
O dia seguinte a minha viagem pelo leste da Italia foi gasto recarregando as baterias. Davi, um amigo do Rodi, estava de passagem, entao resolvemos aproveitar o sol e ir nadar no rio de Pavia. Obviamente, ao chegarmos na prainha que os nativos usam, as zanzaras comecaram a nos comer vivos, entao depois de 30 segundos resolvemos migrar para um bar num barco na outra margem do rio, onde nao havia esses vampiros em forma de inseto e se dispunha de cadeiras e um chuveiro para se fritar ao sol com mais conforto. Passamos o dia papeando e jogando canastra paraguaia, jogo de baralho que minha familia tomou como missao difundir pelo mundo.
Segunda-feira Tutu tinha que ir para Milao para resolver os pepinos do visto que ela tinha que tirar para ir pra India daqui a um mes. Ocasiao perfeita para que eu visitasse o ultimo item da minha lista italiana, entao as dez da manha estavamos os dois na estacao de trem de Pavia, rumo a Milano Centrale. E uma sensacao muito esquisita descer mais uma vez na mesma estacao, sem nunca ter avancado muito na cidade que a abriga, mas isso estava prestes a ser resolvido.
Compramos o passe de um dia de metro, e assim saimos da estacao de trem para o centro da cidade. Otilia me disse que Milao e uma mini-Sampa metida a besta, e devo dizer que e a mais pura verdade. Milao e uma cidade business: fica claro ao ver o movimento que todo mundo la tem algo a fazer. Desde o metro a sensacao que se tem e de estar em Sao Paulo mesmo. A familia da Giovanna da novela se preocupava tanto com o que seria dela em Milao, nem precisavam, morando em Sampa ela tiraria Milao de letra.
Acompanhei Tutu ate o consulado da India, que ficava a poucos quarteiroes do Duomo e das outras atracoes turisticas que o cercam. Vendo o tamanho da fila, combinamos de nos encontrarmos na frente da catedral em uma hora e meia, entao deixei ela com o gibi do Pato Donald em italiano pra enfrentar a burocracia indiana e fui bater perna.
Rumei direto ao Castelo Sforzesco, um castelo medieval que abrigava os habitantes de Milao na Idade Media em tempos de necessidade, e ainda resiste, hoje em dia abrigando obras de arte. Da pra ver o buraco do fosso (sem agua, infelizmente), as muralhas, muito bacana. Atras fica o Parque Sempione, muito grande e muito bonito, onde tive a experiencia surreal de ver um casal de noivos japoneses tirando suas fotos de casamento cercados de seus amigos niponicos, no que deve ter sido uma boda assaz nababesca para os padroes de qualquer lugar do mundo.
Voltei a catedral pouco depois do meio-dia, e Tutu ja me esperava la. O visto sairia as cinco da tarde, entao nos tinhamos um tempo razoavel para passear. Entrei na catedral (mais uma pra colecao), e depois fomos dar um role na Galleria Vittorio Emanuele, um lugar lindo, com teto de vidro e abobadas super-elegantes, onde ficam todas as lojas mais chiquetes de Milao. Calcamos a cara e entramos na Louis Vutton, na Yves Saint-Laurant, na Chanel, na Gucci e na Prada, e eu descobri que na verdade o que me agrada mesmo sao os ternos Armani, que provavelmente ficarao me esperando ate a proxima encadernacao. Entre uma loja e outra, fizemos a parada obrigatoria num mosaico de um boi no meio da galeria; diz a tradicao que se voce finca o calcanhar no saco do boi e da duas voltas voce ha de voltar pra Milao, o saco do coitado do boi ta ate afundado de tanta gente que tortura o coitado, o que nao me impediu de fazer o mesmo.
Tutu queria ir visitar o Cimiterio Monumentale, entao pegamos um metro e um bonde debaixo do sol intenso para tentar ver os tumulos de estatuas imensas. So nao sabiamos que, assim como todos os museus de Milao, o cemiterio fecha de segunda-feira, e demos com o nariz no portao. Sem ter o que fazer, resolvemos ir de volta ao consulado a pe mesmo, e assim passamos por um parque muito aprazivel que nos aliviou do calor macondiano em que nos encontravamos. No meio do parque tinha uma fonte com um chafariz; eu e Tutu nao tivemos duvidas, compramos um picole cada um e sentamos na borda da fonte com os pes dentro da agua. Quando terminamos o picole, mais oito pessoas tinham nos imitado, saimos de la nos achando os trend-setters de Milao.
Tutu teve que encarar mais meia hora de fila pra conseguir resgatar seu passaporte, e eu nao pude entrar no consulado. Mas felizmente tudo deu certo, e pudemos retornar a Pavia com todas nossas missoes cumpridas. Para nos despedir de Milao, compramos mais uma granita cada um, e demos sorte de faze-lo num lugar que usava frutas de verdade: a granita de melancia que eu comprei vai ficar pra sempre na memoria como um dos refrescos mais gostosos que eu ja tomei.
Certamente eu nunca tomei tanto trem na minha vida quanto nessa estadia italiana. Pra quem ia fazer tudo de bicicleta…
Pela manha, antes de me despachar, o Mario resolveu me apresentar a Padua. E uma cidade pequena, com quatro pracas onde tudo acontece, e uma faculdade de psicologia que agita o que seria uma cidade pacata. Sim, e a terra de Santo Antonio de Padua, e num desses lances meio morbidos que a Igreja Catolica tanto curte, esta numa capela da cidade a lingua embalsamada do santo. Por que foram guardar justo a lingua eu nao sei, porque nao fui la conferir.
As pracas estavam lotadesimas de gente, principalmente por causa das feiras que aconteciam no dia. Fiquei sem saber se acontecem todo dia ou justo no dia que eu fui, mas dava pra comprar tudo, desde comida ate acessorios e antiguidades. Mario ia me levando de uma pra outra, apontando os predios antiquissimos que as rodeavam e mostrando os lugares caresimos em que se paga so de olhar firme.
A faculdade de psicologia faz com que haja jovens andando pra la e pra ca em todas as ruas do centro, o que nao acontece tanto em cidadezinhas italianas, em que tipicamente a presenca da terceira idade e avassaladora. Demos sorte de poder ver um habito muito bacana dos universitarios de la: quando um aluno se forma, os amigos fazem um cartaz de uns dois metros e meio de altura por um metro e meio de largura, escrito algo como "Giuseppe de Silva se formou!!" no alto, uma caricatura gigante do individuo no centro, e, em volta, todo o relato do que o fulano ou fulana fez durante os anos da faculdade, obviamente cheio de casos constrangedores e piadas as custas do individuo. Isso feito, comemoram a formatura da vitima e penduram o cartaz na frente da facul, onde ele fica por dias e dias, ate o dono ir buscar e guardar pra sempre como lembranca da epoca de faculdade.
Assim como Pavia, Padua tem um comercio invejavel, com todas as grifes que Campinas nao tem. E, numa ironia do destino, a area em que a centenas de anos ficava o gueto onde isolavam os judeus hoje e o lugar dos bares descolados. Aproveitando o ensejo, paramos la pra eu experimentar um spritz aperol, drink supertipico de Veneza e Padua, que nao e mais que agua, vinho branco e um licor laranja chamado Aperol.
Com o tour de Padua completo, peguei o trem de volta a Veneza pra completar o meu tour por la. Chegou a dar um de ja vu, mas dessa vez eu resolvi que podia muito bem fazer tudo a pe, e desprezei os barcos-onibus.
Foi entao que eu senti como Veneza e uma mentira que a minha vaidade quer (ou a dos turistas, melhor dizendo). Ela nao e mais uma cidade em que se vive, mas sim uma grande atracao turistica. E inegavel que e tudo muito lindo; que passear num lugar onde nao existe carros, ha agua por todos os lados e a cada dois quarteiroes voce atravessa uma pontezinha pra chegar ao outro lado de um canal e algo impar hoje em dia; e que ela ainda tem uma atmosfera que faz voce se sentir feliz so de estar la.
Mas chega a ser aflitivo como, por exemplo, da estacao de trem ate a Piazza San Marco (ou seja, uma boa metade da ilha) nao existe janelas: todas sao vitrines. E tudo de lojas vendendo souvenirs ou comida carissima; os servicos da vida normal sao dificeis de se encontrar. Ruas e mais ruas feitas para sugar tudo que se pode dos milhares de turistas pedestres que vao inevitavelmente passar o dia zanzando de um lado pro outro com o bolso cheio de euros e tao encantados que nao sentem pudores de usar o cartao de credito pra levar uma lembranca.
Alias, turistas. Ceus, andar por Veneza e abrir caminho entre correntes de turistas. E impossivel tirar uma foto de qualquer coisa sem que na sua foto aparecam tres ou quatro outros turistas tirando fotos. Principalmente japoneses, que sao incapazes de tirar uma foto da coisa simplesmente, tem que aparecer na foto tambem, entao andam aos pares, um tira a foto do outro na frente do predio/monumento/paisagem, dai eles trocam de posicoes. E sempre fazendo algum gesto com a mao.
Depois de atravessar o Canal Grande pela ponte do Rialto (uma ponte cheia de lojas, so em Veneza mesmo), resolvi sair do circuito turistico e fui me embrenhando pelos lados menos populares da cidade. Dai comecei a ver as vielas que, de tao estreitas e bisonhas, dao medo de atravessar, as construcoes menos conservadas, as pessoas pondo as roupas no varal no terceiro andar do predio… Sim, existem pessoas que ainda moram la, mas elas ficam distantes da turistaiada pagante, ate pra manterem sua sanidade, imagino eu. Mas fica a dica, faca esse tipo de aventura apenas com o mapa de Veneza na mao, porque perder o senso de direcao nos reconditos venezianos e mais facil que cantar O Sole Mio, corre-se o risco de ficar dando voltas por horas sem esperanca de sair.
De coisas bacanas, fica a constatacao que realmente as gondolas existem. Obviamente, um passeio de gondola custa pelo menos 80 euros (existem gondolas que ja vem com um cantor e um tocador de sanfona embutidos, e portanto devem ser bem mais caras), entao sem quatro ou cinco comparsas essa brincadeira e inviavel. Mas descobri que em certos pontos do Canal Grande em que as pontes ficam muito longe, existe um servico de gondolas que te levam de um lado para o outro do Canal por 50 centavos, entao fui num desses, passei pela igreja de Santa Maria de la Salute, voltei pro outro lado de gondola de novo, e assim posso dizer que nao perdi de fazer algo que so se faz em Veneza.
Ao cair da tarde, retornei a estacao de trem e rumei de volta a Pavia. Ainda demorou mais quatro horas ate que eu pudesse ser atacado pelas zanzaras pavienses novamente, por volta das onze e meia. Tutu e Rodi me receberam de volta com a maior alegria, levemente lesados pelas atividades do dia, e sem um fio de macarrao que eu pudesse jantar. Juntei as ultimas forcas pra enganar o estomago com umas torradas, trocamos impressoes de Veneza. Rodi nao aguenta mais ir la, ja levou cinco levas de parentes pra visitar a cidade, e deu gracas a deus que eu sou um turista independente que vou la me perder por conta propria.
Depois de experiencias tao agradaveis em Verona, rumei empolgadissimo para Veneza esta manha, esperando coisas ainda mais fabulosas numa cidade assim tao inusitada. Estando mais proximo da cidade dos canais, os trens eram mais numerosos e bem menos cheios. Em uma hora e meia de trilhos a locomotiva se aproximava de sua chegada, e ja dava pra ter uma ideia do que viria: agua, agua, agua onde quer que se olhasse, conforme a ferrovia atravessava a distancia ate a ilha de Veneza.
Chegado na estacao, uma fila enorme serpenteava na frente do escritorio de turismo. Veneza ja comecou a mostrar suas garras quando a mocinha do officio me disse que o mapa da cidade custava 2 euros. Com seu ingles perfeito, ela me vendeu o Veneza Card, que custava muuuuuito mais que o Verona Card, e em teoria seguia o mesmo principio: transporte gratis, mais entrada em museus e igrejas. Depois de comer qualquer coisa na estacao mesmo, avancei rumo ao sol acachapante do verao italiano e logo de cara cai no Canal Grande, o maior canal de Veneza.
Aquilo que a gente ve nos filmes, desenhos animados e na novela do Manuel Carlos e verdade. Veneza e toda a base de barco mesmo. Agua por todos os lados. O transporte publico e em barco, o carro de policia e um barco, a ambulancia e um barco com sirene em cima, o carro funerario e um barco preto… Eu subi no "onibus-barco" que leva da ferroviaria ate a Piazza San Marco e desacreditava. Ja tinha estado em Amsterdam, que tambem e cheia de canais, mas Veneza e absurdo. As casinhas dao direto na agua, as ruas sao substituidas por canaizinhos mesmo, e as pessoas tem seus barquinhos a motor pra ir de um lado pro outro. Os palazzos antigos todos como deviam ser ha seculos (alguns mais bem conservados que outros, deve-se dizer), mas tudo muito lindo, muito impressionante.
Saindo na Piazza San Marco, fiquei la embasbacado pelos predios renascentistas lindos a volta, a igreja de Santa Maria de la Salutte do outro lado do Canal Grande, as gondolas que existem mesmo, indo e vindo. A caminho da praca, varios e varios stands vendendo todo tipo de souvenirs: mascaras, camisetas, miniaturas… E uma enxurrada de turistas italianos, franceses, japoneses, chineses, portugueses, marcianos.
Para entrar na Basilica de Sao Marcos tinha fila. Depois de quinze minutos debaixo do sol ardente, o guarda na entrada me diz que eu nao podia entrar porque estava carregando uma bolsa, que eu fosse pra um guarda-volumes a dois quarteiroes dali e deixasse a bagagem la, e ao voltar podia ir direto para a entrada da basilica. Fui ate o guarda-volumes, deixei meus pertences ali, e ja ia entrando quando o mesmo guarda me para e me diz que nao podia entrar no recinto de camisa regata e shorts, mas que poderia comprar por alguns euros uns xales de papel pra cobrir os ombros e as pernas ali mesmo. Veneza querendo sugar o meu dinheiro, claro. Puto que ele nao me disse sobre o dress-code ANTES de eu deixar minha bagagem a dois quarteiroes de distancia, voltei pro guarda-volumes, pedi minha bolsa, peguei minhas calcas e uma camiseta normal que estavam la dentro, me troquei ali mesmo, devolvi a bagagem ao tio do guarda-volumes e voltei para a basilica.
Arquitetonicamente, a basilica nao e tudo isso, mas impressiona e muito o fato de que todo o teto e folheado a ouro. Isso mesmo. Ouro. Aparentemente as reliquias de Sao Marcos estao la dentro, roubadas em algum ponto da historia de Constantinopla, mas eu nao as vi, basicamente porque, apesar de entrar na basilica ser de graca, ver os tesouros da basilica custava 1,5 euro. Nem e tanto, mas, ao tentar entrar com o meu carissimo Venice Card, o vovozinho da bilheteria me disse que eles nao aceitavam Venice Card e que eu tinha que pagar. Revoltei, mandei mentalmente eles supositarem os tesouros, e fui embora.
A esse ponto, o sol estava escaldante; dei um bizoiao no meu mapa e vi que a ilha de Lido de Venezia, onde as praias ficam, era bem proxima de onde eu estava, entao resolvi ir pra praia e dar um mergulho pra esfriar a cabeca, e depois continuar a passear por Veneza antes de voltar para Pavia naquela noite. Um barquinho e um onibus de verdade depois, eu descia na praia de Alberoni, que nao e linda nem nada, mas pelo menos e de areia. A agua estava otima; a praia afundava bem gradualmente, descobri depois que o mar Adriatico inteiro e assim.
Ja estava indo embora de volta para a ilha de Veneza quando um grupo de dois caras e uma menina gritou um "Hi!" pra mim. Eu parei, olhei bem, e lembrei do conselho dado pela minha querida Maria Otilia antes de eu partir de viagem, de prestar atencao nos encontros que ocorressem, e resolvi dar corda. Eles comecaram a puxar conversa, e eu fui conversando de volta. Eram todos italianos; disseram que adivinharam que eu era turista por conta da bolsa e do mapa na mao, apesar de aparentemente ter cara de italiano. Eu expliquei que nao podia ficar muito, porque tinha so mais tres horas de Veneza antes de ir embora. Me disseram pra largar mao de ser bobo, deram uma olhada no meu bilhete de trem, disseram que eu poderia pegar o trem no dia seguinte, que eu ficasse por la que eles arranjavam onde eu ficar aquela noite. Entao eu fiquei.
E fiz muito bem, porque a praia estava otima, a conversa foi excelente e so de nao ter mais pressa pra fazer as coisas o mundo parecia muito mais bacana. Ao longo da conversa, os italianos ficaram chocados que, entre tanta musica italiana, eu conhecia justo "Strani Amori", que no Brasil tambem se fala catzo e paura, e que pra gente napolitano e sinonimo de sorvete de morango, creme e chocolate. So um deles falava ingles, o resto falava frances, e todos falavam italiano, obviamente. Pra tentar incluir mais gente na conversa eu falava frances na medida do possivel, mas, quando o assunto engatava, eles naturalmente retornavam ao italiano, apesar de as vezes lembrarem de falar devagar pra que eu entendesse. Em pouco tempo minha cabeca estava uma salada de linguas, as frases comecavam em frances e terminavam em espanhol, por mais que eu fosse tentando pegar as expressoes em italiano.
Ficamos la de bobeira ate o sol baixar, dai retornamos para o ponto de onibus e fizemos a jornada de volta para a ilha de Veneza com aquela canseira de fim de tarde na praia. Depois de um pequeno debate, ficou decidido que eu iria pra casa do Mario, o que falava ingles, e que na verdade nao morava em Veneza, mas em Padua, que ficava a meia hora de trem. Quer dizer, em geral; nos demos o azar de pegar a linha mais demorada de todas, que parava em cada cidadeca do caminho, e so fomos chegar la as onze da noite. Em compensacao, tive conversas otimas sobre o modo de vida italiano.
There is no world without Verona walls,
But purgatory, torture, hell itself.
Hence-banished is banish’d from the world,
And world’s exile is death: then banished,
Is death mis-term’d: calling death banishment,
Thou cutt’st my head off with a golden axe,
And smilest upon the stroke that murders me.
- William Shakespeare, Romeo and Juliet
Uma das vantagens de Pavia e sua localizacao estrategica. Esta a quarenta minutos de trem de Milao, de onde pode-se pegar trens e chegar-se em poucas horas em varias cidades turisticas da Italia. Depois de passar um dia olhando mapas e planejando meu role pela Peninsula Italica, resolvi ir conhecer Veneza, e parar em Verona no caminho. Acordei cedissimo, coloquei poucas roupas numa das minhas malinhas, deixei um bilhete para o casal adormecido e parti para a estacao de Pavia.
Uma hora mais tarde eu estava em Milao. Enquanto esperava o trem para Verona, comprei a passagem para Nice, onde estarei na semana que vem, e dei uma volta pelos arredores da estacao de Milano Centrale. A viagem foi um exemplo do horario de pico dos trens italianos: todas as cabines lotadas, pessoas pelos corredores dos vagoes, aqueles que tinham comprado lugares expulsando os que tinham sentado neles de alegre. Havia um casal de turistas britanicos perto de mim que estavam claramente horrorizados com tanta presenca humana tao perto deles; eu abaixei um banquinho no corredor, sentei e fui lendo e tomando cha gelado. Quem acha esse trem um show de horror e porque nunca foi de Araraquara pra Campinas de trem em oito horas, como eu ja fiz com Vo Maria quando era crianca pra usar o pase da Fepasa do vo Dico.
Ao chegar em Verona, fiz o expediente padrao: localizei o escritorio de turismo mais proximo (no caso, ficava na propria ferroviaria) e pedi um mapa. A mulher do Officio de Turismo foi superprestativa, me deu mapa, me encontrou todas as ruas que eu tinha pesquisado no dia antes na internet, e ainda me avisou do Verona Card, um cartao que por 6 euros te da entrada em todos os museus e atracoes turisticas de Verona, e ainda te permite andar de onibus o dia inteiro. Devidamente armado de mapas, enderecos e Verona Card, sai da estacao para desbravar mais uma cidade.
Apesar de ter o cartaozinho que me permitia andar de onibus, com uma olhada no mapa eu ja percebi que dava pra fazer a cidade inteira a pe, e me pus a caminhar. O albergue de Verona ficava do outro lado da cidade, ladeira acima, e assim eu pude dar uma boa olhada nela toda e resolver o que fazer antes de deixar meus belongues no ostello.
Certamente todos os habitantes da cidade todas as manhas agradecem aos ceus pelo dia em que William Shakespeare resolveu escrever Romeu e Julieta. Nao fossem os star-crossed lovers, haveria bem pouco para se fazer la. Gracas a eles, no entanto, a cidade e bem movimentada, e muito bem conservada, o que nao se pode dizer de muitas outras vilas italianas. Verona vibra e respira a Romeu e Julieta. Todas as atracoes turisticas oficiais sao ligadas a Julieta, a maior parte dos servicos se chamam Romeu (bar Romeo, restaurante Romeo, o onibus turistico chama-se Romeo, tem boate chamada Romeo’s…), sem falar do hotel Romeo e Giulietta, da padaria Romeo e Giulietta, da sorveteria Romeo e Giulietta…
Chega a ser impressionante como uma historia levemente baseada em rumores reais toma proporcoes de realidade em Verona. Minha primeira parada foi na tumba da Julieta, o lugar onde teria acontecido a desgracenta cena final em que os dois se matam e condenam-se a uma eternidade no setimo circulo do Inferno (estamos na terra de Dante, afinal). Mesmo sabendo que provavelmente isso nem aconteceu, e muito menos ali, estar la e imaginar a cena se passando naquela cripta de pedra e emocionante. No mesmo predio tem um museu de afrescos renascentistas que tenta correr no vacuo da Julieta, mas que provavelmente seria muito pouco visitado nao estivesse aproveitando o holofote da menina.
Minha proxima parada foi na Arena de Verona. Instalada bem no meio da cidade, ela e um mini-coliseu, cuja estrutura inteira resistiu ao passar dos seculos. Hoje em dia ela e usada para a exibicao de pecas e shows. Um festival de opera esta acontecendo nessas semanas, e pecas de cenario gigantes estavam depositadas ao redor da Arena, a espera de suas performances. MInha intencao era apenas visitar o predio, mas, quando cheguei, as visitas turisticas ja estavam encerradas porque tinham que montar os cenarios para a opera daquela noite. Eu ja ia embora quando me deu um estalo; pensei, por mais que eu nunca tenha assistido uma opera antes na vida, quando e que eu teria uma oportunidade dessas de assistir a esse tipo de espetaculo numa arena romana de dois mil e tantos anos? Fui me informar sobre os precos, e vi que tinha lugares distantes a precos modicos, os quais comprei sem sequer saber ao certo que opera que iam apresentar naquela noite.
Dali, segui para a casa da Julieta. Um sobrado antigo, antigo, na via Capulet, onde a familia que teria baseado os Capuletos do Shakespeare viveu. Na frente tem ate a varanda em que a cena do "Romeu, Romeu, onde estas tu, o Romeu" teria acontecido. Dentro da casa tem uma exposicao bem legal de mobilias da epoca em que a historia teria acontecido, pinturas inspiradas pela peca, e de figurinos e objetos cenograficos dos filmes de Romeu e Julieta, incluindo a cama em que a famosa transa do filme do Zefirelli foi filmada. Ao lado da entrada da casa, uma estatua da Julieta em tamanho natural; tanta gente tira foto com a mao no peito direito da Julieta que a coitada esta com um peito mais claro que o outro. As paredes da passagem que leva a casa estao cobertas de recadinhos e rabiscos de outros casais apaixonados que passaram por ali. Tem gente que acha horrivel, eu acho mo legal.
Dei uma passada na catedral de Verona, que e bacana mas ja vi melhores, e dali fui para a rua onde o Romeu teria duelado com o Tybalt, sendo forcado entao a fugir de Verona. Meu pit-stop final antes de voltar pro albergue foi no Teatro Romano, do outro lado do rio. Assim como a arena, e uma estrutura de dois mil e tantos anos que ainda e usada para performances. E o ponto mais alto da cidade, subindo ate o alto da pra ter uma vista fantastica de Verona, emoldurada pelas ruinas das partes superiores do teatro. Quando eu estava descendo, um grupo de flamenco que se apresentaria aquela noite comecou a ensaiar para a apresentacao que fariam mais tarde, e, como ninguem me expulsava, eu fiquei la vendo. Logo comecaram a fazer a passagem de som, e foi incrivel ver o povo la sapateando, o violao flamenco tocando, e o cantor andando de um canto do palco para o outro bradando seus "AY AY AY AY AY AY AY, Mi corazoOoOoOoOoOoOon sufriYiYiYiYiYiYidoOoOoOoOoOoOo…". O interessante de ver ensaios e reparar como as dancarinas acionam uma expressao DRAMATICA, DOLOROSA, assim, sempre que querem; vao do "me passa a agua enquanto eu amarro o cordao do sapato" para o "MEU MARIDO MATOU MEU IRMAO E MEU FILHO MORREU JUNTO!" sem o menor esforco. Se nao tivesse ja comprado o ingresso pra opera, iria assistir a apresentacao de flamenco.
Duas horas depois, ja de banho tomado e devidamente alimentado, com uma granita de limao na mao, fui assistir a opera na Arena. O espetaculo da noite era a Cavalaria Rusticana; a acustica do lugar era excelente, dava pra ouvir tudo que o elenco cantava perfeitamente, por mais que estivessem ao longe e fosse tudo ao ar livre. Vendiam por la o libreto da peca com traducoes, o que me permitiu acompanhar a historia ao lusco-fusco do anoitecer. Mais um banho antes de dormir pra tirar o suor daquela noite calda, e encerrava-se um dos melhores dias dessa viagem.
Uma das grandes esperancas que eu tinha quando resolvi acompanhar Tutu e Rodi ao festival era de conseguir escapar um dia para passear por Roma. As questoes fisicas e logisticas acabaram fazendo com que isso fosse impossivel durante o findi; segunda-feira, dia de partida, era minha ultima esperanca.
Acordar cedo nao era problema; como eu disse, a localizacao da minha barraca fazia com que fosse impossivel nao despertar com a primeira alvorada. As sete e meia da manha eu ja tinha desmontado e guardado Iracema, disposto a pegar o primeiro onibus ate o aeroporto que a organizacao do festival tinha jurado que fretaria para o exodo dos participantes. O plano era deixar a bagagem guardada la, correr para Roma, passar quantas horas desse e voltar a tempo de pegar meu voo.
Doce ilusao. Rodi e Tutu me acompanharam ate a entrada, e la fomos informados de que tinham cancelado os onibus pro aeroporto, e que toda a mundrungagem ia ter que se virar pra sair dali por conta propria. Os dois voltaram para desmontar seu abrigo; eu, emputecido, segui de bike ate Capodimonte pra pegar o primeiro onibus que me tirasse dali.
Cheguei na fermata de onibus na vila e encontrei o onibus pra Viterbo quase saindo;ter que desmontar a Angelana Paula e guarda-la na mala-trambolho, porem, fez com que eu o perdesse e tivesse que aguardar o proximo, as dez horas. Onze e pouco eu desabei minha carga em Viterbo, e vi que um onibus pra Orte estava saindo. Corri, comprei a passagem e consegui voltar a tempo de jogar a bagagem pra dentro dele e partir para mais proximo de Roma. Uma hora e meia depois, o onibus me largava na estacao de trem de Orte, onde eu comprei passagem para Roma Termini.
Tive que esperar uma hora pelo trem, durante a qual mudaram a plataforma de embarque duas vezes, e eu carregando meus trambolhos escada abaixo e escada acima em cada uma delas. Duas e qualquer coisa eu desembarcava em Roma. Depois de enfrentar a ma-vontade dos atendentes mais uma vez, descobri onde se pegava o onibus para o aeroporto, contabilizei o tempo e disse arrivederci pra ideia de visitar Roma.
A unica coisa de Roma que pude ver e que os postos de gasolina ficam na calcada; as pessoas estacionam ao lado, enchem o tanque e vao embora. Demorou quarenta minutos para o onibus chegar ao aeroporto, depois dos quais eu montava a bagagem no lombo para fazer check-in na Ryan Air. Tinha pagado o extra pra levar a bicicleta no aviao quando comprei o bilhete, entao a moca fez check-in normal das minhas duas malinhas, e me mandou achar a seguranca pra que eles colocassem a bicicleta numa esteira especial. Tentei levar meu pacote de tenda, saco de dormir e colchao inflavel como bagagem de mao, mas a seguranca nao permitiu por conta dos pinos e do martelo da barraca; tive que voltar, pagar bagagem extra e mandar o pacote junto com as outras malas. A comida e bebidas no portao de embarque custavam os olhos da cara, entao achei melhor segurar a sede e fome e gastar o dinheiro num cartao telefonico internacional, ja que aparentemente minha mae estava achando que eu tinha morrido.
Mais uma hora de voo, e eu carregava minha cruz turistica para o onibus que me levaria do aeroporto de Bergamo ate a estacao de Milano Centrale. O busao pegou a hora do rush, e demorou horrores pra chegar ao centro de Milao. Nesse tempo, eu fiz as contas, e amaldicoei os organizadores do festival ate a quinta geracao. Nao tivessem eles mentido que haveria onibus do festival para o aeroporto de Roma, eu teria pegado um trem de Roma ate Milao, gastado menos, sofrido menos, e chegado na mesma hora. Espero que morram todos de doencas venereas dolorosas.
Despencando em Milano Centrale, eu ja fazendo o numero do burro de carga de novo quando chegou um bebado com a cara toda machucada e um carrinho de bagagem nas maos. Achei que nao era o caso de considerar as questoes sociais do ato, simplesmente aceitei, ele foi levando minha bagagem toda estacao adentro e escada acima ate os carrinhos de bagagem da estacao, eu dei dois euros pra ele e ficamos todos felizes. Precisei correr um pouco pra pegar o trem pra Pavia, mas em poucos minutos estava eu na fase final dessa longa viagem.
Foram mais 45 minutos ate chegar na cidade da Tutu. Ela tinha me avisado que os pernilongos na cidade eram muitos, mas eu nao imaginava o quanto. Eu era praticamente comido vivo pelos maiores pernilongos que eu ja vi enquanto num esforco de concentracao montava Angelana Paula mais uma vez na frente da estacao. Quando ela estava pronta para rodar mais uma vez, seguimos o mapinha que Tutu tinha feito e achamos seu apartamento sem nenhuma dificuldade.
Ela tinha me dado as chaves da casa, porque eu ia chegar antes. Mal pude esperar para tomar um banho e me sentir gente de novo. Algumas horas depois, Tuts e Rodi chegaram, contando historias de sua jornada ate ali que eram tao tragicas quanto as minhas, incluindo servir de guia de excursao para todos os mundrungos estrangeiros que nao sabiam falar italiano e estavam perdidissimos, inda mais depois de terem trincado o cerebro em quatro dias de festival. Tiveram tambem que pegar um taxi pra conseguirem chegar no aeroporto a tempo, e correrem desabaladamente com mochilao nas costas e barraca em maos pra nao perderem o check-in. Depois de tomarem os banhos civilizantes, escorremos cada um para sua cama, querendo um pouco de moleza na vida for a change.
Uma das grandes esperancas que eu tinha quando resolvi acompanhar Tutu e Rodi ao festival era de conseguir escapar um dia para passear por Roma. As questoes fisicas e logisticas acabaram fazendo com que isso fosse impossivel durante o findi; segunda-feira, dia de partida, era minha ultima esperanca.
Acordar cedo nao era problema; como eu disse, a localizacao da minha barraca fazia com que fosse impossivel nao despertar com a primeira alvorada. As sete e meia da manha eu ja tinha desmontado e guardado Iracema, disposto a pegar o primeiro onibus ate o aeroporto que a organizacao do festival tinha jurado que fretaria para o exodo dos participantes. O plano era deixar a bagagem guardada la, correr para Roma, passar quantas horas desse e voltar a tempo de pegar meu voo.
Doce ilusao. Rodi e Tutu me acompanharam ate a entrada, e la fomos informados de que tinham cancelado os onibus pro aeroporto, e que toda a mundrungagem ia ter que se virar pra sair dali por conta propria. Os dois voltaram para desmontar seu abrigo; eu, emputecido, segui de bike ate Capodimonte pra pegar o primeiro onibus que me tirasse dali.
Cheguei na fermata de onibus na vila e encontrei o onibus pra Viterbo quase saindo;ter que desmontar a Angelana Paula e guarda-la na mala-trambolho, porem, fez com que eu o perdesse e tivesse que aguardar o proximo, as dez horas. Onze e pouco eu desabei minha carga em Viterbo, e vi que um onibus pra Orte estava saindo. Corri, comprei a passagem e consegui voltar a tempo de jogar a bagagem pra dentro dele e partir para mais proximo de Roma. Uma hora e meia depois, o onibus me largava na estacao de trem de Orte, onde eu comprei passagem para Roma Termini.
Tive que esperar uma hora pelo trem, durante a qual mudaram a plataforma de embarque duas vezes, e eu carregando meus trambolhos escada abaixo e escada acima em cada uma delas. Duas e qualquer coisa eu desembarcava em Roma. Depois de enfrentar a ma-vontade dos atendentes mais uma vez, descobri onde se pegava o onibus para o aeroporto, contabilizei o tempo e disse arrivederci pra ideia de visitar Roma.
A unica coisa de Roma que pude ver e que os postos de gasolina ficam na calcada; as pessoas estacionam ao lado, enchem o tanque e vao embora. Demorou quarenta minutos para o onibus chegar ao aeroporto, depois dos quais eu montava a bagagem no lombo para fazer check-in na Ryan Air. Tinha pagado o extra pra levar a bicicleta no aviao quando comprei o bilhete, entao a moca fez check-in normal das minhas duas malinhas, e me mandou achar a seguranca pra que eles colocassem a bicicleta numa esteira especial. Tentei levar meu pacote de tenda, saco de dormir e colchao inflavel como bagagem de mao, mas a seguranca nao permitiu por conta dos pinos e do martelo da barraca; tive que voltar, pagar bagagem extra e mandar o pacote junto com as outras malas. A comida e bebidas no portao de embarque custavam os olhos da cara, entao achei melhor segurar a sede e fome e gastar o dinheiro num cartao telefonico internacional, ja que aparentemente minha mae estava achando que eu tinha morrido.
Mais uma hora de voo, e eu carregava minha cruz turistica para o onibus que me levaria do aeroporto de Bergamo ate a estacao de Milano Centrale. O busao pegou a hora do rush, e demorou horrores pra chegar ao centro de Milao. Nesse tempo, eu fiz as contas, e amaldicoei os organizadores do festival ate a quinta geracao. Nao tivessem eles mentido que haveria onibus do festival para o aeroporto de Roma, eu teria pegado um trem de Roma ate Milao, gastado menos, sofrido menos, e chegado na mesma hora. Espero que morram todos de doencas venereas dolorosas.
Despencando em Milano Centrale, eu ja fazendo o numero do burro de carga de novo quando chegou um bebado com a cara toda machucada e um carrinho de bagagem nas maos. Achei que nao era o caso de considerar as questoes sociais do ato, simplesmente aceitei, ele foi levando minha bagagem toda estacao adentro e escada acima ate os carrinhos de bagagem da estacao, eu dei dois euros pra ele e ficamos todos felizes. Precisei correr um pouco pra pegar o trem pra Pavia, mas em poucos minutos estava eu na fase final dessa longa viagem.
Foram mais 45 minutos ate chegar na cidade da Tutu. Ela tinha me avisado que os pernilongos na cidade eram muitos, mas eu nao imaginava o quanto. Eu era praticamente comido vivo pelos maiores pernilongos que eu ja vi enquanto num esforco de concentracao montava Angelana Paula mais uma vez na frente da estacao. Quando ela estava pronta para rodar mais uma vez, seguimos o mapinha que Tutu tinha feito e achamos seu apartamento sem nenhuma dificuldade.
Ela tinha me dado as chaves da casa, porque eu ia chegar antes. Mal pude esperar para tomar um banho e me sentir gente de novo. Algumas horas depois, Tuts e Rodi chegaram, contando historias de sua jornada ate ali que eram tao tragicas quanto as minhas, incluindo servir de guia de excursao para todos os mundrungos estrangeiros que nao sabiam falar italiano e estavam perdidissimos, inda mais depois de terem trincado o cerebro em quatro dias de festival. Tiveram tambem que pegar um taxi pra conseguirem chegar no aeroporto a tempo, e correrem desabaladamente com mochilao nas costas e barraca em maos pra nao perderem o check-in. Depois de tomarem os banhos civilizantes, escorremos cada um para sua cama, querendo um pouco de moleza na vida for a change.
Os efeitos da noitada de sabado desabaram inclementes sobre nos no domingo. Tutu e Rodi acordaram com dor de cabeca e me encontraram ja de pe, depois de poucas horas de sono, depois de descobrir que a alvorada incidia sobre Iracema disposta a nao me deixar dormir. Rumamos para a casa de cha em Capodimonte numa verdadeira demonstracao do poder da mente sobre o corpo. Nos sentamos numa mesa nos sentindo o po da rabiola, sem forcas sequer pra falar ou levantar o copo. Mexer a mandibula para mastigar a comida ja parecia um esforco sem fim. Terminada a refeicao, nos arrastamos ate o lago, estendemos as cangas da Tutu sobre o gramado, deitamos na sombra e puxamos o ronco ate depois do meio-dia.
Quando despertamos, ficamos ainda um bom tempo em estado contemplativo, depois fomos nadar, e aos poucos voltamos a ser seres capazes de raciocinar e conversar. Demos uma voltinha pela cidade, tomamos sorvete, e basicamente ficamos la nos divertindo observando a populacao nativa se sentindo em Copacabana a beira do lago, montes de nonas italianas, ragazzos e ragazzas saltitantes entremeados pelo povo de dreadlocks e tatuagens que descia do festival.
Subimos de volta as barracas quando o sol baixou, pra tomar banho antes que ficasse mais frio e a agua gelada do banho passasse de alivio para martirio. Encontramos Gianna e Vitor, da Jungle, no caminho, vindos de Londres com o pessoal da casa deles. Mais limpinhos e felizes, Tutu e Rodi foram fazer a sesta em sua barraca, e eu deitei na frente da Iracema e continuei a ler o livro da francesa na China. A mundrungagem que passava a caminho dos banheiros quimicos via a cena e ficava olhando como se eu fosse um alienigena. Eu devia ser o unico ser leitor ali.
Menos incomum, surpreendentemente, eram as criancas, rebentos de pais que resolvem que nao sera a filharada que vai impedi-los de ir aos festivais de tecno. La tinha desde bebes que mal andavam ate uma molecada de dez ou onze anos. De certa maneira, funcionava tudo como uma colonia de ferias beeeeeem alternativa, cheia de espaco pra se correr e gente que nao enchia o saco com o que se pode ou nao pode fazer. Cheguei a conclusao de que, assim como hoje tenho amigos engenheiros e capitalistas que sao filhos de hippies, e contam como andaram pelados ate os sete anos de idade, essas criancas, daqui a uns quinze, vao divertir seus amigos em saraus de musica classica com as historias de seus pais maloqueiros e suas passagens por festivais de musica eletronica.
Mais tarde, voltamos a pista, onde a fauna continuava animada. Sendo ja o terceiro dia de calor e po, algum mundrungo conseguiu abrir um cano que passava pela pista e, para a alegria geral, molhava a todos e enchia garrafas d’agua. A noite, os mais habilidosos dancavam girando uma bola atada a uma corda em cada mao, a bola com fitas de pano presas a ela, ou com luzes fluorescentes, ou ate em chamas. Os malabarismos feitos assim criavam efeitos mutchododjos que atraiam a admiracao geral.
Dancamos um pouco, mas passamos a maior parte da noite estendidos numa tenda que tinha umas esteiras no chao, ouvindo Rodi contar dos outros festivais em que ja esteve, e como num deles choveu o tempo inteiro e ele passou sete dias atravessando um barro que literalmente afundava ate o joelho. Perto disso, a seca e o po que cobriam nossas gargantas nao pareciam tao ruins.
Cynthia Miranda tem uma lista de ocasioes e acontecimentos que ela classifica de "experiencias antropologicas". Estivesse ela se aventurando no festival Sonica 2006 com a gente, com certeza esse periodo confortavelmente encontraria seu lugar no topo da lista.
Festivais de musica eletronica sao um ajuntamento de mundrungos, dorme-sujuos, rastafaris, encardidos e maloqueiros, todos acampando para alucinarem por dias seguidos ao som de musica eletronica. No caso do Sonica, a concentracao era menor e os frequentadores peneirados pelo preco um tanto salgado do ingresso. Tutu, Rodi e eu talvez nos enquadrassemos na categoria dos mundrungos mauricinhos, ja que certamente estavamos entre os mais light naquele festival.
A sombra do descampado onde tudo se passou era muito pouca; 90% dos participantes armaram suas barracas sob o sol ardente mesmo, talvez indiferentes ao fato de que suas habitacoes seriam verdadeiros fornos ao longo dos dias. A vida era coletiva: os banheiros, quando usa-los era inevitavel, eram quimicos; o banho era em chuveiros coletivos, frios e ao ar livre. Depois que a musica comecou na sexta-feira a noite, continuou ate segunda a noite, onipresente e incessante.
Nao e segredo que a galera vai nesse tipo de evento pra pirar o cabecao, mantendo-se desperta e dancando, indiferente a sol, hora e temperatura, a base das mais variadas drogas e remedios tarja preta. Os carabinieri da policia italiana faziam plantao nos arredores do festival, parando os transeuntes com as pulseirinhas do evento e revistando dodos os bolsos, caixinhas, bolsinhas, orificios e compartimentos que podiam.
A 1,5 km ficava Capodimonte, uma cidadezinha a beira de um lago que deve ter lucrado muito com o influxo da juventude transviada naquele fim de semana. Logo na primeira manha nos tres descobrimos uma casinha de cha com um banheiro maravilhoso, e passamos a bater cartao la todos os dias para tomar cafe da manha e usar de suas facilidades. O lago tinha uma praia de areia preta cercada de arvores, um oasis para todos os malucos encrustados de poeira quando o sol batia a pino.
A pista de danca ficava num canto do descampado, uma tenda gigante ladeada de alto-falantes potentissimos. O teto da tenda era espertamente composta de duas tramas lona com buracos redondos sobrepostas, conseguindo assim fornecer uma sombra decente e ao mesmo tempo deixando o ar passar, evitando o famigerado efeito chuva de eventos como o Skol Beats. Para aqueles que nao sao iniciados, o efeito chuva acontece quando centenas de pessoas dancantes suam, o suor evapora, chega na lona fria da tenda, se condensa e pinga de volta nos individuos abaixo, gerando uma chuvinha de suor coletivo.
Ao redor da pista instalou-se o comercio. Varias vias irradiavam da area da tenda principal, vendento roupas que brilham sob luz negra, acessorios de artesanato, instrumentos pra potencializar a marofa, CDs de musica psicodelica, itens diversos de cultura pseudo-indiana tao querida aos trancers, piercings e bebidas. Mais distante ficava a praca de alimentacao, com varias tendas de uma variedade e qualidade de comida surpreendentes.
Depois de termos passado a sexta se instalando e colocando a fofoca em dia, eu, Rodi e Tutu, maloqueiros mauricinhos que somos, so fomos curtir a pista depois de termos comido, tomado banho e passado protetor solar. A maioria, nao tao cuidadosa estava la fritando desde o raiar do dia, provavelmente engatados da noite anterior. Rodi levou para a pista o Pirulito, seu sapo de pelucia trance, e ficamos os tres la ate noite alta, dancando, com poucas pausas para o descanso. Quando fomos nos recolher para nossas barracas, o fluxo maior era no sentido contrario.
Admire la puissance de l’esprit: tu es ici, allongée sur le versant d’une montagne chinoise, et ton esprit peut se transporter dans ton pays natal ! L’esprit posséde des possibilités d’excursion infinies ; tu dois t’en servir pour voyager. Il établit des connexions tout seul ; il est de même nature que le nuage qui passe ; le stable n’existe pas pour lui. Suis ses variations sans fin. Il faut accepter nos pensées diverses, même contradictoires. (…) Arrête de cogiter, d’essayer de comprendre; oublie, oublie, et ton esprit comprendra "subitement" pour toi.
- Fabinenne Verdier, Passag?re du silence
A viagem para Roma demorou umas dezesseis horas. Pode parecer muito e devagar para a populacao urbana geral, acostumada a chegar em poucas horas em qualquer lugar, mas para mim, mais uma vez, a sensacao era de que estava a uma velocidade absurda e que era pura magica que me fazia ir dormir na Franca e acordar na Italia. O celular britanico ia me avisando ao longo da noite conforme o trem ia cruzando fronteiras, se registrando nas operadoras locais e me avisando os precos pra fazer e receber chamadas e textos em cada localidade. Eu, encantado que estava subindo e descendo morros sem ter que fazer esforco nenhum.
A conversa na minha cabine nao durou muito; ja estavam todos proximos de dormir quando cheguei, em meia hora veio o consenso de se apagarem as luzes para que todos caissem nos bracos de Morfeu. Eu tentei, mas estava mais pra cair no chao mesmo; de todos os seis leitos da cabine, o meu era o unico que tinha algum defeito que o deixava numa inclinacao de uns trinta graus em direcao a parede. Eu me acomodava o melhor que podia, tentava encontrar uma posicao confortavel, e quando comecava a adormecer ia escorrendo contra a parede. Resolvi que precisaria estar bem mais cansado do que estava no momento pra conseguir dormir daquele jeito, entao peguei o livrinho da francesa maluca e fui pro vagao-restaurante passar o tempo.
Varios insones estavam la; avido por socializar, logo engatei conversa com um americano vesgo e duas canadenses falantes que ali se encontravam. A conversa manteve-se por horas da profundidade de um pires, mas era tao bom simplesmente conversar e conversar e conversar… Na medida do interesse deles, contei da minha viagem, dos lugares que passei, mas logo eles mudavam para assuntos ainda mais inocuos, e eu ficava lah desenferrujando minhas ferramentas sociais.
Eventualmente o corpo pediu arrego e eu voltei para o vagao para dormir no leito inclinado. Acordei por volta das oito da manha, ja dia claro, e nao demorou muito o resto dos passageiros fizeram o mesmo. Felizmente, algumas outras cabines ja tinham sido esvaziadas, e eu transferi a mala trambolhenta da Angelana para outra cabine e assim evitei o odio generalizado dos meus colegas de viagem. O tempo de viagem ate chegar em Roma foi gasto com a portuguesa me dando dicas do que fazer em Roma e Lisboa, trocar mensagens de celular com a Tutu dando os informes de como prosseguia a viagem, e recarregar o celular no banheiro do vagao (unico lugar com tomada, para barbeador). Meio-dia e pouco cheguei na antiga capital do imperio.
Certamente os romanos sao conhecidos por muitas coisas bacanas e charmosas. Mas nao pela boa-vontade de seus servicos, com certeza. Durante as duas horas seguintes, eu fiquei me arrastando de um lado para o outro da estacao de Roma Termini, tentando descobrir como fazer para comprar um bilhete para Orte, cidade onde haveria um onibus que me levaria para o festival. As cabines de informacoes aos clientes tinham sempre filas enormes, com pessoas de todas nacionalidades enfurecidas por razoes que so a elas cabiam, que disputavam a tapa um atendente que falava um ingles pior que o do copeiro do Don Corleone. E eu carregando malas mais a bicicleta no lombo, indo de um canto pro outro.
Depois de muito esforco, encontrei uma ragazza da estacao que falava ingles. Depois de explicar meu drama, ela falou que seria um prazer me auxiliar, foi comigo ate uma cabine automatica de bilhetes, e demonstrou toda sua disposicao em me dar um help esmurrando uma maquina de bilhete automatico com uma delicadeza calabresa, arrancando o dinheiro da minha mao, entuchando-o na maquina e me entregando o bilhete e o troco com um rosnado.
Continuando minha sina de burro de carga, fui pra plataforma, encontrei um espaco entre vagoes onde deixar meus fardos, e fui procurar onde sentar. Descobri entao que na Italia se vende bilhetes de trem sem preocupar-se com a lotacao dos vagoes; voce pode pagar a mais pra ter um lugar marcado, mas a maioria nao faz isso, ficando com o assento quem chega antes. O resto vai de pe nos corredores, entre um vagao e outro… Acabei sentando no chao ao lado da minha bagagem, e la aguardei os 45 minutos ate chegar em Orte.
Quando desembarquei, encontrei outras pessoas com cara de acampantes alternativos, e em grupo encontramos o onibus que o festival havia fretado para nos levar. Foram mais 40 minutos de viagem ate chegar ao mezzo de niente onde se daria o evento, sob um sol inclemente e envoltos por nuvens de po que se erguiam de um chao mais seco que uma ampulheta. Cada vez que passava um carro, nos viravamos o Laurence da Arabia. Rodi, namorado da Tutu, conseguiu me achar na fila. Paguei a entrada, abri a mala alguns metros mais pra frente e remontei a bicicleta heroica ali mesmo. Quase virei uma duna no processo, mas o esforco se fazia necessario: a barraca de Rodi e Tutu estava numa das poucas sombras existentes no festival, barranco acima e a uma longa caminhada da entrada; levar a bagagem rodando sobre a Angelana era muito mais inteligente que subir com tudo nas costas.
Quinze minutos depois, Tutu me recebia com uma alegria sem fim. Tive que montar a Iracema imediatamente, para nao perder o teco de sombra que tinham guardado pra mim. Depois disso, corri tomar banho, que dois dias de suor e terra estavam depositados em mim. Quando eu voltei, o trance na pista ja se ouvia ao longe.
Hoje: 146,8 km
Total: 1490,4 km
Minha avo Norma e uma das leitoras mais assiduas desse blog. Le todas as mensagens e envia comentarios. Quando eu comecei a jornada, eu pedi que ela orasse por mim. E a reza dela e forte. Hoje, por exemplo, foi um dia em que tudo aconteceu como "O Senhor preparou", pra usar as palavras dela.
O plano que eu tracei com a Tutu ontem foi de ir pra Roma encontra-la num festival de musica eletronica, e de la dias depois ir pra Milao passar uns dias na casa dela. Pra isso, eu precisaria sair da zona rural da Franca primeiro. Entao eu resolvi que chegaria em Dijon hoje de qualquer jeito.
Nem era uma distancia absurda - 130 km. Mas, de novo, o calor foi senegalesco. A paisagem foi bonita em varios momentos, mas, nos ultimos 30 km, aconteceu a ultima grande despedida: atravessar uma serra antes de chegar na cidade. Longas subidas na marcha 1, serpenteando montanha acima, seguidas de longas descidas a 45 km/h, sucedidas por outras subidas… Esse ultimo dia teve tudo de bom e de ruim das viagens ciclisticas.
As 16:30h eu finalmente cheguei em Dijon. Cidade de respeito, tem ate shopping center na entrada. Localizei a estacao de trem e fui me informar sobre como chegar a Roma. Tinha um a noite, mas estava lotado. Mas dava pra pegar um pra Milao. Bem, pensei, na pior das hipoteses, vou pra Milao, e de la pego um trem pra Roma, que deve ter bem mais. Perguntados sobre como eu podia fazer pra levar Angelana comigo, disseram que eu teria que comprar uma mala especial que te permite desmontar a bike e leva-la como bagagem normal.
Comecou entao a corrida contra o tempo - ja eram seis da tarde, e o comercio fechava as sete. O escritorio de turismo me jurou que o unico lugar que teria a tal mala seria no shopping da entrada. Fui eu lah. Seis e meia, o povo da loja me diz que tinha mas acabou. Depois da minha cara triste, me indicaram uma outra loja. Dez pras sete, eu consegui achar o lugar, e tinha la a ultima mala de bicicleta da cidade, que eu comprei sem hesitar.
Retornei a estacao de trem, e descobri que nao tinha mais passagem nem pra Milao. O tio da bilheteria me disse que, se eu quisesse, eu podia esperar o trem chegar as nove da noite e ver se tinha algum lugar sobrando, mas ele nao garantia nada.
Vitima do calor intenso e da correria das ultimas horas, eu estava imundo e encardido, querendo nada mais que um banho, mas nao havia o que fazer. Achei um churrasquinho grego perto da estacao, comprei um litro de refri e fiquei na calcada comendo e esperando chegar a hora de arriscar o trem, me sentindo mais abandonado que a pequena orfa Annie.
Quarenta minutos antes do trem chegar, desmontei rodas, bagageiro e para-lamas da bike, falei pra Angelana nao se assustar que era assim mesmo e fechei o ziper da mala. Comecei a carregar todos meus trambolhos pela estacao de Dijon, agora, alem de suado, coberto de graxa. Cheguei na plataforma e descobri que o trem pra Roma estava atrasado meia hora. Nesse periodo de espera, descobri que alem de tudo nao tinha albergue na cidade, entao, se desse errado, teria que ou pagar um hotel careiro ou montar a bike e ir cacar um camping as onze da noite.
Mas no fim das contas as coisas eram pra dar certo mesmo. Chegou o trem pra Roma, que vinha antes do de Milao. Perguntei se tinha um lugar pra mim, o cara olhou na lista, falou que um lugar soh tinha, mas tinha que pagar em cash. Eu falei que sem problema, botei as malas no vagao e, agradecendo aos ceus e a Santo Expedito pela graca alcancada, sentindo uma alegria imensa de estar num veiculo veloz e livre da obrigacao de pedalar pra chegar aos lugares, fui incomodar o povo da minha cabine com meu excesso de bagagem.
Meus colegas de cabine (um casal franco-portugues e 3 coreanas) foram bem compreensivos com os trambolhos. Fiquei sabendo, por conta deles, que era inacreditavel que eu tinha conseguido fazer o plano dar certo, porque o trem que vai de Paris a Roma so faz UMA parada na Franca inteira, em Dijon. Se eu estivesse em qualquer outra cidade nao teria conseguido ir pra Roma naquela noite.
Citando mais uma vez vo Norma, Gloria Deus!