
Ana Paula, minha mãe e Luana, dentro do carro, logo antes de pegarem estrada para Campinas
Abandonei meus leitores pendurados na minha saga familiar no emocionante momento em que a Ana Paula saiu da UTI, duas semanas atrás. Bastante coisa aconteceu desde então, tudo apontando para um final feliz.
Fumpácia ficou no quarto normal de hospital uma semana. Colocaram ela na ala pediátrica do AC Camargo, muito simpática e pitoresca, com paredes cheias de ilustrações infantis e passatempos para os pacientezinhos resolverem com os dedos. A saída da UTI significava mais visitas, menos aparelhos apitando ao redor e o retorno de atividades corriqueiras como tomar banho.
Infelizmente, o único aperto por que passamos nessa semana aconteceu exatamente por conta do banho - e no meu plantão. Cheguei na terça-feira de manhã para trocar o posto de acompanhante com meu pai. Ana Paula, depois de meses deitada na cama, estava com a musculatura muito fraca, e tinha orientações para tentar andar 3 vezes por dia, cada vez um pouco mais, para começar a recuperar as forças. Antes de Pai ir para o trabalho, fomos eu e ele ajudar minha irmã a dar uma andadinha até fora do quarto. Como ela ainda estava com um soro numa mão e um dreno enfiado na barriga, para dar saída aos líquidos que se acumulavam na barriga por conta da cirurgia, esta era uma operação um tanto complexa. Um escorava a menina e segurava a bombinha do dreno, enquanto o outro empurrava o poste do soro e abria a porta, e ela reclamava e ofegava do esforço todo. Mas, devagar e sempre, deu tudo certo.
Deixamos ela sentada no sofá para que aguardasse a enfermeira chegar para dar banho - subir na cama para descer depois era muito esforço para nossa convalescente. Depois de aguardar quase duas horas, a enfermeira veio. Levei a Fumps pro banheiro e a deixei lá sentada num banquinho, segurando a bomba do dreno, para que a enfermeira viesse cuidar do banho.
Foi uma questão de dois minutos. A enfermeira entrou, encostou a porta, e eu só ouvi minha irmã reclamando cada vez mais alto: “Não vou conseguir levantar. Não vou conseguir! Não dá! EU VOU CAIR! AAAAAAAAAAAAAAA!!!!!”
Entrei correndo no banheiro e lá estava a menina sentada no banco de novo, encostada na parede, chorando aos berros. O dreno no chão, a meio metro dela, arrancado da barriga da menina. E a enfermeira tentando conter com uma toalha o líquido que esguichava do abdome da Ana Paula, parecendo um cartoon quando tenta impedir que a represa desabe enfiando o dedo na fenda.
São aqueles momentos em que é tudo tão absurdo que seus pudores caem todos. Ana Paula chorava, assustadíssima, dizia que não queria mais tomar banho, e a enfermeira insistia que claro que vai tomar banho sim. Respirei e disse pra Ana Paula acalmar que estava tudo bem. Que não, dona enfermeira, você não vai enfiar no chuveiro uma menina recém-operada e imunossuprimida, ainda mais com um buraco aberto na barriga. Que ela chamasse um médico. Bem, então vou eu chamar um médico, irmãzinha, fica aí que eu já volto, e você troca o lençol da cama pra gente colocar a menina lá.
Quando a poeira baixou, liguei pra minha mãe, que lá de Campinas acionou os médicos todos do hospital, e em dez minutos a enfermeira meio enfezada veio dizer que tentar arranjar alguma solução provisória pro problema. Daí fui eu ajudar a dar banho de esponja na menina, dar um help pra virá-la pra lá e pra cá pra trocar mais uma vez a roupa de cama.
Minha mãe veio correndo de Campinas, e eu fui trabalhar. A semana se passou sem maiores acidentes: a solução deles não deu certo, a famiglia se responsabilizou por cuidar da barriga da Ana Paula, e ensinou as enfermeiras a fazerem ponto falso direito com tirinhas de hidropore. A Ana Paula ganhou uma colega de quarto, a Ana Carolina, em tratamento de câncer aos 14 anos. Fazendo químio, sem cabelo e sem um olho, e sem previsão de que aquilo tudo tivesse fim logo. Hospital é mesmo um lugar em que se coloca tudo em perspectiva.

Enquanto não volta às aulas, Ana Paula vai ficando craque nos games
Enfim, na segunda-feira dia 20, antes de Tiradentes, Ana Paula recebeu alta e finalmente pôde voltar para casa. Luana, a poodle dela, quase morreu de emoção ao rever a dona: depois de dois meses de ausência, já devia estar achando que tinha sido terceirizada para sempre lá pro meu apartamento. Aninha voltou para casa com as pernas hesitantes e os braços finos, vestindo sua camiseta do High School Musical e o relógio que ganhou de aniversário como tinha planejado fazer desde que essa história começou.
Ontem eu vim para Campinas visitar a família em seu primeiro fim de semana de volta ao lar, e Aninha já demonstra melhoras visíveis. Já anda mais ereta, já come mais, deu uma passada no salão de beleza e ficou nos trinques. Deve demorar um pouco para voltar para a escola, mas tudo bem. Duas vezes por dia alguém dá uma voltinha com ela pelo prédio para que ela vá se fortalecendo aos poucos (hoje eu tive esse prazer). Luana fica a seu lado o tempo todo, e rosna para qualquer um mais estranho que chegue perto da sua dona - agora que ela recuperou a dona, não quer que ninguém a leve embora.
Em compensação, ganhando alta pós-Páscoa, o apartamento dos meus pais acabou virando um depósito de chocolate. A geladeira está abarrotada com tudo que a Ana Paula ganhou durante a internação. E cada um que chega traz um chocolatinho novo para alegrar a menina. Estamos virando sucursal do Willy Wonka.

"Até parece verdade!"
Há poucos meses, ao saber da estreia de Viagem ao Centro da Terra 3D, eu disse para o Anselmo: “É, Litoubrou, escreva o que eu te digo, em 10 ou 15 anos todos os filmes serão em 3D”.
Ele duvidou. Aliás, ainda duvida. Tem certeza que os filmes 3D vão ficar restritos a animações para crianças e filmes superpipoca. Filmes sérios e dramáticos (ou mesmo comédias ou quaisquer que não se apoiem em cenas mirabolantes de ação) vão continuar como os vimos hoje em dia, diz ele, simplesmente por não carecerem de efeitos 3D.
Eu discordo - tanto que escrevo aqui no Chão, deixando algo pra usarem contra mim se daqui a dez anos isso não se concretizar. Mas explico por que creio que em menos tempo do que imaginamos a imensa maioria dos filmes vão ser tridimensionais.
Qualquer um que já assistiu a mais de duas cerimônias do Oscar já viu aquelas sequências cada vez maiores em que eles passam clipes de todos os vencedores de melhor filme desde a primeira edição até a última. Além do efeito meio desolador de que uma imensa maioria dos filmes já foi esquecida pelo mundo hoje em dia, nota-se outra coisa: um monte de filmes em preto-e-branco, de repente surge … E o Vento Levou, colorido, e daí o seguinte volta a ser em preto-e-branco, e vai rolando uma alternância entre cor e PB por um tempo, até que todos passam a ser coloridos.
Pra mim o que aconteceu é bem óbvio: quando surgiu o technicolor e de repente se podia fazer filmes coloridos, sendo um processo caro, reservava-se isso para filmes “dignos” de tal, épicos e megahistórias. Com o tempo, conforme o processo ficou mais barato, ficou mais comum, até chegar o dia em que quando se pensa em fazer um filme, não é mais uma questão se ele vai ser colorido. Na verdade, se ele não for, daí sim existe uma intenção épica/artística por trás da escolha.
Seguindo a mesma lógica, hoje os filmes 3D acontecem apenas naqueles em que fazê-lo é mais fácil (animações) ou filmes tão qualquer coisa que a única maneira de trazer algum interesse para ele é exibi-lo em três dimensões. Mas, considerando-se que em breve chegará o dia em que as pessoas vão baixar um filme com a mesma rapidez e falta de esforço com que se baixa uma música agora (”só uma música? Não, baixa a discografia dele inteira de uma vez!”), é bem claro que os estúdios vão buscar algo que faça a experiência na sala de cinema torne-se mais única. Ver uma imagem gigante com profundidade might just be it. E o preço do processo vai baixar, com certeza. Portanto, reafirmo: não vai demorar tanto para que todos os filmes sejam automaticamente em 3D.
Outra coisa que com certeza já está indo pro ralo? Jornal em papel. Revistas também. Pelo menos nessa proporção devastadora (de árvores) que rola hoje em dia. O e-book está aí, e por mais que ele custe a chegar nas nossas praias, ele vai chegar. Logo logo, ao se fazer a assinatura do seu jornal ou revista, haverá uma opção (mais barata, espero) para que se faça o download dela no seu reader. Vai ser o fim das toneladas de papel norueguês trazidas a peso de ouro, das revistas que chegaram na banca mas não aportaram na sua porta ainda… e, como designer, as possibilidades de design que vão se abrir são inimagináveis.
Quem duvida, veja o que já está sendo feito nesse vídeo da BBC.
Você pode não ter reparado ao entrar na página. Mas a fonte dos títulos dos posts mudou. Graças a um plug-in que eu descobri ontem, o Cufón, eu finalmente consegui realizar meu sonho de ter os títulos dos posts ornando com o resto dos textos do lay-out. Eu já havia tentado utilizar o sIFR e o FLIR, mas nenhum dos dois funcionou com as templates do Wordpress (pelo menos não no meu caso, por mais que eu insistisse). O Cufón é uma maravilha: supersimples de implementar (consegui botar pra funcionar em 10 minutos, e gastei só mais 5 resolvendo minibugs), não depende de Flash e funciona com qualquer fonte que você tenha no seu computador. Mais importante, como é tudo Javascript, sim, ele funciona no Wordpress. Como vocês podem ver.

Os títulos do site, antes (com fontes do sistema) e depois (com fonte gerada pelo Cufón)

Os títulos nas páginas de post, antes (com fontes do sistema) e depois (com fonte gerada pelo Cufón)
Que alegria, agora vou poder brincar de fontes em todos os sites que eu fizer.
Situação inicial: antes de sair de feriado, um ilustrador (vamos chamá-lo de Ilustrador A) deu pra trás num trabalho que ia fazer pra mim porque queria ter feriado como todos os seres humanos normais. Cheguei na redação já preocupado que o andamento da edição não ia ao meu contento. Além de achar ilustrador, eu tinha que amarrar uma seção de fotos com grávidas. E diagramar uma matéria. Pendências: 3
- Começo a procurar um outro ilustrador nas minhas dezenas de bookmarks de portfólios, sem conseguir encontrar um que se encaixe com o que eu tinha em mente.

- Vou então procurar no site da Sociedade dos Ilustradores do Brasil pra ver se encontro alguém que me tire desse apuro, sem sucesso.


- Parto então pros links dos portfólios dos artistas citados acima. Alguém vai ter um amigo que se encaixe no que eu quero. O único que talvez desse certo (daqui pra frente, Ilustrador B) não tem telefone no site.



- Resolvo ligar então pro Ilustrador A, que já deve estar mais descansado depois de comer muito ovo de páscoa, pra convencê-lo que é muito legal trabalhar pra burro, que eu sou gente fina e que ele deveria pegar o trampo. Ele fica balançado, meio que recomenda um amigo, e promete pensar até a hora do almoço pra dar uma resposta definitiva. Pendências: 2,5.


- Lembro então que tenho mais duas ilustras pra encomendar, e reinicio o processo do começo. E vou me frustrando porque nenhum ilustrador faz o que eu tenho em mente. Pendências: 4,5.




- Resolvo tirar o primeiro lance da frente pra poder me concentrar numa coisa de cada vez, e escrevo pedindo o telefone do amigo do Ilustrador A. Querendo espairecer, vou almoçar.




- Volto do almoço, liga Ilustrador A. Dizendo que o amigo está busy, mas ele resolveu pegar o trampo. E pede um preço 5 vezes mais caro do que costumamos pagar. Já tendo um troço, eu educadamente o despenso. Pendências: 5.





- Escrevo pro Ilustrador B, que não tem telefone, e peço sugestões pra chefia, que fica de procurar.





- Resolvo pegar a matéria gringa pra fazer, já que deveria ser fácil de resolver, mas ela se revela complicada, e acaba sendo um enrosco ainda maior. Principalmente porque a ansiedade pra terminar qualquer coisa logo não me permite fazê-la direito.






- Resolvo organizar então o ensaio fotográfico, que precisava de uma modelo grávida. Já tinha encontrado a modelo na semana anterior, era só confirmar a data. Escrevo pra agência, e me respondem que a modelo já estava com 9 meses e 1 semana de gestação e no dia que eu queria fazer a foto a modelotinha marcado de fazer cesariana. Já sentado, só me resta chorar. Pendências: 6.







- Me descabelando, jogo a idéia de pedir um frila pro fechamento pra chefia, que responde que a princípio não era pra ser, mas se for supernecessário a gente dá um jeito.








- Resolvi então que estava num momento em que só chocolate salva e fui pegar um alpino na lanchonete.






- Chefe me sugere Ilustrador C. Ligo pra ele e consigo fechar o trampo, o que já me acalma. Ilustrador B me responde 5 minutos depois. Resolvo ignorar. Pendências: 5.





- Partindo para a cerimônia de entrega do Prêmio Abril, me dou conta que me esqueci de correr atrás das outras duas ilustrações, que vão ter que ficar pro próximo dia útil. Como diz o Doug, resolvi apertar o Command + F (botão foda-se) até o dia seguinte.


- Um engarrafamento de 40 minutos na Dr. Arnaldo rumo ao Prêmio, só pra temperar o fim de noite.



Admito que tomei todas no prêmio Abril e voltei trançando as pernas. Acho que eu merecia.
Hoje, em compensação, consegui em poucas horas achar os ilustradores que faltavam, outra modelo grávida, as outras personagens todas podem no mesmo dia e é só confirmar a data no estúdio. Some days are better than others.
No La suma de los dias, a Isabel Allende fala a uma certa altura que existem eventos na vida familiar que passam a servir de referência para todos os outros eventos na época. Coisas como “ah, isso aconteceu depois da saga dos peitos” ou coisa assim.
Bem, esse último mês vai ficar, no mínimo, como referência na vida de todos da minha família. Isso se não virar marco para redefenir todas as referências de data.
Quem não convive comigo talvez não saiba, mas minha irmã Ana Paula fez um transplante de fígado há duas semanas.
Dá pra demarcar o início do evento por volta de 2 meses atrás. Apesar de ter sempre tido um fígado problemático, e já ter feito um transplante de rim, tudo ia aparentemente bem até que, antes de uma consulta periódica com o médico do transplante, a Ana Paula começou a vomitar sangue. Eu não estava presente, mas consta que it wasn’t pretty. Obviamente o alerta vermelho soou, correram com ela pro Hospital das Clínicas, onde ela ficou internada alguns dias até ser transferida para Campinas.
Ninguém sabia direito a razão para aquilo, mas havia de ser relacionado ao fígado. O pessoal do Centro Médico de Campinas olhou, olhou, olhou, controlou a situação e deu alta. Mas dava pra ver que ela não estava bem, sempre cansada, fraquinha, a barriga inchando e a pele amarelando.
Uma ou duas semanas depois, no começo de março, os sintomas não passavam, a menina só piorava, então levaram ela de novo pro hospital. Ela foi direto pra UTI, e a família se mobilizou da melhor maneira possível pra orbitar essa situação. Minha mãe passou a dormir na UTI com ela, meu pai trocava o plantão sempre que possível, eu deixei minhas férias para depois e fiquei por aqui.
Durante as visitas que eu consegui fazer em Campinas, o quadro parecia cada vez mais preocupante. Entre uma e outra, Ana Paula ficava mais magra, mais fraca e mais amarela. Além de tudo, o rim transplantado dava sinais de que estava em risco. Cada exame de sangue ficava mais feio que o anterior.
Depois de uma estadia um tanto traumática na UTI do Centro Médico de Campinas (lugar com enfermeiras cheias de má-vontade, sem um chuveiro quente para os acompanhantes, e que deixa os pobres passarem fome apesar de terem direito a comida), uma das médicas que acompanha o caso da Ana Paula desde criança conseguiu que ela fosse transferida para o hospital AC Camargo. A essa altura a inevitabilidade de um transplante de fígado já era mais que clara, e ela foi inscrita na fila do estado de São Paulo nesse hospital. Claro que o convênio não queria ceder a internação dela sem luta, mas depois de algum conflito ele liberou a internação no novo hospital. Mas se recusou a pagar a ambulância para levá-la de Campinas para São Paulo.
A diferença de um lugar para o outro foi gritante. O caso da minha irmãzinha era claramente complicado demais para o povo de Campinas. Uma vez no AC Camargo (vulgo Hospital do Câncer, em que qualquer caso é complicado), o tratamento da Ana Paula foi ajustado e em poucos dias a situação dela melhorou. Não que ela ficasse bem - ao longo do processo, a situação ficou tão preta que ela ficou em segundo lugar na fila do transplante -, mas se ela conseguiu superar essas semanas foi graças ao pessoal do AC, principalmente à dra. Massami, uma abnegada onipresente que resgata seus pacientes do fundo dos poços.
Assim que ela veio para Sampa, meus irmãos Danilo e Anselmo começaram a fazer os exames para checar a compatibilidade entre eles e a Ana Paula para um transplante. Eu faria, mas sendo gêmeo do Danilo, acharam que não precisava - qualquer coisa, somos geneticamente idênticos e o resultado de um havia de servir par ao outro.
Duas semanas depois de vir para Sampa, a situação da Ana Paula ficou sob controle. Tanto que a posição dela na fila caiu para 50 e tantos. Então se decidiu em fazer um transplante intervivos mesmo. Os últimos exames do Danilo ficaram prontos, e os resultados vieram positivos. Conseguiram marcar a cirurgia para dali a dois dias.
O dia do transplante foi um dos mais tensos que eu já vivi. Tanta coisa acontecendo, e tudo o que eu podia fazer era manter as velas de Reiki do Danilo acesas no meu apartamento. A presença do meu tio Emerson nas cirurgias nos manteve informados, felizmente. Tudo começou às 8 da manhã, e terminou às nove da noite. Felizmente, tudo correu bem.

Eu mangando de Danilo, que mal se aguentava no dia seguinte ao da cirurgia.
Começou então a segunda parte da história, a recuperação. Danilo ficou internado 1 dia na UTI, mais 3 no hospital. Está de repouso em casa até agora, mas no fringir dos ovos se recuperou as fast as it can.
Já Ana Paula passou por apertos bem maiores - todos normais e esperados em alguém que recebe um fígado novo, mas mesmo assim exaustivos, principalmente para uma adolescente que já está há semanas na mesma cama de UTI. Ela inchou horrores, ficou com uma sonda urinária, e um soro em cada braço. Sem falar dos exames de sangue diários.
Mãinha continuou ao lado da Ana Paula o tempo todo, revezando com meu pai quando precisava trabalhar. Eu peguei o plantão uma ou duas vezes por semana. Nunca vou me esquecer do dia em que, quando eu estava lá, precisaram trocar a agulha do soro. A menina já tinha sido tão furada por tanto tempo que nenhuma veia funcionava mais, e achar uma veia nova era dificílimo. A enfermeira tirou a agulha antiga (doloroso) e furou uma vez (muito doloroso), duas vezes (torturante), três vezes (excruciante). Ana Paula chorando e gritando, e, mais uma vez, tudo que eu podia fazer era tentar consolar e dizer que ia passar. Mais uma vez a dra. Massami came to the rescue, mesmo assim não foi fácil.

O coelho gigante ocupa o lugar do meu pai na poltrona dos acompanhantes, na UTI.
Ana Paula fez aniversário na UTI, poucos dias depois do transplante. Levamos bolo e fizemos uma festinha silenciosa e limitada a meia hora, mas já felicíssimos: Danilo, o doador, ainda internado, ainda na cadeira de rodas; Mãinha; Pai; Dany; Anselmo; Vó Maria. E eu. Também surgiu um casal tocando violão, do nada, e tocou “Como uma onda”, pedido da aniversariante. Nós todos ficamos lá tentando não chorar. Dias depois, tio Emerson veio com tia Nilva, Lucas e tio Eraldo, e deixou de presente um coelho de pelúcia maior que ela.
Enfim. Eu posso contar pouco, não passei tanto tempo lá no cotidiano do hospital. Só sei que foi um trabalho lento e cuidadoso para conseguir equilibrar o órgão novo, o rim transplantado e a recuperação da cirurgia.
Há três dias tiraram um dos soros da Ana Paula, e ela voltou a beber água, aos montes. Ontem tiraram a sonda urinária. Hoje, de presente de Páscoa, ela ganhou a alta da UTI e foi para um quarto normal de hospital. Finalmente o dia em que Ana Paula vai voltar para casa - bem - parece estar chegando.
E assim a vida há de entrar nos eixos de novo, para melhor. E nossa família daqui a algum tempo vai poder olhar para trás e falar de todas as bobagens que aconteceram “na época do transplante”.
p.s.: Confira o relatório do período pós-UTI neste post.