Daqui não passa
 
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Posts arquivados em Setembro 2004

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8 9 2004 0 00 00

 

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Enquanto não tem a cara bem coberta de espuma foge de olhar-se a direito no espelho, hoje vive arrependido de ter decidido pintar o cabelo, está como prisioneiro dos seus próprios artifícios, porque, mais do que o desagrado que lhe causa a sua imagem, o que ele não suporta é a ideia de que, deixando de pintar-se, os cabelos brancos que sabe ter lhe apareceriam de repente à luz, de uma só vez, como uma irrupção brutal, em lugar do lento avanço natural que por vaidade tola resolveu um dia interromper. São as pequenas misérias do espírito, que o corpo tem de pagar, ele que está sem culpas.
    - José Saramago, História do Cerco de Lisboa

Até ler isso eu tinha uma dúvida tênue se pintaria o cabelo ou não quando os fios brancos começassem a aparecer. Agora não a tenho mais. Vou deixá-los como vierem, para não correr o risco de ficar a vida toda aprisionado aos Wellatons da vida por vergonha da mudança súbita. Poeticamente, indo pra casa da Kika hoje, me olhei no espelho retrovisor do carro e lá estava um fio branco, saltando à vista bem na frente da cabeça.

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Ou então suponhamos que um homem perguntou a uma mulher, Amas-me, e ela se cala, olhando-o apenas, esfíngica e distante, recusando a dizer o Não que o destroçará, ou o Sim que os destroçaria, concluamos, pois, que o mundo estaria bem melhor se se contentasse cada um com o que vai dizendo, sem esperar que lhe respondessem, e, mais ainda, sem o pedir nem o desejar.
    - José Saramago, História do Cerco de Lisboa