
Estou trabalhando no Jornal ontem quando, pela televisão, noticiam que o tenista Tim Henman perdeu em Wimbledon. Uma estagiária que estava perdida no departamento de design veio puxar uma conversa, chocada:
“O Henman perdeu!!”, diz ela.
“E…?”, respondo eu.
“O HENMAN. PERDEU!”, insiste ela.
“E daí?”, continuo.
“Eu esperava uma reação maior!”, diz ela, passada.
“Você sabe quem é o Gustavo Kuerten?”, retruco.
“Não”, diz a inglesa.
“Pois então, eu também não faço idéia de quem seja o Henman.”
E sem falar que, em se tratando de derrotas no tênis, já estamos bem mais acostumados, só se o Guga tivesse uma fratura exposta de fêmur na quadra durante o jogo que os brasileiros iam ficar chocados. Os ingleses investem as energias numas bobagens…
Pasmem, pasmem, está um calor aqui na ilha de você não conseguir dormir à noite, de ter que tirar o sapato e a camisa pra conseguir se concentrar no serviço, de sentir o suor pingando nas costas. Agora neste momento está pra começar uma chuva, já resfriando o ambiente; vamos ver se as chuvas de verão são a mesma coisa aqui no outro hemisfério.
Pois bem, depois de quatro dias de castigo, rodeado de livros e sites católicos, finalmente está pronto: NAME THE POPE. Se você ainda não visitou e votou, faça-o agora. Se você já o fez ontem, faça-o novamente hoje. Preciso de todos os votos que eu conseguir. Façam um mestrando feliz!
Eu e Fransje, minha housemate holandesa, estamos na sala de casa cuidando de nossos businesses ao som dos grandes sucessos do Elton John. Dez minutos atrás, ela me diz, confusa:
"Oh it looks like dandruff??"
"No", respondo eu, "it looks like Daniel."
"Oh, OK, it makes more sense now," responde ela.
"’Oh, it looks like dandruff, must be the clouds in my eyes’?", recapitulo eu. "That would be kinda nasty!"
"That’s why I was so puzzled!", diz ela.
"And, anyway, he probably already didn’t have enough hair then to have clouds of dandruff!", completo eu.
Richard, alone among Clarissa’s acquaintance, has no essential interest in famous people. Richard genuinely does not recognize such distinctions. It is, Clarissa thinks, some combination of monumental ego and a kind of savantism. Richard cannot imagine a life more interesting or worthwhile than those being lived by his acquaintances and himself, and for that reason one often feels exalted, expanded, in his presence.
- Michael Cunningham, The Hours
Ah, o que seria da imprensa se todos pensassem assim…
Meus housemates são super legais. O chato de não morar sozinho (ou praticamente, como quando morava com o Moicano) é ter que se vestir pra descer a escada e beber um copo d’água. As regras da convivência em sociedade…
Pergunta do dia: como é que eu demorei 25 anos para pegar pra ouvir o David Bowie direito? Viva as aranhas de Marte!
Uma nova fase da minha vida aqui na ilha começou com a chegada de um cara branco, pequeno e quadrado. Ele chegou faz pouco tempo, mas nós logo nos tornamos inseparáveis. Apesar de sua juventude, ele sabe quase todos os detalhes da minha vida, e já toma conta desse site, dos meus trabalhos da faculdade e da minha comunicação com os amigos.
Falo, é claro, de Macedo Afonso, meu lindo laptop.
Uma das minhas maiores dificuldades da minha vida londrina era a falta de um computador. Hoje em dia já não se faz mais nada sem um; um mestrado em design gráfico, então, é totalmente inconcebível sem um computador disponível para que você possa sentar por horas e fazer seus trabalhos. Eu, como pobre imigrante que chegou aqui praticamente com uma mão na frente e outra atrás, já tinha sorte de ter um lugar decente pra morar; computador ficava no plano das idéias até segunda ordem.
Entre os alunos da minha classe, por conta dessa minha necessidade de trabalhar e da falta de um computador, eu estava no rol dos mais coitados. Quase todos os meus colegas de classe, principalmente os europeus, têm seu laptop. Na hora de discutir os projetos com os orientadores, nada dessa pobreza tupiniquim. Iam pra sala do dito e abriam sensualmente seus laptops na frente do orientador, enquanto eu tinha que mostrar meus projetos assim, no meio da sala, na frente de todo mundo, num computador da escola.
É claro que tenho que me considerar um sortudo por poder ter usado o computador da KE esse tempo todo pra fazer meus projetos e etc. Sem os PCzões da JD, eu não sei o que seria de mim. Mas, mesmo assim, é um trampo, cada vez que você quer fazer algo da facul, ter que pegar a bicicleta, andar dez quilômetros, prender a bike, abrir a KE, e usar o computador. Se tiver sorte, você está sozinho e ninguém te interrompe; na maioria das vezes, porém, o telefone toca, alguém te pede um favor, surge uma urgência, ou alguém começa um papo mesmo, e lá se vai seu foco. Essa acabava sendo uma das razões pelas quais eu acabava trabalhando sempre até tão tarde; na calada da noite, todos estão dormindo - menos eu.
Com o dinheiro do Jornal, no entanto, a possibilidade de comprar um computador que me facilitasse a vida começou a se tornar mais real. Comecei a juntar dinheiro, lentamente. Meu plano inicial era comprar no cartão de crédito e pagar em duas vezes no cartão. Mas infelizmente (ou não), meu limite no cartão de crédito não era o suficiente pra comprar o laptop. Então esperei e me virei por mais um mês, juntei o dinheiro que faltava, e, assim que recebi do jornal, fui correndo fazer a compra antes que gastasse o dinheiro em besteira.
Fui na faculdade pra comprar pela rede deles e, assim, ganhar 10% de desconto. O que compraria, já estava decidido faz tempo: um iBook G4, com gravador de CD e DVD, 728 megas de RAM, 60 gigas de disco, mais uma câmera digital e uma mesinha digitalizadora. Esses dois, reconheço, são frescurites, mas seus preços, comparados com o do laptop, ficavam pequenos, e, então, que pelo menos eu fizesse o investimento todo de uma vez e ficasse feliz.
Demorou três dias para eles processarem meu pedido, mais uma semana e meia para entregarem. A espera quase me deixou doido, mas, no fim, já estava zen, me conformando em praticar a virtude da paciência e aguardando-o apenas para a outra semana. Entregaram na KE, como pedi, numa sexta de manhã (mesmo dia do show da Tori) e Renata me ligou avisando que tinha chegado.
A emoção de abrir as caixas era tanta que eu nem sabia o que fazer.
Depois de conferir que tudo funciona, começou a segunda fase, que é procurar todos os programas necessários para o laptop realmente se torne algo útil, não apenas um tocador de CD e leitor de e-mail. O que se resolveu bem rápido; graças ao auxílio de Léo Favre, Marina e do chefinho Roger, em dois dias eu tinha todos os programas de ponta que podia precisar.
Desde então, eu tenho carregado o laptop comigo pra todos os cantos. Sua existência me permitiu fazer algo totalmente inédito até então: tirar a segunda pra resolver as coisas da faculdade em casa, e não colocar o pé na rua o dia inteiro. Meus colegas de casa, totalmente desacostumados com minha presença assim, tão prolongada, perguntaram se estava tudo bem comigo, o que havia de errado. Eu me senti feliz da vida, e contente de ver como o serviço realmente rendeu.
Graças às tecnologias de ponta aqui da ilha, meu computador capta redes sem fio de onde estiver; elas são bastante comuns aqui, e já usei a rede da KE, da casa do chefinho Roger e da faculdade. E a de casa também, claro. Agora consigo ler e-mail e conversar no Messenger da minha cama, levantar e fazer um chá, se der vontade de trabalhar eu trabalho, se não der, não trabalho; nada daquela programação incessante de quando tinha que usar o computador alheio.
E por que Macedo Afonso, ouço vocês perguntarem. Bem, meu branquinho laptop se chama assim porque, primeiro, é um Mac, e, sendo Mac, tinha que ter um nome que assim começasse. Além disso, tem a mais que merecida homenagem ao tio Celso (Afonso Celso, para os alienígenas), sem o qual eu não estaria aqui. Portanto, Macedo Afonso.
Ele já me faz companhia o dia inteiro, o tempo todo. E eu nem instalei joguinho nenhum nele ainda…
Tá sentindo a diferença? Tá sentindo uma certa independência, autonomia, uma certa sensação de sala de casa e chinelos nesse post?
Sim. Meu laptop chegou, e está funcionando às mil maravilhas. Seu nome é Macedo Afonso, tem uns dois quilos, nasceu de parto normal e já está cheio de programas.
Uma das melhores amigas da Cynthia, a Tiana, é uma das maiores fãs da Zélia Duncan. Quando ela se apresenta em Sampa, Tiana compra ingressos para todos os shows. Sabe o humor da ídala só do jeito dela entrar no palco. Zélia a conhece pelo nome, pergunta por que ela não apareceu em tal show, é genial ver. Você pode até achar exagerado. Mas Tiana não.
Essa semana, eu entendi a Tiana.
Eu conheci a Tori Amos quando estava fazendo intercâmbio nos Estados Unidos, em 1995. O Jesse, meu host brother, com quem eu dividia o quarto, tinha o segundo álbum dela, o Under The Pink, e ouvia-o bastante. Colocava "The Waitress" pra tocar quando estava revoltado com o mundo, e eu fui prestando atenção no disco, e pegando gosto por ele aos poucos. Daí ela lançou o terceiro, Boys for Pele, ele comprou, e, pouco tempo depois, eu comprei também. Antes de ir embora, eu comprei o que ele tinha e o primeiro, Little Earthquakes. Cheguei no Brasil com Tori Amos e Alanis Morissette na bagagem, as duas totalmente desconhecidas em terras tupiniquins.
Desde então, eu tenho acompanhado a carreira da Tori, e ficado cada vez mais satisfeito com ela. Ela já está em seu oitavo disco; eu tenho todos. Até a uns três anos atrás, os discos dela não eram vendidos no Brasil, e eu tinha que mandar importar. Mas sempre valeu o investimento. Nesses dez anos, a Tori nunca deixou de criar coisas novas e diferentes, sempre surpreendendo seus fãs com sons e abordagens novas.
Uma das minhas frustrações, no entanto, foi que eu nunca ia conseguir assistir a um show ao vivo dela. Os milhares de sites de fãs, MP3 piratas e etc. sempre atestaram que ela era um espetáculo no palco, só com seu piano ou com banda. Mas ninguém jamais traria ela pro Brasil. A Alanis ficou pop e famosa, tinha quem bancasse algumas aparições abaixo do Equador; apesar de já não ser mais tão cult quanto já foi, a Tori nunca ganhou o impulso comercial que fizesse ser lucrativo trazê-la pra terra brasilis.
Pois então qual não foi minha alegria, aqui, perdido na ilha, ao saber que ela estaria fazendo dois shows em Londres pra promover seu novo disco, The Beekeper. Achei o preço meio salgadinho, mesmo para os lugares pobres, mas achei que valia o investimento, e comprei o ingresso pro show de sexta (haveria outro no sábado). Aqui tem que se comprar o ingresso assim que avisam que o show vai acontecer, dois meses antes do próprio, porque senão os ingressos acabam e você acaba ficando na mão (de cambistas). Comprei meu ingresso, que foi entregue em casa, e fiquei esperando o grande dia.
O espetáculo foi no teatro Apollo em Hammersmith, que fica no leste de Londres. É meio velhinho, mas bem grande - da época que qualquer casa de shows que se desse ao respeito tinha que ser impressionante e majestosa. Meu lugar ficava no segundo andar de assentos, láááá atrás, quase no fim, na fila T. Apesar do artista ficar meio minúsculo, a visão era boa, e, vi depois, o som é excelente.
Antes da Tori tocou Tom McRea, que é bem legal. Quando ela chegou, a platéia ficou em polvorosa. É sabido que os fãs da Tori Amos estão entre os mais histéricos do mundo da música - se ela arrotar no microfone, todo mundo vai achar lindo e aplaudir. O que pude conferir, no entanto, é que isso é em parte justificado. Ela tem uma presença de palco incrível; mesmo à distância astronômica que eu estava, dava pra sentir o controle que ela tinha sobre a platéia. Entre músicas do disco novo, músicas antigas e covers, ela fez um show fenomenal, com seu piano e três órgãos (e, várias vezes, tocando piano e órgão ao mesmo tempo). E, pra me deixar feliz, cantou "Marianne", que é uma das minhas músicas mais favoritas de todas.
O problema foi que, para meu horror, essa foi uma das platéias mais sem-educação que eu já vi na minha vida. Entre uma música e outra, NO SHOW INTEIRO, vinte ou trinta pessoas levantavam, iam fazer algo, e voltavam. Eu pensei que era só no começo, com aqueles que tinham chegado atrasados, mas o movimento continuou nonstop até o fim - algo que me irritou muito. Por eu estar lá atrás, eu via o movimento da platéia inteira. No bis, quando eu percebi que as pessoas lá no andar debaixo tinham se levantado pra encostar no palco, corri e fui pra lá também - e consegui ver a Tori mais de pertinho, confirmar que a figura de palco dela impressiona ainda mais quando você consegue ver a expressão facial dela, e jurei que no futuro eu gastaria mais para ter um lugar decente em que os malditos ingleses sedentos por cerveja não me atrapalhassem o show.
Pois então qual não foi minha alegria ao saber que meu chefinho Juliano tinha conseguido de graça um par de ingressos para o show dela no dia seguinte, e não poderia ir? Não tive dúvida, fiz ele entender que se era pra alguém usar esse ingresso esse alguém era eu, que eu buscava-o aonde fosse. E fui. O plano era vender o outro que ele não ia usar, mas não dava pra eu concorrer com os cambistas, então chamei a Marina, que estuda comigo, pra usar o outro ingresso.
E só posso dizer que serei eternamente grato ao Juliano por ter me dado esse presente. Porque o primeiro show já tinha me deixado impressionado, mas essa segunda apresentação foi dez vezes melhor que o dia anterior. Aparentemente, pelo que ela comentou por alto durante a apresentação, no dia anterior o teatro estava com sérios problemas por causa da chuva - esse tipo de coisa que a platéia nunca fica sabendo. Agora ela estava mais descontraída e mais concentrada na performance. E, melhor ainda, trouxe para cantarem com ela o grupo gospel que tinha participado da gravação do disco - aparentemente eles deveriam ter ido lá no dia anterior, mas não conseguiram chegar por conta da chuva.
Além disso, dessa vez eu estava preparado, e fui anotando as músicas que ela cantava pra guardar de lembrança. No meio da segunda música, me deu um estalo, formatei meu MP3 player, e resolvi testar o microfoninho dele. Pra deixar a noite mais perfeita ainda, o lugar do ingresso do Juliano era ótimo - ainda no segundo andar, mas na segunda fileira, ou seja, muito mais perto, e com uma visão panorâmica.
Tori tocou todas as músicas mais bacanas do disco novo, e inúmeros clássicos dos antigos. Na parte de covers que ela estabeleceu pra essa turnê, em vez de tocar as desconhecidas que tinha tocado no dia anterior, tocou "Father Figure", do George Michael, e - quase tive um treco - "Like a Prayer", da Madonna. Ela estava com a corda toda, e, para minha alegria, eu estava numa posição estratégica em que, se a inglesada levantava ou não, eu não via - apesar que teve um cara na fileira da frente à minha que, ao terminar seu baldezinho de cerveja, achando complicado passar pelas pessoas a seu lado, achou mais simples pular pra fileira de trás e sair do meu lado. Selvagens.
É uma pena que aqui, no entanto, não tem aquela cultura que tem nos shows brasileiros, de recompensar os persistentes com visitinhas ao camarim pra dar uns autógrafos. Seria a cereja do bolo - mas os seguranças olham feio se você pergunta se tem coomo encontrar o artista depois do show. Vissiscitudes culturais.
Enfim, quase chego a agradecer (mas not really) que a Tori não fica no Brasil o tempo todo, porque, depois desse show, me sinto obrigado a ir a todos os shows dela que eu puder - e em bons lugares. Vale o investimento.
Para concluir, aqui vai o setlist do show de sábado, que eu consegui anotar:
- “Original Sinsuality”
- “Father Lucifer”
- “Icicle”
- “Mother Revolution”
- “Take Me To The Sky”
- “Yes, Anastasia”
- “Bells For Her”
- “Father Figure”
- “Like A Prayer”
- “Winter”
- “Cooling”
- “Jamaica Inn”
- “Witness”
- “The Beekeeper”
- “Sweet The Sting”
- “Rattlesknakes”
- “Hoochie Woman”
- “Hey Jupiter”