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Posts arquivados em Julho 2006

Já deu

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19 7 2006 0 00 00

 

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Hoje: 77,3 km
Total: 1343,4 km

Desde que comecei essa viagem eu tenho um pavor tremendo do que aconteceria quando furasse um pneu. Eu ficava me xingando por nao ter mandado o bicicleteiro aplicar um protetor interno que juram que impede tudo de atravessar a borracha e chegar a camara. Ficava imaginando o que seria de mim se isso acontecesse quando eu estava a 40 km/h numa descida. Eu fiz um curso de mecanica de bicicletas em Londres, mas nao tinha ainda tido que colocar meus conhecimentos a prova.

Pois. Acordei cedo hoje, tomei cafe sozinho, armei o castelo e parti de volta para Troyes, a fim de retomar minha rota. O destino era Chaumont. Peguei uma curva errada que me levou para a saida errada, voltei, achei a saida certa, subi no acostamento pra deixar um caminhao passar… e bum. Pneu traseiro vazio.

Devo dizer que nao fiquei nada contente, mas parte consideravel da minha bagagem E de kit reparos: ferramentas, bomba, camaras de pneu sobressalentes. Entao encostei Angelana Paula numa arvore, desmontei o castelo, tirei o material necessario das bolsas, e pus maos a obra.

E, olha, nao e que deu tudo certo? Tirei a roda de tras, achei o vilao (um caco de vidro infimo, comprido so o suficiente pra fazer um microfuro na camara e deixar Angelana manquitola). Tirei a camara furada e joguei ela fora, pus uma nova do meu estoque, extrai o vidro do pneu pra que nao furasse a camara nova (achou que ia me pegar, ne?), pus a roda de volta, enchi o pneu, e voila! Angelana era uma bicicleta sa de novo! Fiquei muito orgulhoso de mim mesmo.

O resto do dia, no entanto, nao foi muito agradavel. A estrada passava por um parque nacional, contornando um lago; supostamente seria uma paisagem linda de se ver. Mas os entornos nao foram muito diferentes do que tenho visto ate agora: plantacoes, pastos. O lago ficou ao longe e nao embelezurou nada a vista.

E o calor, ceus, me fez perder a boa. Mesmo com a brisa natural da bike rolando destemidamente estrada adentro, eu suava montes, o suor caindo nos olhos. As subidas me exauriam, e nao tinha sombra o suficiente. Uma e pouco eu achei um camping numa cidade pequena e parei.

Nesse ponto todas as reflexoes que eu vinha fazendo ao ultimo dos ultimos diaAas se encaixaram. E a conclusao foi: eu nao estava me divertindo mais. Na verdade, eu nao estava me divertindo ha varios dias. Eu tinha uma lista de lugare que eu realmente queria visitar. Se pedalasse so de manha, como o verao permite, eu nao chegaria neles a tempo. Pedalando o tanto que devia, sofreria muito.

E, por cima disso, tem de estar sozinho demais. Solidao na estrada ate que era de se esperar (apesar que teria sido encontrar um outro doido seguindo na mesma direcao), mas ficar sozinho todas as noites estava sendo foda. Eu queria ver gente, trocar historias. No embate dos pop defuntos citados ontem, o Cazuza venceu a guerra.

Armei a Iracema no camping, tomei banho, e fiquei la na sombra lendo e esperando o calor passar. Dei umas voltas na cidade (Bar sur Albe), descobri que existia uma piscina publica, voltei pro camping, botei meus trajes de banho, e fui la ficar de molho na piscina.

A noite liguei pra Tutu, a primeira amiga na lista dos encontros programada no itinerario, pra adiantar minha data de chegada na Italia. Ficou acertado que eu pegaria um trem no dia seguinte pra Roma. Avisei a base em Barcelona, e gastei o cartao telefonico que me restava em outra ligacao-relampago pro Brasil. O grande desafio ciclistico chegava ao fim.

Calores

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18 7 2006 0 00 00

 

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Hoje: 141,6 km
Total: 1266,1 km

Agora que realmente o jogo esta valendo, eu estou tendo que prestar atencao nas minhas reacoes fisiologicas pra nao deixar essa sandice mais dificil do que ela ja e.

Eu resolvi fazer essa jornada no verao porque eu detesto muito mais o frio que o calor. Acontece que, por mais que eu tenha o know-how brasileiro de como enfrentar temperaturas de 34 graus, uma coisa e faze-lo na sua terra, com um teto sempre a disposicao, e outra e encarar isso ao ar livre o tempo todo, carregando 20 kg de carga ladeira acima.

Assim, eu tento sair o mais cedo possivel, pra aproveitar o maximo as amenas manhas. O que nao combina muito comigo, que gosto de ir dormir tarde e acordar tarde. Mas, ate ai, ja estamos num regime de excecao mesmo.

Outra coisa que eu preciso aprender e que depois que se passa dos 100 km, pedalar nao e mais divertido. Fazer 120 km nas planuras nederlandicas era moleza, mas encarar as inclinacoes do relevo com o sol rachando o cocoruto e punk. Os dois litros de agua que eu carrego comigo nao dao conta de me manter legal.

Hoje, por exemplo, eu fiz o mais esforco pra chegar ate o albergue de Troyes. A maior parte das subidas felizmente aconteceu de manha, quando o sol nao arde, mas por outro lado as pernas tambem nao acordaram. A metade final foi em quase planura, passando por plantacoes e mais plantacoes de uva (ainda estou em Champagne, afinal).

No fim das contas, o albergue ficava pra la do fim da cidade, depois do campus universitario, numa Barao Geraldo da vida. Nao fosse um senhor desdentado e aparentemente meio tanta me ver olhando o mapa do ponto de onibus e se oferecer pra me escoltar ate a porta do albergue, eu custaria muito, mas muito mesmo, para encontra-lo.

Alem de mim, hospedados aqui tem so um grupo de jovens que suspeito serem alemaes. Fiquei com um quarto todo pra mim de novo. O supermercado mais proximo fica tao longe que o tio do albergue se compadeceu de mim e me levou ate la de carro.

Depois da janta, os alemaes comecaram a cantar, e entao descobri que eram um coral, ensaiando. Fiquei ouvindo, e fiquei no dilema de seguir Cazuza quando diz que "a solidao e pretensao de quem fica escondido fazendo fita", ou Renato Russo ao afirmar que "escolha propria, escolheu a solidao". No fim das contas, venceu o Renato, pois, se eu ficasse la pra tentar me integrar a alemoada, teria que acordar cedo do mesmo jeito no dia seguinte, ao contrario deles.

Eu, dormindo as onze. Pff.

Aniversário

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17 7 2006 0 00 00

 

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Hoje: 75,1 km
Total: 1124,4 km

Eu gosto de fazer aniversario. Gosto de parar pra ver como eu cresci e melhorei nos ultimos 365 dias. Gosto de fazer festa e estar cercado de pessoas queridas.

Acontece que eu inventei essa historia de pedalar pela Europa justo na epoca do meu aniversario. E assim eu nao poderia me encontrar mais sozinho e estrangeiro nem se eu tentasse.

O aniversario comecou a meia-noite e pouco aqui na Franca, quando eu resolvi torrar um cartao telefonico numa ligacao pro Brasil, pra falar com Pai e Mainha. Sem ter descoberto ainda um cartao internacional que me permitisse falar com calma (aparentemente eles nao existem em territorio frances), eu tinha miseros cinco minutos pra fazer festa. Dei sorte que pais e irmaos todos estavam la. Dois minutos foram gastos tentando fazer o povo de casa entender que a ligacao ia acabar logo, dois recebendo os parabens velozes de todos, que dai me cantaram "Parabens pra voce", e o restante tentando conversar o maximo que dava antes da ligacao acabar. Desliguei me sentindo bem melancolico, querendo bolo e guarana.

Dia seguinte, fui conhecer e aproveitar Reims, uma cidade bastante grande. Comprei um envelopao, achei o correio central e mandei pro Brasil os mapas e livros que nao ia mais usar. Ia levar Angelana Paula pra fazer uma revisao, mas, ate encontrar um bicicleteiro, ja era meio-dia e tanto e eles estavam fechados pro almoco.

Entao achei um cybercafe e fui colocar os deveres interneticos em dia. Ja haviam recados de parabens me esperando, o que me deixou contente e mais sosorososo ainda, mas um e-mail de Opaulo com conselhos de como levar um aniversario distante dos seus me deu uma forca pra prosseguir o dia.

Fui entao visitar a famosa catedral de Reims. Reims e famosa por dois motivos: e a capital do champanhe (Champagne sendo a regiao toda ao redor) e por ser onde se coroavam os reis da Franca. Provar os champanhes de todas as casas famosas estava fora de orcamento, entao fui pra catedral.

Diz toda a explicacao historica da catedral que na vespera de Natal de 496 S. Remi batizou la o rei Clovis, transformando entao o reino dos francos num reino cristao, e assim criou a tradicao. A maior parte dos reis franceses foi coroada naquela catedral, incluindo S. Luis, aos 12 anos (mais conhecido no Brasil pela sua qualidade em biscoitos), e Charles VII, em 1429. Esse ultimo sendo aquele que nao conseguia ser coroado porque Reims estava sob dominio inimigo, ate que surgiu a coitada da Joana D’Arc e libertou a cidade pra que ele virasse rei.

Como se ve, e um lugar cheio de historia, e isso transparece. A catedral esta passando por uma restauracao agora, entao tem um pedaco ja bonitinho, e todo um resto com jeito de que podia ser bem melhor. A arquitetura e bem impressionante, mas nao bate a minha querida catedral de Burgos. Um fato interessante e que um incendio em 1200 e qualquer coisa abalou a estrutura do predio, impedindo que se completasse as torres da Catedral, que para sempre ficou cotoca.

Outro fato interessante e que quem iniciou a restauracao da catedral e jogou rios de dinheiro la foi o Rockfeller (nao o Beto, o original). Voce sai da catedral hoje em dia e cai direto na Rue de Rockfeller. Que lindo.

Passei o resto do dia batendo perna e seguindo o conselho de que o aniversario era meu e ninguem tascava. Me dei um sorvete de duas bolas de presente. Terminei a noite cantando parabens pra mim e lendo o livro da francesa na China (ela e mais doida que eu). Tive que dormir cedo porque o dia seguinte era de pedalada.

Mas ano que vem, eu prometo, a festa sera de arromba.

Migrando ao sul

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16 7 2006 0 00 00

 

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Acordei bem cedo para conseguir partir o quanto antes e percorrer a maior distancia possivel antes que esquentasse demais. Desmontar a Iracema, organizar tudo, conferir se estava tudo como devia e nada estava ficando pra tras (principalmente o celular), tudo isso levou mais tempo que eu esperava, mesmo assim as oito da manha eu estava de partida.

Definitivamente a moleza da planicie acabou; tudo agora e cheio de subidas e descidas, e mudar de marcha e uma atividade constante. Cada vez que eu subo ladeira acima eu fico me perguntando se realmente preciso daquilo tudo, e fico revendo meu inventario ate descobrir que nao, nao tem como me livrar de nada no momento. Dai chega a descida, fica tudo mais fresco e mais gostoso, a velocidade aumenta, e eu fico mais feliz. Ate a proxima subida.

Outro problema e o vento. Essa coisa de ir contra o vento, sem lenco sem documento, so e boa na musica do Caetano. Quando se esta de bicicleta, o vento contra so dificulta as coisas, voce faz a maior forca e nao consegue ir mais rapido. Tem gente que escolhe as rotas de acordo com a direcao do vento no dia, mas eu devo dizer que nao tenho como fazer isso.

Tirando a temperatura ao meio-dia, a jornada de hoje aconteceu sem grandes dramas, e eu cheguei em Reims por volta das quatro horas, bastante inteiro, e nem sofri tanto pra encontrar o albergue. A cidade e bem grande, e parece ter muitas coisas para se fazer. Eu provavelmente ficaria por aqui mais um dia de qualquer jeito, mas, sendo que amanha e meu aniversario, eu vou me dar esse dia de presente.

So pra nao ficar tao breve, algumas curiosidades:

- Meus oculos escuros trincaram, depois de terem sofrido algumas quedas. Ainda nao trincaram de alto a baixo, mas, principalmente no olho esquerdo, a rachadura torna a visao meio estranha. Estou torcendo pra que ele resista ate o fim, porque nao da pra ficar sem oculos escuros (nao quero voltar bronzeado, sarado, meio cego e cheio de pes de galinha), e tambem nao quero gastar dinheiro em outro par.

- Sabe aqueles bichinhos que ficam no para-brisa do carro quando se viaja? Pois entao, quando se viaja de bicicleta eles ficam todos em voce. Minha camisa parece uma exposicao entomologica, a cada 20 km eu tenho que dar uma limpada pra tirar todos os bitchos que ficam grudados nela.

Betise

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15 7 2006 0 00 00

 

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Hoje: 93,6 km
Total: 926,8 km

Depois do dia um tanto entediante que eu passei em Cambrai, o que eu mais queria era seguir viagem e ter um dia de vistas novas. Querendo percorrer o caminho ate Laons por uma estrada secundaria, a D960, eu precisei mais uma vez procurar todas as saidas, depois ir me informar no bureau de turismo, pra descobrir como alcancar a dita. O caminho indicado nao batia com meu mapa rodoviario, mas chegava la. Fui pedalando por uma estrada sem acostamento e quase sem carros.

Quando ja estava a uns 20 km de Cambrai, eu encontrei uma agencia do correio numa cidade minuscula. Contente que poderia despachar os mapas e livros que nao vou usar mais, eu atentei a porta e vi que de sabado a agencia so ficava aberta ate meio-dia. Automaticamente fui pegar o celular na pochete pra conferir que horas eram…

E ele nao estava la.

Os preparativos matinais fizeram um flashback nesse instante, e eu tive a certeza de que nao tinha pegado o celulo. Ele tinha ficado em Cambrai. Cheguei a considerar por alguns instantes abandona-lo la, mas cheguei a conclusao de que ele estava sendo muito util, e que valia o esforco. Resignadamente e com um suspiro profundo, dei meia-volta.

E desolador ir galgando uma longa subida quando voce sabe que ha minutos voce tinha descido ele, e que passara por ali novamente em pouco tempo. Pelo menos confirmei que o caminho a D960 que tinham me indicado era errado mesmo.

Uma hora mais tarde estava eu de volta no albergue. Jogado as tracas como quando eu cheguei la pela primeira vez, com um aviso na porta para os hospedes dos quartos 10 (o meu) e 21 (o da familia) pra ligarem pra um numero tal pra recuperarem seus belongues. Numa sequencia que seria engracada se nao fosse tragica, tive que andar pela cidade pra achar algum lugar que ainda vendesse um cartao telefonico (carissimo), depois achar telefones publicos (e, obvio, nem o primeiro nem o segundo funcionavam), daih falar com a tiazinha, fazer o caminho todo de volta pro albergue e esperar a pessoa que abriria o escritorio e me devolveria o celular.

A moral da historia era que, depois de almocar por la mesmo, ja eram duas e meia da tarde e eu ainda estava no ponto de partida. Ja tinha percebido que nao chegaria a Laons, mas qualquer coisa era melhor que continuar mais meia hora naquela cidade. Parti com o sol quente, e passei pela terceira vez naquele dia pelas mesmas cidadecas.

Cinquenta quilometros de subidas e descidas depois, eu ja estava querendo ferias. E foi entao que magicamente apareceu uma placa na minha frente dizendo "camping". Depois de alguns minutos de duvida, resolvi seguir esse sinal divino e sai da estrada alguns quilometros ate o camping indicado. Encontrei-o sem a menor dificuldade, paguei um quinto do que eu costumo pagar nos albergues, e voila, eu tinha onde dormir.

O camping e um ambiente superfamilia; aparentemente os franceses adoram ir para confins distantes passar o fim de semana num camping aproveitando a vida do campo e fazendo coco em banheiro publico. Eles tem barracas gigantes cheias de quartos e com antena parabolica, cabe a familia inteira. Encontrei um lugarzinho na sombra de umas arvores, montei em poucos minutos a Iracema pela primeira vez, e estava la comendo quando me vi cercado de pirralhinhos franceses loirinhos que estavam me achando um bicho muito interessante. Eles comecaram a conversar comigo, e me acharam mais interessante ainda quando descobriram que meu frances nao vai muito longe. Vinha um: "Ce ta sozinho?", e eu, "Oui…", outra, "Essa barraca nao e muito pequenininha?", e eu "Oui, mais je suis seul", mais um, "Voce nao fala frances?", eu "Pas beaucoup…". Ficaram lah fazendo perguntas e dizendo que iam dancar, e eu tentando responder o melhor que podia. Daih chegou uma atrasada lah e perguntou "Ele nao fala frances??", e a molecada toda, em coro, "PAS BEAUCOOOOOOUUUP!!!, ele ja disse!".

Tinha um riachinho por perto, onde os nativos estavam nadando, e, como estava um calor do cao, eu fui lah nadar. Descobri que eles pulam na agua de tenis e tudo mesmo, entao eu mantive minhas sandalias e assim protegi meus pes dos pedregulhos do fundo do riacho. Depois fiquei andando pela cidade de uma rua inteira que tinha ao lado do camping. Ela se chama Vadencourt, e seria conhecida como Finfanfun de Pirapora se estivesse no Brasil. Mas como e a Franca, fica sendo Phinphanphenne de Pirapore.

O unico supermercado decente onde eu podia comprar os viveres pro dia ficava numa cidade a 3,5 km dali, entao la fui eu comprar a janta. Uma hora depois, cheguei cantando, e a criancada, que ainda estava la dancando as musicas francesas delas, comecaram a me aplaudir. Sao debochados ate, cada vez que eu passava falavam "Hello!!", ja que eu so era capaz de entender isso.

Acampar ate que nao esta sendo ruim; o espaco na barraca e bem pouco, mas da conta do necessario. Pelo preco, pra ter direito a chuveiro e banheiro, ta otimo.

Feriado nacional

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14 7 2006 0 00 00

 

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Hoje: 30,4 km
Total: 833,2 km

O tio que me recebeu ontem no albergue me jurou que Cambrai era tao cheia de coisa pra fazer que um dia so nao era suficiente pra ver tudo. E eu, tolinho, acreditei.

Cambrai e uma cidade que parecia bem maior no mapa. Pelo pouco que descobri, faz parte de um circuito de cidades amuralhadas do norte da Franca, por ter um dia sido a fronteira do Sacro Imperio Romano Germanico e o reino dos Francos. Dando umas voltas, da pra ver as portas e torres da muralha que ainda restam de pe. Tem um centro bem pequeno, e daria sono a um habitante de Araraquara.

Tudo bem que certamente o fato de ser feriado nao ajudava. Minha primeira missao foi correr ao supermercado e comprar comida antes que ele fechasse mais cedo e eu ficasse com fome. Depois fui pedalar pela vila.

Para minha decepcao, em meia hora eu ja tinha percorrido todas as ruas do centro e outras tantas nao tao centrais assim. Cambrai tem uma igreja barroca nao muito impressionante, parques com jardins muito bonitos, e uma praca central cercada de cafes e restaurates, todos com mesinhas na calcada cheias de gente nao importa a hora. Mas nada que me ocupasse muito.

Resolvi entao aproveitar o sol e ir pro albergue tentar deixar meu corpo menos listrado. Me juntei a unica familia que esta hospedada aqui alem de mim no gramado, e fiquei la fritando. Terminei de ler Los Funerales de la Mama Grande, do Gabrel Garcia Marquez, e comecei a ler Passagere du silence, de Fabienne Verdier, que e o relato real de uma francesa que foi a China estudar caligrafia. Imersao total na lingua de Moliere. Fiquei la estirado ate ficar bem-passado.

Almocei, tomei mais sol, tomei banho, li, tirei uma soneca, e o dia nao acabava. Foi me dando uma tristeza de nao ter o que fazer. Revi as rotas, e passeei mais um pouco so pra confirmar a minha certeza de que estava tudo mais morto ainda depois do meio-dia.

As dez e meia da noite finalmente escureceu, e eu fui pra praca. Eu e o resto da cidade inteira. Quando apeei da Angelana Paula, dava pra ouvir ja uma banda local tocando "I Will Survive" a francesa. Milhares de pessoas ocupavam o espaco, esperando os fogos de artificio. As onze horas as luzes da praca se apagaram e eles comecaram. Devo dizer que foram 25 minutos dos fogos de artificio mais bonitos que eu ja vi na minha vida. Musica classica ia tocando no alto-falante, e as explosoes iam acompanhando a musica. Devo dizer que fiquei comovido e com saudades quando tocou a Marcha Turca. Tudo acabou com um grande cabum final, o povo aplaudiu, e a sirene de uma ambulancia soou. Alguem deve ter sido atingido por um fogo que voou mais baixo…

Mais uma fronteira

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13 7 2006 0 00 00

 

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Hoje: 157,3 km
Total: 802,8 km

Gui Galvao, que tao gentilmente me hospedou em Amsterdam, me disse que detestava a Belgica porque o pais era um tedio que chegava a esvaziar seu cerebro de tao intenso. Eu estava discordando dele, por conta das minhas boas impressoes da Antuerpia, mas ao longo do dia descobri que quem estava certo era ele.

No cafe da manha, encontrei um americano ciclista que literalmente ja estava careca de pedalar pela Europa. Ele me disse que a Franca e o melhor lugar do mundo pra se pedalar, ainda mais se voce acampa, e eu fiquei empolgadissimo pra cruzar a fronteira logo. Fiz as malas ja cantando a Marselhesa.

O interessante de se viajar de bike e que voce ve nao so a parte historica e linda das cidades, que todos os turistas veem, mas tambem as feiuras quando se sai delas. Bruxelas e um exemplo tipico. Toda elegante e pernostica no centro, quando se sai dela, o que se ve e um amontoado de ruas cinzentas e sem encanto.

E, devo dizer, o resto da Belgica nao foi muito melhor. Verdinhos e amarelinhos das plantacoes a beira da estrada, certo, mas nada que valesse uma foto da digital. Fui ate Mons sem grandes dificuldades, parei pro almoco, depois segui com a fronteira em vista.

As duas e qualquer coisa, numa conurbacao entre Quentin e Valenciennes, uma placa me avisou que daquela esquina pra frente eu ja estava em solo frances. Mais uma vez, meu passaporte passou incolume.

Estava indo tudo calminho demais, entao Valenciennes, uma cidade razoavelmente grande encostada na fronteira, resolveu animar meu dia. Sair de qualquer cidade nao costuma ser muito dificil, em geral e so seguir na direcao pretendida o melhor que se pode, que voce passa pelo centro e sai do outro lado. Mas…

Seguindo essa estrategia e as placas, eu cheguei na principal saida da cidade - que so levava para mais uma das temidas autovias, a A23. Tive que voltar e comecar o arduo processo de pedir informacao, tentar direcoes diferentes, ir eliminando alternativas. Uma senhora numa loja de bicicletas me deu instrucoes superdetalhadas e por escrito, pena que levavam pro lugar errado. Passei pela praca principal umas cinco vezes, ate que, quando me dei conta de que estava voltando por onde eu tinha chegado, eu encontrei um ponto de onibus com mapa, me localizei, e finalmente encontrei a saida daquele labirinto.

Foi assim que descobri que o problema era meu mal-estreado mapa da Franca, da Michelin. No meu excelente mapa da Benelux que eu vinha usando ate entao, se uma cidadezinha nao estava no mapa, ela nao existia. Nesse frances, se ela nao esta no mapa e porque e pequena demais pra ser listada mesmo. Faz muita diferenca pra quem depende das indicacoes regionais pra se orientar.

Passei duas horas miseraveis zanzando sem descanso por Valenciennes, cidade besta na qual eu espero nunca mais colocar meus pes novamente. Ate o final ela foi complicada, quase me jogando em outra autovia, a A2, por conta de indicacoes dubias. Nao fosse um negao com oculos escuros de aro branco Dolce & Gabbana me explicar como saia, eu teria ficado preso ali muito mais tempo.

Meu destino era Cambrais, ao fim da estrada N30. Ela ia ladeando a autovia A@, o que fez com que estes fossem os 40 km mais ansiosos da minha vida, sempre com medo de pegar um acesso a autovia e alguem ter que ir buscar meus restos com uma colher pouco depois. Tirando isso, a viagem foi tranquila.

Cheguei no albergue quase sete horas da noite, e nao tinha ninguem pra atender. Tive que ligar no numero indicado na porta pra fazer aparecer um senhor que me desse acolhida. Ele nao falava ingles, nem tinha a menor do do meu frances claudicante. Mesmo assim, consegui todas as instrucoes dos supermercados ao redor, do que tinha pra se fazer na cidade, e descobri que no dia seguinte era feriado nacional. Resolvi entao ficar dois dias, pra ver as comemoracoes na noite seguinte.

O albergue esta quase vazio, e eu ganhei uma suite de cinco camas todinha pra mim; minha bagunca ja ocupa tres delas. consegui ter espaco pra espalhar todos os meus mapas e selecionar as rotas que farei ate Portugal. Estou ansioso pra ver se a Franca e tudo isso mesmo.

Cadê a couve?

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12 7 2006 0 00 00

 

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Hoje: 89,9 km
Total: 645,5 km

Tinha resolvido que, apesar de ser pouca viagem, pararia hoje em Bruxelas. Nao so porque e uma capital nacional, ou porque e a sede do parlamento da Uniao Europeia, mas tambem porque deve ser uma das poucas cidades que dao nome a um vegetal, a infame couve-de-bruxelas, tambem conhecida como brusselsprout. Bruxelas fica a 40 km da Antuerpia, e chegar la haveria de ser moleza.

E quase foi. Durante os primeiros 15 km, a ciclovia seguiu uma megarodovia, a A41, que liga a terra do Ruy Barbosa a terra da couve. Eu la pedalando feliz, sem camisa, tentando aproveitar o sol pra deixar o bronzeado mais uniforme. Ate que, perto de Boom (sim, a cidade tem esse nome), a rodovia entrou num tunel, a ciclovia acabou, e eu fiquei sem saber o que fazer.

Pus a camisa pra ficar mais apresentavel, dei umas voltas sem achar solucao, dai parei uma senhora holandesa pra pedir instrucoes. Ela so falava holandes; eu apontei a direcao que queria ir e falei "Brussel", ela olhou pra bike, fez cara de quem entendeu e comecou a falar. Devo ja ter passado muito tempo na Holanda, porque, apesar de nao entender o que ela dizia, compreendi que era pra seguir uma rua ate um "viadukt", virar, ir pro "centrum" de Boom, e dali pegar a estrada local pra Bruxelas. Impressionante.

Custei um pouco pra localizar a tal estrada, mas achei. Fui seguindo as placas pra Brussel e, quando vi, tinha caido no meio (ou melhor, no acostamento) da A41. Os caminhoes rugiam ao meu lado, e eu pedalava pateticamente sem saber o que fazer. Felizmente meu sofrimento nao durou muito: em cinco minutos parou uma van da policia rodoviaria, e saltou dela uma dona policia fazendo cara de "bonito, hein?". Eu expliquei pra ela que queria ir pra Bruxelas e estava perdido. Ela retrucou, num ingles sotaqueadissimo, que o que eu estava fazendo nao so era perigoso ("Voce pode morrer em cinco minutos!"), como tambem era muito proibido. Eu fiz minha carinha de cachorrinho coitado e pedi desculpas. A guarda me mandou colocar a bicicleta dentro da van, me levou pela rodovia ate a proxima estrada secundaria que levava ate a capital, e me mandou nao repetir aquilo nunca mais. So dez quilometros mais pra frente que eu me dei conta que devia ter tirado uma foto dentro da van e outra com ela pra registrar o ocorrido. Que falta de presenca de espirito.

Agora na estrada certa e sem correr mais risco de vida, o resto da viagem aconteceu sem maiores incidentes. Em alguns momentos surgiram no chao algumas indicacoes do Caminho de Santiago, o que eu achei surpreendente e comovente ao mesmo tempo (tao longe!). Meio-dia e pouco eu cheguei em Bruxelas.

A cidade e bacana, mas eu achei a Antuerpia mais bonita, mais arborizada. Bruxelas tem uma sensacao mais de business mesmo. Todas as placas sao em frances e em holandes, e as pessoas parecem menos a esmo que na Antuerpia.

Apesar de ter copiado as instrucoes de um site de rotas, e claro que nao eram precisas, e eu tive que pedir informacoes pra um seu pulica. Que nao falava ingles. Mas me atendeu cortesmente em frances, e eu tive que escovar o meu jujuju pra me fazer entender. E nem fiz tao feio. Em meia hora eu estava no albergue, deixei a bagagem la e fui conhecer a cidade.

Existem inumeros monumentos e pracas pra visitar em Bruxelas, uma catedral, e nenhuma couve. Ha varios museus tambem, mas eles nao se incluem na minha programacao. Alem disso, existe uma adoracao por HQ que eu nao esperava: ha varias lojas de quadrinhos, gibi de historia de santo na igreja, uma rota turistica de HQ para se seguir. So faltou uma estatua do Tintin. Assim como na Antuerpia, quando chega o momento de dar as horas, as igrejas fazem verdadeiras sinfonias de sinos antes de dar as tantas badaladas.

A sensacao que ue tenho agora e que o aquecimento acabou. A rota ciclistica nao vai ser mais mastigadinha e super-sinalizada como na Holanda, as pessoas todas nao vao mais falar ingles, e, surpresa!, agora comecou a ter relevo. As coisas devem ficar cada vez mais interessantes.

Cinco igrejas

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11 7 2006 0 00 00

 

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Hoje: 33,3 km
Total: 558,5 km

Descansado, alimentado e de banho tomado, resolvi passear com Angelana Paula hoje, sem carga. Peguei um mapa turistico da Antuerpia na recepcao do albergue, vi o que se pode fazer de graca, e fui bater perna.

A decisao de ficar um dia aqui foi acertadissima: a Antuerpia e uma cidade muito bonita, bem urbanizada, com um jeito de Rio de Janeiro as vezes. Infelizmente, me dou conta de que a unica cidade de museus gratis e Londres mesmo. Tudo aqui custa um dinheiro que eu nao quero pagar.

Em compensacao, uma das marcas da Antuerpia sao as cinco igrejas (quatro goticas e uma barroca) que ficam no seu centro historico. Eu, que desde que fiz o Caminho de Santiago sou tarado por uma igreja, fiz a festa. Parei a bike num calcadao e sai andando.

Tudo no centro da Antuerpia e muito pertinho, da pra caminhar sem o menor esforco. Comecei pela igreja de Sao Carlos Borromeu, que e bem legal, e de la fui pra Catedral de Nossa Senhora. Tinha que pager 2 euros pra entrar, entao resolvi esperar ate as 14:15h, que pelo menos ia ter um guia explicando as coisas em ingles. Segui pelas ruas, vi a Praca do Mercado (linda!), e me encaminhei pra igreja de Santo Andre, que estava fechada. Com um tempo pra matar, fui andando num calcadao cheio de lojas chamado Meir, ate chegar a Estacao Central. La, achei um grill argentino com promocao de almoco, e resolvi me dar uma refeicao cheia de proteina por precos modicos pra compensar o esforco do dia anterior.

As 14:00h voltei pra Catedral de Nossa Senhora e me deparei com um cafonerrimo grupo musical tocando "Memory", do Cats, na entrada. Descobri la dentro que nao tinha guia em ingles naquele dia, so em italiano, entao, como nao tinha custo extra pelo tour, resolvi acompanhar o signor que explicava as cosi.

E ouvir o Juliano falando italiano pelo telefone foi mais efetivo que eu imaginava, porque consegui captar uns 60% do que o homem falava. A Catedral e muito bonita, gotica, altissima, e tem 3 obras do Rubens dentro, incluindo a Ascencao a Cruz e a Deposicao, que estao naquele grupos de pinturas que a gente sempre viu em livro e se assusta quando descobre que sao de verdade mesmo. E gigantes. Pelo que eu captei em meu italiano ate entao inexistente, durante a conquista napoleonica o Bonaparte quis derrubar a igreja e usar as pedras pra construir alguma outra coisa, mas foi convencido a deixar o predio ficar de pe para ser usado como estabulo dos cavalos do exercito. Menos mal.

Por fim, visitei a igreja de Sao Tiago, por motivos nao tao devotos mas mais praticos: eu vi num folheto que aquela igreja era um ponto de partida tradicional para os peregrinos belgas para Santiago de Compostela. Como, entre outras coisas, a peregrinacao e sinonimo de albergue a 3 euros, fui la descobrir se eles faziam a credencial e tinham uma lista dos albergues do Caminho a partir dali. Quem estava atendendo era um vovozinho que mal falava ingles, mas se esforcou montes pra me compreender. Depois de mimica e um dialogo bem recortado, descobri que nao faziam a credencial la. E o vovozinho ja tinha ido tanto com a minha cara peregrina que me liberou de pagar a entrada.

Depois disso, veio a parte pratica do dia: tirar dinheiro (quase que a maquina come meu cartao), comprar as comidas da janta e do dia seguinte, fazer as anotacoes. No meu querto estavam ficando um tio motoqueiro e um chines fedido com cara de parvo. A gente tinha (por regulamento) que deixar a porta trancada e a janela fechada enquanto dormia, entao o quarto fedia que era uma loucura. E o chines fedido, alem de feder, roncava. Muito. A ponto do tio motoqueiro ir tres vezes durante a noite dar umas porradas na cama do chines e resmungar pra ele parar de roncar. Eu, que tambem nao tinha dormido por conta dos roncos, me segurei pra nao rir e me fingi de adormecido.

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10 7 2006 0 00 00

 

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Hoje: 170.3 km
Total: 525.1 km

Ontem a noite, querendo ser previdente, eu avaliei as distancias no mapa e resolvi que a jornada do dia seria de Haia ate a Antuerpia, na Belgica. Aproveitei que estava no cybercafe e fiz reserva no albergue de la. Comeca aqui a odisseia do sem-nocao.

De manha, o trecho entre Haia e Roterda aconteceu sem maiores sobressaltos. Logo na entrada de Roterda ja tinha placas apontando pra Dordrecht, entao eu nem passai pelo centro e ja segui em direcao a outra. Nao muito depois, a ciclovia levou para dentro de um predio que parecia uma estacao de metro. Meio passado, descobri que era por conta de um tunel feito para que os ciclistas pedalassem para o outro lado de um rio (ou baia, ou canal, sei la, essas coisas meio que se confundem na Holanda). Nao seria problema se a escada rolante de descida estivesse funcionando, mas e claro que minha vida tem que ser cheia de adrenalina e a maledeta estava quebrada. Sem querer desarmar o castelo pra descer, fui baixando a bike degrau por degrau, segurando
ela no braco, depois atravessei o tunel, e subi de elevador a superficie do outro lado. O esforco foi tao grande que achei por bem fazer a primeira pausa do dia, alem de recolocar as bolsas no lugar devido depois da intrepida descida escada abaixo.

Estava eu encostado numa parede comendo uma banana quando chega um negao e fala sorrindo meio maldosamente "crishtofen bohofen froftofen zomprsroffen bananen". Eu fiz cara de quem nao falava holandes, e ele repetiu, depois ficou so no "bananen, bananen, bananen". Eu soltei um "nicht" generico, e ele, levemente ofendido, ficou tirando sarro de mim para os amigos. Vahssefudorhfen tambem.

Mas acho que algo na minha figura em repouso atrai os curiosos mesmo. Quando parei pro almoco num supermercado em Dordrecht foi a mesma coisa. Eu comendo no estacionamento, e as pessoas puxando papo. Mas falavam ingles, e eram mais educadas. Cheguei a trocar uma ideia com uma senhora manca que em breve faria a viagem de la ate Amsterdam em sua cadeira de rodas eletrica. "Mas so 40 km por dia, que a bateria
nao aguenta mais que isso".

Sendo o primeiro dia de sol de verdade, a essa hora eu comecei a sentir o bronzeado queimando nas areas expostas. Estou com a marca das bermudas (supernitidas, ja que as bermudas sao de lycra), mas as canelas nao estao queimadas porque ficam mais na sombra. Os bracos estao queimados, mas da manga pra dentro, estou branquinho ainda. Tentei tirar a camisa pra nao ficar tao listrado, mas nao adiantou muito.

Foi o primeiro dia tambem que eu percebi que voltei a me acostumar com pedalar no lado certo da rua. Ate ontem, cada vez que eu me distraia eu sem querer ia pro lado esquerdo, sinonimo de seguranca pra mim no transito londrino, e era trazido a realidade por holandeses me xingando que eu estava na contramao.

Mais algumas horas, umas perdida de leve e a maior travessia de ponte ate o momento depois, eu cheguei em Breda, o ultimo grande municipio antes da fronteira. Comecei a me dar conta do meu erro quando eu perguntava pras pessoas como chegar na Antuerpia, e eles apontavam a direcao, seguido de "mas e longe pra caralho!". Nesse ponto percebi que os elasticos que amarram o saco de dormir, a barraca, o colchao inflavel e os itens mais usados (garrafa d’agua, mapas, guia de albergues) tinha se soltado, e a garrafa d’agua e o guia ja eram. Quase que o colchao vai nessa tambem. Ja revoltado, parei num supermercado, comprei outra garrafa d’agua, e parti destemidamente para o outro lado da fronteira.

Uma hora depois, eu ja tinha feito 110 km no dia, e comecava a xingar minha falta de nocao. A estrada emendava uma cidadezinha de primeira depois da outra em linha reta numa planicie sem fim. Cheguei a considerar parar num camping e botar o albergue na lista de prejuizos, mas, quando eu tentei fazer isso depois de ver uma placa prometendo um camping, as pessoas com quem eu fui me informar ficaram no abobroften
blablachobrong, nao consegui captar uma intrucao que me levasse ao lugar certo, e quando fui ver ja era.

Cruzei a fronteira pra Belgica as 18:50h, sem um gaurda sequer que me carimbasse o passaporte. Dai pra frente a viagem foi um puro ato de teimosia, seguindo a N1 ate a Antuerpia. Cidadecas e mais cidadecas enfileiradas, e eu passando quase sem parar. As oito e meia eu cheguei nos confins da Antuerpia, e, como nao tinha mais o guia, fui achar um cybercafe onde descobrir o endereco do lugar.

No fim das contas foi boa essa parada, porque descobri um site que me deu a rota ate o albergue. Mas como nada nessa viagem pode ser simples, por alguma razao faltou um trecho, e eu tive que ficar rodando e perguntando pela Provinciestraat por um bom tempo ate conseguir encontrar o caminho. Cheguei no albergue quase dez da noite,
com o sol quase terminando de se por (viva o verao!). Por conta do cansaco, revolta, e do que vi pela cidade na penumbra, resolvi ficar por aqui mais um dia.

E me prometi que nunca mais passo dos 120 km por dia.