Daqui não passa
 
Busca

Posts arquivados em Dezembro 2005

Natal renal

Arquivado em textos |
26 12 2005 0 00 00

 

Lido 5 vezes


 

Sem comentários »

Em março desse ano, numa dessas viradas que a vida dá, descobrimos que a Ana Paula tinha tido falência dos dois rins. Numa dessas sortes que se dá na vida, apesar dos dois não terem mais jeito, pegamos (por pouco) antes que algo grave e permanente acontecesse.

Eu não estava por perto pra acompanhar tudo o que aconteceu; por conta disso, quando cheguei, tive que me acostumar emocionalmente à nova rotina em casa. Minha irmãzinha tinha um catéter na barriga para fazer-se diálise, um procedimento que compensava a falta de rins enquanto se resolvia o que fazer. Vê-la pela primeira vez, deitada na cama jogando gameboy como se nada demais estivesse acontecendo enquanto Mãinha se ocupava do procedimento foi tão chocante pra mim que não pude fazer nada além de fingir que nada demais estava acontecendo. O bom humor de Aninha, que continuava engraçada e espirituosa, continuou estudando (e passou bem de ano) e que não ficou se lamuriando por aí por conta dos ocorridos só me faziam pensar, envergonhado, em como eu estaria ranzinza se isso tudo fosse comigo.

Pois eis que o Natal vem chegando. Dia 22, pensando como eu ainda tinha que ir pra rodoviária comprar passagem pra viajar pra Araraquara no dia seguinte, eu acordo e vou tomar café da manhã. Encontro meu celular na cozinha, com 8 chamadas não atendidas, de mãe, pai e Cynthia. Ligo de volta, e pergunto que pasa?

"Oi, fi, estamos em São Paulo", diz Mãinha. "Surgiu um doador pra sua irmã, a operação vai ser hoje mesmo".

Eu não sabia se ria, se chorava, se pulava, se corria. Na indecisão de que atitude tomar, acabei indo trabalhar mesmo. Cheguei na Recesso contentão, espalhando pra quem quisesse (ou não) ouvir que minha maninha tinha conseguido um rim novo.

Liguei várias vezes durante a tarde pra saber a quantas andava o procedimento. Pai e Mãinha me mantiveram a par dos ocorridos, que correram muito bem. No fim da tarde, ao falar com Cynthia, chegamos os dois à conclusão de que não agüentávamos mais ficar no suspense e que tínhamos que ir pro hospital já. Fugimos dos empregos, nos encontramos no metrô uma hora depois, e rumamos para o Hospital do Rim, na Santa Cruz. No caminho compramos uma vaca engraçada que mugia e mexia o pescoço pra tentar alegrar Ana Paula.

A gente não tem uma noção do baque que uma operação dessa dá numa pessoa até que vê alguém que acabou de sair de uma. Consegui fazer uma visitinha na UTI naquela noite, e ela estava lá, deitadinha, cheia de tubos que entravam e saíam dos mais diferentes lugares, saindo da anestesia. Sabia que a gente tava lá, mas prestar atenção requeria esforço; um tubo na boca não a deixava falar. No meu turno com ela na UTI, fiquei lá bolando perguntas de sim e não pra ela poder responder com a cabeça, me sentindo meio incapaz de fazer muita coisa que ajudasse, mas querendo estar lá pra dar uma forcinha moral que fosse.

E assim continuei visitando todas as noites. Véspera de Natal ela estava ainda na UTI; Danilo estava de plantão, Anselmo foi para Araraquara representar a família no Natal da Vó, e, às oito e meia da noite, eu fui pro hospital pra tentar ficar o máximo de tempo que permitissem com Ana Paula. Mãinha estava lá direto desde a operação; Pai me levou e ficou lá com a gente também.

Quando cheguei, pensei em cantar nosso hit familiar natalino, "Então é Natal", mas fiquei com medo de que, quando chegasse no verso "E o que você fez?", todos da UTI respondessem em coro: "TRANSPLANTE!". Ficamos os três espremidos na poltrona ao lado da cama da Ana Paula, levemente clandestinos, conversando baixinho e tentando dar um pique natalino para Aninha. Ela ainda estava molinha e cansada, mas já tinha menos tubos e podia falar um pouquinho quando queria.

No dia seguinte liberaram ela para ir para o quarto, e assim a gente pode fazer uma entrega de Papai Noel no dia de Natal mesmo. Anselmo chegou à tarde com Natashy e Vô Anselmo, com os presentes de amigo secreto, vídeos da família desejando melhoras para maninha e os presentes de Natal todos. Ana Paula animou um tanto, precisou um pouco de ajuda pra abrir os embrulhos, mas adorou seus presentes.

Mas, para todos nós, o maior presente de Natal para a família toda já tinha chegado a alguns dias.

Cartão de Natal

Arquivado em textos |
25 12 2005 0 00 00

 

Lido 5 vezes


Tags: ,

 

Sem comentários »

Arquivado em notas |
19 12 2005 0 00 00

 

Lido 3 vezes


 

Sem comentários »

No ônibus hoje, a caminho do trampo, bato o olho num letreiro de loja: "Sofra Sempre Sorrindo - Piercings e Tatuagens".

Como não AMAR São Paulo depois disso?

As minas

Arquivado em textos |
18 12 2005 0 00 00

 

Lido 3 vezes


 

Sem comentários »

Marilolo, num ato de enorme bondade, abriu sua casa para me receber nesse meu mês de passageiro. Me cedeu um quarto em seu apê e me abrigou feliz da vida, apesar da falta de um controle de portão que nos facilitaria a vida.

Cynthia Miranda continua a mesma, mas melhor. Estamos mais primos do que nunca, e as resistências que eu tinha perderam as forças nesse ano de distância. Vinicius de Moraes, descobri, disse que amigo não se faz, se reencontra. Nesse caso, achei uma parente do coração, sempre lá pro que der e vier.

Cris Yamazato tornou-se mais uma adição ao meu rol de amigas queridas do fundo do peito, uma amizade iniciada quando trabalhávamos juntos, alimentada à distância, e reforçada agora com o retorno. Tricotamos ao vivo, via MSN, de todas as maneiras. A cumplicidade só faz crescer, e deve dar muitos frutos ainda.

Ptah está difícil de encontrar, mais ainda conseguimos fazer a conjunção astral virar.

Priscila está linda, magra e feliz. Esse ano fez um bem danado pra ela, que foi morar em Brasília e resolveu vários dos seus pepinos sentimentais. Vê-la feliz me faz feliz, e ela há tempos precisava de uma fase brilhante na vida. Ela também me fez reencontrar Hugo, o que rendeu uma noite fora de série de conversas enormemente inteligentes e espirituosas que eu não tinha há muito tempo.

Kika está linda, mas teve que recolocar o aparelho, para seu enorme desgosto, pra resolver um problema de ATM que a deixou tomando sopa em todas as refeições no meio do ano. Reclamou que eu não escrevo no Chão, e eu abaixei as orelhas e obedeci.

Amanda, vejam só, casou. E eu nem fiquei sabendo. Juliets também, mas essa, não no papel.

Dani Tovs está linda e malhada, fazendo natação todos os dias. Não nos encontramos ainda o tanto que precisamos, mas antes de eu partir de novo ainda dou um jeito disso acontecer.

Executando

Arquivado em textos |
12 12 2005 0 00 00

 

Lido 3 vezes


 

Sem comentários »

Algo que revoltou muito despropositadamente grande parte das pessoas à minha volta foi o fato de eu chegar num sábado, e segunda já estar trabalhando na Recesso de novo. A explicação foi dada N vezes: um belo dia, em Londres, parei pra pensar e me dei conta de que todo mundo que eu conheço estaria de férias, menos eu. Um prospecto tenebroso de um mês ocioso, olhando para a parede e procurando no que me ocupar, distendeu-se sobre meu futuro. Nessa mesma hora, liguei para a querida ex-chefa, me ofereci para dar uma força nos adiantamentos de fim de ano, e quase instantaneamente e com grande alegria ela me disse que topava.

E com maior alegria ainda cheguei para trabalhar na segunda. Meus queridos colegas (por que não dizer, amigos) me receberam com os braços abertos e um sorriso no rosto. Os que entraram depois que eu saí e não me conheciam abriram as boas-vontades para me conhecer. Calhou de nessa semana continuar usando o mesmo computador que eu usava antes. Mais uma vez, era quase como se eu não tivesse ido embora.

E, mais fenomenal ainda: uma semana antes, Cris Yamazato, por MSN, me perguntou do que que eu sentia falta do cardápio da Abril. Eu disse que tinha saudades da gostosa e gordurenta batata dauphine, quitute que só tinha comido lá. Pois não é que ela mandou um pedido para o refeitório, dizendo que um amigo estava voltando de viagem naquele dia, o qual tinha saudades da batata dauphine, perguntando se não podiam fazer esse prato na segunda que eu chegava? E, pasmem, fizeram!! Quase chorei de emoção, por comer a batata de novo, e por eles terem se dado o trabalho de pedir e tudo mais.

A semana passou rapidamente, reencontrando um velho amigo por noite, adaptando-se à nova rede social da Recesso de dia, feliz. É engraçado ver quem emagreceu, quem engordou, quem continua igual, quem mudou o corte de cabelo, quem perdeu cabelo, quem pintou cabelo… Muita coisa muda num ano.

Sexta-feira foi minha festa de bota-dentro, no Vegas, lugar recomendado por metade do povo que eu perguntei sobre lugares bacanas em Sampa quando estava em Londres. Thompson achou eu chegar com a festa já armada de Londres secretária-executiva demais pro gosto dele; só pude responder que minha vida tem sido secretária-executiva desde que fui pra lá. Todos meus queridos amigos da faculdade foram comigo para a festa; reunir a caixinha de especialidades toda de novo foi tão bom que me fez sorrir a noite inteira. Mais tantas pessoas que foram lá só pra me ver… Não dava pra conversar, o que é uma pena, mas fica pra próxima.

Chegar chegando

Arquivado em textos |
5 12 2005 0 00 00

 

Lido 5 vezes


 

Sem comentários »

O momento de passar na alfândega é, na minha opinião, o mais próximo de um filme de suspense que a vida real pode chegar. Você sabe que está cheio de coisas que deveria declarar se fosse estupidamente honesto, mas tenta calçar a sua cara de pobretão sem eletrônicos e empurra seu carrinho o mais confiante possível. Entra na fila do nada a declarar com a maior cara lavada; o tio da alfândega te olha. Suspense. Tcham!! Será que vai colar? Será? Será?

Não colou. O guarda pediu pra eu passar minhas malas no raio-x. Lá vou eu, tentando manter a cara inocente, enfiar a bagagem na máquina.

"Você tem dois laptops?", pergunta o tiozinho no. 2.

"Tenho sim".

"O senhor aguarde lá no canto, por favor".

Espera um pouco, vem tiozinho no. 3, que me pede para abrir as malas. Lá vou eu tentando fazer uma leve cara de impaciência, como quem diz "que absurdo, alguém inocente como eu, parado na alfândega…". Não cola muito, já que não consigo conter os gaguejos. O tio olha um laptop, depois o outro, os dois abertos e em maletas.

"Sua profissão?", diz ele.

"Designer gráfico".

"Onde mora?", ele continua, fazendo cara de mau.

"Agora, Londres", respondo, tentando parecer cool.

"Quero ver um comprovante de endereço", diz ele, mais mau ainda.

"Claro", falo, tentando lembrar em que mala que eu enfiei o registro da polícia de Londres.

"O senhor usa esses dois laptops profissionalmente?", diz seu guarda.

"Uso sim", minto eu.

"Pode passar. Não precisa mostrar o comprovante de endereço", diz ele, se fazendo de crédulo.

Eu volto a empilhar as malas no carrinho, dando graças a deus que comprei o laptop do pai usado, e vou de encontro com a familia, que, sabia, estava me esperando do outro lado do portão de desembarque.

.o0o.

Para quem já viajou 20 horas, nada melhor do que… continuar viajando. Pai, Mãinha, Anselmo e Ana Paula vieram me pegar no aeroporto - faltaram Danilo e Ana Paula. Fotos, lágrimas, saudades mortas espalhadas pelo chão, malas empilhadas no porta-malas, nós todos acomodados no carro, e eu tentando me acostumar com isso de um dia estar num país e no seguinte estar no outro, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo.

Mais duas horas do aeroporto até Campinas, onde eu faço a distribuição de presentes para todos. Anselmo, que ganhou jogo de computador e três camisas de futebol britânico oficiais, quase morre de emoção. Os presentes, em geral, agradam, acho eu. Como estou bonzinho, deixo Anselmo instalar seu jogo novo no Macedo Afonso, pra ele poder ir jogando na viagem.

Sim, porque, como se não tivesse viajado o suficiente, estávamos agora indo para Araraquara, por uma boa causa: o aniversário da Vó Maria, no qual eu chegaria de surpresa.

As paisagens da estrada continuam as mesmas, mas é tão bom estar em solo nacional de novo.

Vó Maria quase teve um ataque do coração quando me viu, de tão contente. Tios e tias de monte para cumprimentar e abraçar. A primaiada toda cresceu. A comida é ótima, aleluia salve salve. Mais um pouco, e estamos jogando baralho. Chegar foi tão fácil, nem parecia que eu tinha ido.

Homeward bound

Arquivado em textos |
3 12 2005 0 00 00

 

Lido 6 vezes


 

Sem comentários »

Ainda me parece um prodígio absurdo que um avião cheio de gente saia voando mundo afora e cruze um oceano a 700 km por hora.

Estou eu aqui na classe econômica, nas intermináveis duas horas antes do vôo terminar, retornando para a pátria amada idolatrada salve salve (por só um mês, mas, enfim). No que se refere a vôos, esse nem que foi tão ruim. O lugar ao lado do meu está vago, o que significa que eu tenho um pouco mais de espaço que a maioria das pessoas - mas ainda morro de inveja do povo que vai estirado na primeira classe. Antes do avião zarpar, um cara veio me pedir pra trocar de lugar com ele, porque ele estava separado do amigo dele e eles queriam sentar juntos, e assim eles poderiam ocupar o meu lugar e o lugar ao lado. Eu tive que dizer um não bem nãozado. Me desculpe, mas filantropia tem limite.

O livro que eu trouxe pra ler não durou mais que a espera da conexão entre Londres e Madri, quando peguei esse vôo de Madri pra Sampa as livrarias estavam todas fechadas, e agora eu estou entrando em parafuso, já que não consigo dormir, não tem o que ler e o tempo não passa. A bateria do laptop dura só mais meia hora. Talvez um crime aconteça antes de pousarmos.

Tem uma senhora uma fileira atrás que ocupa todo o espaço social do avião. Antes dele partir (com um atraso de duas horas, devido a congestionamento aéreo) ela ficava reclamando com a outra comadre dela ao lado que isso era um absurdo, o que estava acontecendo, por que que não davam sequer uma satisfação, bla bla bla bla. Depois de meia hora dessa ladainha, sem partirmos, e ela ameaçando ir na cabine do piloto, eu estava prestes a dar um soco na cara dela e enfiar essa mala no compartimento de bagagem, mas fiquei com medo de atrasar mais ainda o vôo. Em certo momento ela chegou a levantar, e voltou cinco minutos depois, se achando o máximo, dizendo revoltada que os aeromoços estavam jantando e que por isso que estava atrasado e assim que eles terminassem de encher a pança iam se preocupar com o resto do avião. Comissário de bordo tem que ter paciência, mesmo.

Já fazem 20 horas que eu estou viajando. Peguei um táxi da Jungle ontem para a estação de Paddington, onde tem um trem expresso que leva para o aeroporto de Heathrow em quinze minutos (quando se compara às duas horas de metrô entre Heathrow e o albergue que eu peguei quando cheguei… nada como não ter mais dinheiro contado). O motorista do táxi, um turco, tentou me convencer a deixá-lo me levar para o aeroporto ao invés de apenas até a estação de trem - no fim das contas, o preço total que ele ia cobrar sairia apenas quatro libras a mais que o preço do táxi mais a passagem de trem. Eu quase cedi, mas daí pensei em como eu ia ficar ansioso se a gente pegasse congestionamento, se ele começasse a andar em zigue-zague pra escapar do trânsito, etc. e tal, então achei melhor pegar o trem mesmo que com certeza chega na hora. O tio ficou muito ofendido, e nem eu deixar três libras de gorjeta pra ele fez ele parar de resmungar.

Na hora do check-in, minha mala estava 6 quilos mais pesada que o permitido. Tive que ir pruma loja do aeroporto, encontrar uma bolsa que tivesse a melhor relação tamanho-peso, e repartir a bagagem entre as duas, pra não ficar preso na ilha por excesso de bagagem. Mas, tirando isso, tudo deu tão certo que até me espanta - pensar que eu comprei essa passagem de volta há quase um ano, e ela realmente estava lá me esperando. É espantoso. Assim como um avião levantar vôo. E a bateria do laptop ter durado tanto. Mas agora já vai desligar.