
Quando eu vim pra cá, eu prometi pra Recesso que eu faria o possível pra aproveitar minha estadia nas estranjas pra conseguir uma entrevista com o povo do Harry Potter, um furo indescritível para uma revista infantil hoje em dia. Entrei em contato com o povo da Warner pouco tempo depois de chegar aqui, e graças a isso participei de eventos bem interessantes.
Pouco depois do meu primeiro contato, o povo da Warner me disse que não tinha nenhum evento relacionado com o Harry Potter no momento, mas que haveria uma série de entrevistas coletivas com o elenco de seriados, se eu não queria participar de alguma. Eu disse "of course", e assim me vi brincando de jornalista, participando de uma press junket com o elenco do seriado The OC. Foi no esquema mesa-redonda, ou seja, oito ou nove jornalistas conversam com a pessoa em volta de uma mesa por meia hora, e assim todos podem compartilhar das perguntas e respostas alheias. Eu estava bem ansioso, mas acabou sendo mais fácil, simples e divertido que eu imaginava. Acabei vendendo a entrevista pra Capricho; eu tinha ficado preocupado em bolar perguntas inteligentes pro elenco, enquanto os outros jornalistas fizeram as perguntas típicas tipo "você tá namorando" etc. Obviamente, no fim das contas os editores cortaram todas as minhas perguntas inteligentes e deixaram só as futilidades. Mas eu entendo.
Muitos meses depois, pouco antes da estréia do Harry Potter e o Cálice de Fogo, fomos convocados para uma coletiva para a imprensa internacional com o elenco do filme. Eu e Soraia fomos juntos, nessa que acabou sendo uma coletiva mais nos modelos que a gente imagina quando ouve a palavra: dezenas e dezenas de jornalistas dos mais variados países se estapeando para conseguir jogar suas perguntas para os atores. Eu não consegui fazer pergunta nenhuma, mas consegui arrancar uma matéria que interessasse aos nossos leitorzinhos das perguntas que foram feitas no dia. A matéria foi um sucesso, e eu me tornei o "espião da Recesso em Londres".
Bem, ontem eu fui ao meu terceiro evento. Como estão prestes a lançar o DVD do último Harry Potter, organizaram uma coletiva com os atores coadjuvantes desse filme (os principais, claro, estavam ocupadíssimos demais pra nos dar atenção). Esta, porém, ia ser mesa redonda, o que me deixou mais alegre com a certeza de que conseguiria fazer minhas perguntas pra eles, por mais coadjuvantes que fossem.
O evento ocorreria nos estúdios onde são gravados os filmes da série. Assim, tive que acordar cedíssimo para estar na porta de um hotel às 7:45 da manhã, de onde partiria um ônibus que levaria todos os jornalistas ao estúdio. Obviamente o ônibus só acabou partindo às nove da manhã, fazendo que minhas olheiras por acordar nesse horário totalmente fora da minha rotina ficassem, além de profundas, inúteis.
Para ser bem sincero, deve ser dito que, para um lugar-conceito que ocupa um lugar tão grande no imaginário coletivo mundial, um estúdio de cinema é algo com bem pouco glamour. Não passa de um monte de galpões um do lado do outro, pintados de branco por fora. Para acolher os jornalistas, um monte de cadeiras de plástico, num ambiente amplo e mal-aquecido. Mas o café da manhã dava pro gasto. Tivemos que aguardar mais uma hora e meia até que as vítimas chegassem para ser entrevistadas. Pelo menos estavam todos de bom humor, nenhum lá fazendo cara feia ou dando resposta atravessada. Falei com o diretor do Harry Potter e o Cálice de Fogo, com o produtor da série, com a menina que faz a Cho Chang e com os três competidores do torneio Tribruxo.
Um outro lance engraçado desse tipo de situação é que, em matérias como a que eu tinha que fazer, você tem que perguntar a mesma coisa para todos os entrevistados. Acontece que os outros jornalistas que participam da entrevista muitas vezes também tem queu fazer sempre as mesmas perguntas. Quando você chega na quinta entrevista do dia, naturalmente meio que já se formou um roteirinho, com você fazendo a sua pergunta depois daquela do outro que você sabe que vai dar um gancho bacana para a sua… Pelo menos dessa vez nós não tivemos que nos estapear pra todos conseguirem perguntar o que queriam.
Mas devo dizer que pra mim o ponto alto mesmo do dia foi quando a produção do evento juntou nós jornalistas todos e nos levou para visitar os cenários dos filmes do Harry. Quando eu entrei no salão principal de Hogwarts eu quase chorei de emoção. Queria tanto que não tivesse a regra proibindo a gente de tirar fotos, pra registrar o momento! Ficava lá, embasbacado, olhando para os detalhes todos do cenário, querendo botar a mão mas com medo de parecer mané demais… Querendo fazer o momento durar o máximo possível. Ficará sendo uma das minhas memórias mais queridas de Londres.
Uma das razões por que eu gosto de trabalhar no Guardian é que, ao mesmo tempo em que eles fazerem artigos longos e profundos sobre política, a situação no Iraque ou o uso de cobaias humanas para testar medicamentos, eles também não se levam tão a sério. Já colocaram como destaque na primeira página, assim, sem eu me esforçar muito pra lembrar, matérias sobre a mania recente dos britânicos de estarem bronzeados, o que fazer para salvar as toupeiras, a derrocada do salto-agulha e o poder afrodisíaco da maria-fumaça. Hoje, vejam só, está na primeira página uma chamada para uma galeria de fotos no caderno de variedades comemorando os cem anos da criação da permanente. Na matéria, dezenas de homens e mulheres artificialmente cacheados, a maioria nos anos 1980. Na primeira página, uma lânguida foto de uma das primeiras permanentes do mundo, tirada em mil novecentos e bolinha. Ela não parece muito feliz, mas a foto é o máximo.
Eu percebi recentemente os efeitos que a música de Caetano Veloso tem na cultura brasileira. Me dei conta de que 60% das pessoas que me escrevem me perguntam "Como estão as coisas em London London?". Como eu suponho que ninguém pergunta aos imigrantes brasileiros em Milão "Como estão as coisas em Milano Milano?", por exemplo, vê-se que a canção de Caê já fincou raízes sólidas no incoolsciente coletivo. Mesmo sendo em inglês. Ou por causa disso. De hoje em diante, minha resposta padrão será "I’m wandering round and round, nowhere to go".
Na versão on-line da Folha impressa (não confundir com a Folha On Line) está um enorme banner vertical da Intel, com a imagem de um surfista, e os dizeres "Eu mereço surfar na internet - liretalmente". Será que é de propósito? Quanto tempo vai levar até que percebam que não estão surfando tão literalmente quanto gostariam?
Foi uma situação meio epifânica. Depois de ter levado uma pequena comida do meu querido chefinho na semana anterior porque eu estava chegando muito tarde no jornal, hoje eu resolvi chegar cedíssimo e mostrar como eu já tinha corrigido meus modos atrasados. Fui de bike, como sempre, e estava lá, deixando ela na bike shed que tem na garagem do jornal, quando um outro indivíduo chega com sua bicicleta e tem dificuldade pra encontrar o cartão magnético que abre o portãozinho. Solícito, vou lá abrir pra ele, já que estava do lado, e me ligo que o indivíduo é um editor que já era fodão antes e que recentemente, ao ser promovido, se tornou mais fodão ainda.
Enquanto ele agradecia e encontrava um cantinho pra acorrentar sua magrela, eu parei e fiquei pensando. O editor mega-power… vinha trabalhar de bicicleta que nem eu.
O paralelo com a editora em que eu trabalhava no Brasil veio na hora, e só naquele momento que eu me dei conta das discrepâncias. Lá na Editora, o prédio tem um mega-estacionamento de cinco andares, milhares de vagas, e um estacionamentozinho de bicicletas que só serve de desencargo de consciência, onde cabem no máximo 20. Vinte vagas, que estão em geral vazias; apenas 3 ou 4 bicicletas usam-nas regularmente, e eu lembro de bicicletas que ficavam lá esquecidas meses a fio. Enquanto isso, no jornal, eles não têm um estacionamento próprio de carro que seja, mas têm o cercadinho das bikes, que deve abrigar umas 150 bicicletas, todas as vagas disputadas a tapa. A ponto do povo se organizar para remover as bikes que ficavam lá esquecidas por mais de duas semanas, pra não deixar ninguém que realmente usa sem vaga.
Claro que existem as diferenças práticas e geográficas entre Londres e São Paulo. Londres é uma cidade bem plana, enquanto Sampa é um sobe-desce sem fim. E as distâncias em Sampa são bem maiores. Mesmo assim… acho que o problema é mais de outra ordem. Afinal, todos meus amigos que saíram da casa de pai e mãe fizeram o possível pra encontrar um lugar em que se evitasse as distâncias absurdas e facilitasse seu dia-a-dia.
No fundo, um carro no Brasil é basicamente um símbolo de status. Um objeto de desejo tão forte que faz as pessoas acharem perfeitamente razoável entrarem em prestações a perder de vista, torrarem dinheiro com combustível (além de poluírem o ambiente), e ainda arcar com estacionamento, pedágio, IPVA, seguro… e academia. E ainda por cima dar sua forcinha para piorar os congestionamentos. Some-se a isso o choro e ranger de dentes quando roubam o carro, ou o som, ou riscam o veículo.
Meses atrás li num jornal online que iam fazer uma ciclovia paralela às marginais, entre a avenida e o rio. Nunca mais fiquei sabendo de nada a respeito, mas espero que se torne realidade (assim como a minha querida linha amarela do metrô finalmente está saindo do papel). Porque ela será muito útil. E espero que seja apenas o começo - Sampa vai precisar começar a prover alternativas pros automóveis logo. Principalmente pra quando resolverem instaurar o pedágio nas áreas mais congestionadas. Porque, é fatal, isso vai acontecer. Aqui em Londres são doze libras - POR DIA - pra você entrar com seu carro no centro. Eu não tenho dúvida que, num país que tem coisas como CPMF, não vai demorar muito pra adotarem uma medida como essa que não só vai diminuir o trânsito, como também vai trazer mais renda pros cofres públicos.
O triste é que, do jeito que as coisas vão, esse dinheiro não vai ser usado para fazer ciclovias, corredores de ônibus, frota nova, metrô, etc. Nem uma campanha que torne o transporte público ou pedalar mais fashionable. Andar de carro vai continuar a ser o modo bacanudo de ser, as pessoas vão ter mais do que reclamar, a administração pública vai ficar mais rica, e só.
Como gêmeo, sempre tive que me conformar em dividir minha festa de aniversario com outro. Nos últimos anos, como se isso não fosse suficiente, apareceu outra concorrência: a Luana, a cadelinha da minha irmãzinha. A ponto de, agora, fazerem o bolo de aniversario dela, e daí se lembrarem de colocarem nossas velinhas de aniversário num canto.
A prova está aí, nessa foto do meu aniversário em 2004:
Meu pseudo-oratório: bonequinho do JC, com rodinhas nos pés para andar sobre a água, o bonequinho do Moisés com dez mandamentos e tudo, e a Nossa Senhora que brilha no escuro.
Consegui pegar hoje mais um daqueles programas que o Channel 4 adora fazer, com a lista dos top 50 qualquer coisa. Dessa vez foram os videoclipes. Serviu para provar que os britânicos AMAM "Bohemian Rhapsody", que o Spike Jonze entrou para a história dos videoclipes, e que o gosto britânico tem suas esquisitices, como um grupo lá dos anos 1980 chamado Madness que eu nunca tinha ouvido falar antes, mas que eles acham o máximo e ficaram comentando sem parar. Aqui vai, a lista:
50. Paul Simon – You can call me Al (1986)
49. Jamiroquai – Virtual Insanity (1996)
48. Johnny Cash – Hurt (2002)
47. The Prodigy – Firestarter (1997)
46. Adam and the Ants - Prince Charming (1981)
45. Aerosmith – Crazy (1994)
44. Kylie Minogue – Can’t get you out of my head (2001)
43. Dire Straits – Money for nothing (1983)
42. Bjork – It’s oh so quiet (1995)
41. The Spice Girls – Wannabe (1996)
40. Missy Elliott - Get ur freakin on (1991)
39. Pulp - Common people (1995)
38. Fatboy Slim - Weapon of choice (2001)
37. Guns’n’roses – November rain (1992)
36. Red Hot Chilli Peppers - Give it away (1991)
35. Sinéad O’Connor - Nothing compares 2 U (1990)
34. The White Stripes - Fell in love with a girl (2002)
33. U2 - The sweetest thing (1998)
32. Chris Isaak - Wicked game (1990)
31. Eminem - Stan (2000)
30. Weezer - Buddy Holly (1995)
29. Electric Six - Gay bar (2003)
28. Foo fighters - Learn to fly (1999)
27. David Bowie - Ashes to ashes (1980)
26. TLC - Waterfalls (1995)
25. Madness – Baggy trousers (1980)
24. Radiohead – No surprises (1998)
23. Britney Spears – …Baby one more time (1999)
22. Justin timberlake - City me a river (2003)
21. Queen - I want to break free (1984)
20. Gorillaz - Clint Eastwood (2001)
19. Madonna - Material girl (1985)
18. Beyoncé - Crazy in love (2003)
17. Blur - Coffe and TV (1999)
16. Outkast - Hey ya (2003)
15. R.E.M. - Everybody hurts (1993)
14. Christina Aguilera - Dirrty (2002)
13. Pink Floyd - Another brick in the wall (1979)
12. Michael Jackson and Janet Jackson - Scream (1995)
11. Coldplay - The scientist (2002)
10. Nirvana – Smells like teen spirit (1991)
9. Madonna – Vogue (1990)
8. The Verve – Bittersweet symphony (1997)
7. Michael Jackson – Billie Jean (1983)
6. Robbie Williams – Rock DJ (2000)
5. Madonna - Like a prayer (1989)
4. Queen - Bohemian rhapsody (1975)
3. A-ha - Take on me (1985)
2. Peter Gabriel - Sledgehammer (1986)
1. Michael Jackson - Thriller (1983)
O Oscar se aproxima… vi poucos dos candidatos desse ano, só recentemente consegui assistir a Capote e BrokeBack Mountain. Anyway, não preciso ter visto muitos pra concordar com o Sukhdev Sandhu, na tabela dos críticos do Guardian: é uma injustiça que o Deep Roy não foi sequer indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante pelo seu trabalho fabuloso interpretando as centenas de oompa-loompas no Charlie and the Chocolate Factory.
O quinto habitante da minha casa é um ratinho de cauda comprida que mora debaixo da pia da cozinha. Vejo-o sempre que fico na sala até tarde da noite fazendo coisas no Macedo - a casa quieta, ele se sente seguro pra sair e checar seu território. Avisei meus housemates, e eles acham tudo muito normal e aceitável contanto que seja um rato (mouse) e não uma ratazana (rat). Eu, que nunca tive rato em casa antes, fico sem saber nem onde comprar uma ratoeira, e de qualquer maneira, a quatro metros de distância ele é muito simpático. Agora alguém esqueceu uma sacola de supermercado na frente da saída do canto dele, e eu pude ouvir os minutos de luta do coitado até tirar o traste de sua propriedade. Que desrespeito com o território alheio.