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Posts arquivados em Dezembro 2004

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30 12 2004 0 00 00

 

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Eu: Você tem medo de envelhecer?
Tônia: Dá muito trabalho envelhecer. Para envelhecer, você tem que ficar parada, olhando a vida. Se você ficar sempre fazendo coisas, inventando, criando, fica sem tempo para envelhecer.

    - Ziraldo, Vovó Delícia

Achei esse livro aqui na casa do Léo Favre, nesses fantásticos e poucos dias que passei no Rio. Esse é um trecho da entrevista que a menina do livro do Ziraldo fez com a Tônia Carrero. Na verdade, como o próprio livro diz nas últimas páginas, essa entrevista é “um apanhado de várias entrevistas dadas pela atriz ao londo de sua vida, cuja publicação ela autorizou”. Sábias palavras.

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29 12 2004 0 00 00

 

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Claro que estamos em guerra, e é guerra de sítio, cada um de nós cerca o outro e é cercado por ele, queremos deitar abaixo os muros do outro e continuar com os nossos, o amor será não haver mais barreiras, o amor é o fim do cerco.
    - José Saramago, História do cerco de Lisboa

Fui pra Santiago sem ter lido as dez páginas finais do Cerco, voltei e não conseguia encontrá-lo, e hoje, para a minha alegria, encontrei um exemplar dele na casa do meu avô, onde finalmente pude ver a cidade ser invadida pelos cristãos. Genial.

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25 12 2004 0 00 00

 

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A ida pra Inglaterra já começou a ter um efeito adverso em mim: pela primeira vez na vida, eu estou perdendo o sono. Mas perdendo mesmo. Eu começo a pensar nas coisas ainda por providenciar, em como é que eu vou fazer, na grana que ainda tem que juntar, no quanto vai gastar lá, etc. e tal, acabo me revirando na cama montes e montes e não consigo dormir. Fiquei jogando o GBA da Ana Paula de ontem pra hoje até as cinco da manhã pra tentar combater isso, e nada. Tanto pra fazer, tão pouco tempo.

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25 12 2004 0 00 00

 

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Festa de Natal em Araraquara City ontem, muito bacana como sempre, monte de comida, de primos, de alegria e de momentos comoventes. O amigo secreto foi cheio de discursos familiares sinceros e sentidos. Quando chegou a minha hora de dar o meu presente, fiquei tão sem graça que nem disse o que queria sobre o meu amigo. Então vai aqui no Chão mesmo, como reparação tardia: “Meu amigo secreto é um dos caras mais gente boa e bacanas que eu conheço, está sempre de bom humor, é um puta amigão, e tenho certeza que conforme for crescendo mais ainda, pra ficar duas vezes maior que o primo baixinho aqui, isso tudo só vai aumentar. É o Lucão!!”.

Cartão de Natal

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25 12 2004 0 00 00

 

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23 12 2004 0 00 00

 

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(COUVE) FLOR

O encontro da rosa com a couve-flor foi relâmpago. A primeira reclamou:

- Que petulância chamarem isso de flor. Veja tua pele áspera, tua cara gorda! Eu sou linda, sedosa. Você cheira mal e eu exalo perfume. Sou sensual sem ser vulgar. Sou envolvente. Teu corpo é pesado. Eu sou delgada, elegante. Eu sou o que se entende por flor.

A couve-flor foi rápida:

- É, mas ninguém te come

Passado pra mim pela Katchu, que descobriu isso no Philipinas.

Ciclista urbano

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22 12 2004 0 00 00

 

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Desde que eu me mudei pra Sampa que eu ando de ônibus. Muito. Por vários anos São Paulo foi pra mim um imenso borrão entre pontos de ônibus. Eu podia não saber te dizer como faz pra chegar em algum lugar, mas com certeza eu poderia te falar que ônibus você tomava pra chegar lá.

Depois de formado, já mais gente grande, comecei a me cansar do transporte coletivo. Não que eu o considere abaixo de mim (opinião que meus irmãos, infelizmente, acabaram tendo; eles são capazes de ligar pra casa pra alguém buscar eles no centro de Campinas, que não é metade de Sampa, ficarem lá plantados esperando o coitado que saiu de carro pra pegá-los, a pegar um busão a um quarteirão de onde estão pra descer a um quarteirão de casa. Nem são dois ônibus, um só.). Mas depois de quatro anos cansa ter que se programar de sair uma hora e meia antes de qualquer compromisso, não ter como voltar depois da meia-noite, deixar o leitinho das crianças no táxi e coisas assim.

Minha primeira solução, depois que fiz todas as contas, era comprar uma Honda Biz. Afinal, faz centenas de quilômetros por litro de gasolina, pega menos congestionamento, é bem mais barata que um carro, e custa menos em imposto, estacionamento, etc. e tal. Sem falar que, na Editora, têm vaga no estacionamento quem é de gerente pra cima, quem tem mais de dez anos de empresa, os sortudos sorteados na repescagem de vagas, e quem tem moto.

Decisão que causou polêmica em todos os círculos sociais, que invariavelmente me diziam que é muito perigoso, que iam me tirar de cima da motoca com uma arma e levá-la embora, que eu ia sofrer um acidente e ficar paraplégico. Por que eu não comprava um carro? Até eu explicar que, comprando um, me tornaria financeiramente seu escravo pro resto de minha existência, muitos desistiam de acompanhar a discussão.

Mas sempre existem opções. Thompson foi a primeira pessoa que eu conheci que usava a bicicleta como meio de transporte. Nunca tinha sequer considerado a possibilidade, inda mais numa cidade como São Paulo. Mas ele ia pra cima e pra baixo pedalando, e aparentemente sem maiores estresses. Fiquei muito impressionado com sua coragem.

E então, fui pra Santiago. Passei 23 dias andando pelo menos seis horas por dia. Quando não dez. No dia que mais me esforcei, fiz 46 km num dia só. E, enquanto enfrentava as paisagens espanholas, várias vezes o pessoal que estava fazendo o Caminho de bicicleta passava por mim. Confesso que inúmeras vezes fiquei com uma inveja secreta de como eles iam muuuuito mais rápido que eu, fazendo 80 km por dia com o pé nas costas.

Quando voltei, analisei bem minha insatisfação com os meios de transporte, minhas invejas ibéricas, os quilos perdidos, e resolvi aceitar o desafio. Emprestei a megabicicleta do Anselmo, que, quase nova, estava esquecida no quartinho em Campinas, comprei um capacete, e passei a ir e voltar pro trabalho pedalando.

Aqueles que se revoltavam com meus planos motociclísticos ficaram duas vezes mais revoltados com essa decisão. Não tanto porque eu podia ficar paraplégico, mas porque como eu ia fazer nas subidas? E pra voltar pra casa às três da manhã?

Bem, o começo foi bem inseguro, já que eu não estava acostumado a pedalar tanto, e fazia anos que eu não andava de bike. Me assustei com as velocidades que você alcança, tinha muito medo do trânsito, levava a magrela a pé nas subidas. Mas fui descobrindo um prazer insuspeitado em me locomover em duas rodas por aí.

Logo no começo comecei a dispensar a meia hora estúpida que eu gastava na ergométrica da academia; chegava e fazia apenas a musculação, já que já tinha pedalado pra chegar lá, e o faria mais ainda pra voltar pra casa. A performance foi melhorando, eu fui descobrindo os caminhos menos íngremes pra subir no morro onde fica meu prédio, e aprendi a lidar com os veículos motorizados. Em pouco mais de uma semana já estava indo para outros lugares de bicicleta. A cidade agora estava aos meus pés. Ou às minhas rodas.

Desde então, já fui no aniversário da Julia, na Vila Olímpia, em cima da minha fiel bike, e descobri que a Faria Lima é extremamente bicicletável; já fui ver Rê Steffen dançar no Teatro Gazeta, deixei meu veículo preso no poste ao lado do pipoqueiro, voltei depois pra Editora (onde cheguei todo eufórico e cantante, viva a serotonina), trabalhei mais três horas e voltei pra casa, tudo na minha amiga bicicleta.

Esperar a condução agora me dá aflição, porque eu penso que naqueles dez minutos já podia estar em Pinheiros; ir a pé pra esquina me parece muito devagar, porque se percorre essa distância muuuuito mais rápido pedalando.

Cheguei à conclusão de que a bicicleta é a solução ideal para o caos urbano: você faz exercício, chega rápido onde tem que chegar, não polui o meio-ambiente, não pega congestionamento e não gasta com combustível. Sem falar que você sente o vento na cara e o cheiro das flores à noite, é ótimo. As pessoas deviam deixar de ser preguiçosas e todas começarem a usar bicicletas. Assim quem sabe os estacionamentos passariam a aceitar guardá-las. Nenhum ainda me deixou prender a bike num cantinho, tirando o do shopping Center 3; mas até agora eu venho deixando ela presa em postes e ninguém mexeu nela.

Um dos meus planos em Londres é, assim que eu sacar a cidade, descolar uma bike lá e continuar me locomovendo em duas rodas. Se aqui em Sampa, que é cheia de morro, eu já estou tirando de letra, imagina lá, que é plano?

Greenwich

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10 12 2004 0 00 00

 

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Se tem uma coisa boa de ter feito intercâmbio foi que eu perdi o medo do estrangeiro. Desde que eu voltei dos EUA, em 1996, a idéia de passar o resto dos meus dias em solo nacional passou a ser simplesmente inconcebível. Não que eu deteste o Brasil, muito pelo contrário; eu adoro a minha pátria amada idolatrada salve salve, acho que não tem lugar melhor no mundo. Mas com certeza eu acabaria passando mais anos fora daqui.

Quando eu estava na faculdade eu quase fui pra Montreal passar um ano, mas por razões várias (incluindo uma super-alta do dólar) eu acabei ficando e concluindo minha faculdade em quatro anos. No fim desta eu fiquei sabendo de um programa de bolsa pra fazer pós na Inglaterra, o Chevening, comecei a me informar, e descobri um mestrado em Typo/graphic Studies que muito me interessou.

Mas pra conseguir a bolsa tinha que ter experiência profissional, então me dei alguns anos pra trabalhar. Trabalhei mais um ano e pouco na Recesso, até que, um dia, voltando do serviço, uma tortuosa linha de pensamento me levou ao que pretendo que seja o tema da minha tese de mestrado. Ela veio num estalo, e a partir daí não tinha mais jeito: eu tinha que começar a correr atrás pra que ela virasse realidade.

Fui me informar de novo sobre o Chevening: tinha um pouco mais de um mês pra conseguir tooooda a papelada necessária e fazer a inscrição. Paguei os olhos da cara pra fazer um exame de proficiência em inglês (no qual, para o meu orgulho, tirei 8, de uma nota que ia de 0 a 9), enfrentei a greve da USP pra conseguir meu histórico escolar, deixei as calças na tradutora juramentada, pedi cartas de recomendação pra três pessoas diferentes, e um dia antes da data final estava lá no Conselho Britânico com tudo o que era necessário.

O passo seguinte foi entrar em contato com a universidade. Me mandaram um pacote de informações sobre o que eu precisava pra tentar uma vaga, e, aproveitando muito do que eu já tinha conseguido pra me inscrever no Chevening, enviei todos os documentos pra lá, e me pus a esperar.

O que é uma das piores partes. Depois de alguns meses de espera, comecei a ligar no Conselho Britânico pra saber como ia o andamento das coisas. Eles se esforçavam pra me informar, mas nunca era nada muito certo. Cheguei a atrasar minha viagem pra Santiago um mês porque havia a possibilidade da entrevista do Chevening ser no mês que eu ia; quando eu vi que ia atrasar mais ainda, eu voltei a viagem pro mês que tinha que ser, acabei pagando mais que ia pagar originalmente, mas fui.

O que foi muito sábio da minha parte, porque quando eu voltei eles não tinham dado nem sinal de vida ainda. Continuei ligando, querendo saber quando seriam as benditas entrevistas, agradecendo aos céus que eu não fiquei esperando pra sempre pra fazer a minha viagem.

Eis que, duas semanas depois do meu retorno das terras espanholas, chega um pacotão da universidade em Londres, dizendo que sim, eles muito gostariam que eu fosse lá, me dando uma unconditional offer de vaga. Eram duas da manhã quando eu cheguei no apê e vi o envelope. Fiquei assim, meio bobo, muito emocionado, sabendo no fundo que, meu, fudeu, agora você vai, de alguma maneira você vai pra lá. Feliz da vida, e com um puta cagaço também.

Começou então a busca de uma maneira que viabilizasse esse projeto. Pai e Mãinha não tinham essa grana pra me emprestar; as bolsas todas eram pra prazos mais longos do que o que eu precisava pra dar a resposta se ia ou não. A Editora não ia dar uma força, e, tristeza maior de todas, o Chevening me mandou uma carta, depois de muito tempo, dizendo que eu tenho lindos olhos verdes mas eles não me queriam. Já prestes a adiar a vaga pra 2006, eis que surge o inigualável tio Celso, primo da minha mãe, que fica sabendo das minhas agruras e diz que sim, ele me empresta a grana sideral que custa o mestrado. Pra eu pagar quando voltar, da maneira que conseguir. Nem Papai Noel conseguia fazer melhor.

O que basicamente estabelece que a partir de 2005 esse site será escrito de Londres. Estou aqui vendendo tudo pra juntar o dinheiro que me sustente por algum tempinho, até eu arranjar como me sustentar por lá. Vou fazer mestrado, conhecer ares novos, pessoas diferentes, respirar fogs, dar a cara pra bater e tudo mais que torna a vida interessante. Se tudo der certo, trabalhar em coisas bacanas e que me adicionem profissionalmente; mas me sustentando e estudando, o que vier está bom.

Eu estou aqui procurando onde ficar lá, alternando momentos de euforia com momentos de terror, me dando conta do absurdo que eu me meti, apavorado e cheio de adrenalina. No fundo, é assim que a vida tem que ser.