Chão

Daqui não passa
ocorridos18.10.2009

Europa, de um lado ao outro

Acabou a festa da internet gratis, dos teclados com acento e de mensagens no computador que eu entendo o que dizem. Agora estamos com mais espirito de aventura que o Nescau. Entao esse vai ser um post meio breve e com menos detalhes, mas pelo menos vou tocando a minha situacao para o meu publico.

Meus ultimos dois dias de Madri foram gastos em brincar de turista mesmo: fui em museus, fui em visitas guiadas e dei um pulinho nos bares. Na quinta fui no Reina Sofia, que consegue ser todo moderno sem perder o gostinho de lugar antigo. Obras do meu querido Dali, obras da espanholada em geral que me fazem chegar a conclusao que quanto a nacionalidade, os espanhois me gustan mas mesmo. Obviamente tem que se dedicar um tempo bom para a Guernica, e entre minhas passadas pela sala reservada para ela consegui encontra-la quase vazia e encontra-la lotada, e encontra-la cercada por alunos de 8 anos ouvindo a explicacao da professora velhinha. Obviamente com as explicacoes da professora aprendi montes, sobre a obra e de espanhol. A Guernica tem uma pomba preta sobre o fundo preto que obviamente dificilmente aparece nas reproducoes que a gente ve nos livros, anotem isso.

Nesse mesmo dia peguei uma visita guiada pelas ruas de Madri. Nela descobri que a maioria dos bares antigamente tinha lindas imagens pintadas em azulejos ao redor da entrada, mas em 1900 e pouco baixaram uma lei que taxava propaganda na porta e os azulejos eram considerados propaganda. A maioria dos donos dos bares os tirou, e assim hoje em dia eles so sobram em dois ou tres lugares que faziam muito sucesso e podiam pagar o imposto. Tambem vi onde o Cervantes viveu, onde ele esta enterrado, descobri que nos inns de 1600 voce podia pagar a cama mais barata dividindo-a com um estranho, e que nos teatros de Madri voce pagava ingresso mais barato se prometesse aplaudir a peca.

Dediquei meu ultimo dia em Madri a visitar o Museu do Prado, e esse foi um dia feliz. Realmente os espanhois me agradam mais. O museu e lindo, nao e enormemente massacrante como os de Londres, mas tambem nao e pequeno a ponto de nao dar graca de visitar. Me encantei com os barrocos, principalmente El Greco, vi todos os Goyas que minhas pernas aguentaram, e descobri um pintor que nao conhecia, o Jose de Ribera. Tambem descobri que o Jardim das Delicias e um triptico e ate hoje so tinha visto a metade inferior da parte do meio.

Sabadao, por outro lado, foi dedicado a viajar de RyanAir. Suspiros. Dois voos, um atras do outro. Ja mais escolado, dessa vez ja fui com a mala mais preparada, pesei no guiche antes de abrirem o check-in, ainda precisava transferir um quilo e meio, estufei a mochila e la fui eu. Primeiro de Madri pra Dublin, depois de Dublin pra Hamburgo. Foi uma viagem sem maiores incidentes, porem meio massacrante. A RyanAir te vende a passagem como se fosse pra Hamburgo, mas na verdade te deixa em Lubeck, e dai voce tem que pegar um busao (mais 10 euros) pra fazer a viagem de uma hora e 15 ate a estacao central de Hamburgo.

O que seria do verde sem o amarelo, o que seria da alegria sem a tristeza, o que seria das magras sem as gordas. O que seria do albergue de Madri se nao existisse o de Hamburgo? Mais feliz, certamente, porque quando cheguei no de Hamburgo me dei conta que tinha passado quatro noites hospedado num pulgueiro em Madri. Meu novo albergue fica no alto de um morro na frente do porto, a beira do rio Elba. O predio e lindo, os quartos espacosos, a roupa de cama e novinha, e o banho, alem de ser quente de verdade, acontece em pequenos banheiros privativos branquinhos e azulejados. No banheiro ve-se como e bom ser de um povo ariano: a privada e mais alta, e ao usa-la fiquei parecendo uma crianca que senta no sofa e fica tentando encostar a ponta do pe no chao. Em Madri eu tinha tido a experiencia inedita de ser mais alto que a media; aqui entre os nordicos, sou mais tampinha do que nunca.

Hamburgo e uma cidade bem moderna, com avenidas bem largas, e com ruas para pedestres bastante amplas e cheias de lojas. Da pra andar bem nela, mas descobri a melhor maneira de me locomover: o servico de aluguel de bicicletas publicas. Ja tinha visto isso em Paris, mas fiquei com medo de usar, e ja tinha comprado um passe de 5 dias de metro anyway. Mas aqui fui assuntar como funcionava, e eh uma beleza: voce faz seu cadastro rapidinho nos terminais da rua mesmo, eles associam seu nome e endereco ao seu cartao de credito, cobram 5 euros de inscricao, e voce pode comecar a pedalar. A primeira meia hora eh gratis, depois voce paga precos por minuto que vao aumentando conforme mais voce ficar com a bike. Quando chegar onde quer, entrega ela em outro ponto de bicicleta, trava ela, digita o codigo de devolucao e pronto. A ideia eh clara: fazer o pessoal rodar de bike e garantir que as liberem logo em outro ponto, pra que sempre tenha uma magrela pra quem precisar. Estou aqui pedalando feliz da vida, gastando nada, e programando minhas trips pra durarem menos de meia hora.

Ontem a noite so caminhei, e bastante, na noite fria (5 graus). Hoje fui andar de dia, resolvi problemas e fiz mais turismo. Comprei um passe de viagem de trem pela Alemanha que vai me garantir que eu va pros meus proximos destinos por um preco razoavel e sem ter que passar os perrengues RyanAir de novo. Dai fui para a prefeitura de Hamburgo e peguei o tour em ingles pelo edificio. Nele descobri que o predio tem 6 salas a mais que o palacio de Buckingham, que Hamburgo tem governo autonomo e que aqui chamam o ministerio de senado, e que aqui tem mais pontes que Veneza e Amsterdam juntas. Cada cidade tem os orgulhos que consegue, Campinas exalta ser a maior cidade do interior de Sao Paulo e ter o maior shopping da America Latina. De qualquer maneira, eh um passeio que muito vale a pena.

Por fim, comeco a captar palavras de alemao, mas na maior parte das vezes me sinto um aborigene analfabeto. Felizmente o supermercado mostra os valores a pagar na maquina, e a mimica tudo pode. Anos de alfabetizacao em portugues sao poderosissimos, claro, e volta e meia leio uma placa e penso que o recinto faz sanduiches com bolos de carne moida, mas nao passa de algum servico para os cidadaos daqui.

Lido 203 vezes 1 mísero comentário »
Compartilhe:
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • Google
ocorridos14.10.2009

Madri manda notícias

Comeco esse post avisando que estou num computador velho e sem memória, cujo teclado come os espacos e nao dispoe nem de til nem de cecedilhado. Quaisquer erros devem ser considerados sinais de autenticidade, nao de ignorância.

Ah, as delícias de voar low-fare. Você basicamente vende a sua paz de espírito e seu conforto por um voo ridiculamente barato. Que pode ficar bem caro num piscar de olhos, e cuja vantagem de tempo acaba nem sendo tanta assim em muitos casos. Como o meu.

Meu vôo saía do aeroporto de Beauvais,que simplesmente fica a uma hora e quinze de Paris.Pra chegar lá, deve-se ir até uma estacao de metrô quase no fim da linha um e pegar um ônibus meio que fretado pela companhia. O que nao o faz ser de graca, pelo contrário, custa 13 euros, o que por si só pode acabar custando mais que a passagem de aviao.

Como recomendam que você faca check-in duas horas antes do voo sair, o ônibus sai três horas e meia antes da sua decolagem. Ecomo o amor por filas nao é exclusividade dos brasileiros, o povo comeca a se enfileirar na frente de qualquer onibus que esteja parado no estacionamento-ponto-de-onibus quarenta minutos antes de se ligar o motor. Onibus avancando pra cima das filas na intencao de chegar ou sair nao foram cenas incomuns.

Depois de ser rejeitado no primeiro onibus porque tinha lotado e ter que pegar o ao lado, que na verdade era pro povo do voo para Alicante mas que juravam que me deixaria no mesmo lugar no mesmo horario, tentei recuperar a forma da minha autoestima, mas nao consegui fazê-lo por muito tempo. Porque ao chegar no aeroporto, depois de uma hora e vinte de sono, vem a humilhante parte do check-in.

Você,que já pagou um extra para poder levar uma bagagem na sua viagem, descobre que há um limite de quinze quilos de peso. E que a sua mala pesa 19. Entao toca abrir a mala na frente do balcao, tirar todas as cuecas do topo da mala e comecar a colocar revistas e entuchar camisetas na minha mochila, que iria como bagagem de mao. Quatro quilos e meio de camisetas e revistas na pobre mochila que já nao estava vazia. Ela mal se aguentava.

Acabou? Nao. Pra entrar na área de embarque, sua mala de mao tem que caber na grade-teste pra garantir que ela nao é ridiculamente grande. E minha mochila, agora estufada com camisetas, nao encaixava. La fui eu reorganizar tudo, jogar xampu fora e otimizar espaco, sem sucesso, pra faze a pobre encaixar na grade. Tanto fiz e refiz o tetris da minha bagagem que o comissário na frente da porta disse que estava bom assim mesmo e medeixou entrar.

Entao chega a temida hora do raio-x. Nao basta deixar mochila, chave, jaqueta e o coracao na esteira. Voce tem que deixa seu cinto. E, atencao: depois que a mochila passa no raio-x, aquele seu tubo de talco é suspeito, seu perfume e seu desodorante tem que ser colocados numa bolsa plástica, e sorry, mas seus óleos pós-banhos sao grandes demais pra embarcar.Conforme-se em ficar com a pele ressecada se quiser voar low-fare.

E tudo isso pra… ficar uma hora e meia esperando pra embarcar. Sem cadeiras pra todos, o povo se encostava na pequena área dos 3 portoes de embarque como podiam. Os mais empreendedores já comecaram a formar fila assim que descobriram em que portao embarcariam. Eu, na certeza de que nao voariam sem mim, fui um dos últimos a embarcar, e descobri que nao tinha mais bagageiro pra colocar minha mochila estufada. Mas, escolado, rapidamente a coloquei sob o banco da frente, me apertei com as outras sardinhas e lá fomos em nossa lata voadora para Madri.

Sair do voo depois de aterrisar foi outro suplício de mais de meia hora, mas pelo menos o aeroporto de Barajas em Madri tem metrô ligando direto e em apenas uma hora e meia eu estava chegando no albergue. Às oito e meia da noite. Depois de ter saído da casa do Michael às quinze pro meio-dia. Estou certo de que uma viagem de trem teria sido mais confortável e demoraria pouco mais.

Mas nao nos concentremos nas tristezas, que depois de umbanho e um pulinho no supermercado eu já estava pronto pra conhecer a cidade. Como eu AMO esse momento de explorar uma cidade nova. Se perder, descobrir novos nomes de rua… eu viajo pra isso. Peguei um mapa no albergue, pedi umas orientacoes e deixei a rua me levar.

Os espanhóis fazem tudo mais tarde, entao as dez da noite estao todos na rua. O albergue é super bem localizado, depois de cortar poucas ruazinhas cheguei na Gran Via, subi e desci e cortei outras calles até cansar e parar num bar bem simpático. Pedi um mojito, que eu merecia, sentei na praca em frente e fiquei lá me sentindo feliz.

Hoje tinha almoco com o pessoal da Runner’s Espanha.Que, como todos os bons espanhóis, almocam só às duas da tarde. Entao tirei a manha para explorar mais. Caminhei até o Palácio Real, consegui ver a troca da Guarda no nível série B (a troca “solene” só acontece na primeira quarta-feira de cada mês, nas outras quartas eles fazem uma versao pokémon só pra nao deixar a turistaiada na mao) e dali fui andando para a Porta do Sol, para a Gran Via, para o Monumento da República, e desci pelo parque do Bom Retiro. Estava um dia lindo de sol, e eu fiquei feliz de estar ao ar livre cultivando um pouco de melanina. No caminho, várias feiras de livros usados, olha que pitoresco. Depois de sair do parque, contornei por fora do museu Reina Sofia e cheguei na rua da Motor-Press, que publica a Runner’s.

Dessa vez a ginga brasileira venceu novamente a seguranca, mas por W.O. Tinha um povo entrando ao lado da cancela na frente do prédio da editora, entrei junto. Na recepcao, nao tinha ninguem pra atender. Entao esperei uma mocinha entrar, perguntei em que andar ficava a Runner’s, ela disse que no terceiro, entrei no elevador e subi. Devia ter pegado umas revistas também, mas daí ia me complicar mais ainda no próximo voo da Ryan Air.

O almoco foi muito bacana, e foi meu primeiro grande teste de castelhano desde que saí de Barcelona em 2005 -onde, aliás, falam catalao, eu sei, esse post tem falta de espacos mas nao de cultura.Mas lá eu falava castelhano. Os editores disseram que eu falo bem, entao tá.Só sei que no fim do almoco eu estava com estafa mental e, enquanto eles falavam animadamente de futebol e Ronaldos, eu mais uma vez tive um momento Ana Paula, sorria e concordava com a cabeca.

Meu plano era andar pelas duas horas seguintes para pegar um tour guiado de bicicleta pelas margens do rio Manzanares, organizado pela prefeitura. Mas cheguei no lugar de partida no horário que informava o folheto, e a moca me disse meio sem graca que o folheto estava errado e o tour tinha saído às cinco. Fiquei meio puto, mas estava sol e a moca foi gente boa, entao passou logo. Voltei a dar voltas pela cidade, comprei um livro novo (Inés del Alma Mía, da Isabel Allende, pra substituir A Viagem do Elefante, do Saramago, que terminei ontem), comprei alguns suvenires pra família, e fiquei andando e vendo a cidade anoitecer.

E olha só, acabei de descobrir onde fica o ç no teclado aqui do albergue. Os próximos posts terao apenas faltas de til e de espaços, que maravilha.

Tags: , , Lido 179 vezes 4 comentários »
Compartilhe:
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • Google
ocorridos12.10.2009

Resumo de Paris

É, eu sei que é muito mais legal ter um monte de posts, um para cada dia, mas sacumé. Um dia a gente chega cansado, no outro dia janta com os amigos do seu host, no outro ele faz jantar em casa, no outro você tá de saco cheio, quando vê você nao escreveu há um monte de dias. Entao agora vai um resumo de impressoes mais ou menos aleatórias sobre Paris:

Tags: , , Lido 225 vezes 4 comentários »
Compartilhe:
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • Google
ocorridos7.10.2009

Paris, je t’aime

Uma das grandes dicas que eu aprendi quando morei em Londres é que o melhor jeito de se ir de Londres para Paris é de trem. Sempre. Nã importa as promoções das linhas aéreas barateiras; de trem, você sai do centro de Londres e vai direto para o centro de Paris. Por mais baratinho que seja o bilhete de RyanAir, você tem que sair muito antes de casa pra ir pra algum aeroporto distante de Londres a tempo de fazer check-in uma hora antes da decolagem, chegar em outro aeroporto distante, pegar outro transporte para a cidade… o desperdício de tempo é enorme, e os gastos de trem acabam equivalendo (se não ultrapassando) a diferença de preço entre um e outro.

Assim sendo, saí hoje ás seis da matina para pegar o metrô atê a estação de St. Pancras, de onde sai o Eurostar para Paris. Em dez minutos eu estava lá, com tempo de sobra pra passar pela imigração. Fica a dica: se você conseguiu convencer a tiazinha do aeroporto de Heathrow, cê tá feito, porque a mina de St. Pancras não me fez uma pergunta, olhou meu passaporte e carimbou sem abrir a boca.

Meu vagão ficava na extremidade do trem. Na minha frente estava sentada uma família de indianos com uma filha de um ano e pouco de idade. O lugar já não era muito confortável, e quando eu conseguia me ajeitar pra tirar um cochilinho, a menina soltava um grito e me acordava. Nada de compensar o sono perdido na viagem.

Chegando à estação de Paris Nord, foi todo aquele trabalho pra entender a estação e descobrir pra que lado eu ia pra pegar o metrô pra casa do meu anfitrião, o Michael. Acabei comprando um passe de cinco dias, e andei andei andei andei andei dentro daquela estação enorme até chegar na linha que me interessava, láááááá no final. Em compensação, em quatro estações eu já tinha chegado.

Eu conheci o Michael durante uma das vezes que eu fui visitar a Andréia em Barcelona; ele também é designer, a gente acabou ficando amigo, me recebeu durante meu findi relâmpago em Paris em 2005, e desde então a gente mantém contato. Super francês, é perfeito pra se ter uma estadia parisiense que vá além do clichê do turista. Quando eu o conheci, ele morava num apartamentinho térreo sem janelas; agora ele mora num apartamento estilo loft no quarto andar, todo branco e cheio de janelas. Ele disse que uma empresa de fotografia tinha construído o prédio inteiro para ser um conjunto de dez estúdios fotográficos, mas em algum ponto de crise eles resolveram manter só dois e venderam o resto. Ele comprou um, e agora mora e tem seu estúdio de design num lugar lindo e descolado numa área boêmia de Paris.

Depois de colocarmos a conversa em dia um pouco, achei por bem vazar e ir explorar Paris, pra ele conseguir trabalhar sem maiores preocupa&ccecil;ões. Pedi umas dicas de onde ir, botei uns euros na carteira e me fui. A princípio pensei em comprar um mapa, mas nã demora muito pra você perceber que tem um mapa da cidade em cada estação de metrô, no qual você se localiza facinho. Aliás, não demora nada: Paris tem um número absurdo de estações de metrõ, quase uma a cada dois quarteirões, então é inevitável trombar com uma.

Andei andei andei até chegar na Bastilha, e vendo o anjinho no alto do monumento fiquei com o “Il pleut toujours sur le genie de la place de la Bastille” do Chansons d’Amour na cabeça. Caminhando e cantando, fui até Notre Dame, onde meu repertório Disney tomou conta e eu fiquei cantarolando as músicas do Hunchback of Notre Dame. Lá dentro, consegui pegar uma guia em inglês que foi mostrando os cantinhos da catedral e contando histórias. Por exemplo, foi lá que inventaram a segunda parte da Ave Maria, “rogai por nós pecadores” e tal.

Depois de uma hora e meia de tour na catedral (ainda tinha mais 40 minutos, mas eu não aguentei) eu saí e resolvi andar até a Torre Eiffel, seguindo o rio. Nessas caminhadas eu lamento cada vez mais o que os energúmenos de São Paulo fizeram, construindo as marginais. O povo em Paris curte o rio, senta perto da margem pra conversar, corre, toma sol… a gente anda de trem ao longo do Pinheiros. Lamentável.

Levei uma hora e tanto e muitas fotos pra chegar lá (tô ficando craque em tirar autorretrato). Já meio cansado, fui numa banquinha perto da Torre pra comprar uma garrafa d’água. “Quatro euros”, disse o atendente, com a maior cara lavada. “É UM PÂNDEGO, FAZ-ME RIR!”, respondi, e virei as costas. E assim, com fome e sede na área com a comida mais superfaturada do mundo, segui caminhando até algum lugar menos espetaculoso.

Voltei para o apê quando já anoitecia, e Michael me disse todo contente que tinha festa logo mais. Estamos na semana de moda de Paris, e algum amigo dele tinha arranjado um jeito dq gente entrar na festa do Paco Rabane. Eu, Carlos e araraquarense, na festa do Paco Rabane, como esse mundo dá voltas. Aqui em Paris, com roupas folgadas e usadas e um par de tênis sofrido que talvez não aguente atê o fim da viagem. Revirei minha mala e o Michael, com seu estilo parisiense, riu de várias das minhas roupas andarilhas até que encontramos um par de calças risca de giz que eu pus na mala sem achar que jamais as vestiria. Ele me emprestou uma camisa e um par de botas, e foi assim que eu fui pro VIProom, numa festa fashion, com uma calça da praça Benedito Calixto, uma jaqueta da Cancer Research que vamos chamar de vintage e roupas emprestadas. Super hi-lo.

A festa foi simplesmente um arraso, cheia de gente fina e elegante (a sinceridade devia estar em falta, but who cares). A hostess usava um vestidinho de pirâmides metálicas, uma DJ usava outro feito de meias esferas. A champanhe rolou solta, e depois da minha terceira eles passaram a só servir rum com suco, oh well, passa dois. A música era excelente, no meio da festa teve uma apresentação da V. V. Brown, com músicas muito bacanas. Saí de lá tarde da noite, já trançando as pernas, mas contente da vida. Não dava pra ter um primeiro dia em Paris melhor que esse.

Tags: , , Lido 160 vezes Sem comentários »
Compartilhe:
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • Google
ocorridos6.10.2009

Costurando o mapa

Londres foi bacana comigo. Não seria uma viagem fosfosol decente se fizesse sol o tempo todo. Então, querendo que eu reavivasse as memórias do que é uma terra da garoa de verdade, ontem começou a dar aquela chuvinha perene, gélida e meio irritante que só Londres sabe produzir, e hoje ela continuava lá, irredutível.

Último dia em Londres! Tanto a fazer! Tanto a comprar! Não seria o chuvisco que me deteria, assim, coloquei a jaqueta mais quentinha, joguei a mochila nas costas e saí pra bater perna. Primeira parada, Postman’s Park, o parquinho que passou a ficar conhecido por conta do filme Closer. Eu já tinha ido lá antes, mas não tinha foto da parede de onde a personagem da Natalie Portman pega seu nome, e é bem perto da casa do Roger, então deu pra resolver essa missão sem grandes delongas.

Próxima parada, voltar para o Tate Modern para comprar uma camiseta do Keith Haring. Eu me conheço, e sei que passaria os próximos dez anos me arrependendo se não a comprasse. No caminho, impressionantemente, várias pessoas correndo, com aquela capacidade de enfrentar chuvinha de shorts e camiseta que só o britânico tem. Pode ser uma impressão viciada a minha, já que agora que eu trabalho na Runner’s eu reparo mais no pessoal que corre, mas suspeito que realmente haja mais gente correndo agora do que antes. Mais impressionante é vê-los atravessando a Millenium Bridge em passadas confiantes. Eu teria medo de escorregar e parar no Tâmisa.

De lá cruzei o rio de volta na busca de uma agência dos correios pra mandar pro Brasil uma caixa com os papéis que eu já juntei mas não ia precisar mais carregar. Depois, fui eu no meu zigue-zague pelo mapa até Shaftesbury Avenue pra comprar o ingresso com disconto para ver o Billy Elliot. Só? Nããããããããããooooo!!! Próximo compromisso, voltar para o Guardian para tomar um chazinho com Gareth McLean, amigo e ex-colunista de TV do jornal. Ele embarcou num programa de demissão voluntária que rolou lá faz alguns meses por conta da crise (por contrato o jornal não pode demitir ninguém) e agora está há dois meses tranquilamente vivendo das economias enquanto resolve o que vai fazer. Foi até lá só pra me ver, olha que bonitinho.

Roger aproveitou nossa presença lá pra fazer um intervalinho também, e entre nossos assuntos “catch up” de praxe dizia como as coisas estão puxadas no jornal agora que tem menos pessoas, que o povo se mandou e a chefia não recoloca ninguém na vaga e fica todo mundo trabalhando demais. Num momento Ana Paula, eu sorria (tristemente) e concordava, enquanto pensava que, tadinho, não sabe como as coisas podem ser piores. Pelo que eu vi, um dia puxado dele é um dia normal na Abril, onde mandar gente embora e não colocar ninguém no lugar é uma tradição de quase dez anos - e lá no Guardian nem inventam especiais a serem feitos por um frila de texto e um de arte.

Um busão depois, lá estava eu de novo do outro lado da cidade, de volta na minha querida Trafalgar Square, correndo para pegar a National Portrait Gallery aberta e conseguir entrar na exposição Gay Icons. Esse é um desses eventos que demonstram como o Reino Unido está a anos-luz do Brasil em termos de respeito à diversidade. A idéia é simples, mas genial: pediram para um número de personalidades gays (como Elton John, Ian McKellen, Jacke Kay e Waheed Alli) para listarem pessoas que, em sua opinião, são ícones gays. Essas pessoas não precisavam ser gays, apesar da maioria que foi listada ser. Assim, ao lado de um retratão do “dono” daquela parede e seu perfil, ficavam retratos das pessoas que ele ou ela escolheram: figuras como princesa Diana (que era hétera), Tchaikovsky (que, olha só, era gay), Nelson Mandela e Maya Angelou (héteros), Walt Whitman e Village People (beeshas).

Isso tudo num espaço nobre e um mega destaque - mas tudo muito fino, jamais chegando perto da apelação pelo espetáculo. É um evento muito inspirador, que tenho certeza vai elevar a auto-estima de todos os gays, e fazer que os straights respeitem todos os queers. Não resisti e, quebrando meu voto de não gastar dinheiro em livro, corri pra loja do museu e comprei o catálogo da exposição.

Agora, pra isso acontecer no Brasil… rá.

Nos quinze minutos que sobraram antes de fecharem a NPG, eu consegui ir para a parte de retratos recentes e olhar o que havia de novo. Lá estavam os retratos que o Julian Opie fez dos membros do Blur e o auto-retrato que o Marc Quinn fez tirando um molde da própria cabeça, enchendo-o com o próprio sangue e congelando (a peça está lá, dentro de um freezer transparente). Mas o que eu mais curti foi o retrato da Zaha Mohammed Hadid feito pelo Michael Craig-Martin. É um monitor de LCD enorme em que os traços do retrato ficam sempre em preto, mas as cores mudam aleatoriamente o tempo todo. O efeito é hipnótico - sério, demorou pra alguém ter essa ideia.

Mais um busão e chegava eu em Victoria Station, pronto pra ver Billy Elliot - The Musical pela segunda vez na vida. Dessa vez meu lugar ficava no “segundo andar” da platéia, na frente, o que significava que eu estava bem perto do palco, mas via tudo de um ângulo de cima pra baixo. Ou seja, boa parte da cenografia não funciona muito bem, e volta e meia você vê as pessoas se movimentando por trás dos cenários. Mesmo assim, o espetáculo foi excelente, melhor agora que eu já conhecia as músicas. Pude me concentrar melhor em decifrar o sotaque do norte usado na peça inteira, e reparar nas coreografias como um todo. Impressionante. E, realmente, o treinamento dos moleques que fazem o Billy Elliot deve ser animal, ele faz coisas no palco de tirar o fôlego.

De volta para o apê do Roger, ele ainda estava com pique pra gente ir prum bar lá perto beber uma última antes de eu ir embora. Andamos até o novo Trash Palace, que está com mais cara de pub que o antigo. Super vazio, talvez por ser terça, mas pra gente não fez diferença: o que importava era brindar a semana que passou e torcer pra que outras viessem.

Tags: , , Lido 123 vezes Sem comentários »
Compartilhe:
  • del.icio.us
  • Digg
  • Facebook
  • Google

Arquivos

RSS RSS

Seções

Posts mais lidos

Escreva

CONTATO
  1. (obrigatório)
  2. (utilize um e-mail válido)
 

cforms contact form by delicious:days