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CS: Monte do Gozo - Santiago de Compostela

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30 10 2004 0 00 00

 

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Trem em algum lugar da Espanha, 19:37h

Missão cumprida.

Saí do Monte do Gozo um pouco antes de amanhecer, por volta das oito horas. Não imagine nada bucólico; a conurbação acontece até mesmo em trilhas de peregrinação, e mal se vê um matinho entre as ruas e calçadas que levam do Monte até Santiago. Diz a lenda que de onde eu saí daria pra ver a catedral de Santiago ao longe, ponto em que os peregrinos antigos caíam de joelhos e choravam de emoção, mas eu não consegui ver nada. Mas segui a tradição e desci o morro cantando; já tinha seguido todas as outras, não ia deixar essa de fora.

Entrada de Santiago de Compostela, começando a amanhecer.

Foram mais duas horas e pouco caminhando dentro da cidade até chegar na catedral. Em Santiago segue-se uma calçada amarela que te guia por esse restinho de caminho; você se sente praticamente indo pra Oz. Santiago é bastante grande, cheia de trânsito e prédios que tanto me apetecem. Entre uma avenida e outra acabei me perdendo um pouco, já que a calçada amarela não é tão presente assim, mas já tinha perdido o receio de perguntar faz tempo, encontrei uma senhora que ia pro mesmo lado que eu, e fomos conversando por boa parte do caminho, até ela me deixar num ponto sinalizado.

Cheguei na catedral por trás. Ela fica apertadinha no centro histórico de Santiago, cercada de turistas por todos os lados. Já tinha visto várias marcas de ferradura no Caminho, mas foi só lá que vi cavalos e cavaleiros. Decidido a apenas colocar o pé dentro da igreja passando pelo Portal da Glória, fui rodeando a catedral, passando por várias entradas, até encontrar a mais escondidinha e acanhada: lá era a famosa porta pela qual os peregrinos passam para se livrar de todos os seus pecados. Debaixo da chuvinha chata e persistente que me acompanhava há vários dias, passei pelo portal para bater com o nariz num monte de turistas que se apinhavam lá dentro. Não consegui encontrar sequer um cantinho pra encostar e refletir um pouco, então resolvi sair e voltar lá mais tarde.

Peregrinos a cavalo na praça da catedral.
A fachada da catedral, debaixo de chuva.

Andei montes e montes tentando encontrar um telefone público. Quando finalmente o encontrei, liguei pra Campinas pra dizer que tinha chegado, e acordei o Anselmo, que me informou meio mal-humorado que eram cinco da manhã, a mãe estava em Bauru, e ele não tinha o telefone da tia Lygia, e que eu ligasse quando a mãe voltasse, no dia seguinte. Vendo minha chegada apoteótica murchar, resolvi ligar pra Araraquara, acordei a tia Nilva, mas consegui o telefone da tia Lygia. Então, temendo que o cartão telefônico acabasse, liguei pra Bauru, acordei a tia, que meio sonada chamou minha mãe, e falei com ela até acabar o cartão, contando da minha chegada.

Dali fui para a oficina de peregrinos fazer meu certificado. Ganhei um diplominha em latim que se refere a mim como Martius, dizendo que fiz a peregrinação em ano santo. Deixei minha mochila lá e fui finalmente procurar algo pra comer. A chuva ainda insistia em cair quando, já alimentado, pude encarnar o turista e começar a explorar a catedral e arredores.

A igreja é supergrande, e ao redor dela se espalham várias barracas de camelô vendendo lembranças, terços e camisetas. O fluxo de gente é constante. Na parte inferior da igreja tem um museu do peregrino e uma loja oficial. Suas paredes são escuras, e ela não tem o jeitinho restaurado-estalando-de-nova das catedrais de Burgos e Léon.

Detalhe da fachada da catedral.

Fiquei andando meio a esmo até um pouco antes de começar a famosa missa do meio-dia. A nave da igreja estava lotadíssima de gente (isso porque já não era mais “alta temporada”, imagino como aquilo fica no verão), não tinha sequer onde sentar. Assisti a missa de pé, encostado num pilar, acompanhando o que acontecia no altar por um telão. As missas em espanhol são inteiras meio cantadas, o padre entoa tudo o que em português se fala. Foi só durante a missa que começou a realmente baixar em mim o que eu tinha conseguido fazer, que eu tinha finalmente chegado em Santiago, atingido o objetivo da minha caminhada. Comecei a pensar no que tinha mudado nesses dias, lembrar de todas as reflexões que tinha feito passo a passo, resoluções que pretendia seguir. Comecei a ficar todo comovido, equilibrando lágrimas nos olhos, me sentindo mais próximo com o divino… quando olho pro lado e percebo que está começando a cerimônia do botafumero, um incensário gigante que quatro padres balançam de um lado pro outro da catedral. A necessidade de fotografar tudo dominou o momento comovido, e imediatamente estava eu de pé tentando conseguir um ângulo decente pra registrar aquilo.

Órgão dentro da igreja.
A nave da catedral, apinhada de gente.
Um telãozinho na lateral pra gente conseguir acompanhar a missa.
Oito padres puxando a corda do botafumero.
O botafumero, rodeado de padres.

Andei um pouco mais dentro da igreja depois de terminada a missa, e daí resolvi ligar pra estação de trem e pra estação de ônibus pra descobrir quando saíam os transportes pra Barcelona, onde queria ir pra visitar a Déia Moroni. Liguei crente de que haveriam saídas de hora em hora, apenas pra descobrir que havia um único trem e um único ônibus saindo de Santiago pra Barcelona, o primeiro saindo às três e meia, e o segundo, às três horas. Eram duas e quinze, dava tempo de sobra pra entrar na catedral de novo, ver o túmulo do apóstolo Tiago e me mandar pra estação de trem.

Detalhe de uma das colunas da entrada frontal da igreja.
A imagem de Santiago que todos abraçam por trás, no alto do altar.

Daria, não fosse pela fila quilométrica que havia se formado na frente do Portal da Glória, por onde se chegava na tumba. Começando a me desesperar, entrei na fila. O que faria? Não podia ir embora sem ver o túmulo do apóstolo, não tinha andado 700 quilômetros pra voltar sem isso. Mas se ficasse na fila, com certeza perderia o trem. Se perdesse, só poderia pegar outro trem pra Barcelona no dia seguinte, e chegaria lá apenas no outro dia, pra pernoitar por lá e já tomar um ônibus pra Madrid na noite seguinte. Não valia a pena. Mas, então, se ficasse esses quatro dias restantes em Santiago, que diabos faria naquela cidade? Estava remoendo essas questões a quinze minutos já, numa fila que não se movia, quando me baixou uma inspiração, olhei pra saída desse circuito da tumba, e tinha uma freirinha saindo. É essa mesmo, pensei.

A frente da catedral, já com menos chuva.
Fila quilométrica pra ver a tumba do apóstolo.

Saí da fila, andei algumas centenas de metros até ela, e expliquei o melhor que podia que era peregrino, tinha vindo do Brasil, caminhado 700 quilômetros, tinha um trem pra pegar às três e meia, mas a fila não estava andando, e eu não poderia ir embora sem ver a tumba do apóstolo, mas também não podia perder o trem. Será que não tinha como me dar uma ajuda? Ela olhou bem pra mim, respirou fundo, e disse “a gente não devia fazer isso, mas vem aqui!”. Me pegou pela mão, entrou pelo caminho por onde tinha saído, chegou na escadinha atrás do altar, levantou a cordinha que organizava a fila e explicou minha situação para as pessoas, que me deixaram furar a fila. Abracei a estátua de Santiago, fiz meus pedidos, desci de trás do altar, desci outra escada, cheguei na tumba, vi o túmulo do apóstolo (bonito e simples, todo prateado), rezei rapidinho e saí. Fiz tudo o que tinha que fazer em dez minutos. E a fila não tinha andado ainda.

Um padre que estava na minha frente na fila pra tumba, abraçando a imagem de Santiago.
O túmulo do apóstolo, entre barras.

Dali, o tempo urgia. Fui correndo pra oficina de peregrinos resgatar a mochila, descobri como chegava na estação de trem, e no caminho até lá parei em algumas lojinhas comprar os souvenirs que me faltavam. Cheguei na estação quinze minutos antes da partida, comprei os bilhetes (um de Santiago até A Coruña, outro de A Coruña até Barcelona) e tomei rumo.

Realizado e cansado, no trem para A Coruña.

Os trens são confortáveis e limpinhos. O primeiro era de assentos normais; o outro era leito, com seis pessoas por cabines, que se instalavam num esquema meio beliche. Na minha cabine tinha um cara que estava voltando da marinha, vestido que nem o Pato Donald, e um outro peregrino, um cara do Zimbábue chamado Andrew. Ficamos trocando figurinhas da viagem por um bom tempo.

É meio estranho fazer a distância que percorri durante 23 dias toda em doze horas.

CS: Melide - Monte do Gozo

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29 10 2004 0 00 00

 

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Monte do Gozo, 20:13h

Hoje eu me provei que fiquei pró mesmo nesse negócio de andar.

O resto da caminhada ontem foi solitário e sem maiores percalços. O ponto alto do dia foi quando, depois da chuva ter começado e parado algumas vezes, começou a chover granizo. Era só o que faltava. Agora eu posso dizer que já enfrentei todo tipo de intempérie nesse caminho, tirando neve.

O albergue em Melide, onde parei, era mediano. Num quarto tinha uma família de franceses cheia de pirralhos loirinhos. Com meu francês recalcitrante, perguntei a um dos garotos o que significava aquilo e ele me explicou que a família inteira dele estava fazendo o Caminho. Não quis estragar o clima familiar de alvoroço e fui pra outro quarto. Lá encontrei outra brasileira, que está fazendo o Caminho pela segunda vez, sem a menor pressa. Queria chegar em Santiago dia 4, mas lamentava que provavelmente não conseguiria enrolar tanto e acabaria chegando antes.

Tomei banho num banheiro misto muito despudorado, que te deixava sujeito à observação de quem passasse na frente de sua cabine sem porta, fiz uma janta enlatada e me deitei pra ler a Crónica de una muerte anunciada, que comprei. Depois fiz algumas contas, e cheguei à conclusão de que, se seguisse o superguia, ia ter que acordar muito cedo no dia final pra chegar em Santiago a tempo de pegar a missa do meio-dia.

Durante a noite, sonhei que estava em Campinas com a minha família, e ficava desesperado de como ia voltar pra Espanha e chegar em Santiago sem pegar transporte nenhum, tinha tudo ido por água abaixo, 20 dias de caminhada jogados fora, até que despertei meio sobressaltado e me tranquilizei de que ainda estava na Espanha.

Amanhecer no albergue de Mélide, todos juntando os trapinhos na reta final.

Hoje de manhã decidi caminhar até Monte do Gozo. Seriam 46 km, mas poderia acordar no dia seguinte tranqüilo de que nada me faria perder a missa.

A menor cidade de todas que eu vi. Tem exatamente quatro casas, e não conseguia sequer ocupar o outro lado da rua..

Não foi fichinha, choveu praticamente o dia inteiro, mas os pés estavam bem, a bota resistiu à água, não ventou muito, consegui chegar no Monte do Gozo antes que escurecesse totalmente, molhado, cansado e realizado.

Lindas paisagens dividindo o caminho.
Florestas de eucaliptos e samambaias..
Marco de que estamos chegando na “Grande Santiago”..
O aeroporto de Santiago, atrás do qual o Caminho passa, a caminho do Monte do Gozo.

Monte do Gozo é uma cidadezinha satélite que se especializou em receber turistas com as mais diferentes intenções e destinos. O albergue fica num complexo enorme, num dentre vários barracões destinados a receber turistas. A permanência no primeiro dia era de graça, a partir do dia seguinte você tinha que se mudar para outro barracão e pagar hospedagem. Claro que, só pra judiar um pouco, o barracão dos peregrinos era um dos mais distantes da entrada, depois de uma escadaria enorme e de uma superladeira, enfrentados por mim sob chuva de dilúvio e mau humor. Comprei os víveres no mercado do complexo (nada que necessitasse ser esquentado) para que não tivesse que sair do prédio depois que me instalasse. Felizmente, a água do chuveiro estava angelicalmente quente, e assim meu estado ranzinza escorreu ralo abaixo.

Um pacote de Oreos e biscoitos Príncipe como recompensa por ter feito 46 km nesse dia.
O pessoal que ficou no meu quarto no albergue em Monte do Gozo.

Amanhã, Santiago.

CS: Triacastela - Portomarín

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28 10 2004 0 00 00

 

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Gonzar, 9:23h

Foi bom me desvencilhar da Shana, porque eu cheguei em Triacastela cinco e pouco, tentei descansar, me senti fedido, tomei um banho, fui no supermercado, voltei, já estava comendo, de noite, quando ela chegou. Não dá, assim.

No meu quarto no albergue tinha um casal de brasileiros por volta dos 50 anos, o Manuel e a Norma, que vêm de Sergipe. Gente boa, me passaram o endereço deles no Nordeste caso um dia eu passe por lá.

Pouco depois de sair de Triacastela. As chuvas do dia anterior derrubaram essa árvore, que ficou atravessada no Caminho e fez o pobre peregrino, com 10 quilos de mochila nas costas, pular dois muros pra dar a volta nela.

Tinha que fazer 41 km no dia seguinte, então parti cedo, ainda de noite, por volta das 7 da matina. A Shana saiu antes de mim e eu não cruzei com ela de novo, sei lá por onde ela ficou.

Monumento modernoso ao peregrino, em Sarria.

Cheguei em Sarria às 11:40h, um pouco depois do que eu queria, almocei e saí de la por volta das 12:40h. Sarria é a última cidade antes da marca dos cem quilômetros para Santiago, que é a distância mínima que um peregrino deve percorrer, então ela tira proveito disso de todas as maneiras, tentando convencer os preguiçosos a começarem a jornada lá e fazerem o mínimo necessário. Passei pelo marco de 100 km até Santiago quase uma hora depois. Foi bem emocionante, comecei a me dar conta de que estava chegando. Também passei por vacas, pastando bucolicamente, algumas andando na rua, mas não tive o receio de que estourassem e me pisoteassem até a morte como a Shana temeu no dia anterior.

O marco de 100 quilômetros, cheio de manifestações.
Eu, todo satisfeito e bronzeado, fazendo contagem regressiva.

Cheguei surpreendentemente cedo em Portomarín. Fui seguindo o Caminho e passei reto pela cidade, a sinalização da entrada deixou a desejar. Depois de andar um pouco, voltei, e daí fui pedindo informações até encontrar o albergue municipal, que era bem escondido. Meia hora depois, já a caminho do supermercado, perguntei que horas eram e me responderam 17:45h, para o meu pasmo. Impressionante, devo ter feito uns 5 km por hora.

Como tinha cozinha, resolvi jantar um omelete. Cheguei cheio de ingredientes do supermercado, só pra descobrir que o lugar, de tão novo, mal tinha panelas, e nada de garfo e faca. Fui pedindo pra um e pra outro, fiz a omelete numa panela gigante, ficou feio mas aceitável.

Terminei de ler El Plan Infinito, da Isabel Allende, meu primeiro livro em espanhol. Muito bacana, me identifiquei com o Gregory Reeves em vários momentos, principalmente quando ele ignora os defeitos da esposa pra tentar fazer a relação dar certo de qualquer jeito, e quando admite o medo da solidão.

No final, florestas e mais florestas.

Madruguei hoje também, afinal eram mais 40 km, mas já não tinha mais medo da distância. Infelizmente, como as coisas não podem ser simples, começou a chover meia hora depois da minha partida, e a chuvinha virou um toró. O impermeável da minha bota falhou pela primeira vez, e eu conheci mais uma sensação inédita, a de andar com os pés cheios d’água. Andei 8 km e parei aqui no albergue de Gonzar pra me secar um pouco e trocar de meias. Como está quentinho e os aquecedores ainda estão ligados, parei pra darum update no diário enquanto as coisas secam no aquecedor e, se tudo der certo, daqui a pouco a chuva diminui. Está ventando de um tanto que as janelas estão uivando. Tirei um copo d’água cheio de cada bota. Tô com um soninho, queria dormir… Coragem, faltam só mais 32 km hoje, e depois de amanhã você está em Santiago.

Virgem e Menino Jesus com cara de quem consumiu drogas pesadas.
A vida é um musical para o monumento ao peregrino de Palas de Rei.
Que satisfação, 65 km pra Santiago.
Apenas mais uma de inúmeras cidadezinhas de uma rua só pelas quais eu passei.
Registrando as bolhas feitas no Deoclécio.
As do Anacleto também, pra ele não ficar com ciúmes.

CS: Ponferrada - Vega de Valcarce - Triacastela

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26 10 2004 0 00 00

 

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El Cebrero, 12:34h

Estou me sentindo como o caminheiro que lá vai indo pro rumo da minha terra; fico aguardando que a qualquer momento alguém me apareça pedindo que por favor faça parada na casa branca da serra. Até porque serra é o que não faltava.

A costumeira chuva vespertina ameaçando quando saíamos de Villafranca del Bierzo

Eu e a Shana fizemos ontem os 38 km entre Ponferrada e Vega de Valcarce, o vale antes de começar a serra. Sabia que não seria fichinha, mas seria melhor que fazer 40 km de serra depois.

Fomos bem rápido até Cacabelos, a um terço da jornada. Lá tivemos mais um típico almoço espanhol. Primeiro, nunca põem mais de uma pessoa pra atender os clientes, não importa quantos haja. Como também só tem mais um na cozinha, o cardápio costuma ser bem limitado, com 3 opções de entrada e 3 de prato principal.

Aqui vivem à base de pão e batata. É pão pra começar, pra tarminar, pra acordar e pra dormir. E batata pra acompanhar tudo. De entrada eu tive um ensopado de carne com batata. E daí, de prato principal, frango refogado… com batata.

Além disso, capricham na gordura. E não acreditam em papel-toalha. Fritam os bifes, batatas e etc., e o prato vem pingando óleo, dá pra fritar outro bife com o que fica no fundo do prato.

Tem uma sopa típica daqui que é basicamente água, pão e alho com alguns temperos. Um dia a Shana foi comer uma, mas não a quis porque, segundo ela, com sua típica assepsia americana, “parecia com algo que fizeram com a sujeira que recolheram do fundo da pia”. Tentei comê-la, mas tinha tanta gordura de bacon, mas tanta, que depois de um tempo desisti de ficar desviando das gorduras e deixei o prato pra lá.

Um dia, vi na TV um programa matinal de culinária e variedades daqui, tipo Ana Maria Braga, em que estavam preparando “Ovos especiais”. As tias faziam batata frita, daí colocavam por cima dois ovos fritos (moles, claro), e daí, pra dar aquele sabor especial, fritavam alho e jogavam por cima, com óleo e tudo. E viva o colesterol!

Sem falar que os sanduíches aqui são de uma sinceridade desconcertante. Se você pede bocadillo de queso, vem pão e queijo, e só. Se quiser um tomate, faça o favor de pedi-lo.

Depois de Cacabellos comecei a me encher da Shana. A gente tinha parado num cybercafé antes de comer, porque ela queria ler seus e-mails. Eu achava que a gente ia almoçar lá mesmo, mas ela disse que queria procurar outro lugar porque não queria comer as refeições congeladas que lá serviam. Então, depois de 30 minutos de internê, gastamos mais 30 procurando um lugar decente, e uma hora comendo. Duas horas parados num dia em que tínhamos que andar 30 km.

Além disso dava no saco como tudo pra ela fede, ou não é higiênico, ou é estranho. Os americanos são muito etnocentristas. Mas ela achou que seria engraçado me mostrar, numa pausa de descanso, no meio da rua, um megacalo que ela tem no pé, que estava quase caindo, e me perguntar se eu queria um pedaço. Isso foi a gota d’água, porque aquilo era nojento. Daí ela me vem com um papo de que a gente tem que acordar mais cedo, e eu respondi que a gente tem é que fazer almoços mais curtos.

Parei de esperar por ela, como vinha fazendo nos últimos dias, e cheguei em Vega meia hora antes dela. Hoje ela saiu antes, eu me aprontei, tirei dinheiro com o cartão de Lermano, o que no fundo é melhor e vai evitar uma briga séria. Sou muito grato pelo o que ela me ajudou, me sustentando essa última semana, mas tanta convivência não estava dando certo. Sem falar que, conversando tanto em inglês, eu não ia praticar meu incipiente espanhol nunca. Agora posso ir no meu ritmo. Saí de Vega às nove e cheguei em O Cebreiro às 12. Muito bom. Agora tenho mais 20 km, 5 horas, moleza.

Névoa de manhãzinha, saindo de Vega de Valcarce.
Depois de quilômetros e quilômetros de planície marrom, os verdinhos voltaram a aparecer. Fez falta.
O marco da fronteira com a Galícia. Os espanhóis deixam mensagens separatistas em qualquer lugar que faça alguma menção às províncias.
Eu no Alto do San Roque. Subi todos os 1270 metros.
Um perro que veio me conferir quando sentei pra descansar um pouco em Fonfría.
A Galícia é toda rural, e cheia de vaquinhas pastando bucolicamente.

CS: Rabanal del Camino - Ponferrada

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24 10 2004 0 00 00

 

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Ponferrada, 21:34h

Hoje foi um dia muito esperado. A Déia já tinha me falado da Cruz de Ferro, um lugar em que cada peregrino que passa deixa uma pedra que trouxe de casa. Eu não trouxe uma de Sampa, porque no processo de fazer as malas me esqueci, mas carreguei uma no bolso desde o monumento ao peregrino depois de Pamplona. Anteontem pensei que a tinha perdido e fiquei muito triste, mas depois a encontrei no fundo da mochila e não me separei mais dela.

A pedra que carreguei de Pamplona até a Cruz de Ferro..

A idéia é que você deixe a pedra e peça proteção; além disso, parece que tem um trecho do Apocalipse que diz que no Juízo Final as pedras vão todas falar, então essa que você deixou, em teoria, testemunharia como você foi legal e peregrino.

Eu ao lado da Cruz de Ferro.

Saímos cedinho de Rabanal e andamos debaixo de chuva fraca, mas fria. A manhã estava cheia de névoas, e atravessamos ruínas sob brumas mais potentes que as de Avalon. Depois de caminhar duas horas, chegamos na Cruz.

Foto do chão do morro. Minha pedra ficou em cima da pedrona branca no meio da foto.

Nesses últimos tempos as pessoas ampliaram um pouco o conceito da pedra e, no alto do monte da Cruz, além de montes de pedras, tem sapatos, meias, latinhas, fotos 3×4, enfim, o que dá na telha deixar. O superguia acha isso o fim, mas tenho certeza de que, se há 600 anos as pessoas viessem deixando lá uma camisa usada, e agora aqui fosse uma pilha de dez metros de pano podre, ele ia achar lindo e tradicional. Fiz meus pedidos e depositei minha pedra lá em cima com carinho, pra não dizerem depois que eu joguei pedra na cruz.

O povo agora larga lá chinelo, camisa, garrafa d’água…

Andamos mais uma hora e pouco, e chegamos num vilarejo abandonado chamado Manjarín. Num de seus trechos típicos, o superguia diz que

Tomás, el hospitalero, ha conseguido crear en un pueblo abandonado un reducto de hospitalidad a la angua usanza. (…) Pocas comodidades, mucho trasto viejo y un cierto aire templario. El lugar puede gustar o no, pero a nadie deja insensible. (…) Refugio: gestionado por el Círculo Templario de Ponferrada, es uno de los más humildes y a la vez auténticos de la ruta. Tomás, el hospitalero, es una institución en el Camino de Santiago y destila hospitalidad por los cuatro costados. Ofrece 30 plazas en colchonetas en el suelo, y desde hace poco tiene luz eléctrica. Hay una pequeña cocina, único lujo del albergue, que no cuenta con agua corriente ni inodoros.

A entrada do albergue em Manjarín, com placas indicando as distâncias para Roma, Jerusalém, Machu Pichu…

Nem parece tão mal assim, né? Pos bem, paramos lá um pouco porque ofereciam uns biscoitinhos grátis, e, sinceramente, já vi favelas mais requintadas e acolhedoras que aquele barraco. Tinha um cara serrando lenha pra noite, e uma mulher meio perdida. Dez minutos depois que cheguei, quando já estava indo embora, aparecem uns caras com fantasias de templários que eu já vi jogador de RPG fazer melhor, e começam a tocar um sino e um povo se junta em volta. Com medo de me fazerem participar de alguma coisa, passei a mão em mais dois biscoitos e chispei dali. Se tivesse tido a infelicidade de escolher aquilo como parada, tenho certeza que superaria de longe San Juan de Ortega. Quanta tradição, passar uma noite como na Idade Média…

O resto do dia foi tranquilo, sem grandes sofrimentos. A paisagem mudou completamente, nada mais daquela planície marrom e cinza, tão plana que se vê a curvatura da terra; agora temos montanhas, árvores, riachinhos, é tudo muito lindo. A gente não sabe a falta que faz o verde pra andar até que tromba com ele de novo.

Chegamos em Ponferrada 6 e pouco, muito consados. Em León, como estava com bolhas nos dois pés, resolvi comprar o tal do Compeed, uma pele artificial que todo mundo diz que é miraculoso. Bem, não pra mim. O negócio se gruda e se molda com o calor do corpo. Como minhas bolhas ficam entre os dedos dos pés, ele se moldou ao vão deles quando ando, que não é bem a posição deles relaxados. Nos dois dias que fiquei com o troço fiz bolhas por baixo do Compeed anyway, o suor fez ele se soltar da pele e se grudar nas meias, e a criação de germes se deu tão bem ali entre um e outro que quando eu tirei o maldito Compeed estava tudo fétido e podre. Voltei ao bom e velho método de furar as bolhas com linha.

Totem no albergue de Ponferrada
Um castelo em Ponferrada.

A única cueca com costura que eu trouxe não aguentou o tranco e rasgou (ou seja, das 5 que eu trouxe agora tenho 3, já que me roubaram uma do varal de Burgos). A calça marrom está rasgando no lado direito, e as regatas pretas estão furando por causa do atrito. Estou me sentindo o menino-farrapo.

CS: León - Hospital de Orbigo - Rabanal del Camino

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23 10 2004 0 00 00

 

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Rabanal del Camino, 21:42h

O tchans mesmo da catedral de León são os vitrais.

A Catedral de León é linda mesmo, tem vitrais fora de série, mas gostei mais da de Burgos. Demos sorte de trombar com um guia que estava dando um tour prum grupo de velhinhos turistas em ingês, acompanhamos eles uns bocados na maior cara-de-pau, só me deixava afastar deles pra tirar fotos escondido. Assim descobri que os vitrais do lado norte têm cores quentes e as do sul, frias; que no século XVI acharam que uma área da catedral era muito simplezinha, então a encheram de adornos típicos da época; que, 400 anos depois, essa estrutura não aguentou o peso e ruiu, destruindo os vitrais desse pedaço, que tiveram que ser recriados do zero por artistas do século XX porque não havia registros de como eles eram; que a principal diferença dos vitrais do século XII pros do século XVI é o tamanho dos vidrinhos, menores no primeiro, porque em 1100 se pagava os trabalhadores com comida, então podia levar o tempo que fosse, mas em 1500 já se pagava em dinheiro, que era pouco, então o bispo mandou largar de frescura e usar vidros maiores que era mais rápido; que se usa ouro pra fazer vidro vermelho, então quanto mais vermelho tem um vitral, mais ele custa no seguro; que uma imagem da Maria Embarazada ficou escondida por séculos, porque o povo tinha dificuldade pra entender como Maria era virgem e podia ser grávida.

Mais vitrais, em fotos proibidas.
O altar da igreja, depois do que me chamaram a atenção.

Acabamos saindo bem tarde de León, às onze horas, e encontramos a Cary, da Noruega, no caminho. Ela tinha comido comida estragada dias atrás, e tinha ficado em Carrión um dia a mais, depois pegou um ônibus para León, esperou mais um dia e estava recomeçando sua peregrinação.

Eu prestando solidariedade a um monumento na calçada.
E bizoiando o monumento ao pintor.
Aqui, controlei meu ímpeto de calçar as sandálias da humildade do monumento ao peregrino.

Andamos 35 km nesse dia, o que foi normal no novo projeto de chegar logo. Liguei pra casa no fim da tarde e fiquei morrendo de saudades. Compramos os víveres da janta, já que as lojas em breve fechariam, e continuamos andando. Quando ainda faltavam 4 km pra chegar, anoiteceu. No começo achei muito lindo andar à luz do luar, mas a Shana me lembrou, com sua paranóia americana, que estávamos no meio do nada, e que a qualquer momento podia aparecer alguém e fazer algo com a gente. Começamos a andar rápido como há muito não andávamos, eu com uma sacola de compras em cada mão, ela segurando um spray de pimenta para revidar a quem nos atacasse, e a Cary se arrependendo que tinha se deixado levar pela gente.

Anoitecer na estrada, antes de entrar na nóia da Shana.

Mas chegamos bem em Hospital de Órbigo, por volta das nove da noite. Depois de procurar um tanto, encontramos o albergue. O lugar era frio e a mulher cobrou 3 euros pelo que devia ser de graça, mas a gente não tinha forças pra ir pra outro lugar. Pelo menos a água era quente, apesar de sair de um negócio do tamanho de um chuveirinho. A Shana conseguiu fazer a janta no fogão precário que tinha lá (“Até um isqueiro seria melhor que isso aqui”, disse ela), eu saí pra comprar bebida, um louco na rua me deu um puta susto, comprei um vinho no bar ao lado mesmo e jantamos os três antes de dormir.

Antes de partir voltamos alguns metros para ver o grande atrativo histórico da cidade, a ponte sobre o rio Órbigo. Diz o superguia:

El suceso histórico que le dio fama ocurrió en 1434, año jubilar, desde 15 días antes hasta 15 después de la festividad de Santiago (25 de julio). El caballero leonés don Suero de Quiñones dispuso un torneo en el que retaría a todo caballero que transitara por la ruta a romper tres lanzas contra él y nueve ayudantes. La excusa: una obligación de amor hecha a cierta señora por la que se comprometía todos los jueves a ponerse una argolla de hierro en torno al cuello y de la que quería librarse. Durante un mes, don Suero y sus mantenedores guerrearon con quien se ponía a su alconce. Cumplida la bravuconería, en la que sólo murió un caballero catalán a quien en un desliz le entró la lanza por el ojo, peregrinaron todos a Santiago, donde don Suero donó al apóstol un brazalete de oro de la desconocida dama.

A famosa ponte sobre o rio Óbigo.

Fizemos mais 34 km hoje. A Cary tava de saco cheio e acabou andando só 17, ficando em Astorga. Essa cidade já foi muito importante pros peregrinos na Idade Média; chegou a ter 25 hospitais de peregrinos, mesma quantidade de León, mas com apenas 1500 habitantes, dez vezes menos que a capital. Tanto que, como neles se dormia de graça, contrataram veedores, carinhas cuja função era percorrer os hospitais de noite e conferir quem estava lá, pra que o povo não ficasse morando de graça nos hospitais, dormindo em um diferente cada noite.

Registrando uma paradinha em San Justo de la Vega.

A cidade ainda é bacana. Passamos por uma catedral que demorou 300 anos pra ficar pronta, razão pela qual, suponho eu, tem uma torre de cada cor, e pelo Palácio Episcopal, feito por Gaudi. Mas não ficamos muito tempo por alí porque tínhamos muito o que andar.

Palacio Episcopal, do Gaudí.
Meson Cowboy perdido em El Ganso.

Pisamos no acelerador e andamos mais 20 km até Rabanal del Camino. Quando chegamos lá, era quase de noite, o albergue municipal estava cheio, então fomos pra outro, que cobrava 5 euros, mas era muito bacana. Comemos nele mesmo, e bem.

CS: Terradillos de los Templarios - El Burgo Ranero - Leon

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21 10 2004 0 00 00

 

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León, 21 de outubro, 8;05h

Estou num ponto em que eu percebi que fazer o Caminho é antes de tudo um ato de incomensurada teimosia. Você resolve que vai chegar ao fim, no dia X, e não deixa que os conselhos de terceiros, o tempo, o corpo ou seja o que for te demovam dessa idéia.

Além do arco-íris ainda tem mais de 300 quilômetros.

Anteontem foi um dia infernal. Anacleto, apesar de mais comportado, não deu paz o dia inteiro, sempre lembrava que estava lá. A tchurma ia fazer vinte e poucos quil&oacirc;metros, parando em Bercianos, mas o superguia dizia pra fazer 30 até El Burgo Ranero, e eu, que quero ir mais rápido que o guia, não mais devagar, resolvi que cumpriria a etapa inteira, para o assombro do povo. A Shana, coitada, se deixou convencer por mim e veio junto.

Foi mais um dia de vento cinematográfico, em que se fazia esforço só pra ficar de pé e o dobro para andar. Fomos enfrentando aquela estrada plana e reta o dia inteiro, andando em zigue-zague por causa da ventania, caminhando no asfalto porque meu pé não aguentava as irregularidades da trilha de terra e pedra ao lado. Se tivesse alguém olhando ia falar pra parar já essa brincadeira estúpida e voltar já pra casa.

Portal medieval em Sahagún.

Lógica do caminho: estou eu caminhando, com cara de sofrida determinação, quando, segundo a Shana, fiz uma cara de revelação divina, e olhei pra ela com cara de quem diria alguma coisa. Ela ficou esperando que eu dissesse que não aguentava mais, que isso era too much, que ia sentar lá onde estava e só saia dali de táxi. Abri a boca e disse, “Sabe o que me faria MUITO feliz agora? Um par de muletas!!”. Não um carro, nem uma carona… Muletas. Ela está rindo disso há dias.

Monumento ao peregrino em Bercianos.

Mas conseguimos chegar em El Burgo Ranero inteiros, se bem que tarde. Ontem fizemos outra prova de fogo: 37 km de EBR até León. Saímos cedinho pra não pegar tanto vento, mas fez um dia lindo, não ventou, fez até sol, deu até pra pendurar o supercasaco na mochila e andar de camiseta. Mas 37 km são 37 km, não foi fácil também, mas o Anacleto já está bem melhor. Mas fiz bolhas nos dois pés.

Continuando as comparações, León seria uma… sei lá, Ribeirão Preto de mil anos. Tem tudo o que precisa, maior que Logroño, menor que Burgos. Na entrada encontramos um outdoor do McDonald´s que anunciava um McMenu do Peregrino com sobremesa grátis, pude finalmente me sentir na civilização.

Civilização: na entrada de León, outdoor oferecendo McMenu do peregrino com sobremesa grátis.
León León León, es el rey de la creacción.
Frente da catedral de León.
Lateral da catedral, com os supervitrais vistos de fora.
Parte de trás da catedral.
Catedral de León vista à noite.

Mas chegamos tarde e não consegui visitar dentro da catedral de León, que dizem que também é linda de morrer. Então hoje estou fazendo uma horinha antes de partir (mais 32 km pra percorrer hoje) e visitar a igreja antes de colocar o pé na estrada.

CS: Carrion de los Condes - Terradillos de los Templarios

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19 10 2004 0 00 00

 

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Calzadilla del Cueza, 13:55h

A caminhada até Carrion não foi fichinha. A estrada marcava cada um dos 18 km que eu tinha que fazer até lá e Anacleto não fez de percorrê-los algo simples. Tive que conquistar cada metro, e depois de muito esforço, ainda me arrastar até o albergue. E no caminho ainda peguei minha primeira chuva, uns pingos sem-vergonha que só serviam pra irritar e nem molharam meus sapatos dos dois lados.

Dezoito sofridos quilômetros até Carrión de los Condes.
Peregrino outono-inverno 2004.
Monumento ao Ano Jacobeo de 2004.

Na cidade comprei um anti-inflamatório, que funcionaria mó bem se eu pudesse parar de andar, mas napresente situação teremos que ver o que o pobre consegue fazer.

Ainda chovia hoje de manhã quando comecei o trecho mais comprido sem nada que lembre civilização em todo o Caminho. Ventou bastante, o pé doeu bastante. Mais um teste de willpower. foi dureza, mas consegui chegar aqui em Calzadilla, onde fui recebido pelo Acácio, um hospedeiro brasileiro que vive num albergue aqui.

Ele se assustou quando eu disse que pretendia terminar o Caminho em mais doze dias. Me parece possível, veremos.

A Shana fez o trecho até aqui comigo e está morta de cansaço. Tô com dó de acordá-la e arrastá-la comigo, espero que resolva ficar, mas ela que sabe.

Terradillo de los Templarios, 19 de outubro, 21:22h

No fim das contas a Shana veio comigo, o que foi bom porque a gente veio devagarinho e conversando. O Anacleto não deu muito descanso, mas foi possível chegar até aqui passo a passo. Se eu reclamei da chuva sem-vergonha de ontem, hoje não posso reclamar mais: choveu cântaros, chegamos totalmente ensopados, mas o supercasaco deu conta do recado e me manteve quentinho e seco por dentro; o casaco de chuva que eu trouxe do Brasil foi amarrado em volta da mochila, o saco de lixo embrulhou o saco de dormir, e tudo chegou relativamente seco.

Botas molhadas, pés cansados.
Chegada com a Shana no albergue depois de dia sofrido e primeira chuva.

Estamos no único lugar em que se pode ficar nesse buraco em que paramos. Se entitula albergue mas custa acachapantes 7 euros, e o pessoal aqui não tem o menor espírito de peregrino, tudo é business. Mas tem banho superquente em banheiros individuais, deu pra curtir o banho com tranquilidade.

De tanto andar, os pêlos da parte de dentro das coxas caíram todos, tadinhos.

Fiz o lanchinho de sempre mas guardei metade do sanduba pro almoço de amanhã. As roupas estão todas enxarcadas da chuva que deu no caminho, e agora estão secando nos aquecedores.

Roupas e botas no aquecedor, na esperança de que sequem.

CS: Hontanas - Itero de la Verga - Carrion de los Condes

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18 10 2004 0 00 00

 

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Frómista, 11:45h

Restos do Convento de San Antón, em Castrojeriz.
Ana com o vale ao fundo.
Eu, Ana e Oriol no marco em Alto de Mostelares.

Agora já acabei de batizar tudo que é importante nessa viagem. Meu pé esquerdo é o Deoclécio e o direito é o Anacleto. A perna esquerda se chama Cleotilde e a direita, Clementina. O saco de dormir é o Morfeu, nos braços de quem durmo, e a mochila é a Marilaine Valeska, que se abre toda para que eu enfie nela o que quiser.

Terminei os batismos porque o pé direito começou a doer ontem. O esquerdo ganhou seu nome nas conversas que tive com ele para que chegássemos a Estella. Depois de sairmos de Hontanas o pé direito deu sinais de revolta, e eu tive que bater um papo sério com ele.

O Oriol estava doente, o Gerardo, mal das pernas, o Juan, cansado, o Juanmar, com preguiça, então resolvemos todos percorrer apenas 18 km e parar em Itero de la Veiga, pra ver se os problemas passavam. Ficamos num albergue pequenininho, não tinha mais que 20 lugares se contassem os colchões no chão, ficou só a patota, foi bem legal, apesar de não ter nada na cidade. Tinha água quente e um computador com internê grátis só pra gente, o que me permitiu deixar o Chão super up to date.

À frente, mais planície.

Comi sanduíches, li muito e dormi cedo. Despertei com os roncos do argentino várias vezes. Agora estou na cidade onde deveria ter parado ontem, Frómista. Mais 20 km até a cidade programada para hoje, Carrión de los Condes. Não devo ter muitos problemas pra fazê-lo, estou bebendo bastante água, tomei um anti-inflamatório, Anacleto não tem porque reclamar.

Na entrada de Frómista passa o Canal de Castilla. Começou a ser construído em 1757 e foi concluído em 1845. Feito inicialmente pra transporte (uma balsa podia carregar a carga de 30 carros de boi, ó só que tecnologia de ponta), permitiu a irrigação da área e o surgimento de várias fabriquetas movidas a moinho d’água. Até que no fim do século XIX veio a estrada de ferro e o canal de ser navegado.

Canal de Castilla, em Frómista.
Igreja de San Martín, em Frómista.

CS: San Juan - Burgos - Hontanas

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16 10 2004 0 00 00

 

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Hontanas, 16 de outubro, 20:20h

De Roncesvalles a Santiago
no se llega con sólo un trago
si vas a hacer el camino
imposible sin daile al vino

De Madrid, Catalunya, Toledo
Bilbao, Brasil
Andalucia y Valencia
todos unidos al vino
brindando por el camino
y fijále que hasta al argentino
se une a lo del vino
a este ritmo a Santiago
llegamos haciendo el pino

Pensareis que con tanto vino
nos pueda dar un calambre
pero recuerda amigo
el vino hace sangre

Não pude escrever ontem, muito o que fazer e acontecer.

A caminhada do Albergue do Inferno até Burgos não foi difícil. Acompanhei Ángel e sua patota por alguns trechos, mas os deixei pra trás numa das paradas intermináveis que eles fazem, o que acabou sendo melhor.

Se Logroño é uma Araraquara de mil anos, Burgos é uma Campinas de mil anos. É nessas horas que eu vejo como sou urbanóide e adoro cidades grandes. Minha alegria ao ver carros, trânsito, viadutos, congestionamento e poluição foi sem fim, para o desgosto do superguia, que foi escrito por algum natureba que gostaria de viver numa casa no campo e ouvir muitos rocks rurais.

Andei muito pela zona industrial até chegar à urbana, onde finalmente encontrei onde comprar um cartão telefônico que me permitisse ligar pra casa mais baratinho. Depois andei andei e andei até chegar na Catedral de Burgos, que é de cair o queixo. Um disparate de tão linda. Depois de tirar muitas e muitas fotos, andei mais um tanto até o albergue, que ficava no campus da universidade.

Atacando a Catedral de Burgos pelo flanco.
Ela de frente, toda linda, com tempo meio feio.
Detalhe da fachada .

Cheguei lá mas não parei. Depois de tomar banho, fui de volta pra cidade velha de Burgos. A temperatura está caindo, o vento está ficando severo, e eu precisava de um casaco mais fortinho. Não dava mais pra postergar, tirei dinheiro no cartão de crédito internacional de Lermano e fui às compras.

Cheguei ao centro por um parque muito lindo que fizeram às margens de todo o rio que passa por Burgos. Vi o monumento a El Cid, depois achei onde comprar um casaco, muito bacana, aliás, e daí corri pra poder ver a Catedral por dentro.

Monumento a El Cid, em Burgos.
Entrada para a parte aberta a exposição da Catedral.

Que consegue ser mais linda ainda. Cheia de capelas e coisas pra ver, cada cantinho tem uma escultura, fiquei andando lá embasbacado e me arrependendo de não ter pegado um guia eletrônico que me explicasse tudo. Fiquei até contente de não poder tirar fotos, porque ia gastar o cartão todo e não ia registrar a Catedral direito.

Saí de lá correndo pra chegar no refeitório universitário e ter a primeira refeição decente e barata em dias. O Xave a Joana estavam se despedindo, iam voltar pra casa, estava tendo uma festinha de despedida, foi bacana.

Primeira refeição colorida em dias, no restaurante universitário, em Burgos.
Bandejão de despedida de Xave e Joana.

No dia seguinte, fiquei muito contente de ter comprado o supercasaco, porque estava fazendo um frio terrível, pior ainda com o vento. Ventou o dia inteiro, a gente andava por uma planície que não oferecia resistência nenhuma à ventania, fiquei esperando ver passar uma vaca voando a qualquer momento. Andei de óculos escuros não por causa do sol, mas pra proteger os olhos da poeira. Tinha que fazer força pra resistir aos pés-de-vento, me inclinando pra frente pra caminhar, parecia cena de filme.

Fonte esquisita em Villalbilla.
Shana sendo açoitada pelo vento inclemente.
Tudo plano e marrom. Para parar o vento, apenas nós.
Hornillos del Camino, láááááá ao fundo.

Certo momento, depois de muito sofrimento e horas de caminhada, encontramos a placa que dizia “Hontanas, 0,5 km”. E nem sinal dela. Andei mais 400 metros, e vi uma cruzinha. Mais cinquenta, e daí finalmente encontrei a cidade escondida num buraco. A cruzinha era da torre da igreja, que ficava na nossa altura antes de descermos a ladeira de entrada da vila. Mais uma pro caderninho.