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San Juan de Ortega, 14 de outubro, 20:45h
Dei uma adiantadinha porque não aconteceu nada tão emocionante nos últimos dias além de que eu comprei outra caneta preta. Não se ofendam.
Dormi ontem em Belorado, e caminhei pela manhã até Valdecilla, onde encontrei um albergue que oferecia internet de graça. Sentei pra atualizar o Chão um pouco, e daí lembrei que a Heather, uma americana que estava andando com a gente, queria imprimir o absentee vote dela pra que ela pudesse votar na eleição pra presidente dos EUA à distância. Fui todo cavalheiro e ofereci pra que ela usasse primeiro, pensando que seria rapidinho. A maldita sentou no computador com outra americana, as duas ficaram uma hora e pouco procurando N formulários que precisavam (e que não era o mesmo pras duas, porque eram de estados diferentes), quando largaram eu já tinha colocado em dia as legendas das fotos, o diário e quase tinha começado a cortar as unhas. Quando finalmente pude escrever no Chão, deu pau no Blogger e não publicou nada. Fui embora meio revoltado.
O albergue em Belorado é limpinho e tão novo que não tinha cozinha ainda. À noite o povo organizou uma sanduichada, comi sanduiche de presunto, queijo, tomate e abacate, tudo regado a vinho, que aqui é muito mais barato que Coca-Cola. Foi outro daqueles momentos genuinamente felizes dessa viagem.
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A caminhada hoje foi bem tranquila, solitária, passando por bosques que me lembravam a idéia que eu tinha da floresta de Sherwood. Diz a lenda que esse era realmente um trecho temido pelos peregrinos do passado, porque saqueadores armavam emboscadas no bosque e roubavam os pobres viajantes. Agora não acontece mais isso, não se vê viva alma. Foi floresta e mais floresta, a cidade parecia não chegar nunca, fiquei tão feliz quando ouvi o sino da igreja mesmo sem ver nada, e depois de mais alguns metros, fazer uma curva e ver a vilinha onde ficaria à noite.
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Ela se chama San Juan de Ortega, por conta de um discípulo de Santo Domingo de la Calzada que está enterrado aqui. O albergue fica na casa do padre. Como dizia o superguia, não tem água quente. Como não queria ficar sem banho, provei que sou muito macho e tomei banho gelado mesmo estando uns 12 graus. Depois jurei por Tara, com um sabonete na mão, que jamais tomaria banho gelado novamente.
Vinte minutos depois, Ángel e as americanas chegaram, ele passou uma conversa na irmã do padre e ela ligou a água quente por alguns euros. Que queime nos mármores do inferno. Quando perguntada onde se podia lavar a roupa, ela disse toda desenxabida que poderíamos usar a fonte na frente da igreja.
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No único bar do lugar, ao lado do albergue, o garçon é meio retardado, e não deixa sentarem mais de quatro pessoas por mesa pra não se confundir. Atendia às mesas numa ordem certa, e você tinha que esperar ele atender todas antes de poder pedir alguma coisa a mais.
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Hora de dormir, não havia calefação ou uma lareira sequer no albergue, me enrolei no saco de dormir o melhor que pude e torci pra que não ficasse muito mais frio que 10 graus, a temperatura indicada pra ele. Esse ficará para sempre conhecido como o Albergue do Inferno.
Navarrete, 10:25h
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A caminhada ontem foi tranquila. O que o guia dizia era verdade: você logo vê Viana, a cidade onde almoçaríamos, de longe, mas por mais que ande ela parece não chegar nunca. Andei um tempão com um casal de espanhóis. A mulher, Marijosé, me explicou a situação toda do País Vasco, me disse quais são as maiores cidades da Espanha e porque todo mundo aqui conhece o Carlinhos Brown.
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Logroño, a cidade onde íamos dormir, também custou a chegar. Nós a vímos ao longe e tínhamos que pegar uma estrada carmim que dava voltas e voltas na cidade, desviando de reservinhas ecológicas e um lago. Pura crueldade. Devem pensar, “se já andaram tanto, não faz diferença andar mais 2 km”. Andei com a Ana, o Oriol, o Xave e a Joana seguindo a estrada do cimento vermelho.
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O albergue era lindo, limpinho e tinha internet de graça. Escrevi um pouco mais no Chão, mas não quis alugar o lugar muito. Enquanto escrevia, a Shena, que sabia dos meus apuros financeiros, veio e me deu 50 euros. Me disse que tinha separado 50 dólares por dia pra viagem, mas que definitivamente não estava gastando tanto, então podia me dar uma ajuda. Jamais terei como agradecê-la devidamente pela paz de espírito que ela me deu. Lhe escrevi uma cartinha e lhe dei uma nota de 2 reais de lembrança.
Depois fui passear por Logroño. Posso afirmar que é uma Araraquara de mil anos: não é muito grande, mas tem todos os serviços necessários para uma vida civilizada, bastante carros mas não tem engarrafamento ainda.
No Brasil as faixas de pedestre são algo que tenuamente diz ao motorista que deveriam tomar cuidado se alguém tentar atravessar a rua, mas que os pedestres são espertos e sabem correr rapidinho quando necessário, então o motorista não deve se preocupar muito. Ainda não me acostumei muito com o esquema aqui. Eles dão preferência total ao pedestre, e param o carro esperando que você passe. Cheguei numa calçada, tinha um carro só pra passar, fiquei lá esperando que ele passasse pra atravessar, ele parou o carro e ficou lá esperando que eu atravessasse. Ficamos um tempo nesse impasse até que resolvi passar então e acabar com esse vai-não-vai tão bonito de uma vez.
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A etapa hoje é bem simples. Tem só uma cidade no meio, Navarrete, onde estou, e daí mais 16 km até Nájera. Andei tranquilo até aqui.
Perdi minha caneta preta.
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Villamayor de Monjardin, 11:24h
Rodei Estella ontem a tarde inteira, de hawaianas e pé doído. Não devia, mas não ia deixar de fazer meu turismo. A cidade é razoavelmente grande, cheia de lojas e muito bonita. Tem um parque lindo e um ex-convento que virou cinema.
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Descobri que pode-se comprar selos em tabacarias, ó só que apropriado. O Gerardo me comprou dez, já estou mandando-os para as pessoas.
À noite resolvi ceder às minhas sérias restrições orçamentárias e comprei comidas no supermercado para fazer a janta no albergue. Comprei macarrão, molho de tomate, atum e biscoitos Príncipe (leve 4 e pague 3, fiquei tão feliz), arrastei minha carcaça mais um pouco pela cidade, manquitolando, consegui ver as igrejas que estavam fechadas antes e fui pro albergue.
A cozinha estava repleta de gente alegre fazendo comida. Uma tia fazia paella para vários, outros esquentavam comida enlatada. Achei uma boca de fogão para mim e comecei a preparar o rango. Vinte minutos depois estava eu sentado na mesona, comendo e conversando com o povo. Era inevitável comparar meu menu do peregrino do dia anterior, tão triste e solitário, com esse meu macarrãozinho universiário tão feliz e contente. Todos conversavam muito, um oferecia vinho, outro ramón com tomate. Sobrou até paella para mim.
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Um pouco depois, presenciei uma cena tão bacana: um inglês chegou, bobo que podia fazer comida. O povo não só disse que podia, como cada um deu um pouco do seu prato pra encher um prato pra ele.
Los Arcos, 20:48h
Saí de Estella devagarinho. Meu pé esquerdo doía terrivelmente, mal podia me apoiar nele. A mulher do albergue me disse que eu podia ficar mais um dia lá, mas eu disse que não, não perderia um dia inteiro no mesmo lugar.
Mal pude aproveitar a fonte de vinho, saindo de Estella, em que uma torneira dá água, outra vinho. Bebi um pouco, e logo depois continuei a andar centímetro por centímetro, aprendendo como pisar para que o pé doesse um pouco menos.
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Logo depois me irritei com a jaqueta que o pai tinha me dado, que usava pela primeira vez, porque estava suando bicas apesar de estar bastante frio e não estar andando rápido. Tive um acesso de raiva, tirei a jaqueta, tentei pendurá-la na mochila com os alfinetes que a Shena tinha me dado no dia anterior, mas não dava, porque era grande demais. Então olhei bem pra ela, fiz as contas, e a deixei na cerca de uma construção, para que fizesse um operário mais feliz do que me fez.
Fui aprendendo lições de humildade conforme todos iam me ultrapassando. Depois de uma hora e pouco de caminhada dolorosa, encontrei duas velhinhas tirolesas que estavam andando contentes da vida com mochilas maiores que elas. A gente conversou um pouco, elas me perguntaram como eu estava, e eu disse que estava com os tendões doendo. Elas baixaram a mochila e me deram seis comprimidos que, segundo elas, resolveria tudo em meia hora. No estado em que estava eu aceitaria até veneno de rato, e tomei a pilulinha com alegria e lágrimas nos olhos por conta da bondade delas. E, realmente, em meia hora a dor já era bem melhor. Não sei o que me deram, mas funcionou que foi uma beleza.
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Parei numa cidadezinha em que ofereciam café da manhã grátis, Villamayor de Monjardin. O dono do albergue que oferecia o café morou no Brasil quando era criança, e, assim que soube que eu era brasileiro, correu pra dentro e botou um CD da Clara Nunes pra tocar. Me senti tão importante.
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Depois dessa vila eram quinze quilômetros de sol, sem cidadezinhas onde conseguir água ou parar. Depois de uns cinco quilômetros, encontrei uma blusa de frio que alguém deixou no caminho. “Ra ra ra ra, alguém teve a mesma idéia que eu”, pensei. Passei reto. Depois, um ciclista veio com a blusa na garupa, perguntando se era minha. Não, magina, nem. Pois bem.
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Cheguei em Los Arcos, me instalei no albergue, caiu a tarde… e começou a fazer um frio do cão. E eu não tinha blusa. Tentei aguentar, mas não dava. Com dor no coração, me sentindo um idiota por não ter pegado a blusa que tinha encontrado no caminho, fui na loja e gastei meu precioso dinheirinho comprando um moleton. E viva as finanças pessoais.
Estella, 16:55h
Agora sim eu sei porque você pode passar pela porta lá em Santiago e ficar sem pecados. Com certeza você já pagou todos eles no caminho.
Antes de dormir ontem fui num restaurante e pedi um menu del peregrino. Veio uma salada até bacana, uma chuleta com batata frita gordurosas, e um sorvete de limão duro, regados a água. Por acachapantes 9 euros. Assim não dá.
Depois me reuni com la juventud no quintal do albergue, e tentei acompanhar as conversas. Tem gente de montes de países aqui, dá pra falar espanhol, francês e inglés, o problema é a ginástica mental que tem que fazer pra responder na língua certa.
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Já estava todo confiante do meu preparo físico quando parti esta manhã. Mas logo no começo da caminhada senti qual seria o drama do resto do dia. Estão construindo ou ampliando uma rodovia que passa pelo caminho em vários trechos, então os responsáveis arranjaram para os peregrinos vários “desvios provisionales” que o aumentou em cinco quilômetros de subidas cruéis. Fui pegando raiva de cada placa de desvio que eu via no caminho.
Num desses, no alto de um morro, começou a ventar ferozmente, e eu, praticamente um barco a vela com minha mochila nas costas, tinha que compensar pra não ser empurrado pro lado.
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Outra peculiaridade do comércio aqui está me irritando. Os correios só abrem das nove às onze. Se você acontece de estar na estrada nesse horário ou numa cidadezinha que não tem correio, azar o seu. Eu não consigo encontrar um correio aberto, não tenho como mandar os postais que já comprei, a situação é complicada.
Na primeira vila por que passamos hoje, Mañeru, tinha uma tiazinha que vendia café da manhã. Fui lá perguntar o que tinha, mas nada me agradou muito, então perguntei se tinha um correio. Ela me perguntou o que eu ia querer, e eu disse que nada, só queria saber onde era o correio. Ela me respondeu por que raios então eu tinha feito ela dizer o menu inteiro se só queria saber isso. Mas explicou onde ficava. O povo aqui fica ofendido muito fácil.
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Minhas meias não secaram de ontem pra hoje, e tive que levá-las penduradas na mochila com um prendedor, junto com a cueca que também estava úmida, para que fossem secando no caminho. Logo antes de chegar em Mañeru a cueca e uma das meias caiu e eu não notei; felizmente a Ana, da Espanha, as pegou pra mim, deu um grito e veio entregá-las para seu constrangido dono. Então passei a carregá-las penduradas na frente, onde poderia vigiá-las.
Pelo meio da jornada meu pé esquerdo começou a doer como se eu o tivese torcido, o que, pelo menos pelo que me lembro, não aconteceu. Ele reclamava a cada passo, mas eu expliquei pra ele que não adiantava, que eu não ia parar até chegar em Estella. Ele não foi muito compreensivo e ficou resmungando o tempo todo. Nos últimos quilômetros me peguei naquele esquema “rio, rio, rio, rio pra não chorar”, era desesperador.
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Cheguei fétido e miserável no albergue em Estella, foi uma alegria num mundo de água quente tomar banho. Fui deitar no beliche e notei uma bolha gigantesca entre o dedão e o segundo dedo do pé esquerdo. Passei agulha e linha por ela sem dó.
Puente La Reina, 16:47h
Primeiro dia de caminhada, aparentemente um sucesso.
Dormi razoavelmente bem no albergue em Pamplona. Havia alguns roncadores no quarto, que me acordaram algumas vezes, quase levantei para virar eles de lado, mas tive preguiça. Às seis e meia o povo começou a acordar e a movimentação me despertou. Um pouco depois a tiazinha do alguergue foi lá acordar aqueles que conseguiam dormir com a luz acesa e o povo falando enquanto se arrumava.
Saí do albergue sete e pouco, e ainda estava escuro. Não consegui ver Pamplona à luz do dia. No entanto, foi bem fácil sair dela; as flechinhas amarelas estavam por toda parte, indicando o caminho.
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Logo na saída cruzei com o Mark, um suíço que morava em Londres. Durante o dia de caminhada fui encontrando mais gente; Ana, uma alemã que está fazendo o Caminho com seu cachorro, Chico, e dorme com ele do lado de fora dos albergues se não o deixam entrar; Elaine, uma neozelandesa que mora na Austrália; Shena, uma americana que trabalhava num campo de golfe que fechou; Xave e Joana, um casal de recém casados que resolveu fazer a lua-de-mel fazendo o Caminho; e duas velhinhas francesas que o estavam fazendo pela segunda vez.
Não houve subidas absurdas; o cenário era bem castanho, cheio de plantações esperando serem feitas.
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Por volta do meio-dia eu consegui encontrar o primeiro lugar pra comer algo que mais ou menos prestasse, num albergue em Uterga. Até lá tinha passado 16 quilômetros comendo três rolos de caramelo com marshmellow, cobertos de chocolate. Comi um sanduíche de queijo e tomate, bem grande, com um o azeite que o deixava bem gostoso. Depois fui descobrir que isso é uma raridade aqui; sanduíche de queijo, por exemplo, é só pão e queijo, sem uma manteiguinha pra amaciar.
Em Meruzábal eu e o povo que estava comigo nos desviamos um pouco do Caminho pra visitar a igreja de Santa María de Eunate. É uma igreja do século XII, octagonal, pequena, seguindo “el deseño del templo de Jerusalém”, como diz o guia. De lá passei pra Óbanos, outra cidadezinha bem bonita. Essa cidade tem uma história interessante. Diz a lenda que uma princesa chamada Felicia fez o Caminho e, depois, resolveu se dedicar a cuidar dos pobres. Seu irmão, quando soube que ela não ia voltar à corte, ficou tiririca e a matou; depois, ficou cheio de remorso, fez o Caminho também, se mudou para Óbanos e virou santo como a irmã. Se isso serve de consolo pra ela.
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Mas emocionante mesmo foi chegar em Puente La Reina, onde o guia indicava que eu deveria encerrar o dia. Basicamente, andei 23,5 km, das sete da manhã às três da tarde, bem.
Essa caminhada hoje foi meio twilight zone, não encontramos viva alma na rua, as janelas todas fechadas, bizarro.
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Rodei um pouco a cidade depois de tomar banho, visitei a igreja de Santiago daqui, que é impressionante, e vi as vitrines de todos os lugares fechados. O comércio aqui fecha do meio-dia às quatro, a gente chega nas cidades e não tem onde comprar um pãozinho. O povo aqui espalha an´ncios de tudo na entrada dos estabelecimentos, desde aula de Tai-chi-chuan e yoga a casas pra alugar. Vi um anúncio genial numa delas:
ME VENDEN
A3, TDI, 110CV, 150.000 KM
(estoy estupendo, pero… la familia crece y ya pareco el tetris)
Lisboa, 9:52h, hora local
Se o aeroporto de Madri é enorme, eu tenho medo. Porque o de Lisboa já é tão vasto…
Esperando a conexão para Madri. O aporte em Lisboa foi sem maiores ocorrências. Deu pra ver um pouco da cidade do alto antes de pousar, parece ser interessante, tem prédios modernos também, olha só que impressionante, eu li o Cerco esse tempo todo imaginando tudo errado.
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Saindo do avião, onibusinho até o terminal. Depois, fila lêsmica para mostrar o passaporte e entrar oficialmente na Europa. O tiozinho pareceu revoltado quando eu disse que tinha só 300 dólares, não tinha onde ficar, não ia ficar em hotel em Madri e ia andar até Santiago. Só acreditou que eu não era imigrante ilegal quando eu mostrei o cartão de crédito do meu irmão.
Troquei todos os meus dólares por euros pela módica taxa de 4 euros tudo. Tô carregando tanta grana que vou tremendo de temor quando ando. Mais temor ainda tenho dos preços aqui. Fui numa loja passar o tempo, encontrei cuecas da Calvin Klein, Hugos Boss e Dolce & Gabana, em modelos mais ou menos ousados, custando entre 30 e 50 euros. Minha expectativa é que, ao vesti-las, você fique fortão que nem os modelos das caixinhas.
O mais interessante é conferir que isso tudo existe mesmo. Tipo, Portugal, Velho Mundo, etc., não são grandes mentiras coletivas que o povo dos livros de história inventa pra enganar criancinhas ingênuas, está tudo aqui mesmo, não são países imaginários como a Lituânia.
Os McLixos aqui custam entre 4 e 5 euros, tem vários lanches que não existem no Brasil. Fiquei tentado a experimentar algum, mas não como mais McDonald’s, então tive que fazer força e vencer meu McCondicionamento.
Saindo de Soria, agora mais tranquilo, 18:20h
E no fim das contas, todos os temores sobre o frio glacial queia fazer aqui provaram-se infundados.
O vôo de Lisboa a Madri saiu às 11:35h. Na espera, fiquei me segurando pra não dormir e perder o vôo. Sentei na janela dessa vez, então não me permiti dormir pra ver a paisagem enquanto o avião decolava. Quando tudo virou nuvens, também não pude dormir porque serviram um sanduíche, que eu comi porque sabe-se lá quando eu ia comer de novo. Daí fechei as pestanas por dez minutos, e já estávamos em Madri.
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O aeroporto de Barajas realmente é gigante e lindo, mas não é difícil se achar nele. Comecei a arranhar meu espanhol pra descobrir onde ficava o metrô, depois fui me aventurar com os euros pra ligar pra casa e avisar que cheguei vivo. Perdi dois euros numa ligação mal-sucedida, comidos pelo orelhão, o que é muito frustrante.
O metrô de Madri é enorme, colorido e modernoso, cheio de baldeações (tem doze linhas!), mas consegui me orientar direitinho, e fiquei me achando muito capaz. Saí da estação Barajas e fui até a estação Av. das Americas, onde ficava a estação de ônibus.
Depois de subir quatro ou cinco andares (atravessando as quatro linhas que se cruzam naquela estação até o terminal de busum), fui comprar o bilhete. O autobus saía em exatamente cinco minutos. Mesmo com pressa, o tiozinho da bilheteria, que percebeu que eu era estrangeiro (por que será…), me avisou que eu teria que trocar de ônibus no meio do caminho, quando chegasse em Soria. Localizei o terminal de saída, coloquei minha mala no bagageiro inferior e entrei no busão. Não conseguia encontrar meu lugar, pedi ajuda para o motorista, e esse, depois de olhar bem minha passagem, me disse com muita mímica que o ônibus que eu tinha que pegar era o ao lado, mas que eu podia deixar a mochila onde estava, que este era o veículo para o qual eu me transferirira em Soria.
Mais desamparado que criança perdida em shopping, subi no outro, já me consolando de que, se perdesse tudo, pelo menos estava com as coisas da pochete (máquina, passaporte, dinheiro e passagens), e poderia fazer o Caminho mesmo assim, só teria que usar a mesma roupa todos os dias. Saímos da estação por saídas fechadas tão escuras que eram praticamente a batcaverna, e tomamos a estrada.
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A paisagem da Espanha é toda bege e marrom, cheias de montes e nunca totalmente deserta. Fui assistindo Alcatraz dublado em espanhol e tentando não entrar em pânico. Quando o ônibus parou, quase duas horas depois, desci e já ia pro ônibus errado no meio do nada, mas tive a iluminação de perguntar pro motorista, que me chutou de volta pra dentro.
Na hora certa, o motorista me levou até o bus que eu tinha que pegar de verdade. Corri até o banheiro, pensei seriamente em comprar porcalhitos para enganar a fome, mas me contive, o que foi bom porque, quando voltei ao ponto onde tinha sido deixado, o autobus estava quase saindo. Estou agora a caminho de Pamplona, sem tomar banho, com fome e sede. E ainda não consigo ouvir o filme que está passando, porque precisa de fones de ouvido, que eu não tenho.
Pamplona, 22h30
Custou, mas cheguei!!
Quem tem boca vai a Roma, e esse ditado nunca se provou tão correto como hoje.
Cheguei em Pamplona oito e pouco da noite. E a mochila estava no ônibus mesmo, não tive que virar um peregrino indigente. Uma mina, enquanto eu pegava a mochila, adivinhou de alguma maneira que eu era brasileiro, mas não sabia falar portuguêes. Mesmo assim, me explicou o melhor que pôde como eu chegava onde tinha que chegar.
O que não adiantou muito. Andei a esmo um pouco, até encontrar um mapa da cidade na rua. Comparei ele muito com o do guia, fui seguindo as avenidas que reconhecia até entender onde estava, então anotei que avenidas tinha que pegar e comecei a andar. Pro lado errado, claro. Depois de quinze minutos, vi que não estava onde devia estar, fiz meia volta, e fui pro lado certo. Vira aqui, vira ali, procura nome de rua, segue um pouco a intuição, fui achando o caminho, e fui ficando cada vez mais contente, até encontrar o albergue…
Que estava fechado.
FOIM FOIM FOIM FOOOOOOIM…
Mas tinha endereço de outro, para o qual fui perguntando o caminho até encontrar. Meia hora depois, passando por quebradas meio sinistras, cheguei no convento onde fica o albergue. Uma freirinha desdentada me recebeu e me levou até a mulher que fazia o registro. Paguei os cinco euros feliz da vida e me instalei num beliche.
Depois de tanta espera, idas e voltas, começa hoje a aventura pela qual espero há três anos, e mais intensamente durante esse ano inteiro. Vou pra Espanha fazer o Caminho de Santiago a pé. Se tudo for como planejado, mantenho meus leitores informados do que acontece comigo aqui pelo Blogger. Se não, volto só em novembro.
São Paulo, 11:09h
I learned the story behind the city. Supposedly the remains of St. James arrived mysteriously in the village of Padròn (which we visited… lovely line of trees along the waterway to the place where the relics were found) and interred there in Santiago.
(…) May 1993 - Now studying liner notes, books and pieces of music, putting together a clearer picture of Santiago in the years 900 to 1500, when it rivalled Jerusalem and Rome as a pilgrimage destination, playing host to a motley tide of humanity pursuing both religious and more earthly goals. It was also the site of unprecedented cross-cultural fertilization between the Christian, Jewish and Moorish communities. When I heard this piece, I was struck by its Semitic tone, and realised that, even in the area of music, the three communities were influencing each other.
Do encarte do CD The Mask and the Mirror, da Loreena McKennit. Dez anos depois, coloquei a faixa à qual esse texto se refere, “Santiago”, na mensagem de caixa postal do meu celular, avisando que tinha saído de viagem. Santiago de Compostela, lá vou eu.
São Paulo, 18:25h, dentro do avião enquanto o vôo não sai
Mãinha e Pai chegaram por volta de uma e quarenta no apê. A idéia era que só pai viesse, mas Mãinha não suportou a idéia do filhote indo embora sem ela, desmarcou as consultas todas e veio junto.
Quando chegaram, se assustaram com meu visu. Eu, que até o dia anterior estava barbado e com meus poucos cabelos todos lá, tinha raspado a cabeça pra não ter que levar xampu na viagem. A operação aconteceu ontem à noite, com a máquina que eu comprei para aparar a barba. Fiz o serviço sozinho o tanto que deu, depois tive que pedir ajuda ao Moicano, que raspou atrás da minha cabeça e eliminou os caminhos de rato que tinham ficado. Entre uma recarregada da mãquina e outra, tomei banho e fiz a barba. Agora só faltam mais alguns piercings para eu ficar igual ao King Mob.
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A viagem até o aeroporto não demorou muito. Tentei terminar de ler História do Cerco de Lisboa antes de chegar lá, mas as conversas sobre política e o nervoso frustraram meu intento. Vou ter que esperar até a volta para descobrir que fim têm Raimundo e Maria Sara e Mogueime e Ouroana.
A chegada, o check-in e etc. ocorreram sem maiores problemas que a cara de desprezo que a tiazinha da TAP me fez quando viu que meu passaporte expira mês que vem. Mãinha ensaiou um choro na hora de ir embora, ainda não acreditando que tem um filho doido que vai passar um mês nos ermos da Espanha, mas no fim das contas se conteve. Foram embora às quatro horas, e eu fiquei a hora e meia seguintes andando de um lado pra outro no aeroporto com o mochilão nas costas.
Entrei no embarque às 17:20h, e tudo foi tranquilo, apesar de não ter quem me orientasse. A mulher do raio-x ficou horrorizada com a quantidade de metais da minha pochete - máquina, moedas e um canivete, que felizmente não foi confiscado por ser uma arma terrorista em potencial.
Pensei que ia ficar na janela como tinha pedido, mas fiquei no corredor, na parte central do avião à esquerda. O vôo é da TAP, o que significa que os atendentes todos falam com aquele sotaque que a gente pensa que é invenção do povo da novela.
Oceano Atlântico, perto das 3 da manhã pelo horário de Sampa.
Tá difícil dormir. E olha que eu sou pró em dormir em viagem, com cinco anos de treino em puxar o ronco em busum. Mas essas poltroninhas aqui são show de horror, e fazem o Cometão parecer primeira classe. Benzadeus.
Na fileira da frente da minha tem uma mina que trouxe um cão. O pobrezinho está assustadíssimo, principalmente depois da decolagem, gania sem parar. Agora ficou quieto, mas não pode sair da bolsa-gaiola.
Pouco depois do vôo estabilizar, uma mulher na fileira em frente, à esquerda, começou a tirar o tarô para ela mesma. Depois de alguns minutos de dúvida, pedi pra ela tirar as cartas de mim, o que ela fez sem fazer cara feia, ó só que legal. Fez várias previsões interessantes sobre minha viagem, que agora pode começar de verdade porque já teve oráculo. A mulher se chama Sueli, é funcionária pública e mística, tá querendo se mudar de vez para Portugal, onde vai tentar dar aulas de tai chi chuan e de tarô. A viagem já começa interessante.
Aos poucos eu começo a perceber o absurdo dessa situação toda. Estou a quilômetros de altura, em outro hemisfério, sozinho, a 900km/h, são -50 graus lá fora… como diria a mulher dOs cinco afluentes do rio Ota, MUITO DOIDO!!
E ainda me resta a pergunta, como vou fazer pra encontrar o albergue em Pamplona?