
De tantos primos que eu tenho, existem cinco que merecem o epíteto de Os Primos: Fernando, Flávia, Francely, Fábio e Filipe, os filhos da tia Celira. Como temos idades razoavelmente próximas e desde que eu tenho quatro anos moramos na mesma cidade, sempre fomos muito próximos e presentes uns para os outros. Os anos em que moramos a dois quarteirões de distância, então, eram uma festa, em que nos visitávamos apenas por visitar, mesmo sem muito o que fazer.
E, de todas as atividades que oito crianças podem fazer juntas, jogar jogos de tabuleiro sempre estiveram entre as preferidas. Afinal, com tanta gente, juntar quatro ou mais para uma partida de qualquer coisa não era difícil, quando não ficava alguém de fora. Assim, partidas épicas de Jogo da Vida ou Banco Imobiliário aconteciam, ou de jogos que só ficaram ilustres entre nós, como Carga Pesada, Bolsa de Valores ou GloboGame. De todos, o único que a gente jamais conseguiu jogar foi o Supremacia, que era complicado e lento demais para qualquer ser humano que não fosse chinês e estivesse preso.
Mas, entre todos, o que sempre teve lugar especial para nós era o War. E não era para menos. Tio Nadir, o pai dos Primos, por alguma inspiração do além um dia comprou uma edição de luxo do War. Ela me impressionou desde a primeira vez que a vi, e, sinceramente, até hoje é um dos meus objetos de desejo. Pra começar, sua caixa não era uma caixa, era uma lata linda e enorme. Dentro dela, os tradicionais exércitos haviam sido requintados: as peças d"e um exército eram granadinhas, as de três eram um soldadinho com um rifle na mão, e as de dez eram pequenos tanques. O tabuleiro era enorme, com cantoneiras de metal, e havia um copinho para se jogar os dados.
Foi com esse conjunto que eu aprendi a jogar War, então é compreensível a minha decepção quando eu ganhei o meu próprio conjunto e descobri que no mundo real o tabuleiro era menor, os dados vinham sem copinho e que na verdade um exército era um disquinho pequeno e dez exércitos eram um disquinho maior – nada de três exércitos. Mesmo assim, continuei a jogá-lo, de preferência com os Primos – se fosse no tabuleiro do tio Nadir, melhor ainda.
Em volta da mesa da sala de jantar, com ou sem adultos, nós disputávamos entre nós o domínio sobre continentes, sendo algumas das poucas crianças para quem as palavras “Dudinka”, “Aral” e “Omsk” faziam algum sentido. Miseravelmente limitados a seis facções, volta e meia fazíamos pares que deliberavam sobre o futuro de nossas tropas quando oito ou mais queriam jogar ao mesmo tempo. Pactos de não-agressão eram estabelecidos, guerras eternas declaradas, e heróis nacionais criados ao sabor dos dados vermelhos e amarelos (“eu não acredito que eu ataquei o México com vinte exércitos contra três, perdi todos e esse último seu sobreviveu!”).
Partidas históricas aconteciam, em que se fazia a vigésima troca para ganhar 50 exércitos, seguida de outra que punha mais 55 em jogo; Fernando, com seu poder de primo mais velho, influenciava eu e o Danilo a fazer o que ele queria, no estilo “Se eu fosse você, faria isso… Você vai me atacar??? Tem certeza??? Tudo bem, mas depois…”. Mesmo assim, coisas surpreendentes podiam acontecer, como quando o Danilo havia feito um pacto de não-agressão com a Lily, e, na rodada seguinte, quando ela estava desprotegida, a atacou, dizendo “eu menti!”. Ela nunca se recuperou dessa traição.
Ontem, anos depois da última partida de War, nós todos nos reencontramos no aniversário dos filhos do Fernando, Adriel e Arthur. Fatalmente, como acontece sempre nesses reencontros, nós começamos com as reminiscências de todas as nossas horas felizes em volta dos tabuleiros, e como deveríamos voltar a jogar um dia. Foi irresistível eu dizer “e por que não hoje?”. E, como mágica, todos acharam que era uma ótima idéia. A Lily não quis (ainda tem traumas daquela partida com o Danilo), e não foi tão simples como antigamente, em que só tinha que pedir permissão para as respectivas mães: os Primos, todos casados, tiveram que negociar com as respectivas Donas Patroas pra passarem a noite na casa da minha mãe. Mas, depois das deliberações todas, conseguimos nos juntar para uma partida de War 2.
E da meia-noite às quatro da manhã, nós mais uma vez entramos num embate de proporções mundiais, dessa vez com aviões. Agora que somos adultos, a guerra psicológica entrou no arsenal, com a pressão de pecinhas que “passeavam” sobre a área de conflito no momento para influenciar os resultados. Foi difícil resistir à influência do Fernando (hábitos de infância resistem muito tempo), mas eu fiquei me repetindo “eu não tenho mais dez anos, eu não tenho mais dez anos” e deu certo. Foi fantástico, apesar de que os Primos não conseguiram resistir depois das quatro da manhã. É a idade. Mesmo assim, é bom saber que certas coisas da infância continuam guardadas em algum ponto.
Já não era um dos dias mais propícios. Depois das férias coletivas, estávamos com uma semana e meia até o fechamento e 75% da revista ainda por fazer. Meu chefinho tinha acabado de me dar uma matéria complicadíssima, com dez páginas, para destrinchar. Era sexta-feira, fim da tarde, e nada indicava que sairíamos do serviço tão cedo.
E então acabou a luz.
Acabar a luz na Editora não é algo tão trágico assim. O prédio dispõe de geradores que se ativam automaticamente quando a energia falha, evitando que se ouça um coletivo “EEEEEUUUUU NNNÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOO SALVEEEEEEEEEEEIII” urrado entre lágrimas e cabeçadas na mesa em todos os andares. As luzes se apagam mas os computadores continuam funcionando, o que dá tempo para todo mundo salvar o que estava fazendo e dar umas risadinhas.
Já estávamos procurando umas revistas para ler enquanto aguardávamos que a energia fosse restaurada, quando alguém olhou pela janela e disse “gente, tá desabando o buraco!”.
As obras da estação de metrô nova que vai abrir do lado da Editora têm sido o entretenimento de todos há dois anos, já. Quando eu estava em Londres o pessoal da Recesso já me contava como saíam todos correndo para tirar fotos no meio da Marginal vazia durante as breves interdições na pista que ocorriam todos os dias no mesmo horário. Quando eu voltei ao Brasil e à Editora, já não interditavam mais a pista, mas as detonações subterrâneas para abrir os túneis continuavam, fazendo o prédio todo tremer. Da janela da redação da NI, onde acabei arranjando emprego, volta e meia acompanhávamos os movimentos de um guindaste sobre um buracão gigante que ninguém sabia ao certo para que servia.
E agora o buracão estava engolindo as ruas. Como o povo adora ver uma desgraça, em quinze segundos estavam todos encostados nas amplas janelas que davam pro ex-túnel, que só aumentava. Quando eu consegui chegar, uma rua já tinha ido pro fundo do poço, e, sem saber quando que a erosão ia acabar, acompanhávamos fascinados o buraco chegar mais e mais perto do prédio vizinho.
Entre risinhos meio tensos, acompanhávamos o movimento no dito prédio: um engarrafamento instantâneo na saída de seu estacionamento, dezenas de luzes de freio acesas, se sentindo numa espécie de Torres Gêmeas tupiniquins, esperando sair de lá antes que tudo desabasse. Uma grua ameaçava cair, ia girando de um lado para o outro “para modificar o centro de gravidade”, nos explicaram os colegas ex-engenheiros. O trânsito na Marginal foi interrompido, e o congestionamento em poucos minutos se estendia a perder de vista. Ligamos a TV, mas nada aparecia na BandNews, nem na UOL. Não sabíamos bem o que estava acontecendo, mas o buraco ainda parecia distante, e o fascínio era maior.
Não deu cinco minutos depois de descobrirem o buraco e que portanto seja o que for que estivesse acontecendo ia ser sério, e nossos colegas da redação ao lado juntou os pertences, falou “Ueba! Fim de semana prolongado!” e partiu. Nós, com um dos piores fechamentos da curta história da revista nas mãos, ainda esperamos um pouco, mas, como realmente parecia que a luz não ia voltar e que o buraco podia piorar, juntamos o sangue-frio e fizemos um plano de ação. Enquanto alguns ligavam para amigos e parentes para contar o que estava acontecendo, eu gravei todo o material da minha pepina matéria num CD para trabalhar em casa. A nossa secretária, uma fervorosa crente que tenta nos converter a cada dois dias, enquanto isso entrava num ligeiro pânico bradando “GENTE, VOCÊS SÃO MALUCOS! O PRÉDIO VAI CAIR! QUE QUE CÊS TÃO FAZENDO PARADOS? EU VOU-ME EMBORA!”, e o nosso chefinho respondia “Não vai embora! Você é nossa conexão com o homem lá em cima! O que vamos fazer sem você?? Fica com a gente!”. Eu recolhi todo o meu material, olhei bem para a minha recém-adquirida mesa, juntei tudo o que eu não queria perder pra sempre num eventual desabamento do prédio, e fui pra casa.
Uma vez na rua, o prédio estava sitiado por pessoas que não sabiam se iam ou se ficavam, se acompanhavam o movimento ou iam pro fechamento, se largavam a carteira que ficou lá em cima junto com as chaves de casa ou se subiam dezesseis andares de escada. Eu, de bike, fui mais uma vez atravessando feliz da vida os engarrafamentos que começavam a se formar. Quando cheguei no meu apê, quinze minutos depois, os plantões de notícia já tinham todos sido acionados e divulgavam que algo muito errado tinha acontecido.
Quando voltei ao trabalho na segunda-feira, tudo tinha voltado a uma realidade meio improvável. Os murais de aviso do prédio tinham informes que tentavam tranqüilizar os funcionários, dizendo que o edifício não se apresentava sob risco nenhum. Três ou quatro helicópteros de diferentes canais de TV sobrevoavam a área, e bombeiros, policiais civis e militares e guardas de trânsito interditavam as ruas em volta. As pessoas do outro lado do andar vinham à nossa janela ver a situação do buraco, que começava a ser escorado com concreto. A cada quinze minutos, alguém da nossa redação ou da vizinha levantava para ver os procedimentos, e qualquer comentário era capaz de levar quatro ou cinco curiosos para observar.
Perplexos, descobrimos que a Rede TV!, a Record e a Gazeta estavam preenchendo toda sua programação vespertina com o evento, contando quantas pessoas teriam sido soterradas, entrevistando ex-moradores das ruas ameaçadas, parentes de pessoas desaparecidas, e imagens que pouco diferiam entre si do ex-túnel. Ao ir embora no começo daquela noite, fui tentar pegar uma rua que costumava pegar antes e não pude; os puliças me avisaram gentilmente que tinha otoridade lá e que era pra eu dar a volta. Mais uma vez de volta ao apê doce apê, descobri que nosso governador José Serra tinha ido visitar o túnel, o que me fez ter muita dó do coitado, que, apesar da total inutilidade do gesto, tinha que se enfiar num túnel úmido e precário para mostrar que fazia alguma coisa.
Quatro dias depois, a Sonia Abrão ainda espremia cada gota do assunto durante as intermináveis horas da tarde. Os jornais haviam nos presenteado com as manchetes “Primeiro corpo encontrado”, “Segundo corpo encontrado” e “Terceiro corpo encontrado” em três dias consecutivos. A culpa já havia sido delegada a deus e todo mundo, e declarações do misterioso “Consórcio da Linha 4” surgiam periodicamente. Já sabíamos todos mais do que jamais quiséramos saber sobre o funcionamento do túnel, das obras e do buraco.
Se teve uma coisa boa nisso tudo, porém, foi que voltaram a interromper a marginal por algumas horas por dia. Ruim para os motoristas. Bom para a Renatinha, minha amiga, que aproveitou a interdição para tirar fotos saltitantes na pista deserta, que ela há de mostrar para os netos.
Não de astrólogos; cheguei nesse artigo pela Wired, e realmente várias de suas previsões fazem sentido, confira.
“E isso aqui, Marcinho, se chama ‘vulva de arara’”, disse Beto Sandall, apontando pra um rabanete.
Tudo por causa da minha convicção em não comer alimentos com nomes antropofágicos. A lista não é muito grande, mas revolta muita gente: eu desprezo baba-de-moça, teta-de-nega e bicho-de-pé. Pé-de-moleque eu como porque aprendi a comer antes de chegar na fase da minha vida em que comecei a imaginar moleques encardidos com seus pés mutilados. Na noite anterior, ao pararmos numa doceria em Copacabana, eu descobri um docinho branco chamado barriga-de-freira, e imediatamente fiz mais uma adição ao meu rol de alimentos a evitar. Léo Favre e Beto Sandall, meus queridos anfitriões nesse meu révellon carioca, ficaram inconformados, e no dia seguinte ainda não deixavam o assunto morrer. Enquanto preparavam a salada do almoço, iam vendo até onde que minhas aversões sintagmáticas iam me levar. Beto tirou um tomate-cereja do pirex e disse “Isso aqui, Caparica, se chama olho-de-saci”. Léo pegou um pedaço de brócolis e continuou “E isso aqui vem do latim broccho lisum, e quer dizer pentelho-de-bode”. Não levou nem quinze segundos a mais para o pobre rabanete virar vulva-de-arara, mas eu me mantive fiel aos meus princípios e continuei ignorando os alimentos com nomes genuinamente metonímicos.
Havia já dois dias que eu tinha chegado ao Rio de Janeiro, para passar meu fim de ano. Eu havia visitado Léo e Beto três semanas antes, já que não via Léo pessoalmente desde antes de ir para Londres. Durante o fim de semana que passei em terras fluminenses, choveu o tempo todo sem parar, e minhas esperanças de voltar para Sampa sem a tez verde-escritório que já tinha substituído meu bronzeado mediterrâneo foram por água abaixo. Depois que resolvi voltar para o Rio no fim de ano, a esperança de pelo menos começar 2007 com um bronzeado razoavelmente decente só crescia. Léo me escreveu no dia anterior à minha partida dizendo que estava fazendo um sol esplendoroso e que dessa vez o projeto bronze ia dar certo. Que ilusão.
Cheguei na rodoviária do Rio às sete e meia da matina, tendo sobre minha cabeça um céu de nuvens negras digno de Londres. Num ombro, carregava uma mala vermelha gigante com roupas, laptop e outros petrechos necessários para se passar uma semana fora de casa. No outro, a trombolhuda mala de bicicleta, coadjuvante importantíssima da minha viagem pela Europa. Sim, Angelana Paula, a Intrépida, me acompanhava em mais uma aventura.
Sempre temeroso de taxistas dispostos a tirar vantagem de paulistas otários, fui para as cabines de táxis pré-pagos, fiz uma pesquisa rápida de quem poderia me levar junto com a megabagagem, e fiquei pasmo da variação encontrada: os preços iam de R$ 17 a R$ 40, “por conta da bagagem”, para me tirar dali e me deixar em Laranjeiras. Fui no mais barato, e a mocinha, ao ver a bagagem da bike, adicionou mais R$ 3 por conta da bagagem. Arrastei tudo até o ponto de táxi, e vi, entre pasmo e horrorizado, três motoristas simplesmente se recusarem a me levar por conta da Angelana. Por fim uma Dobló-táxi, de porta-malas gigante, veio me resgatar. Feliz? Não. O cara, mesmo tendo um porta-malas com mais espaço que muitos quartos que eu já vi por aí, começou a reclamar que minha bagagem era muito grande, e só me aceitou depois de eu oferecer mais 4 reais, que era tudo o que eu tinha na carteira.
Desembarquei temporariamente em Laranjeiras, para tomar café-da-manhã com Jimmy W. Depois de alimentado e de colocar a conversa em dia, Jimmy gentilmente me levou Rio adentro até a Gávea, onde mora o Léo. Lá, enquanto mister Favre aprontava o almoço com seus insuspeitados dotes culinários, fazíamos planos para aproveitar meus dias fluminenses e usufruir do sol que mais cedo ou mais tarde havia de dar as caras.
Antes fosse. Como não fazia sol, acabei acompanhando Leozinho até a academia, me assustei com como são marombados os cariocas, e passei vergonha ao descobrir que Léo levanta muito mais peso do que eu. Essa noite, Léo me levou para um passeio ciclístico pela lagoa Rodrigo de Freitas, em que era impossível se ver o Cristo devido às nuvens. Fomos para o cinema ver o novo 007; quando saímos de lá, o já se via o Redentor, mas dois minutos mais tarde ele já havia se escondido de mim.
No dia seguinte, fui convocado por Louis Piereck, que também estava passando o fim de ano no Rio, até Ipanema, e mesmo com a persistência cumulonímbica eu fui lá dar um oi para meu velho amigo. Nada de sol durante todo dia, com chuva leve ao final da tarde, quando saímos de um bar da Gávea e voltei à residência de Léo.
Acordei dia seguinte com um sol esplendoroso, e resolvi não esperar que Léo e Beto acordassem: convoquei Jimmy e corri para a praia. Foi só eu me instalar na areia, porém, e lá se foram os raios fúlgidos. Me restou só ficar conversando sobre princípios lingüísticos e mitos na psicologia com Jimmy, enquanto me queimava com o mormaço.
Dia 31 nem havia esperança de sol, já que tradicionalmente chove no Rio toda virada de ano. Debaixo de uma chuvinha indecisa, fomos eu, Léo e Beto para uma festinha de revéllon de um grupo de amigos deles. A presença armada se sentia pelo caminho todo, cheio de puliças ostentando escopetas, show de horror. Nós três pedalando, claro; devido às poças do caminho, Beto chegou com as costas de sua camisa branca cheias de barro (a roda das bikes joga a sujeira pra cima, nas costas do ciclista); Léo, que desviou da maioria das poças que cruzaram seu caminho, estava apenas um pouco sujo; eu, que tenho uma soberba bike com pára-lamas, estava impecável.
A festinha estava meio devagar, mas valeu para provarmos o divino pavê que Léo tinha feito para o evento. Onze e vinte da noite nós três nos despedimos de todos os presentes e começamos a correr para Copacabana, para ver os fogos. Foi uma pedalada desabalada, desviando de inúmeros festeiros que já se instalavam para assistir os fogos da Lagoa, enfrentando multidões que também se dirigiam para Copa, e, é claro, desafiando a chuvinha que continuava caindo. O esforço valeu, no entanto, e, depois de prender as bikes e abrir caminho na multidão, estávamos com o pé na areia dois minutos antes de começar a contagem regressiva. O ano virou, a gente gritou, os fogos começaram, e comemoramos com champanhe (francesa, que Beto é chique) bebida no gargalo, enquanto deixávamos os fogos nos encherem de alegria e a chuva embaçava os óculos de Léo Favre.
Terminado o show pirotécnico, voltamos às magrelas e rumamos para Ipanema, felizes da vida de que éramos os únicos a nos locomover razoavelmente rápido na região congestionada e cheia de gente. Ficamos algumas horas indo do lado em que estava o palco do show dos Black Eyed Peas para o outro em que estava rolando uma rave electro, abismados em como tinha gente mijando à beira-mar. Dezenas de caras, o tempo todo. Fez pensar em quanto mijo é produzido todo dia.
Os dias seguintes foram gastos dentro do apê do Léo mesmo, já que o sol se recusou a fazer o começo de 2007 feliz e ensolarado. Ficamos dormindo, lendo e comendo, numa vida de puro ócio romano, ou quase. Beto fez que Léo fizesse uma forma do pavê do fim de ano para seu deleite pessoal, junto com uma panela de brigadeiro. Eu, que ainda não desenvolvi grandes habilidades culinárias, assumi meu papel tradicional lavando a louça. Da janela da sala do Léo via-se o morro Dois Irmãos. Ou melhor, não se via, já que durante esses dias todos eles ficaram cobertos de nuvens. Chegamos à conclusão de que o problema era comigo mesmo, e Beto e Léo começaram a considerar seriamente me expulsar do Rio para que levasse as nuvens comigo, e eles pudessem ter um começo de ano ensolarado. Jimmy passou para se despedir, que no dia seguinte ele rumaria com o cão Teddy para a fazenda da sua família, mas queria assuntar um pouco mais antes. E, entre páginas de livros e Páginas da Vida, sessões gastronômicas e Sessão da Tarde, passaram-se dois dias e chegava a hora de eu pegar o ônibus de volta para Sampa.
Cheguei em Sampa e, é claro, a chuva continuava. Até o momento em que termino de escrever isso aqui, ela ainda não parou. Não sei como está no Rio, mas não me surpreenderia ao descobrir que o tempo abriu poucas horas depois da minha partida.