Nação aquilo que as ondas de africanos para aqui trazidos tinham de menos recomendável. É, numa palavra, a recrudescência da mentalidade primitiva do tribalismo negro.
- O Estado de São Paulo, 5/1/1965
A Cida do BBB4 estreou uma coluna na revista Viva Mais!. Ouçam a voz da sabedoria:
Quando era babá, saí de casa às 5 h, entrava às 7 h e largava às 18 h. Reclamava de não ter tempo pra malhar. Hoje, vejo que faltava determinação.
Putz, é verdade, o que as leitoras andam fazendo da meia-noite às seis?
There’s only now
There’s only here
Give in to love
Or live in fear
No other path
No other way
No day but today
Não há opção
A dor é vã
Não há amanhã
Comecei a semana num pique Rent
Que eu lembre, os anúncios para dia dos pais costumavam ter pais austeros, ou bonachões, ou elegantes, quem sabe até um careca ou dois. Este ano, no entanto, há de ficar marcado como o ano em que os pais ficaram sensuais. Anúncios de celular, de TV, de roupa, de shopping: todos com pais que mal fizeram trinta anos, malhados e bronzeados, muitos sem camisa, com barriga de tanquinho e um pimpolho de no máximo dois anos de idade por perto, pra tentar passar alguma paternidade ao modelão. A ditadura da estética agora começa a invadir o último bastião inexplorado.
Grifo mental nas altas horas de ontem à noite:
“She does not love you, and, truly, she never did. She will not change her mind, no matter how long nor how deeply you wish that this were the case. You will see her but one more time, long after all this is over, and the outcome of that meeting will not be satisfactory for either of you.”
- Neil Gaiman, Brief Lives