
Quando eu tinha uns cinco anos, não sei por que raios, Mãinha me ensinou a fazer a posição de lótus (me lembro de que foi no chão da sala), e eu nunca mais desaprendi. Na tenra infância também aprendi a fazer ponte. Hoje em dia, por mais que eu não consiga esticar a perna em metade das posições e pegar o pé passando o braço pelas costas seja um sonho distante, os professores de ioga aqui da ilha me acham um prodígio por conta dessas minhas habilidades infantis. Impressionante.
If you are ever forced to take a chemistry class, you will probably see, at the front of the classroom, a large chart divided into squares, with different numbers and letters in each of them. This chart is called the table of the elements, and scientists like to say that it contains all the substances that make up our world. Like everyone else, scientists are wrong from time to time, and it is easy to see that they are wrong about the table of the elements. Because although this table contains a great many elements, from the element oxygen, which is found in the air, to the element aluminum, which is found in cans of soda, the table of the elements does not contain one of the most powerful elements that make up our world, and that is the element of surprise.
- Lemony Snicket, The Ersatz Elevator
Entre as minhas leituras desse começo de ano, está um livro de reeducação alimentar. O tom dele me irrita por ser todo metido a engraçado e esperto, mas eu, influenciável como sou, me ferrei mesmo assim. Descobri o que é gordura hidrogenada, aprendi a ler tabela nutricional e não consigo mais comer as coisas gostosas da vida sem remorso. Fico seco pra comer uma bolacha, olho pra ela, suspiro e como uma banana. Espero que o resultado de "life-long leanness" realmente aconteça pra compensar o esforço.
Semestre passado, durante o projeto final do mestrado, meu orientador copiou no Macedo Afonso o 1 giga de fontes de sua coleção para que eu tentasse localizar as fontes de que precisava para a pesquisa. Esse giga ainda se encontra aqui, é claro; e é um lindo presente de grego. Agora, na minha resolução de renovar os projetos, estou aqui desbravando a tarefa de ver todas elas e registrar as que me agradam mais. Em três dias, já cheguei na letra E.
“How I loathe public access television. When I want my intelligence insulted I want it done by professionals. Highly-paid professionals, goddamnit.”
- Peter Milligan, Shade, the changing man #40
E assim se descobre a localização dos lugares. O moreno do “Rancho Fundo” mora bem pra lá do fim do mundo; é uma pena que o autor não especificou em que direção, mas, se for no sentido América-Europa, calha do Rancho Fundo na verdade ficar aqui na ilha. Seja onde for, o fim do mundo eu já encontrei.
Hoje, mais uma vez, concentrei todas as minhas forças pra ir no curso de guitarra que me manterá como estudante aqui juntinho com a Tia Bete. O problema vai além da total incompatibilidade de objetivos entre eu, os professores e os alunos; faz pelo menos três anos que minha vida não precisa começar antes das 11 da manhã. Especialmente aqui na Terra da Ingla, eu raras vezes realmente tinha horário pra acordar. A facul nunca começou antes das 11 horas, e fica a sete minutos de bike aqui de casa; eu sempre pude acordar nove, nove e meia, tomar banho e café da manhã com toda calma do mundo e ir pra aula.
Essas duas horas parcimoniosas antes de sair de casa tornaram-se sinônimo de qualidade de vida pra mim. Acontece que agora eu estudo num lugar que fica a uma hora de bicicleta. Assim sendo, pra eu chegar, digamos, às dez na aula, eu teria que acordar às sete pra poder cumprir a rotina matinal a contento e pedalar pra escola. Agora, com a grande diferença de temperatura entre minha cama e o mundo exterior, o horário indecente e a escuridão lá fora, não é muito difícil adivinhar que até hoje eu não cumpri o horário uma vezinha que seja.
A hora pedalando é muito aprazível, já que o caminho que eu aprendi me faz cruzar o Hyde e o Green Park, passar na frente do palácio de Buckingham e por aquele lugar chamado Notting Hill. Mas acontece que existe uma maravilha do serviço público que é o site Transport for London. Você põe lá onde está e pra onde que ir, e ele te dá os itinerários todos dos horários que você quiser. Ou, se preferir, a melhor rota para ciclistas. São rotas maravilhosas sem subidas, descidas, ou trânsito, passando por lugares lindos que eu nunca acharia sozinho. O problema é que também costumam ser MUITO tortuosas; se considerar-se a dificuldade que é encontrar uma placa que te diga o nome da rua em Londres, dá-se que a primeira vez que se faz uma rota nova costuma-se demorar o dobro do tempo normal.
Pois hoje eu resolvi testar a rota que o TFL recomendava de casa para a escola, que, vi desde o começo, era totalmente diferente do caminho que eu costumava fazer. Já estava atrasado quando saí, mas a perspectiva de descobrir recônditos novos (e a falta de vontade de fazer aula) me fizeram ignorar isso.
Na hora que eu tirei a foto aí em cima, já estava uma hora e meia atrasado. Mas não consegui deixar passar essa foto, ainda mais pra um fã de Sandman como eu (e a emoção de encontrar um restaurante no fim do mundo logo em frente? Seria o Inn at Worlds End disfarçado?). No fim das contas, quando faltava pouco pra chegar na escola, já estava tão atrasado que achei que não valia o esforço de ir até lá pra chegar atrasado na última aula. E fui pedalando pro serviço.
Um detalhe preocupante na foto acima são meus olhos inchadaços. Não tinha me dado conta de que estavam assim; mostrei a foto pro povo da KE e eles me disseram “Ué, você tá assim faz um tempo. Você chegou do Brasil com uma cara ótima, mas faz dias que você está com a cara inchada assim. Deve ser porque você tá dormindo demais”. Terrível. Vou ter que dormir menos pra não ficar parecendo um travesseiro. Mas quem sabe daí eu começo a chegar no horário nas aulas.
Às vezes se acorda de mau-humor, e às vezes o mundo amanhece até que bem bacana; essas minhas flutuações de espírito são um mistério para mim. Talvez seja como Lermano disse mesmo e tudo só dependa do ponto de vista. Ou talvez, como disse Cris Yama, comprinhas fazem um bem danado pra gente - mesmo que sejam apenas luvas e luzes para a bicicleta.
No MSN hoje:
Ares: Que historia eh essa de washing the dog?
DF: aaa.. eh assim…
DF: vc sabe q eu tenho mtos questionamentos sobre a vida
DF: nunca to feliz…
DF: dae, existe um cantor chamado ricky martin
DF: q SEMPRE q lanca um cd diz a mesma coisa:
DF: “esse cd reflete uma nova fase da minha vida.. aprendi mta coisa, estou + espiritualizado… voltei pra minha familia, passei um tempo em porto rico com meus amigos, lavava o meu cachorro”
DF: e eu a raquel sempre vemos ele na HEBE
DF: e sempre sai essas mesmas coisas em todos os releases
DF: dae, conversando com ela, eu falei..
DF: acho q a saída eh ir lavar o cachorro em porto rico
DF: e ficou!
- As costas descascando apenas onde eu não consegui passar protetor solar, coçando infernalmente exatamente por estar na região em que eu não consigo alcançar, me lembravam do sol maravilhoso que só verei novamente daqui a meses.
- A visita de Cynthia em Campinas apenas para se despedir direito me faz agradecer pela família escolhida e a sorte de poder contar com vínculos misteriosos como este.
- Com a assessoria de Cynthia Miranda, comprar a encomenda de calcinhas que Soraia me pediu encarecidamente que trouxesse para a Inglaterra me faz perceber que mulher é, mais que nunca, um bicho complexo.
- Observando Ana Paula, fico bobo com todas as metamorfoses que ela passou nesse mês, de emagrecer ossudamente para a bochecha inchada do corpo querendo recuperar o tempo perdido. E começar a reparar que o nariz dela está caparicando.
- Jogar videogame com os dois irmãos me faz parar pra perceber como esses momentos de felicidade simples são importantes e raros.
- Despedir de todo mundo é dureza. Na hora de subir no ônibus pro aeroporto, eu e Mãinha tentando segurar o choro.
- Quando se embarca, não tem mais jeito. O ar condicionado do avião solta uma fumaça que parece cenário de filme. Ao meu lado, uma senhora alemã que fala português muito bem, mas com sotaque, e disciplina todos os passageiros e comissários com autoridade de fraulein. O mapa do vídeo aponta que já passamos por Salvador; me lembro das praias e fico querendo enfiar a cabeça na areia.
Não obstante, escrevia frustrado e pesaroso, encontro-me colocado perante uma contradição que não vejo forma nenhuma de solucionar, que duvido mesmo que haja para ela resolução possível, e é que se é certo que todos os vectores da metódica e minuciosa análise grafológica a que procedi apontam a que a autora do escrito é aquilo a que se chama uma serial killer, uma assassina em série, outra verdade igualmente irrefragável, igualmente resultante do meu exame e que de algum modo vem desbaratar a tese anterior, acabou por se me impor, isto é, a verdade de que a pessoa que escreveu esta carta está morta. Assim era, de facto, e a própria morte não teve remédio que confirmá-lo, Tem razão, o senhor grafólogo, foram as suas palavras depois de ler a erudita demonstração. Só não se compreendia como, estando ela morta, e toda feita de ossos, fosse capaz de matar. E, sobretudo, escrevesse cartas. Estes mistérios nunca serão esclarecidos.
- José Saramago, As intermitências da morte