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Posts arquivados em Fevereiro 2005

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21 2 2005 0 00 00

 

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O frio não deu trégua desde que eu cheguei. Mas hoje teve o ápice, e realmente começou a nevar. No começo, uma nevezinha bem sem-vergonha, depois começou a nevar com força. Mas não durou nem meia hora, e agora, felizmente, a neve já derreteu, então vou poder voltar pra casa de bicicleta sem maiores riscos. Racionalmente, eu sei, da minha experiência nos EUA, que neve mais atrapalha que ajuda, que não passa de uma chuva que não vai embora, e que cansa. Mas, para um brasileiro, ver os floquinhos realmente caindo é algo quase sobrenatural, e lindo demais da conta. Não tem como não ficar pasmado.

New home

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18 2 2005 0 00 00

 

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Em se considerando tudo o que podia ter acontecido nas minhas primeira semanas aqui em Londres, até que o lugar que eu arranjei pra morar não é dos piores. O prédio é muito bacana, e fica literalmente do lado da faculdade. A água quente funciona a maioria das vezes, e tem máquina de lavar roupa, micro-ondas, e um banheiro só pro meu quarto.

Mas rachar o quarto com mais dois não é fácil, e um apartamento com mais sete, menos ainda. Não dá pra ter um momento de privacidade, e, pra conviver bem, você tem que levar na esportiva várias coisas, como seus outros dois colegas de quarto resolverem assistir TV quando você está tentando ler, ligarem ou desligarem o aquecimento quando lhes dá na telha, e varrerem a sujeira pra trás da porta e lá a deixarem dias e dias. Mesmo com um banheiro só pro nosso quarto, ainda se está dividindo o dito com mais dois, nenhum dos quais confere se a descarga, levemente defeituosa, funcionou, várias vezes te deixando presentinhos indesejáveis. E um dos dois usa dreads, que não devem ser lavados há meses, o que resulta em cabelo no ralo da pia, cabelo no ralo do chuveiro, e montes de cabelo no chão do quarto. Nem varrendo todos os dias o quarto, como venho fazendo, eu consigo vencer aquela fábrica de cabelo sujo.

Além disso, o apê não tem sala, e a única cadeira existente é uma que fica na frente do lixo. Mesa então, nem pensar. Minhas refeições todas desde que cheguei foram feitas segurando o prato na mão mesmo, quando tem prato. Porque, claro, oito pessoas usam os utensílios, mas nem todas os lavam logo depois de usá-los, então volta e meia acontece de não ter um copo limpo.

Assim que minha situação aqui na ilha começou a ficar menos instável, comecei a procurar um lugar pra morar de novo, agora com mais calma. A meta era encontrar um lugar com um quarto só pra mim, pagando no máximo o mesmo que já estava pagando, o que por conseguinte significaria morar mais longe. Comecei a caçar lugares nos sites de anúncios imobiliários, e recomecei o processo de ligar para as pessoas, marcar de visitar, etc. e tal.

Escolher onde morar é algo meio esotérico. Porque não se trata apenas avaliar as condições da casa, do banheiro, o tamanho do quarto, onde lavam e penduram a roupa etc. Você tem que sentir a vibração do lugar, e nos poucos minutos de visita avaliar se conseguiria conviver com as outras pessoas que lá moram. Conseguir um equilíbrio entre todos os fatores é difícil. Nessas, por exemplo, já visitei casas que o povo era até bacana, mas o lugar era longe demais e estava caindo aos pedaços, então não dava mesmo. Outra vez, um cara me mostrou dois apartamentos, e eu facilmente escolheria o que tinha o quarto menor, porque as pessoas lá e o feeling geral desse apartamento era muito melhor que o do outro com o quarto grande.

Eventualmente, descobri um site da minha universidade em que estudantes com quartos vagos em casa e pessoas que querem alugar quartos para estudantes colocam anúncios. Encontrei um de uma casa bastante perto da faculdade, liguei para os responsáveis e no dia seguinte estava lá. Fica numa rua a dois quarteirões de uma avenida, afastada o suficiente pra ser silenciosa, e cheia de sobradinhos todos iguais. A casa está em bom estado, o quarto é grande e tem cama de casal, estante, guarda-roupa e cômoda, os moradores são todos estudantes de diferentes partes do mundo. Sinceramente, a melhor opção que apareceu em muito tempo. Eu gostei de lá, eles gostaram de mim, e dois dias depois me ligaram dizendo que o quarto era meu se eu quisesse.

Agora estou eu aqui me virando pra juntar todo o dinheiro necessário pra pagar o primeiro mês mais o depósito, e descobrir como vou fazer pra levar meus pertences todos de um lugar pro outro, nessa minha vida sem carro. Mas isso na verdade é o de menos. Em poucos dias, voltarei a ter território próprio, e, se tudo der certo, vou viver com pessoas com quem posso até conversar. E não varrerei mais cabelos no quarto além dos meus.

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17 2 2005 0 00 00

 

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Continuando a série “Tô ficando velho, e daí?”, um pedaço da entrevista da Laurie Anderson na New York Times Magazine de 30/1:

At 57, do you worry about aging and wrikles?
Not really. I think some prunish people look pretty good. I am more worried about turning into a schlump than into a prune.

How would you define a schlump?
A schlump is someone who doesn’t care about anything and who is just protecting their own turf, which is getting smaller and more meaningless, and then they disappear.

Do you find this to be a schlumpy era compared to the 80’s, when you were part of a creatively inspired New York art scene?
I don’t miss the 80’s. I don’t miss anything right now. I have zero time for nostalgia.

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15 2 2005 0 00 00

 

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Ontem foi Valentine’s day, e um canal de TV aqui do reino fez um countdown com as 40 músicas românticas mais queridas pelos britânicos. A lista eh bastante boa, apesar de ter algumas que não devem ter jamais cruzado o Canal da Mancha, e as informações que eles davam sobre cada música eram ótimas. Em homenagem a todos nós que passaram o Valentine’s Day sozinhos, aqui vai a lista:

Britain’s favourite love songs:
40. “Eternal Flame”, Susanna Hoffs
39. “I can’t help falling in love with you”, Elvis Presley
38. “You are the sunshine of my life”, Stevie Wonder
37. “With or without you”, U2
36. “My girl”, The Temptations
35. “Endless love”, Diana Ross & Lionel Ritchie
34. “Flying without wings”, Westlife
33. “Wonderwall”, Oasis
32. “I’ve got you under my skin”, Frank Sinatra
31. “You’re the first, the last, the everything”, Barry White
30. “Your song”, Elton John
29. “I say a little prayer”, Aretha Franklin
28. “Words”, Boyzone (mas o original era do Bee-Gees)
27. “I will always love you”, Whitney Houston
26. “(Everything I do) I do it for you”, Brian Adams
25. “Don’t go breaking my heart”, Elton John & Kiki Dee
24. “(They long to be) Close to you”, The Carpenters
23. “I got you babe”, Sony & Cher
22. “I want to hold your hand”, The Beatles
21. “Sweet child o’mine”, Guns’n'roses
20. “When you say nothing at all”, Keating
19. “Take my breath away”, Berlin
18. “How deep is your love”, Bee Gees
17. “When a man loves a woman”, Percy Sledge
16. “I just called to say I love you”, Stevie Wonder
15. “Have I told you lately”, Van Morrison
14. “Wind beneath my wings”, Bette Middler (que também é a música mais tocada em funerais na Inglaterra)
13. “Can’t take my eyes off you”, Andy Williams
12. “The power of love”, Jennifer Rush (que é a versão original do “O amor e o poder”)
11. “Nights in white satin”, Moody Blues
10. “Unforgettable”, Nat King Cole
9. “Strangers in the night”, Frank Sinatra
8. “Three times a lady”, The Commodores
7. “Angels”, Robbie Williams
6. “All you need is love”, The Beatles
5. “When I fall in love”, Nat King Cole
4. “Killing me softly with his song”, Roberta Flack
3. “Lady in red”, Chris deBurgh
2. “Love me tender”, Elvis Presley
1. “Unchained melody”, The Righteous Brothers

Bank account

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12 2 2005 0 00 00

 

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Eu, comecando um frila novo, sou informado de que preciso ter uma conta no banco pra receber o pagamento. Bem, realmente, isso faz parte da vida civilizada, eu teria que fazê-lo mais cedo ou mais tarde, gente grande não vive sem conta no banco, vamos logo resolver essa parte da minha vida, uma coisa a menos pra me preocupar no futuro.

Perguntei pro povo da JD em que banco eles têm conta, e me reponderam que é no Royal Bank of Scotland. Fui ver o que era necessário para abrir uma conta: identificação (passaporte) e comprovante de endereço. Eu não tinha como conseguir esse último, já que na minha atual residência moram oito pessoas, nem haveria conta que chegasse pra comprovar residência de tanta gente, e, de qualquer maneira, o dono do apê que paga as contas, a gente nem vê a cor delas. Mas uma carta da minha faculdade dizendo que eu dei aquele endereço pra eles deveria ser suficiente.

Pedi uma carta da minha faculdade dizendo que eu moro onde moro (que tinha que ser dirigida especificamente para a agência que eu ia abrir conta, demorou dois burocráticos dias para ficar pronta), e então fui lá na agência mais próxima do Royal Bank of Scotland, munido de documentos. Cheguei no balcão e disse que queria abrir uma conta. A mocinha me tratou como gente normal até o momento que viu meu passaporte. Daí me pediu meu comprovante de endereço, e eu disse que tinha a carta da faculdade. Ela começou a me explicar, naquele tom professoral utilizado com os estrangeiros, que eu precisava trazer uma conta com o meu nome. Eu disse que não tinha como colocar uma conta no meu nome, mas carta deveria servir. Ignorando o que eu disse, ela me deu um folheto, apontou pra uma lista e disse pra eu trazer um daqueles documentos que serviam como comprovante de residência. Eu olhei a lista, encontrei o item que dizia "letter from college or learning institution", e disse que já tinha tudo o que era necessário.

Sem saber o que fazer, ela disse que não, e eu pedi pra chamar o gerente. Que também era estrangeiro, provavelmente indiano, ouviu o meu caso, pegou minha carta, pediu licença, foi fazer ligações misteriosas, e voltou dez minutos depois dizendo que podiam abrir uma conta de estudante pra mim, se eu fizesse um depósito inicial de cinco mil libras. Me pareceu uma contradição em termos abrir uma conta de estudante com cinco mil libras, falei pra ele que obviamente aquilo era impossível, ele lamentou e disse que não podia fazer nada.

Assim começou minha peregrinação por bancos e bancos. Nos dias seguintes, passei no HSBC e no NatWest, com a carta da minha faculdade, contando minha triste história, que não conseguiu comover ninguém. Primeiro diziam que aquela carta não era pra eles. Daí eu dizia que estava ciente, mas conseguiria uma igualzinha endereçada a eles se eles me abrissem a conta. Daí diziam ou que não aceitavam carta como comprovante de endereço, ou que só aceitavam cartas de faculdades específicas.

Começando a ficar exasperado, fui me aconselhar na secretaria da faculdade, que me disse pra tentar ir no Barclays e no Abbey National, que em teoria são bancos mais fuleiros e aceitam qualquer zé mané pra abrir conta. Foram bacanas e em apenas cinco horas me deram cartas dirigidas às agências mais próximas desses bancos, e no dia seguinte lá fui eu de novo, cheio de esperanças.

No Barclays, a mulher olhou pra mim, olhou pros meus documentos, disse que talvez conseguisse me fazer uma conta das mais básicas, em que eu só teria direito a um cartãozinho pra tirar dinheiro da conta, e me deu um folheto com uma lista de documentos, dos quais eu teria que trazer três - ou seja, passaporte e DOIS comprovantes de endereço. Já no Abbey National, a mulher, com muita má vontade, me disse que só me abriria conta se eu tivesse dois anos de residência no Reino Unido, então que eu voltasse dali a dois anos.

A situação era ridícula; eu lá querendo dar meu dinheiro pros bancos, e eles se recusando a recebê-lo. Me sentindo mais descartável que copinho de plástico pisado, fui pra faculdade, acabei comentando minha situação calamitosa com o povo da classe, e um dos gregos me disse pra ir até a agência do HSBC em Covent Garden, que cinco dos estrangeiros do nosso curso já tinha conseguido abrir conta lá com uma carta da nossa facul. Voltei pra secretaria e pedi mais uma cartinha, mas dessa vez, precavido, quando fui trabalhar no megafrila, pedi pra que eles escrevessem uma carta pro banco também.

E assim, no dia seguinte, fui pra essa agência. Entrei, disse que queria abrir uma conta, e mostrei a carta do megafrila. Como por encanto, passaram a me tratar com respeito, me levaram pra uma salinha, e eu saí de lá com conta corrente, poupança, cartão de débito, cheque especial e cartão de crédito. E ainda me perguntaram se eu queria um café.

Só o poder das instituições pra vencer os receios quanto a nós, pobres zés manés.

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10 2 2005 0 00 00

 

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No fofocário aqui no UK, só se fala do casamento do Príncipe Charles com a Camila. No do Brasil, a manchete é o silicone que a Sandy pôs nos peitos. Isso deve revelar muito sobre cada país.

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10 2 2005 0 00 00

 

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Aprendendo a história britânica:

On 9 September 1087, William I died. His body was carried to his great church of St. Stephen at Caen. Towards the end of his life he had grown very fat and when the attendants tried to force the body into the stone sarcophagus, it burst, filling the church with a foul smell. It was an unfortunate ending to the career of an unusually fortunate and competent king.

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4 2 2005 0 00 00

 

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Graphic design and graphic design education seem generally dedicated to six discernible directions:

1.
To persuade people to buy things they don’t need with money they don’t have to impress others who don’t care.

2.
To persuavesively inform about the class-merits of an artifact, service, or experience.

3.
To package in a wasteful and ecologically indefensible way, artifacts, services, or experiences. (Look at any undertaker’s coffin!)

4.
To provide visual delight or visual catharsis to those classes taught to respond “properly.”

5.
To undo with one hand what the other has done. (Anti-pollution posters, anti-cigarette commercials)

6.
To systematically research the history, present, and future practices in the five fields listed above.

    - Victor Papanek, Edugraphology

Ah, as alegrias da discussão acadêmica sobre a sua profissão.

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3 2 2005 0 00 00

 

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Que coisa maravilhosa é a tecnologia, com os messengers da vida eu continuo me comunicando com meus amigos no Brasil tanto quanto costumava conversar com eles pelo messenger antes. Bobeando nem dariam pela minha falta se eu não contasse que estou em Londres!

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3 2 2005 0 00 00

 

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Se alguém estiver procurando, os primeiros posts que eu escrevi quando vim pra Londres foram transferidos para seus lugares de direito, no índice de entradas aí ao lado, em 2005.