
Diz o ditado que pobre é assim: nunca tem uma festa pra ir, mas, quando surge uma, automaticamente aparece outra no mesmo dia. Quando a essa jóia de sabedoria se une a lei de Murphy, os efeitos são devastadores.
Pois então, como era de se esperar, tudo aconteceu na mesma semana. O projeto de final de bimestre da faculdade estava marcado pra ser entregue no dia 26. Por conta de uma série de adiantamentos de datas, o fechamendo da KE ficou pro dia 25. E, como o povo da revista não tem nada na cabeça, marcaram uma megafesta no barco que estão planejando há meses para o dia 22.
Como eu só fui ter noção do que faria para o trabalho final duas semanas antes de ter que entregá-lo, minha vida nessas semanas virou um contínuo processo de lembrar do que deveria estar fazendo agora, porque a única coisa que eu não podia fazer era tirar uma folga. Porque, não se esqueça, além de revista e faculdade, o jornal também continuava lá me esperando.
Meu trabalho na facul acabou sendo fazer um livro explorando o fato de que virilhas são áreas triangulares do corpo humano (aparentemente, curtem esse tipo de viagem) tirando fotos de virilhas "de mentira", ou seja, de manequins de lojas, estátuas, brinquedos, etc. Então passava o dia rodando a cidade de bicicleta, em horários variados, mas invariavelmente por várias horas, procurando os humanóides acima para fotografá-los com a digital da KE. Quando dava um descanso para Angelina Norma, estava sentando na frente de um computador, ou fazendo a revista, ou conferindo o jornal. Antes de ir pra casa, colocava o material acadêmico do dia aqui no site para mostrar para o orientador. Nas horas vagas, dormia.
É um ciclo terrível, porque você vai dormir tarde um dia, daí dorme até mais tarde no outro, suas horas vão penetrando cada vez mais madrugada adentro, até que chega num ponto em que você vai dormir às seis e meia da manhã, acorda às dez e meia porque TEM que cuidar da vida às onze e meia, se mantém acordado noite adentro de novo… quando vê, já não está dormindo mais.
Na semana em que a festa se aproximou, a redação da KE ficou impossível, cheia de gente ligando, entrando e saindo para comprar convites, o povo da revista correndo em todas as direções acertando os últimos detalhes, e a Soraia heroicamente tentando editar a revista entre anotar um telefonema e atender ao interfone. Assim, eu ficava até feliz de estar tirando as fotos à tarde, daí conseguia evitar a maior parte do furdúncio, e trabalhava à noite, quando as coisas rendiam mais. Quando não estava trabalhando na sessão coruja pra fazer a revista, estava fazendo o livro. Dias e dias dormindo três horas por dia. Literalmente dia.
Tinha que tocar tudo ao mesmo tempo, e me peguei em situações como, antes de ir pro jornal, ter que ir pra faculdade pra pesquisar imagens que iam ser usadas na revista. Depois de uma hora de pesquisa de olho no relógio, vou retirar quatro livros, e não consigo, porque já tinha alcançado o limite de quinze livros emprestados para fazer o trabalho da facul. Xingando céus e terra e torcendo pro chefe do jornal estar almoçando quando eu chegar, ter que subir na bike, voltar pra casa, pegar os livros que não seriam mais necessários, voltar pra biblioteca da facul, devolver os que trouxe, pegar os que precisava, e pedalar mais rápido ainda (apesar da canseira das noites insones) até o jornal para tentar não me atrasar muito.
Na sexta-feira, dia da festa, fiquei no jornal até meia-noite e meia, imprimindo as folhas do livro na laser deles (pelo menos essa grana eu economizei). Daí, apesar da insistência das meninas da revista para que eu fosse pra festa, resolvi aproveitar que essa etapa estava finalizada e me dar seis horas de sono de presente. Perdi a festa tão aguardada.
Dia seguinte voltei pra maratona, pois tinha que fechar a revista, mandar o livro pra encadernar, e fazer dois relatórios. Dei um adeuzinho para Morfeu e disse que só voltaria a encontrá-lo na terça. Meus flatmates só sabiam que eu tinha passado em casa porque eu pegava as cartas que me chegavam antes de desabar brevemente na cama. Dias de avaliar cuidadosamente como dosar as porções de café da manhã para durar até terça, porque eu não ia ter tempo de ir no supermercado se acabassem antes e ia ficar sem café da manhã (tomado invariavelmente ao meio-dia).
A falta de sono começou a me deixar tão zureta que eu esquecia as coisas e não me dava conta. Saí da redação às cinco da matina um dia, dormi poucas horas, acordei, tomei banho, comi, me preparei pra sair, fui procurar o capacete, e nada. Tinha deixado-o na redação, mas estava tão pra lá de Bagdá que nem dei falta, e não senti o vento frio na cabeça. Outra noite, esqueci as luvas no jornal, e andei a noite inteira de bicicleta sem sentir os dedos congelando. Em algum ponto no processo de retirar os livros na biblioteca, meu capacete ficou pra trás, mas não sei aonde. Não consegui encontrá-lo ainda. É um feito que eu tenha sobrevivido a tantos quilômetros pedalados em estado de semiconsciência.
A KE tinha que ir pra gráfica na segunda; basicamente, entrei na redação sábado à uma da tarde e saí na segunda à uma e meia, com três horas dormidas no chão da redação de sábado para domingo. Eu já havia me tornado o farrapo humano; meus olhos se escondiam atrás das olheiras, meu coração palpitava no peito, minha cabeça latejava. A história é muito triste, mas pelo menos a revista ficou linda.
Deixei o livro para encadernar, na promessa de buscá-lo às cinco. Tive poucas horas para o descanso do guerreiro (ou do tolo), mas apenas o suficiente para não ouvir o celular tentando desesperadamente me despertar e perder a hora de buscar o livro. Acordei tarde demais, tomei um banho, jantei junto com o pessoal da casa (que ficou feliz ao saber que eu ainda existia e não teriam que pagar o meu quarto do aluguel), e voltei para a redação carregado de livros de filosofia, para fazer o relatório.
Vi pelo sétimo dia seguido o sol nascendo pela janela da KE. Na corrida contra o tempo, o relatório de 2000 palavras ficou com 1876, o de 500 ficou com 462, e a minha pasta de pesquisa ficou com metade do material que devia, porque a outra ficou em casa por conta da torpeza dos insones. Consegui imprimir tudo e gravar CDs antes das dez da manhã, e teria uma hora inteira para buscar o livro no encadernador e chegar na faculdade com calma, certo?
Isso, claro, se eu fosse uma pessoa com noção. Como não sou, ao invés de fazer o caminho da roça, que, apesar de um pouco mais longo, eu já sei de cor e salteado, resolvi seguir uma outra rota que me levaria em "linha quase reta" ao encadernador. Obviamente eu nunca tinha feito esse caminho antes, e meus conhecimentos do centro de Londres se provaram insuficientes. Como as ruas de Londres nunca têm placas quando você precisa delas, acabei dando voltas e mais voltas, seguindo meu vago senso de direção, acabei caindo numa ponte que nunca tinha visto mais gorda, e só por milagre de São Longuinho eu cheguei no encadernador. Peguei e paguei o livro correndo e, desafiando meu corpo, que clamava que eu desistisse daquela insanidade toda e me recostasse em qualquer superfície horizontal por ao menos doze horas, saí correndo na bike e fui pra faculdade. Cheguei lá cinco minutos antes das onze, mandei o trabalho segurar na mão de deus, e ele foi.
Como se servisse de consolo, era claro pelo estado cambaleante dos meus colegas de classe que todos tinham estado em situações similares nos últimos dias. Quando os professores passaram o projeto do próximo semestre, duas horas depois, havia mais zumbis lá na sala que em um filme B de terror. Eu pretendia me dar uma semana de descanso, mas reconsiderei e, um dia depois, estava de volta à biblioteca pegando a bibliografia do próximo trabalho, na esperança de que começando antes a maratona não se repita. A esperança é a última que morre…
“Outro dia, estava pensando que vc faz falta por aqui por vários e vários motivos. Mas era uma alegria a parte, no meu caso, ter a sua companhia aqui e acompanhar suas novidades. Suas ’surpreendências’ musicais, as trilhas sonoras de cada dia, os filmes, livros bacanas que te empolgavam e davam um sabor especial aos dias. E somado a tudo isso, vinha o comentário sobre a novela, o mundo das celebridades. Que mix delicioso…”
Na música do Chico Mineiro, tem aquele trecho que eu sempre achei meio cretino desde criança: “Não sabia da nossa amizade / Porque nóis dois era unido”. Mas esse é mais um na minha lista de músicas que eu passei a entender quando passei por essa situação. Eu sentei por um ano e tanto perto da Cris, nos divertimos à beça trabalhando juntos, e por vacilo mesmo nunca estendemos a amizade para muito além do elevador da Editora. Agora assim, com um oceano de distância, a gente vê o quanto construiu nesse tempo de convivência. E, suspeito, não só com a Cris… É agridoce ver que você deixou raízes em um lugar e, agora que as transferiu para outros solos, suas marcas ficaram. Meu coração fica assim, em Recesso.
Eu acho que posso seguramente dizer que Londres é a cidade mais internacional do planeta. Acho difícil que tenha alguma outra capital com mais imigrantes do mundo todo. Se alguém souber de uma concorrente, me avise que eu vou querer conhecer pra comparar.
Me lembro da sensação de fascínio antropológico que eu sentia nas duas semanas iniciais em que tomei metrô (antes de Angelina Norma entrar na minha vida). Você está lá, sentado, acompanhando as estações, e de repente as pessoas do seu lado começam a conversar animadamente em alguma língua que você nunca ouviu. Daí você olha pro lado e tem um sikh de turbante. Olha pro outro, e tem uma chinesa lendo um jornal em pictogramas. Você chega à conclusão de que o mais raro em Londres é ser britânico mesmo.
Qualquer receio que eu tinha de ser "o estrangeiro da classe" na minha faculdade se dissolveu quando os alunos se apresentaram e eu vi que dos 60 alunos do mestrado só 2 são britânicos. Na minha classe tem um monte de gregos, um egípcio, alemães, mexicanos, coreanos, portugueses, japoneses… É melhor que a ONU.
E, se eu queria me sentir especial por ser um brasileiro em Londres, rá, vã ilusão. Brasileiro em Londres dá mais que formiga em pote de açúcar. Voce esbarra com gente da pátria amada idolatrada salve salve o tempo todo. Anda na rua, e pega brasileiro falando em português com outro, ou no celular. Vai no supermercado, e tem alguém com uma camisa da seleção. Vai numa balada, e de cada três grupinhos que você passa, um é tupiniquim. Chega a incomodar.
Os imigrantes estão por todas as partes aqui, e, em geral, nos serviços que os britânicos não querem fazer. E, para isso, os ingleses aprenderam a ser supertolerantes com seus capachinhos. No supermercado, a caixa mulçumana está com a cabeça coberta com o véu, os funcionários passam instruções entre si em espanhol, e o segurança te olha com aquela cara de quem sabe que seus antepassados zulus bebiam água de coco com os crânios dos invasores brancos.
Uma das especialidades subempregaticias brasileiras aqui em Londres é a faxina. Porque, já é de conhecimento mundial, ninguém faz unhas, depilação e faxina como as brasileiras. Quer ver banheiro brilhando, janelas praticamente invisíveis e roupas passadas sem nenhuma ruguinha, chame uma brasileira. E, conversando com meu chefe no Jornal, descobri que as faxineiras brasileiras aqui honram a tradição da terra em que vieram, e, além de deixar a casa impecável, continuam fazendo aqui do outro lado do Atlântico coisas como mudar todos os móveis de lugar, queimar sua camisa preferida quando passam a roupa, e quebrar quadros e objetos decorativos por acidente.
Na casa onde moro agora, dividem o lar comigo uma holandesa, uma finlandesa e um inglês. As conversas por telefone são todas em línguas mutuamente incompreensíveis, e, nas poucas vezes que conseguimos estar todos juntos para conversar, metade das piadas e casos engracados têm que vir com notas do tradutor.
No bairro em que moro a população é predominantemente nigeriana. É algo por demais interessante. Existe locadora de filmes nigerianos (em que todas as fitas tem negões na capa), cabelereiros especializados nas últimas tendências africanas, armazéns cheios de iguarias da Nigéria, é o máximo. Você anda na rua e vê as negonas lindas passando com roupas estampadas de várias cores e chapéus fantasticamente gigantes, se sentindo as mais lindas da terra. Quem quiser compreender melhor o modo de pensar dos nigerianos, pode ser esse texto, que dá uma boa idéia de como eles são.
Quando eu fui morar nos EUA, aprendi montes sobre o American Way of Life. Agora, aqui na ilha, pra minha surpresa posso ter um aperitivo dos ways of life de vários países. Esse investimento está valendo mais a pena que eu esperava.
Pensamento vem de fora
e pensa que vem de dentro,
pensamento que expectora
o que no meu peito penso.
Pensamento a mil por hora,
tormento a todo momento.
Por que é que eu penso agora
sem o meu consentimento?
Se tudo que comemora
tem o seu impedimento,
se tudo aquilo que chora
cresce com o seu fermento;
pensamento, dê o fora,
saia do meu pensamento.
Pensamento, vá embora,
desapareça no vento.
E não jogarei sementes
em cima do seu cimento.
- Arnaldo Antunes
Finalmente, alguém que me entende.
Outra coisa que vive nas manchetes aqui é o casamento do príncipe Charles. Ele deve estar querendo morrer de raiva, já que, mesmo sendo o futuro chefe da igreja de um país inteiro, tem que atrasar o próprio casamento porque o chefe da outra conseguiu marcar o enterro pro mesmo dia. Com mais raiva ainda estão toooodos os fabricantes de souvenirs, que já tinham feito milhóes de pratinhos, canequinhas, toalhinhas, quadrinhos e o raio que o parta comemorando o casamento real, e agora vão ter que jogar fora em cima da hora porque a data ficou errada. Eu, do Príncipe Charles, só quero o cinema.
Pois então, meu querido Papa João Paulo II foi dessa pra uma melhor. Surpreendentemente, aqui na ilha faz uma semana que não se fala de outra coisa. Estava trabalhando no Jornal um dia antes dele abotoar o paletó, e, acompanhando ao vivo os repórteres de meia em meia hora dizendo que ele ainda não tinha virado o Cabo da Boa ESperança, fiquei meio aflito. Depois de um tempo, fiquei pensando nas dores de cabeça que a medicina moderna poderia trazer ao mundo católico: e se o Pontífice tem morte cerebral, mas pode ficar vivendo com a ajuda de aparelhos por mais dez anos? Vão substituí-lo? Vão deixar ele como papa? Algum cardeal vai tropeçar por acidente na tomada e se distrair rezando o terço? Ainda não foi dessa vez, mas a Cúria deveria se preocupar com essas possibilidades.