
Pra minha mãezinha já telegrafei
Que já me cansei de tanto sofrer
Nesta madrugada estarei de partida
Pra terra querida, que me viu nascer
Já ouço sonhando o galo cantando
O inhambu piando no escurecer
A lua prateada clareando a estrada
A relva molhada desde o anoitecer
Eu preciso ir pra ver tudo ali
Foi lá que nasci, lá quero morrer
- Goia e Belmonte, Saudades da minha terra
E foi assim, mais uma vez de madrugada, que eu deixei Lisboa - dando um adeus sonado e agradecido à Aline, descendo as escadas dela uma última vez e tomando rumo para o aeroporto, por ruas que dessa vez eu conhecia bem melhor. As avenidonas vazias já sentiam como o caminho para casa, e o misto de ansiedade, impaciência e medo já se faziam sentir uma vez mais. Dessa vez o retorno era definitivo até segunda ordem.
Tendo de novo ido dormir tarde na noite anterior por conta do rolê pelo Bairro Alto na noite anterior, o embate contra o sono se estabeleceu antes do que eu gostaria. Enquanto havia o que fazer - desmontar a bike uma vez mais, comer algo enquanto lia Os Lusíadas, empolgadíssimo, desbravar o aeroporto - eu tinha uma certa vantagem, mas quando as atividades se acabaram e só me restava esperar para que abrissem o check-in, Morfeu foi ganhando força, e só mesmo o muito medo de perder o vôo me manteve (mal) desperto.
No fim das contas, minha bagagem toda - as mochilinhas e sacolas amarradas juntas, para virar um volume só, e a bicicleta desmontada como outro - não deu excesso de peso, o que muito me tranquilizou. Ela teve que ser entregue num terminal especial para bagagem fora do tamanho-padrão, no entanto, o que só fez aumentar meu perpétuo temor das minhas coisas acabarem no Timbuktu.
Ainda tive que lutar contra o sono até depois da primeira refeição, uma hora depois de iniciado o vôo - a fome dava uma força. Assim que recolheram minha bandejinha, no entanto, me acomodei o melhor que podia e puxei o ronco; quem já conseguiu dormir nas cadeiras de faquir do ônibus entre Barcelona e Madri consegue dormir em qualquer frincha.
Horas depois, já do outro lado do Equador, os chutes na parte de trás da minha cadeira me despertaram. Resolvi manter a boa e não fiz mais do que lançar alguns olhares fulminantes para o moleque de quatro anos que mal se mantinha na poltrona anterior à minha, o que, obviamente, não surtiu efeito algum. Durante todo o resto do vôo Mateus, o moleque, pulou, gritou e se revirou, sua avô, ao lado, tentava apaziguá-lo, e os passageiros ao redor se dividiam nas facções que achavam ele uma graça e os que gostariam de distribuir seus órgãos para transplante.
Conforme o avião se aproximava, minha inquietação ia aumentando, mas eu não tinha a liberdade do Mateus para me remexer e pular e gritar; duvido que muita gente fosse achar isso uma gracinha, e eu acabaria espalhado entre vários doentes agradecidos. Como não era o único, só me restou entrar nas prosas dos passageiros no entorno, dominadas principalmente por um casal de brasileiros que voltava à pátria amada pela primeira vez depois de vinte e tantos anos morando em Portugal. Concordando com a cabeça e fazendo comentários genéricos entretive a última hora antes do pouso.
Voltar para seu próprio país sempre é moleza, chega a ser quase anticlímax para alguém como eu que durante um ano se acostumou a temer o povo da imigração cada vez que voltava para a Inglaterra. Mas, para manter a emoção, a espera para ver minha bagagem surgindo na esteira foi longuíssima. O medo de ser parado na alfândega também rolou, como sempre, mas mesmo com uma bicicleta no carrinho de bagagem não houve qualquer problema.
E então foi só atravessar o portão, e encontrar a família inteira me esperando. E eu estava de volta em casa.
Eu tenho uma confissão a fazer.
Essa história toda de viagem de bicicleta pela Europa não passava de uma desculpa para conhecer a Costa da Caparica.
Meu sobrenome é Caparica, afinal. Desde que eu descobri que em Portugal existia uma praia cujo nome era o meu sobrenome, eu resolvi que um dia iria para lá. Achava o fim que ninguém da minha família conhecia o lugar. Em algum ponto da minha estadia em Londres, eu decidi que sairia da ilha, iria para França, e dali iria pedalando até Lisboa, para conhecer a Costa da Caparica.
Mas daí o Gui me disse pra eu visitar ele em Amsterdam antes de ir embora, e eu resolvi que fazia sentido, então eu decidi começar por lá. Depois, a Tutu me chamou para visitá-la na Itália, então eu achei que o desvio fazia sentido. Em seguida a Ludmila me chamou para conhecer o sul da França onde ela morava… e assim se traçaram todos os desvios que eu já narrei aqui.
Santa Déia em Seu Lar tinha usado seus contatos para me descolar um teto acolhedor em Lisboa: eu ficaria no apartamento da Aline, amiga do Marcelo, amigo da Déia. Sim, esse lance de amigo do amigo do amigo é um pouco assustador, mas tudo tinha dado tão certo até o momento, não havia porque não confiar que ia dar certo nesse final de jornada.
Cheguei em Lisboa pela manhã. O aeroporto da capital portuguesa difere dos de outras cidades importantes da Europa em que é bem próximo da cidade em si; a Aline tinha me dado instruções de como chegar na casa do Marcelo, e em nenhum momento tinha-se que pegar estrada ou algo do gênero.
Depois de montar a bicicleta, fui avançando por solo lusitano debaixo de um tempo ensolarado. Logo de cara, eu trombo com um outdoor exibindo… a Ivete Sangalo. Ela é a garota-propaganda de uma cerveja portuguesa, e está por todas as partes. Quanto mais eu adentrava a cidade, mais eu me dava conta da dominação brasileira na terrinha: cartazes com shows de Marisa Monte (esperado), Chico Cesar (curioso), Sandy & Junior (impressionante) e Gian & Giovani (incrível).
Mas comovente mesmo foi, depois de meses em que ao esforço de encontrar caminhos se somava o exercício mental de pedir orientações em língua estrangeira, poder simplesmente parar e perguntar como chegar à avenida tal sem ter que pensar. Tudo bem que os sotaques diferem bastante, mas eles nos entendem e a gente entende eles. Consegui chegar no apartamento do Marcelo sem maiores contratempos que minha sacola de supermercado cheia de bugigangas estourando no meio de um cruzamento lusitano.
Fui recebido pelo colega de apartamento do Marcelo, já que ele estava trabalhando. Depois de comer um pouco, tirei uma soneca (havia dormido quase nada na noite anterior), e depois resolvi ir conhecer a cidade, já que fazia um dia lindo lá fora. Me informei de onde ficava um metrô, do metrô perguntei onde era a oficina de turismo, e na oficina eu descolei um supermapa de Lisboa que indicava as principais atrações da cidade - procedimento padrão.
Deixei a Angelana presa perto da Praça do Comércio, e fui andando pela margem do Rio Tejo. Logo me vi na frente do Museu do Fado, e, apesar de ser meio avesso a museus, não resisti: paguei entrada e fui ver qual que era a do fado. Gostei horrores, é um museuzinho muito bem organizado, mostra a trajetória do fado toda, cheio de recursos multimídia.
Dali eu saí e resolvi visitar o castelo de são Jorge. Perguntei para uns transeuntes como eu fazia para chegar lá, eles me olharam com uma cara incrédula e me disseram para subir sempre, ora pois. E eu esperando uma indicação de ruas. Achei que isso seria uma prova da parvoíce lusitana, mas certos estavam eles. O castelo de são Jorge fica no alto do morro, e para chegar lá pega-se um emaranhado de ruelas jogadas pelas encostas. É virtualmente impossível descrever um caminho do sopé até o cume sem listar trinta ou quarenta vias. O mais sensato é simplesmente subir sempre, que mais cedo ou mais tarde chega-se no castelo.
Durante minha tenra infância toda ensinaram-me a desenhar castelos com torres de dentinhos quadrados no topo. Provavelmente vem desse castelo, que é exatamente assim. O castelo por si só já é muito legal de se ver. Além disso, ele oferece uma vista fantástica da cidade, e nele também está uma apresentação multimídia que conta (meio apressadamente, devo dizer) a história de Lisboa. Dentro do castelo e à sua volta, lojinhas e mais lojinhas com todos os suvenires que você pode querer e imaginar de Lisboa.
À noite conheci Aline, minha anfitriã, e ela me instalou confortavelmente em sua casa. De lá, fomos jantar na casa de amigos do Marcelo, os quais nos deleitaram com uma legítima bacalhoada lusitana (de bacalhaus noruegueses, todavia; aparentemente não existem mais bacalhaus nas costas portuguesas). Nessa ocasião, descobri que bué giro quer dizer muito legal, e me convenci que, parafraseando Mark Twain, Brasil e Portugal são dois países separados pela mesma língua.
No dia seguinte, fui euforicamente cumprir minha missão de conhecer a Costa da Caparica. Pedalei até a estação de trem mais próxima, descobri como fazia para cruzar o estuário do Tejo, e uma hora mais tarde Angelana Paula estava rodando em direção à praia que me dá o nome. A jornada demorou um pouco mais do que devia porque eu não resistia tirar uma foto junto de cada placa com “Caparica” escrito que passava pelo meu caminho.
A Costa da Caparica é uma cidade-satélite de Lisboa, e, devo orgulhosamente dizer, possui as melhores praias que eu vi na Europa. Até porque segue o conceito brasileiro de praia: ondas, areia, alegria. Da cidade em si, desenrolam-se quilômetros e quilômetros de praias, mais ou menos familiares, ao gusto do banhista. Comprei um par de óculos de sol muito giros no começo das praias (os anteriores tinham sido roubados em Barcelona), montei na bike e fui pedalando até a última. Me tornando cada vez mais envaidecido da minha costa, e cada vez mais convencido de que os britânicos são um povo muito triste por crescerem tendo Brighton como referência de praia.
À noite eu e Aline íamos fazer alguma coisa, mas acabamos nos descobrindo cansados demais para sair de casa, e ficamos vendo novela. Belíssima se aproximava dos capítulos finais, os quais eu não tinha assistido via internet na Inglaterra. Para minha indignação, porém, constatei que em Portugal ignoram acintosamente o padrão Globo de qualidade. A novela começa atrasada, reprisa dez minutos do dia anterior, e daí segue com mais quinze minutos de novidade. As interrupções para intervalos comerciais com ganchos cuidadosamente planejados pelos autores são desconsideradas, e os comerciais entram quando os portugueses acham que têm que entrar, mesmo que seja no meio de uma cena. Revoltante.
Meu penúltimo dia na Europa foi gasto batendo perna pelo Chiado, onde se encontram inúmeras livrarias e restaurantes. Visitando a Fnac que fica num shopping na área, me dei conta de como o Brasil já colonizou Portugal. Seção de discos: uma estante de dois metros de largura de discos portugueses, outra do triplo do tamanho de discos brasileiros. Seção de livros: a quantidade de livros portugueses é tão inferior à de brasileiros que acharam por bem unir tudo como literatura lusófona. E não se iluda: de recente, tem bem pouca coisa lusitana mesmo.
No dia final, Marcelo ia fazer uma feijoada na casa de amigos seus que moravam perto de Estoril, e levou eu e Aline junto. A feijoada demorou para sair; enquanto esperávamos, deixamos o Marcelo cozinhando e fugimos para a praia. À noite, Aline me levou para o Bairro Alto, onde brotou a boemia lisboneta. Bares e mais bares, de todos os tipos, num passeio delicioso que eu devia ter feito antes.
E, na manhã seguinte, fiz a pedalada final de volta para o aeroporto, já mal contando as horas. O Brasil me esperava.
Para aqueles que topam se aventurar pelo castelhano, vale muito a pena ler Filosofía de aerosol, de JP Villalobos, vulgo marido da Déia. Aproveitem e leiam o resto do blog também.
Num desses acessos de paranóia que tanto cabem aos ditadores, o generalissimo Franco, em seus tempos de Guernica e outros crimes contra a consciência limpa, resolveu que corria-se o risco de que as nações vizinhas invadissem o soberano espaço espanhol… de trem. Para evitar tal ultraje, ele fez com que os trilhos das estradas de ferro espanhola fossem mais estreitos que os trilhos usados no resto do mundo, garantindo que apenas trens espanhóis conseguissem correr sua grande fatia da península Ibérica.
As consequências disso são: no Brasil, por uma dessas idiossincrasias que tanto nos caracterizam, metade dos trilhos foram feitos segundo o padrão inglês (e mundial), e outra metade foi feita seguindo o padrão espanhol, o que faz com que a integração da malha ferroviária impossível; e, quando se viaja de trem para a Espanha, não existe trem expresso, sempre tem que se parar na fronteira, ir para o outro lado da estação e pegar outro que te leve a seu destino. Foi assim que numa madrugada fria lá estava eu de novo fazendo mais uma dessas manobras que tanto caracterizam essa minha viagem, carregando bicicleta e malinhas de uma plataforma para outra a fim de chegar naquela manhã em Barcelona.
Não era a primeira vez que eu punha meus pés nessa cidade; depois que fiz o Caminho de Santiago eu estiquei até lá, e um ano depois eu aproveitei uma semana em que as coisas estavam mais tranquilas para retornar enquanto ainda era verão. Em todas as vezes (incluindo a atual) minha super anfitriã era Andréia Moroni, colega de faculdade e amiga para toda a vida, menina de planos tão destemidos quanto eu. Foi quem me inspirou a fazer o Caminho de Santiago; do meu círculo de amigos, foi a pioneira em se casar, a pioneira em migrar para estudar em terras estrangeiras, e a pioneira em se divorciar. Quando, há seis anos, eu pedi sua barraca de camping emprestada para que eu fosse passar o carnaval em Trindade, não imaginava que iniciava uma amizade que daria tantos frutos.
A novidade dessa visita é que, dessa vez, Andréia desbrava mais um limiar da vida antes de todo mundo, e está mais que levemente grávida. Quando cheguei em seu novo velho apartamento no centro de Barcelona, JP, o pai da criança, foi me receber nas escadas, enquanto Andréia me esperava redonda na porta do apê. Nas visitas anteriores a gente já tinha discutido seus planos de adentrar a horda das mães tatuadas e modernas, e pude ver imediatamente que ela estava cumprindo suas promessas: me abraçou vestindo um top que deixava a superbarriga à mostra, com o tigre que ela tem tatuado nas costelas já levemente deformado e um piercing colorido no umbigo, a esse ponto já totalmente distendido. Me instalaram no que será o quarto de Mateo, o rebento, e tudo indica que JP e Déia serão os pais mais legais de todas as galáxias: no berço, um ursinho se escondia de vários aliens de pelúcia que dominavam o quarto.
Barcelona é uma cidade linda que sempre me faz feliz por simplesmente estar lá. Seus cruzamentos octagonais e ruas largas enchem-na de sol, os prédios do Gaudi a temperam com um sabor único, as ramblas chamam para que se esqueça as preocupações da vida. Apesar de ser uma cidade costeira, as partes legais da cidade estão longe do mar; na verdade, para se pegar uma praia em Barcelona necessita-se um esforço razoável. Eu já tinha conhecido os principais pontos turísticos da cidade (Parque Guell, Catedral da Sagrada Família, Bairro Gótico…) nas minhas outras visitas, então nessa minha estadia apenas me dediquei a percorrer a cidade montado na Angelana Paula, situar tudo em meu mapa mental, e torrar nas praias o máximo possível.
Déia mora em Gracia, região muito bacana e central de Barcelona, e que, justo no dia em que eu cheguei, estava iniciando seu tradicional Festival de Gracia, em que os moradores das ruas decoram suas calles (ou, sendo apropriadamente catalão, carrers) com temas de sua própria invenção, para uma semana de festa de rua e música. Feitas em geral com sucata, as decorações iam do cafoninha ao bem bolado, mas sempre divertido e entertaining. Várias noites, num de ja vu da minha noite em Cambrai, eu ouvia bandas de alguma rua dos arredores cantarem animadamente sucessos do Roxette com sotaque castelhano.
Os espanhóis almoçam às quatro da tarde e jantam quase no dia seguinte; Déia e JP já tinham se adaptado aos horários, mas eu custei um pouco. Mas valia a pena: JP, sendo mexicano, cada dia agraciava sua esposa e o hóspede intrometido com delícias de sua cozinha natal, que me faziam lavar a louça com alegria. Nos momentos de ócio, eu assistia aos seriados enlatados devidamente dublados em castellano, e assim me diverti imensamente assistindo Embrujadas, Perdidos e Mujeres Desesperadas. Tirando isso, tive mais uma prova de que a rede Globo está entre as melhores do mundo, a TV aberta espanhola dá vontade de chorar. Mas nada ainda bate o desleixo da TV italiana.
Depois de uma semana de minha presença na casa, Rolando, um amigo de JP, chegou para visitar o compadre antes de retornar a Guadalajara. Eu me transladei para a sala, e aumentei meu convívio com Chope, o gato amigo. A chegada do Rolando deu novos ânimos para os passeios, e continuamos a sair para comer tapas à noite. Um dia nós três e meio visitamos um museu científico no alto dos morros de Barcelona que apresentava um pouco de tudo, desde biologia até f&isica;, incluindo uma mini mata alagada onde descansava impávida uma capivara brasileira, bicho que os olhos mexicanos de JP nunca tinham visto. Me surpreendi me empolgando com os experimentos que o museu oferecia para explicar o mundo na prática, desde a quinta série que eu não passava por isso.
Ao fim de vários dias de reflexões e cálculos mentais, resolvi que gastava a mesma coisa e seria mais útil descartar minha passagem de Air France e tentar comprar uma outra que me levasse antes para o Brasil. Foi assim que depois de alguma pesquisa internética no meio de agosto, comprei um bilhete de TAP saindo de Lisboa para São Paulo na semana seguinte. Uma mudança de planos tão súbita que até eu passei alguns dias atordoado, mas que foi comemorada com iupis! e uhuuus! saltitantes da Ana Paula, lá no Brasil.
Meus últimos dias de Barcelona passaram voando, e seu grande barato foi filosofar com a Déia e acompanhar o desenvolvimento de Mateo, o rebento. O garoto está enorme, e depois de uma visita ao médico ela voltou com a notícia de que ele provavelmente nasceria duas semanas antes do previsto. Estava com ela no metr&oacirc; quando ela me anunciou que estava tendo contrações, as quais continuaram até a noite, mas felizmente, depois de que JP a levou para a maternidade levemente preocupado, não passaram de alarmes falsos ou, como bem disse a Déia, um ensaio geral para a grande noite. Ela ainda não se acostumou ainda com o conceito de dar leite e morre de vergonha cada vez que os peitos escorrem, e não tem defesa minha a favor do conceito da vaca das divinas tetas que a faça parar de ficar constrangida.
Foi com o aperto no coração de sempre que exatamente duas semanas depois de chegar eu me despedia da Déia em plena madrugada, para partir a meu destino final antes de retornar ao Brasil. Ficou a promessa de retornar assim que possível, para matar a saudade, conhecer Mateo ex utero e dar uma força à Déia em seu propósito de fazer que esse moleque, que vai nascer com três nacionalidades e que vai ter que aprender duas línguas para sobreviver em Barcelona, ainda aprenda português. Espero que seja em breve.
Agradeçamos a São Pedro, que fez chover três dias seguidos aqui em Barcelona, o que me permitiu ficar enfurnado em casa esse tempo todo refazendo o visual e o funcionamento do Chã. Agora tem albunzinho de fotos (que pretendo nao deixar ficar abandonado…) e comentários pra sempre, pra alegria de Cynthia Miranda. Só me falta tirar a semana de atraso que o blog está da realidade.
Depois de tantos dias de turismo pelos drops marítimos de Côte d’Azur, chegou a hora de iniciarmos os preparativos para nossas partidas iminentes. Lud ainda tinha que comprar coisas e mais coisas para a sua viagem, e eu, sempre feliz em acompanhar, fui ajudá-la a carregar as sacolas.
Dessa vez conseguimos acordar num horário decente e chegamos no Mercado Municipal de Antibes a tempo de pegar as barracas ainda armadas. Com seus conhecimentos culinários aprimorados por meses de cuisine française, Lud ia desbravando as tendinhas todas, provando patês e temperos que eu nunca tinha visto mais gros. Em seguida, voltamos à loja dos azeites, onde Lud voltou a ter seus dilemas por excesso de opção mas, depois de vários momentos de angústia, comprou uma garrafa de azeite francês doce mesmo. Próximo item na lista de compras era uma mochila para que ela carregasse tudo, a qual foi comprada não sem uma boa pesquisa de preços, porque nós somos brasileiros deslumbrados na Riviera Francesa mas não somos tontos.
Lud voltou para casa mais cedo para despedir-se de seu alemão confortavelmente; eu fiquei percorrendo a cidade, para gravá-la na memória e dar tempo aos dois. Eu tinha deixado Angelana Paula pra fazer um check-up na única bicicletaria da cidade no dia anterior; no fim da tarde fui buscá-la, e na hora combinada cheguei no hotel. Os dois tinham se desencontrado, e Lud estava desconsoladamente tentando fazer com que todos os seus pertences coubessem nas malas. Eu também fiz minhas malas compactas, e assim que tínhamos liberado espaço o suficiente, começamos a maior faxina que aquele quarto já tinha visto: Lud tinha que entregar o apartamento às sete, e sempre é bom evitar dores de cabeça. Migramos toda nossa bagagem para o quarto da Ava, amiga e também estagiária que morava no andar de baixo, terminamos a faxina com um belo pano úmido da varanda até a porta de entrada, e não voltamos a colocar os pés sujos lá dentro.
Ocupada e popular como é, nessa última noite Lud foi visitar os outros N amigos e pretês que ela ia deixar na França, enquanto eu fiquei no apartamento da Ava recebendo os recados e as pessoas que iam lá se despedir dela. O alemão enamorado apareceu lá, quase foi embora sem vê-la, mas eu consegui segurá-lo num papo furado em francês tempo suficiente para que se encontrassem na saída. Lud voltou aos prantos depois de uma noite de despedidas, mas no fim foi bom.
Meu despertador biológico anda cada vez mais apurado; no dia seguinte, acordei sozinho a tempo de despertar Ludmilla para que não perdesse seu vôo. Meu trem para Barcelona só sairia à noite, o que me deu mais um dia para matar em Antibes. Passeei mais um tempo a esmo, parei pra ver um cara que tocava violão clássico na rua, e, seduzido pela fada verde, fui pro bar em que tinha sido tão feliz e comprei um vidrinho de essência de absinto (70% de teor alcólico) para misturar nas minhas coca-colas quando estiver no Brasil.
Ludmilla levou consigo o Code Da Vinci que eu vinha lendo; depois de um breve embate interno, na hora de ir embora decidi que era melhor comprar a minha cópia para não ficar sem saber como terminava aquela desgraça. Too bad. Acontece que o comércio no primeiro mundo fecha às sete da noite (loja aberta até as dez só no Brasil, e loja 24h é um conceito quase exclusivo de São Paulo…), as livrarias já tinham todas se fechado. Corri para um supermercado que fazia o esforço de ficar aberto até as oito da noite, fui na seção de livros… e, desacreditei, não tinha uma cópia sequer dessa minha nêmesis que me perseguiu por anos, mas quando eu fui atrás dela me eludia. Para ter-se uma idéia do prestígio da nossa literatura na França, no super tinha TODOS os livros do Paulo Coelho devidamente traduzidos, mas nada do Dan Brown. Quase em pânico com a possibilidade de uma longa viagem de trem sem nada pra ler, comprei dois livrinhos cujo autor aparentemente era francês legítimo e que aparentemente não era uma das Sabrinas da vida.
O autor (ou autora? O ser assina apenas como Cavanna) parece ser francês mesmo. Já a história…
Que com um simples beijo pode-se aprender um idioma não há dúvida. Você beija uma chinesa, aprende chinês; chupão no alemão, alemão; um estalinho na francesa: oui.
A questão é quando forem comprovadas as propriedades medicinais do beijo, e, conseqüentemente, da língua, o constrangimento da família dessa menininha, na fila de espera por uma lambida compatível com seu pequenino coração.
- Michel Melamed, Regurgitofagia
Segunda-feira partimos na direção contrária. Destino: Mônaco. Se em Cannes já empinávamos os narizes para passarmos despercebidos, lá os elevamos ao nível do torcicolo, correndo riscos reais de vida já que não víamos o que cruzava nosso caminho, mas sem jamais perder a pose. Mônaco, segundo menor país do mundo (depois do Vaticano), paraíso fiscal mais chique da Terra. Você já se sente mais in só de estar lá.
A primeira providência que tomei ao chegar foi procurar um par de óculos escuros que me salvasse da cegueira iminente. Havia perdido meus fiéis óculos rachados em algum ponto do trajeto do dia anterior, e ia entrando em desespero quanto mais tempo passava ofuscado pelo sol de cândida que fazia. Obviamente, estando onde estava, a missão de encontrar qualquer coisa que coubesse no meu orçamento era bem complexa, mas depois de alguma pesquisa quase às cegas no centro comercial comprei um bem vagabundo numa banca de souvenires.
Já que já estávamos por lá, entramos num shopping center dentro de uma montanha, onde acabamos por almoçar. No alto do shopping tinha um museu exibindo a coleção de carros do príncipe, mas consideramos demais pagar pra vê-la, meu primo também fazia o mesmo, só que não eram em tamanho natural. Não sabíamos ainda, mas esse museu destilava a essência da cidade.
Mônaco é um principado que respira a vida de sua família real, não estou bem certo se por opção ou não. Existem ruas e mais ruas do príncipe ou princesa tal, tenho certeza que se um principito não tem a sua deve fazer um ataque de birra até consegui-la. Um dos principais pontos turísticos é a mansão do príncipe, no alto de uma montanha, com vista para o porto. Na praça em frente, uma estátua do primeiro Grimaldi, cuja família até hoje reina sobre Mônaco. E, como ser da realeza não resolve problemas de rejeição e auto-estima, por lei todas as lojas têm que ter um retrato do príncipe Albert III, de preferência na vitrine. Sem brincadeira. Batemos um lero com uma atendente de uma loja, e ela disse que quando o príncipe Rainier morreu todas tiveram que colocar uma bandeira de Mônaco na entrada em sinal de luto, e daí trocaram os retratos do príncipe antigo pelo novo.
Além disso, o GP de Formula 1 também ocupa uma parte importante na imagem da cidade. O mapa que você pode pegar no escritório de turismo vem com as ruas do trajeto demarcadas pra quem quiser percorrer, e existem bancas que vendem retratos dos principais pilotos em vários pontos da cidade, inclusive (ainda) do Ayrton Senna. Não esqueçamos, afinal, que ele ganhou a prova seis vezes.
Mas é inegável que a cidade é linda de morrer. Descendo do palácio do príncipe, entra-se em jardins encarapinhados nos rochedos, tudo muito lindo e bem-tratado, quase caindo naquele mar azul-mentira ao qual nunca se acostuma. Muitas fotos e suspiros depois, contornamos o porto, lotado de iates carésimos, e seguimos para o cassino de Mônaco, um prédio lindo todo em estilo art-noveau, na frente de uma longa praça que deve estar entre as mais bem-cuidadas do mundo, repleta de esculturas modernas e contemporâneas (entre elas um dos relógios do Dali). Mais pra frente, eu e Lud encontramos uma exposição do Romero Britto no shopping Metropole – e devemos ter sido os seres mais empolgados com ela que passou por aquele templo do consumo. Lud fotografou todas as obras, eu algumas, só pra fazer invejinha no povo da Recesso.
Sobe e desce ao longo da costa, passa um parquinho de diversões, tendas de mágicos vendendo equipamento de ilusionismo, fomos chegando em Monte Carlo, cidade gêmea siamesa de Mônaco. Por então já se aproxima das praias, e, ao lado de placas anunciando as grifes que se encontra na rua, vê-se outras que avisam que é proibido andar na rua sem camisa, e apenas em trajes de banho, então, é inconcebível. Afinal, ali, imagem é tudo.
Já meio cansadinhos de tanto andar, resolvemos parar na praia pra quem sabe cair na água um pouco. Sentamos nas pedrinhas, reparamos que ninguém entrava nas águas mais calmas que chá de camomila, e achamos que havia de ter algo de errado nelas. Provavelmente não, apenas nenhum dos pseudo-banhistas queria adicionar o caótico fator água em seu visual, mas por via das dúvidas… Enquanto observávamos as pessoas lindas e bronzeadas a ouro, no entanto, vimos a horripilante figura de uma legítima vítima de anorexia, uma esqueleta de biquíni preto e óculos escuros, cuja pele bronzeadésima embrulhava os ossos e me embrulhava o estômago. Com que músculos ela se movia não sei, porque não se via, mas ela ia se equilibrando de um lado pro outro, e a gente não conseguia tirar os olhos dela, com o mesmo fascínio que se tem por um acidente de ambulância. Entristecedor e deprimente. Tanta gente linda pra gente ver, e não conseguíamos, a mirada sempre voltava praquele cabide vivo que ainda devia se achar muito gorda. Nos estragou tanto a praia que decidimos ir embora dali. Já era riqueza demais pro meu gosto.
Aos poucos eu devo estar adquirindo uma cara de nativo: durante minhas caminhadas e pedaladas por Antibes e arredores, volta e meia para alguém que me pergunta em francês como se faz pra chegar em lugar tal ou tal. Fico muito orgulhoso por alguns mili-segundos, já que deve significar que eu consigo me fazer passar por alguém endinheirado cuja excentricidade é usar uma camiseta mulambenta e desbotada, mas a fachada noveau-riche desmorona quando, num francês vacilante, eu respondo que não faço a menor idéia de onde seja o tal lugar.
Provando que somos quase incapazes de aprender com nossos erros, Lud e eu acordamos tarde domingo de novo. Mesmo assim, decidimos que iríamos a Cannes, algo que já programávamos há dias. Pegamos um ônibus rumo ao sul e, em vinte minutos, pisávamos na cidade do festival de cinema, empinando os narizes para não nos sentirmos excluídos.
Quem quer que seja que teve a idéia de fazer o festival de cinema em Cannes devia ganhar uma estátua no lugar de maior destaque possível, mas inaugurar estátua deve ter ficado demodê há muito tempo. Tudo lá faz referência a cinema: calçadas com as listas de vencedores, escadaria de hotel repetindo a mesma lista entre um degrau e outro, cabine telefônica em forma de filme… O festival move a economia de uma cidade que de outra maneira seria apenas mais uma cidade linda entre tantas. Suvenires de filmes, lojas especializadas em cinemas, e os hotéis mais chiques florecem por conta do evento. No resto do ano outros festivais e congressos ocorrem por lá, mas é inegável que seu maior atrativo é o festival.
Batendo perna como sempre, visitamos o prédio onde a festa ocorre, mas desistimos de tirar uma foto no tapete vermelho porque a quantidade de turistas competindo pra tirar a mesma foto era tão grande que mal se via o tapete, e facilmente o único vermelho que se veria em pouco tempo seria do sangue derramado pelas pessoas que lutavam para tirar foto primeiro. A avenida à beira-mar em Cannes tem todas aquelas lojas que eu já cansei de enumerar nesses relatos, com seus lânguidos vestidos que custavam módicos 1600 euros. A cada uma dessa que a gente passava, minha camiseta desbotava mais um pouco.
Quando se aproximou o fim da tarde, resolvemos tomar um solzinho; desviamos da praia paga, fomos na de grátis e nos acomodamos o melhor que podíamos. De nada valeu nossa alegria e tez brasileira, nem nossos olhares promíscuos, não conseguimos seduzir ninguém e nossas esperanças de dar um golpe do baú na Riviera Francesa se afundaram nas pedrinhas da praia. Pegamos o bumba de volta pra Antibes debaixo de chuva, tão solteiros (ou pseudo-comprometidos, no caso da Lud) quanto antes, mas não de todo derrotados porque mais oportunidades surgiriam no dia seguinte.
Casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo. A mais linda, a mais amada, respeitada, cuidada… A mais bem comida. E a pessoa mais namorada do mundo e a mais casada. E a mais festas, viagens, jantares.. Casa comigo que te faço a pessoa mais realizada profissionalmente. E a mais grávida e a mais mãe. E a pessoa mais as primeiras discussões. A pessoa mais novas brigas e as discussões de sempre. Casa comigo que te faço a pessoa mais separada do mundo. Te faço a pessoa mais solitária com um flho pra criar do mundo. A pessoa mais foi ao fundo do poço e dá a volta por cima de todas. A mais reconstruiu sua vida. A mais conheceu uma nova pessoa, a mais se apaixonou novamente… Casa comigo que te faço a pessoa mais “casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo”.
- Michel Melamed, Regurgitofagia
A crise da Varig vai tendo repercussões e repercussões, principalmente para nós, pessoas largadas no outro lado do mundo. Ludmilla, como ficou sabendo de repente que ia ter que voltar para o Brasil para não perder sua bolsa, precisava da primeira passagem disponível para cruzar o oceano; eu, vivendo de nômade na Europa, também gostaria de voltar logo pro outro lado do equador, mas podia esperar um pouco. Ficamos querendo. Desde que nossa principal companhia aérea desceu pelo ralo, todos os vôos das outras companhias para o Brasil lotaram, e a situação não deve normalizar tão cedo. Pedalei para o aeroporto de Nice para tentar mudar minha passagem e a da Lud, e, para o espanto do próprio tiozinho da Airfrance, a primeira data disponível era dia 10 de outubro. Menos mal para a Lud, que tem uma passagem pro dia 18 de agosto anyway… Eu, a não ser que dê sorte de pegar um cancelamento, estou aqui até outubro mesmo.
Sexta foi o último dia de trabalho de Lud na cozinha do hotel; até quarta-feira, quando partiríamos os dois, estávamos livres para bater perna pela costa. Acordamos beeem tarde, resultado das visitas intra-hotel da noite anterior, então, depois de café da manhã gourmet e louça, resolvemos passear por Antibes mesmo. óculos de sol na cara, fomos encarar o sol de holofote que fazia e enveredar pela parte velha da cidade.
Eu sempre acho muito interessante como as profissões das pessoas moldam seus interesses e percepções do mundo. Eu, por exemplo, fico reparando nas helveticas do caminho, não consigo deixar de entrar em banca de jornal, e fico aflito quando um poster ou placa está com os dizeres desalinhados ou com o kerning malfeito. Passear com a Lud se provou muito mais interessante que as minhas entediantes manias de designer. Fomos visitar uma loja especializada em azeite de oliva, com garrafas e latas das mais variadas safras, tipos de azeitona e países. Lud provou alguns e não conseguiu se decidir por qual levaria como preciosidade para o Brasil; descobri então que o azeite brasileiro não chega aos pés do mediterrâneo, assim como a farinha, que “lá simplesmente não presta”.
O centro histórico de Antibes, assim como, devo dizer, a grande parte dos centros históricos que visitei até hoje, é cheio de lojinhas; o bom é que no caso existia toda uma variedade de coisas para se olhar, e as lojas eram mais humildes (no conceito Côte d’Azur de humildes, entenda-se bem). Pelo menos a gente podia entrar nas que anunciavam descontos de 50%, e até considerar de repente quem sabe comprar aqueles ítens mais baratos. Eu, que não aguentava mais usar as mesmas quatro camisetas todos os dias; Lud, que agora pode comprar roupa em lojas em que todo mundo compra: paramos de loja em loja. Pobres que somos, não compramos nada (minto, ela comprou uma legítima boina francesa), mas nos divertimos mesmo assim.
Perdemos de pegar o mercado municipal aberto, mas Lud aproveitou que estávamos por lá para me mostrar o Bar do Absinto. Numa loja de esquina, no andar inferior, um lugarzinho todo art-noveau, com mesinhas redondas decoradas com as mulheres do Mucha, e tudo que se precisa pra se tomar absinto como se deve. Nas paredes, vários pôsters de propagandas do século passado (ou retrasado?) de absinto. Me dei conta de como fomos manés naquele ano-novo na casa da Júlia em que todos resolveram virar um copinho de absinto puro se achando o máximo, e ficamos todos tralalás e com o estômago revirando o resto da noite, claro. Descobri que a maneira elegante de se tomar absinto é colocar a porção desejada no fundo de um copo médio, colocar um torrão de acúcar em cima do copo, equilibrado numa bandejinha, e usar uma garrafa apropriada pra ir pingando água gelada sobre o acúcar, de forma que tudo se misture lentamente no fundo do copo, e se tome um absinto mais diluído e agradável ao paladar (e ao estômago).
Achei tudo tão lindo que fiz a Lud sentar lá comigo, e disse que só saía de lá depois de ter uma experiência Moulin Rouge, nem que a garçonete tivesse que se fantasiar de fada verde pra me expulsar do bar. Depois de olhar o cardápio, pedi uma Coca-cola com absinto, e uma porçãozinha de absinto pra Lud experimentar, já que nunca tinha tomado antes. Apesar de seguir os ensinamentos de seu chefe chef de que, se você de primeira não gosta de uma comida, deve experimentar de novo, e de novo, e de novo, até adquirir o gosto pela coisa, ela não quis ir muito adiante no absinto. Fui tomando minha bebida, a garçonete trouxe uma porção de azeitonas e uma de alho (!) de cortesia. Quando o copo chegou ao fim, pus nele o resto da garrafa e reforcei com a dose rejeitada pela Lud, maravilhado de como eu nunca tinha tomado algo tão bom antes. Lud olhou prum pôster atrás dela, uma ilustração de um francês com um casaco verde tomando alegremente seu absinto, e disse que lá estava meu fado verde. Eu respondi que pra mim fado verde, só se surgisse um português de bigodes esmeraldas, cantando tristes canções lusitanas. Obviamente, eu já estava pra lá do rio Tejo.
Saímos de lá para que eu terminasse de conhecer as maravilhas de Antibes, Lud indicando o caminho e eu seguindo em zigue-zague. Paramos numa doceria chiquésima que premia todas as suas fatias com uma microfolha de ouro no meio, Lud não resistiu e comprou pedaço de bolo, eu, mais feliz que devia, resolvi que porque não, e comprei um pedaço de torta de chocolate. De loja em loja, livraria em livraria, restaurante em restaurante, chegamos até o ponto de ônibus e tomamos o ônibus até o hotel, eu já dando graças a deus que não tinha vindo de bicicleta, assim não corria o risco de ficar dando 50 voltas no balão que tinha no caminho antes de decidir que entrada tomar.
Mais tarde, depois que eu tomei banho e estava de volta ao meu estado normal, provamos os doces que tínhamos comprado, e descobrimos que ouro não tem gosto de nada, e que a mulher podia muito bem guardar aquilo pra fazer fortuna. Enquanto esperávamos o influxo de colegas de hotel começar (estavam todos trabalhando no turno da noite, afinal…), Lud reparou na minha vergonha de ler O Código Da Vinci, e me deu o Regurgitofagia, do Michel Melamed, pra ler, um livrinho cheio de textinhos geniais que eu li contente da vida. O problema é que em uma hora acaba. E daí estava eu de volta à Sophie Nevau…
Em futuro estudo, a ser publicado em conceituada revista do meio científico, serà comprovada nao só a existência, mas os índices alarmantes da incidência da cárie cerebral. O fenômeno, que atinge povos de diversos paises, tem como uma de suas principais causas, como é de se esperar, os péssimos hábitos alimentares das populacoes, cultivados, principalmente, pelo consumo exagerado de enlatados americanos, novelas acucaradas e conceitos embutidos.
A fim de evitar a extracao do orgao sob risco de seqüelas irreversíveis, como por exemplo, o pensamento banguela, recomenda-se expressamente o uso contínuo e correto do fio mental. E da escova de mentes.
Vamos fazer do Brasil um país de sorriso branco… e preto e mulato e cafuzo e índio e… hálito mestico!
- Michel Melamed, Regurgitofagia
Ha um ano, quando fui pra Barcelona, muito me desconcertou o estouro de O Codigo Da Vinci. Todos os dias, quando eu ia pra praia, eu via dezenas de pessoas lendo essa desgraca enquanto tomavam sol, em traducoes diversas. Quanto mais gente eu via lendo esse livro, quando mais saia outras obras oportunistas explicando/negando/desvendando o tal do codigo, mais eu me resolvia que nao iria le-lo.
Pois o vicio me venceu.
Na minha primeira manha em Antibes, eu percebi que nao tinha mais o que ler. O Historia de Cronopios y de Famas tinha chegado ao fim, e eu nao tinha mais nenhum livro na bagagem. Foi entao que eu olhei pro lado e vi uma copia do Da Vinci Code, traducao francesa, entre os livros da Ludmilla. Ela mais que rapidamente me explicou que tambem nao pretendia le-lo por estar exausta do hype em torno dele. Eu comecei a ler as primeiras paginas pra matar meia hora ociosa… e me dei mal.
Por mais que eu me incomode com as tecnicas manjadas de criar suspense, com os capituos curtinhos pra facilitar os ganchos, com os pensamentos em italico, com as mudancas de foco narrativo por pura preguica, e com a ncessidade de se mastigar tudo pro leitor, eu estou preso agora a necessidade de saber como a historia acaba. E, pior, gracas a Lois, uma das principais surpresas do final ja me foi revelada. Mas a necessidade de ter algo a mao pra ler nos momentos imoveis e mais forte.
Como todo bom viciado, eu tenho uma boa desculpa: estou lendo a traducao em frances, e uma boa maneira de aprimorar meus conhecimentos da lingua. Mas me da uma certa vergonha, e eu me pego tentando esconder a capa do livro quando estou lendo-o na praia exatamente como faziam as centenas de pessoas que eu menosprezava em Barcelona. Mas nao adianta eu me enganar. No fundo eu nao vejo a hora de descobrir o que acontece com a Sophie Nevau e o pamonha do Robert Langdon.
E praia e o que nao falta. Nesses ultimos dois dias, como Ludmilla tinha que trabalhar no hotel, eu passei o horario comercial percorrendo a costa de bicicleta, deslizando com a ajuda da brisa maritima. A costa do sul da Franca e uma fila de cidades sem intervalos: Cannes, Jean Les Pins, Antibes, Biot, Cagnes-sur-mer, Cros de Cagnes, St Laurent du Var, Nice, Villefranche sur Mer, St Jean Cap Ferrat, Beaulieu-sur-mer, Eze-sur-mer, todas numa faixa de 70km que eu enfrentei com a intrepida Angelana Paula.
O percurso todo e agraciado com aquelas aguas azuis #0000FF que dao vontade de ir parando o tempo todo. As praias de Cote D’Azur sao todas de pedra, o que justifica a cor: sem areia, nao tem o que turve as aguas. Mas as pedras sao menores que as de Brighton, o que deixa as praias francesas bem mais confortaveis que aquela desgraca britanica. Gente bonita e saudavel por todos os lados, com aquele ar bem-nutrido de quem tem dinheiro. E considerado algo chique e levemente ousado que as mulheres facam topless, entao existem peitos a mostra das mais variadas idades e niveis de bronzeamento. Em ambos os dias fui parar numa praia em Eze-sur-mer, com ondas agitadas, profundidade que aumenta rapidamente, e com tanto sal que se sai da agua mais salgado que a esposa de Lot.
As cidades sao todas lindas, chiques e caresimas, cheias de lojas de grifes e pessoas que as usam casualmente. Cheguei a ver uma mulher com uma mala Yves-Saint-Laurant e bolsa Prada. Tudo e muito limpo, e, depois de se percorrer essas cidades, entende-se de onde os urbanistas do Rio de Janeiro buscaram a inspiracao para construir o Rio (o Dejaneiro e outra historia).
Ao voltar ao hotel, me era permitido compartilhar da rotina da Ludmilla. Nos encontramos sempre depois das dez, quando acabava o turno noturno da cozinha; ela chegava fantasiada de chef, com as manchas dos molhos dos dias no uniforme, cheia de historias pra contar. Enquanto compartilhavamos os feitos do dia, ela fazia uma "jantinha simples, nada demais", e, em quinze minutos, sacava do fogaozinho eletrico pratos que minha limitada capacidade culinaria jamais conseguiria conceber, todos lindos e saudaveis, regados a coca-cola. Em contrapartida eu lavava a louca. E logo entao comecavam as visitas.
Os hoteis da regiao todos tem um sem-numero de estagiarios que trabalham neles durante a alta temporada, seja porque querem trabalhar com hotelaria, seja porque apenas querem fazer um dinheirinho extra. A imensa maioria nao e francesa, e ficam quase todos hospedados em quartos dos hoteis que trabalham. Sem televisao, sem conhecidos externos… assim que todos jantam, comecam a bater de quarto em quarto, e sem combinar muito acabam todos reunidos num quarto so, falando abobrinha e fazendo bom uso dos hormonios. Fiquei maravilhado com essa turma do mundo todo, todos da nossa idade, com historias pra contar e um interesse imenso na novidade da semana (eu). Quase todos com o frances como segunda lingua, o que tornava as conversas bem mais faceis de compreender e muito didaticas para mim.
Tanta convivencia, alem de fazer com que qualquer fofoca se espalhasse instantaneamente entre todos, criou um monte de expressoes que so eles entendiam. Sempre que um deslocamento coletivo se fazia necessario, alguem dizia "Allez les bleus!", o grito de guerra da selecao francesa, aprendido depois da copa do mundo, apesar de que em seu contexto correto a expressao nao faz o menor sentido. E sempre quando queriam insinuar as transas alheias, usavam "burum-burum!", como motorzinho de carro, giria otima que Lud e eu decidimos implantar no Brasil quando retornarmos. Esperamos um dia que alguem desconhecido nos diga "burum-burum" casualmente, e entao teremos o prazer secreto de saber que quem lancou a giria fomos nos.
O influxo de visitantes era ainda maior porque, para a surpresa da propria, Ludmilla estava de partida. Tinha conseguido uma bolsa para estudar gastronomia em Sao Paulo, descobriu isso quando as aulas tinham acabado de comecar, e entao urgia que zarpasse de volta pra patria amada o quanto antes. Em uma semana ia-se embora, e o povo queria aproveitar de sua presenca o maximo possivel. A rotina do hotel fazia com que fossem chegando as onze da noite, e so partissem depois da uma da madrugada - e isso porque tinham todos que cuidar da clientela na manha seguinte, senao ficariam muito mais.