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Evolução na carreira

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31 8 2008 13 47 57

 

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No começo do século, quando eu ainda estava na ECA e já tinha resolvido que ia trabalhar com revistas, eu fiz uma matéria que a Abril oferecia de edição de imagens em revista. A proposta era basicamente entender como é o projeto gráfico de uma revista, e criar um para uma revista que o grupo mesmo propunha.

Foi um semestre de palestras empolgantes, em que eu encontrava semanalmente aquelas pessoas que todas faziam o que eu queria tanto fazer, que saíam lá do templo onde trabalhavam só para entregar migalhas de sabedoria para a minha humilde pessoa. Como eu curtia aquilo.

Já as pessoas do meu grupo não curtiam muito, e não se esforçaram o mínimo para que saísse um trabalho bacana. A nossa orientadora, uma designer da Quatro Rodas chamada Giselle, deixou bem claro para nós desde o começo que ela estava lá para orientar, não para fazer nosso trabalho, e que pra ela não fazia diferença nenhuma se o que a gente entregasse saísse bom ou ruim. A nota era nossa, ela já tinha se formado e não afetava em nada na vida dela o nosso desempenho.

Mesmo assim, eu e outro colega resolvemos desencanar dos outros quatro membro do grupo e fizemos um projeto bem bacana. Apesar de ser algo que hoje eu vejo como totalmente iniciante, eu tenho afeição por aquela revista que me custou tantos dias para fazer.

Agora, já no fim do século, eu já fui para a Abril, saí e voltei, continuo achando o lugar o máximo mas não o vejo mais como um Olimpo distante (de Olimpo, aliás, não tem nada). Gasto mais dias fazendo revistas, mas que pelo menos são muito melhores do que aquela, têm muito mais páginas, e têm a vantagem de ser de verdade.

Nessa última semana, estando no final de um processo de seleção para editor de arte da editora Ática (que pertence à Abril), eu fui chamado para participar da equipe de uma nova revista (a ser lançada em dois meses), que chamaremos de SX. Sim, finalmente, como editor de arte. Hooray! Projeto muito bacana, que tem tudo para dar certo, que caiu como uma luva para o que eu queria e pretendia e podia colaborar, e vai me deixar mais fitness ainda.

Pois que, dois dias depois de aceitar o convite, enquanto eu ainda estava no processo de fechar minha última edição da revista em que trabalhava, minha queria Bebel Abreu me liga. “Marcinho, o que você vai fazer no fim de semana do dia 30/31?”. Não sei, Bebel, não tenho nada programado ainda. “Ah, então você não quer ir avaliar portfólios de ilustradores no Rio, na exposição Ilustrando em Revista? O Alceu sugeriu seu nome, agora que você vai ser editor.”

Foi um dos momentos em que todas as minhas reações esfuziantes queriam ser liberadas, mas tiveram que ser contidas a duras penas porque eu estava no meio da redação. Claaaaro que queria! Só me avisa que horas que começa pra eu programar de tomar o ônibus e…

”QUE MANÉ ÔNIBUS, MARCIO!? Cê vai de avião! A Abril paga!"

Que bom que não completei com “…e avisar meu amigo Léo que vou ficar na casa dele”. Que pobrinho eu sou.

Então que, uma semana depois, eu desembarcava no Rio e de lá para o CCJF, onde Bruno D’Ângelo estava dando uma palestra para aspirantes a ilustradores em revista contando sua trajetória. Depois, toda a comissão avaliadora foi almoçar, eu entre eles. No grupo, a Giselle, hoje editora de arte da Bons Fluidos. Não podia deixar de pensar como as coisas são engraçadas, como eu estava lá repartindo um filé à francesa com aquelas pessas nas quais eu babava há nem tanto tempo assim.

A tarde foi uma maratona de receber ilustradores, ver o que tinham pra mostrar, e tentar orientá-los na medida do possível. Muito interessante e educativo para nós avaliadores também. Depois teve um happy hour, no qual todo o meu cansaço desabou, a ponto de eu não ter forças para levantar da cadeira. No fim da noite, chegar no hotel, que era muito bom, ter um quarto só pra mim (!) e tirar a cara de bobo da cara de que a empresa realmente acha que eu mereço um gasto desses.

Amanhã, voltar para a minha nova mesa, na qual eu ainda estou me acostumando, e colocar para funcionar o tal do projeto. Para o alto e avante.

Primeiro debate de candidatos a prefeito de São Paulo

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1 8 2008 0 52 08

 

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Escrito em real time via Twitter durante o debate. Make sense of it if you can.

  • MALUF, POR QUE VOCÊ NÃO MORRE??
    09:57 PM July 31, 2008 from TwitterFox
  • Não dou mais dez minutos para o Boris Casoy cuspir a dentadura.
    10:00 PM July 31, 2008 from TwitterFox
  • Soninha tã tão desencanada de ganhar que está lá sô para agitar o debate mesmo… Nenhum “quando eu for prefeita”. Interessante.
    10:16 PM July 31, 2008 from TwitterFox
  • ILUMINAÇÃO PÚBLICA, ALCKMIN???
    10:22 PM July 31, 2008 from TwitterFox
  • “Feericamente iluminada”. O Alckmin está com um tessauro no bolso.
    10:24 PM July 31, 2008 from TwitterFox
  • Maluf tem o poder de ignorar o que se perguntou. Morra morra morra.
    10:27 PM July 31, 2008 from TwitterFox
  • Soninha me faz ficar com vontade de votar em São Paulo.
    10:34 PM July 31, 2008 from TwitterFox
  • Renato Reichman, tu hás de ser o candidato mais mal-preparado de todos os debates.
    10:36 PM July 31, 2008 from TwitterFox
  • Ciro Moura, que coisa velha você é.
    10:46 PM July 31, 2008 from TwitterFox
  • A Marta continua com aquele sorrisinho superior que faz ela parecer vilã de novela. Adoooro.
    10:54 PM July 31, 2008 from TwitterFox
  • @fe_ruby HUAHAUAHAU. E esse cabelo muderrrno… pior ainda
    10:54 PM July 31, 2008 from TwitterFox in reply to fe_ruby
  • Kassab chamou na xinxa, hauahauhaua.
    10:56 PM July 31, 2008 from TwitterFox
  • Aliás, super fashion essa lapela vermelha dela.
    10:55 PM July 31, 2008 from TwitterFox
  • Céus, EU que sou EU lembro do Maluf contando essa história da mulher no posto de saúde querendo consulta.
    11:08 PM July 31, 2008 from TwitterFox
    [NOTA POSTERIOR: Ele repete mais uma vez a mesma história na entrevista do UOL Eleições]
  • Maluf joga citações de Harvard e The Economist pra pagar de culto.
    11:08 PM July 31, 2008 from TwitterFox
  • “Eu particularmente não conseguiria ver um doente…” nem um doente, nem um pobre, nem um nada.
    11:10 PM July 31, 2008 from TwitterFox
  • Faltou um fosfosol pro Casoy agora.
    11:14 PM July 31, 2008 from TwitterFox
  • Soninha vive de fazer retrospectiva das últimas gestões!
    11:25 PM July 31, 2008 from TwitterFox
  • NEGARAM O DIREITO DE RESPOSTA DO MALUF!! IEA!!
    11:29 PM July 31, 2008 from TwitterFox
  • IEA! Ciclovias sendo discutidas na TV!!
    11:40 PM July 31, 2008 from TwitterFox

Caligrafia

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17 7 2008 0 05 31

 

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Tirinha da Mafalda, de Quino

Eu faço revistas a anos. Já encarei os piores fechamentos. Já criei um projeto gráfico de revista e toquei a arte dela quase sozinho. Não há nada que ainda me assuste, há?

Rá.

Sexta à noite. Olívia, minha ex-estagiária, me encaminha um e-mail dizendo que tem uma moça precisando de designer pra fazer um livro de caligrafia. Ora ora, frila é comigo mesmo, pensei. E, pra quem faz caber milhares e milhares de toques na MH todo mês, o que há de ser um livro de caligrafia, não é mesmo? Agradeci à Olívia pela dica e, já pensando em como juntaria uma graninha pras minhas férias, corri atrás do contato que ela me passou. O contato passou um contato que passou um contato, até eu conseguir falar com a garota que havia lançado o pedido de ajuda na web.

Falei com ela pelo telefone na segunda de manhã, marquei de ir na casa dela pegar o serviço à noite, e deixei a faxineira fazendo limpeza no meu apê. Dez horas depois, estava eu no Butantã. A moça tinha ido separar uma briga de dois cães seus que disputavam uma cadela no cio (também dela), levou uma mordida no pulso e agora não tinha mais como fazer esse serviço. Combinamos os quandos e quantos, e eu fui pra Shambhala todo feliz que ia ganhar um tutu.

Mas oh, o destino é cheio de reviravoltas, e, quando cheguei em casa, encontrei o apartamento cheirando a limpeza e meu laptop Macedo Afonso não mais funcionando. Melhor, funcionar ele funcionava, mas o monitor não acendia nem conversava mais com ele. Terrível. Enquanto tentava todas as mandingas para ver se ele voltava a exibir algo, já previa, rangendo os dentes, o que seriam minhas próximas semanas.

Quando vi que não tinha jeito mesmo, preparei um plano de ação. Conforme prometido, na terça entreguei pra menina as primeiras dez páginas, para ela ver que eu sabia o que estava fazendo. Daí no dia seguinte tirei da frente os folders que eu devia para a Dharma|Arte. A próxima noite foi dedicada a aprontar o site do Tablado de Arruar no Wordpress. Sexta-feira descansei, e sábado, depois de ir na academia, fui todo pimpão cuidar de fazer o livro na redação.

No fim daquela noite eu já havia passado a estar pimpinho. No domingo, estava desolado. Horas e horas de trabalho… e dos cinco capítulos, eu havia conseguido terminar dois. Como bem havia avisado minha contratante, a bucha era bem maior do que eu pensava. Para começar, como em todos os livros didáticos, você tem que diagramar os exercícios e deixar junto-porém-separado as respostas do livro do professor, o que já dá um trampo enorme. Para piorar, esse é um livro de caligrafia; o que significava que todos os espaços de respostas e/ou exemplos para os alunos são dados em pautas caligráficas, e as frases são escritas em fontes manuscritas. Não uma qualquer, uma fonte que tem variações o suficiente para realmente se fazer passar por uma escrita cursiva infantil. Ou seja, ela tem um e minúsculo normal e um e diferente para casos como be, ou ve, um l padrão e um l para ir depois de o, por aí vai. Cada. Frase. Tinha. Que. Ser. Ajustada. Letra. Por. Letra.

O prazo era segunda-feira. Domingo de madrugada mandei os PDFs dos dois primeiros capítulos e pedi, morrendo de vergonha, que ela me desse mais três dias de prazo. Mas, claro, minha vida sendo o que é, só consegui pegar na caligrafia de novo na sexta à noite. Fiquei na redação já planejando varar a noite, mas terminar tudo naquela noitada mesmo, porque a festa junina da famiglia era no dia seguinte, em Araraquara.

Mais uma vez, essa foi a mais iludida das ilusões. Quatro da matina, e eu não tinha conseguido terminar o terceiro capítulo. Já estava pegando raiva dos exercícios em tabela, que no projeto gráfico do livro eram particularmente difíceis de se fazer, já que juntavam pautas, e tabelas, e bordas com cantos arredondados. A essa altura do campeonato, eu já queria que Simbá, o marujo, fosse comido pela baleia gigante, e desejava que as crianças realmente simplificassem tudo e escrevessem Brasilha, familha e Amélha ao invés de ficarem se preocupando com as distinções entre lia e lha. Voltei para casa derrotado e já sabendo que não tinha como ir pra Araraquara City.

E assim, automaticamente, meu fim de semana foi condenado à caligrafia. Revivi todos meus traumas de infância como um menino de letra feia que não conseguia decorar lemas como Quando, numa palavra, temos duas letras juntas que representam apenas um som, ocorre o que chamamos dígrafo. Certa hora, ao me deparar com um exercício que dizia “Leia a parlenda e copie-a”, realmente fiquei com pena de toda a pivetada que faria aquilo tudo sem realmente pensar nem levar para a vida que raios quer dizer parlenda. Só consegui concluir esse instrumento de tortura infantil no domingo, às nove e meia da noite. Entreguei os PDFs e fui para casa.

Acabou? Não. Em uma semana chegam as revisões e as ilustrações. Minha letra, porém, continuará igual.

A morte do fiel escudeiro

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4 7 2008 1 04 51

 

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Depois de três anos e um mês de fiéis serviços, Macedo Afonso, meu querido e dedicado macbook G4, arriou. Ele era tão robusto e jovial quando eu o comprei. Agora já estava ficando lerdinho, sua tela manchada já deixava de ser um charme e a falta de memória RAM para rodar os novos programas e a ausência de webcam embutida começavam a indicar que seu tempo já tinha dado.

Há uns oito meses, seu monitor já tinha falhado, mas depois de uma visita à assistência técnica e uns chacoalhões ele resolveu se esforçar e voltou a funcionar sem que eu tivesse que pagar o conserto. Infelizmente, na última segunda-feira, voltei pra casa à noite e o encontrei cegueta: o monitor não conversava mas com a base, e assim nem sequer acendia. Não houve chacoalhão que resolvesse a questão.

Lá fui eu pra assistência técnica, onde mais uma vez o susto fez com que ele voltasse à vida. Em vão; quando tentei utilizá-lo uma hora depois, Macedo Afonso já não funcionava mesmo. Retornei &agrave assistência, fiz um back-up dos projetos em que estava trabalhando no momento, e deixei-o lá para que descobrissem o que havia de errado.

Hoje, dois dias depois, me enviaram o orçamento. E, com lágrimas nos olhos (e uma faca na conta bancária) descobri que a cirurgia para salvar a vida do Macedão era tão cara que valia mais a pena pagar o enterro. Fácil. Respondi o e-mail dizendo que não deveriam mais tentar salvar a vida do pobrezinho, e que eu ia buscar o corpo assim que pudesse para que ele tivesse um fim digno em seu lar.

Mas, como não presto, já estou correndo atrás do substituto. A vida é assim…

Beijo gay, mídia e maionese

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25 6 2008 12 50 25

 

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Ontem a Heinz, fabricante de maionese, retirou do ar um comercial que veiculava no Reino Unido, em que mostrava dois homens se beijando. E não passava de um selinho.

Particularmente eu acho que o anúncio é um erro conceitual: o salto de raciocínio que ele exige dos telespectadores é tão grande que com certeza a maioria não entendeu a “sacada”. A idéia é que a maionese é tão saborosa que você ia se sentir como se tivesse um tiozinho de lanchonete em casa. Mas, primeiro: quem é que realmente quer isso? Depois, a situação das crianças se despedindo da “mãe” antes de ir pra escola, culminando na despedida do casal, é obviamente interpretada como uma família alternativa, não como uma dona de casa de chinelinho metamorfoseada num sanduicheiro pelo poder da maionese.

É uma mensagem extremamente surreal e difícil de compreender - me lembra o comercial de Lux Luxo em que a Andréa Beltrão aproveitava a chuva repentina enquanto andava num conversível para tomar um banho de banheira. Não devia sequer ter sido feito, mas por causa da mensagem trocada que ele transmite, não por dois homens se beijarem ou não.

O clamor contra o comercial veio de pais que de repente se viam na situação de ter que explicar para os rebentos que homens também podem se beijar, que nem papai e mamãe fazem. Não que os pimpolhos a tenham visto entre um bloco e outro de Pokémon; na Inglaterra não se permite que comerciais de maionese sejam exibidos durante programas infantis (não querem que as crianças fiquem com vontade de comer algo assim, pouco saudável). Apenas mais um sintoma de que, apesar de grandes avanços, a hipocrisia persiste mesmo por lá: tudo bem os infantes verem três tiros por minuto, mas esconjuro que dois homens possam ter uma vida conjugal com filhos.

Um dos assuntos mais anedóticos quando se fala da história do cinema são os Rocky-Hudsons: os atores que eram gays mas pagavam de héteros para o público. As assessorias de imprensa do mundo do entretenimento garantem que as preferências de suas celebridades fiquem sempre razoavelmente escondidinhas da mídia; para todos os efeitos, nos últimos 30 anos nenhum ator de sucesso é viado. A civilização ainda não está preparada para que um ator saia do armário sem perder seu marketing value (mas este momento não está tão distante assim…). Depois que eles saem dos holofotes, perdem a “proteção”, e daí as biografias como Carmen podem dizer quem saía com quem sem causar comoção nenhuma.

Não devia causar comoção nunca. Felizmente o mundo está caminhando na direção em que Dora, que amava Lia, que amava Léa, vai causar tão pouco espanto quanto Dito, que amava Rita, que amava Dito. O Guardian, sempre tão bacana, faz matérias estilo “3 casais mostram como reformaram sua casa” em que um dos casais calhava de ser de dois homens, sem um remark que fosse no sentido de que eles fossem de qualquer maneira diferentes dos outros casais. E, mesmo lá, como se vê, tem gente que se incomoda com mixaria.

Já num país em que o Richarlyson sente que tem que se proteger de qualquer insinuação sobre com quem dorme (como dizia um professor meu na engenharia, as pessoas deveriam se preocupar não com quem a gente dorme, mas com quem a gente fica acordado), a mídia ainda trata homem com homem e mulher com mulher como se fosse algo extremamente chocante. Há três anos que a cada final de novela fica um suspense se o personagem gay vai beijar ou não - algo sempre reservado para o final da novela, quando ninguém vai poder jogar uma queda de audiência nas costas das duas bichinhas. Se a Globo já tivesse tirado isso do caminho com o Juninho de América, não ia ter que ficar com medo hoje em dia de perder o troféu do primeiro beijo gay em horário nobre brasileiro para Os Mutantes - o que seria, na minha opinião, lamentável para os gays enquanto gênero humano.

Empresas de comunicação: enfrentem logo o efeito zoológico! Ele, como tudo, passa. Com essa atitude, beijos gays logo não terão sequer a habilidade de vender maionese, e o mundo será um lugar melhor e mais tolerante por causa disso. E comerciais serão retirados do ar por suas reais falhas de comunicação, não pelo desconforto de pais preguiçosos.

Para quem quiser ler mais sobre os efeitos da homossexualidade (ou não) em diferentes tipos de celebridades: “We’re still not a very tolerant society”.

Elocubrações

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13 6 2008 12 24 32

 

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Um dos meus contos favoritos do Neil Gaiman chama-se “Changes”, em que um médico descobre a cura do câncer, mas ela tem um pequeno efeito colateral: a pessoa muda de sexo. Assim como o Viagra e Prozac, only to name a few, logo muitas pessoas que não têm câncer começam a tomar a droga interessados nos side effects; outras preferem morrer a passar pela transformação. O conto desenvolve várias mudanças que poderiam ocorrer na sociedade a partir do momento em que as pessoas pudessem mudar de sexo com relativa facilidade, mas eu deixo isso para quem se interessar a ler o conto.

Não lembro como chegamos nesse assunto, mas outro dia o Felipe começou a elocubrar sobre quais seriam os efeitos na sociedade como um todo se realmente descobrissem o teleporte. Seria o fim da propriedade privada (uma vez que você não teria como manter as pessoas fora de uma área qualquer), das fronteiras, das prisões… Nesse momento eu interrompi ele para saber quanto tempo ele tinha dedicado a esse raciocínio - só pessoas que lêem muito gibi seriam capazes de gastar tanto fosfato com habilidades sobre-humanas…

Ou não. A Igreja Católica já desenvolveu suas idéias a respeito do que significaria a chegada de alienígenas à Terra. E, surpreendentemente, os receberia de braços abertos, considerando que todos foram criados por Deus e, portanto, somos todos irmãos.

O que mais me surpreende é que esse tipo de hipotetização não acontece apenas no Vaticano; aparentemente, muitas e muitas pessoas já pararam para pensar a respeito de quais seriam as consequências da chegada de aliens sobre as religiões no nosso planeta.

Dores em todo o corpo

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30 9 2007 0 00 00

 

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Ontem, inocentemente, liguei para meu irmão gêmeo para saber um endereço, e ele me conta que está de cama porque pegou dengue. Primeiro, para a leve revolta dele, eu comecei a rir e perguntar se ele tinha esquecido de virar seus pneus e de colocar terra em seus vasos de planta. Depois, se não teria sido mais prático ele ter pego o Praga em vez do Dengue. Muitos minutos depois, quando a idéia de que gente como a gente pega dengue assentou, ele me contou como descobriu sua enfermidade. Depois de dormir muito em vários plantões, ele foi pra faculdade, e as pessoas perguntavam “nossa, você tomou sol?”. Não, respondia ele. “Hmmmm, então será que você não está com dengue?” Depois que a terceira pessoa fez esse interrogatório, ele resolveu fazer um exame de sangue e descobriu que realmente estava com dengue. Nessa hora, eu mandei parar tudo. Só entre médicos essas falas são plausíveis. Com o resto da humanidade, a resposta para “Não tomei sol” seria “Puxa, mas parece!”, sem jamais pensar em dengue.

Vida de Cão

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14 3 2007 0 00 00

 

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Tenho quase certeza de que, de tantos posts que eu já fiz aqui no Chão, nenhum deles jamais foi escrito às nove da manhã. As chances de eu ter feito isso logo depois de ter acordado, caminhado, arrumado a cama, feito supermercado e tomado café da manhã, então, são certamente zero.

A razão para isso é um lindo quadrúpede de porte pequeno e pêlo longo que agora mora comigo. Sim, eu finalmente adotei um cãozinho!

Eu já estava com essa idéia desde que eu voltei de Londres, mas todo o processo de me reestabelecer em Sampa ocupou todo meu tempo e dinheiro. Agora, meses depois, apesar do dinheiro não estar sobrando, o tempo está um pouco mais organizado, e eu resolvi que poderia encarar a responsabilidade. Comecei a procurar filhotinhos em sites de adoção de cães, procurando um que eu sentisse que tem a minha cara e viesse de São Paulo.

Depois de algumas semanas, eu encontrei um, fui visitá-lo na clínica onde estava, e achei-o a coisa mais linda. Era quarta-feira, e eu pedi para buscá-lo no sábado. Tudo tinha ficado acertado, mas, quando eu liguei na sexta para descobrir como ele estava, descobri que já tinha sido adotado por outra família. Fiquei bem bem bem puto da vida com isso, mas a protetora que tinha passado o quase-meu cãozinho pra frente me prometeu que me arranjaria um canino ou mudava de nome.

Bem, duas semanas depois, fui encontrá-la no Butantã, para ver os cães que ela estava abrigando no momento. Chegamos à casa de uma amiga dela que mal parecia poder sustentar ela mesma, menos ainda dezenas de cães;, mas, mesmo assim, em dez minutos chegou outra amiga (“Somos todas vegetarianas!”, ela dizia, empolgada) com seis cachorros que ela tinha levado pra passear.

Eram todos fêmeas, com a excessão de um, o mais lindo de todos. Tinha sido recolhido da rua, onde tinha sido abandonado, junto com uma outra cadelinha, sua amiga inseparável. Olhei bem pra ele, brinquei com todos um pouco, e resolvi que era aquele mesmo. A mulher não queria deixar, porque achava que ele não conseguiria viver longe da cãzinha. “Já que você vai adotar um, por que não adota os dois de uma vez??”, uma delas tentou me convencer, mas resisti à pressão vegetariana. Depois de alguns minutos de negociação, resolvemos que eu o pegaria para fazer um teste se ele conseguia viver longe da outra. Elas me deram uma carona para casa, e, no caminho, decidiram que catariam dois outros cães que tinham encontrado no dia anterior… Deve ser missão mesmo.

Uma vez com o cão em casa, enquanto eu pensava em que nome eu lhe daria, eu fui com ele na Cobasi comprar os suprimentos necessários. Muito emocionante - emocionante demais; o cão ficou apavorado, pobrezinho. Continuei tentando brincar com ele, animá-lo, deixá-lo contente com o prospecto de que tinha deixado de ser um menor abandonado, mas nada o alegrava.

Segunda-feira foi o primeiro dia que eu o deixei sozinho em casa enquanto eu trabalhava. Cheguei à noite, e descobri que ele tinha mascado os fios da TV a cabo. Estava mais jururu ainda. De madrugada, eu fui despertado com ele arranhando a porta. Ele tentou sair de casa, mas não conseguiu; foi prum canto da sala e começou a vomitar. Daí foi para a cozinha e começou a cagar sangue. Depois vomitou mais. Depois cagou mais sangue. Eu limpando os fluidos do meuu cão e ele, miserável, soltando mais. Depois de uns quarenta minutos disso, ele parou, e eu pude voltar a dormir.

Na manhã seguinte ele estava mais melancólico do que nunca. Preocupado com o que poderia ter acontecido com um ser que tinha acabado de roer fio uma tarde inteira, levei-o para o veterinário, paguei um ultrassom pra ele, exame de sangue, exame de fezes… E assim descobri que na verdade tanta melancolia não se devia a um amor desfeito, mas a vermes mesmo.

Agora já faz uma semana e pouco desde que eu o acolhi. Ele está muito mais saudável, me segue por todos os cantos, morre de alegria quando eu chego, e me vê como uma maquininha de fazer cafuné. Me acorda todos os dias assim que raia o dia, e só come o que quer. O que é um problema, já que eu tenho que dar remédio para ele por mais quatro dias, o que significa um embate de manhá e à noite para que ele tome os comprimidos receitados pelo veterinário.

Mas decididamente está valendo a pena. Assim que ele sacar que bolinhas servem para ele brincar e tals, a gente vai conseguir se divertir mais ainda. Nesse meio-tempo, passeio com ele com orgulho; é impressionante como as pessoas reparam mais em você quando você passeia com um cãozinho lindo a seu lado.

WAR

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28 1 2007 0 00 00

 

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De tantos primos que eu tenho, existem cinco que merecem o epíteto de Os Primos: Fernando, Flávia, Francely, Fábio e Filipe, os filhos da tia Celira. Como temos idades razoavelmente próximas e desde que eu tenho quatro anos moramos na mesma cidade, sempre fomos muito próximos e presentes uns para os outros. Os anos em que moramos a dois quarteirões de distância, então, eram uma festa, em que nos visitávamos apenas por visitar, mesmo sem muito o que fazer.

E, de todas as atividades que oito crianças podem fazer juntas, jogar jogos de tabuleiro sempre estiveram entre as preferidas. Afinal, com tanta gente, juntar quatro ou mais para uma partida de qualquer coisa não era difícil, quando não ficava alguém de fora. Assim, partidas épicas de Jogo da Vida ou Banco Imobiliário aconteciam, ou de jogos que só ficaram ilustres entre nós, como Carga Pesada, Bolsa de Valores ou GloboGame. De todos, o único que a gente jamais conseguiu jogar foi o Supremacia, que era complicado e lento demais para qualquer ser humano que não fosse chinês e estivesse preso.

Mas, entre todos, o que sempre teve lugar especial para nós era o War. E não era para menos. Tio Nadir, o pai dos Primos, por alguma inspiração do além um dia comprou uma edição de luxo do War. Ela me impressionou desde a primeira vez que a vi, e, sinceramente, até hoje é um dos meus objetos de desejo. Pra começar, sua caixa não era uma caixa, era uma lata linda e enorme. Dentro dela, os tradicionais exércitos haviam sido requintados: as peças d"e um exército eram granadinhas, as de três eram um soldadinho com um rifle na mão, e as de dez eram pequenos tanques. O tabuleiro era enorme, com cantoneiras de metal, e havia um copinho para se jogar os dados.

Foi com esse conjunto que eu aprendi a jogar War, então é compreensível a minha decepção quando eu ganhei o meu próprio conjunto e descobri que no mundo real o tabuleiro era menor, os dados vinham sem copinho e que na verdade um exército era um disquinho pequeno e dez exércitos eram um disquinho maior – nada de três exércitos. Mesmo assim, continuei a jogá-lo, de preferência com os Primos – se fosse no tabuleiro do tio Nadir, melhor ainda.

Em volta da mesa da sala de jantar, com ou sem adultos, nós disputávamos entre nós o domínio sobre continentes, sendo algumas das poucas crianças para quem as palavras “Dudinka”, “Aral” e “Omsk” faziam algum sentido. Miseravelmente limitados a seis facções, volta e meia fazíamos pares que deliberavam sobre o futuro de nossas tropas quando oito ou mais queriam jogar ao mesmo tempo. Pactos de não-agressão eram estabelecidos, guerras eternas declaradas, e heróis nacionais criados ao sabor dos dados vermelhos e amarelos (“eu não acredito que eu ataquei o México com vinte exércitos contra três, perdi todos e esse último seu sobreviveu!”).

Partidas históricas aconteciam, em que se fazia a vigésima troca para ganhar 50 exércitos, seguida de outra que punha mais 55 em jogo; Fernando, com seu poder de primo mais velho, influenciava eu e o Danilo a fazer o que ele queria, no estilo “Se eu fosse você, faria isso… Você vai me atacar??? Tem certeza??? Tudo bem, mas depois…”. Mesmo assim, coisas surpreendentes podiam acontecer, como quando o Danilo havia feito um pacto de não-agressão com a Lily, e, na rodada seguinte, quando ela estava desprotegida, a atacou, dizendo “eu menti!”. Ela nunca se recuperou dessa traição.

Ontem, anos depois da última partida de War, nós todos nos reencontramos no aniversário dos filhos do Fernando, Adriel e Arthur. Fatalmente, como acontece sempre nesses reencontros, nós começamos com as reminiscências de todas as nossas horas felizes em volta dos tabuleiros, e como deveríamos voltar a jogar um dia. Foi irresistível eu dizer “e por que não hoje?”. E, como mágica, todos acharam que era uma ótima idéia. A Lily não quis (ainda tem traumas daquela partida com o Danilo), e não foi tão simples como antigamente, em que só tinha que pedir permissão para as respectivas mães: os Primos, todos casados, tiveram que negociar com as respectivas Donas Patroas pra passarem a noite na casa da minha mãe. Mas, depois das deliberações todas, conseguimos nos juntar para uma partida de War 2.

E da meia-noite às quatro da manhã, nós mais uma vez entramos num embate de proporções mundiais, dessa vez com aviões. Agora que somos adultos, a guerra psicológica entrou no arsenal, com a pressão de pecinhas que “passeavam” sobre a área de conflito no momento para influenciar os resultados. Foi difícil resistir à influência do Fernando (hábitos de infância resistem muito tempo), mas eu fiquei me repetindo “eu não tenho mais dez anos, eu não tenho mais dez anos” e deu certo. Foi fantástico, apesar de que os Primos não conseguiram resistir depois das quatro da manhã. É a idade. Mesmo assim, é bom saber que certas coisas da infância continuam guardadas em algum ponto.

Buraco

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24 1 2007 0 00 00

 

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Já não era um dos dias mais propícios. Depois das férias coletivas, estávamos com uma semana e meia até o fechamento e 75% da revista ainda por fazer. Meu chefinho tinha acabado de me dar uma matéria complicadíssima, com dez páginas, para destrinchar. Era sexta-feira, fim da tarde, e nada indicava que sairíamos do serviço tão cedo.

E então acabou a luz.

Acabar a luz na Editora não é algo tão trágico assim. O prédio dispõe de geradores que se ativam automaticamente quando a energia falha, evitando que se ouça um coletivo “EEEEEUUUUU NNNÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOO SALVEEEEEEEEEEEIII” urrado entre lágrimas e cabeçadas na mesa em todos os andares. As luzes se apagam mas os computadores continuam funcionando, o que dá tempo para todo mundo salvar o que estava fazendo e dar umas risadinhas.

Já estávamos procurando umas revistas para ler enquanto aguardávamos que a energia fosse restaurada, quando alguém olhou pela janela e disse “gente, tá desabando o buraco!”.

As obras da estação de metrô nova que vai abrir do lado da Editora têm sido o entretenimento de todos há dois anos, já. Quando eu estava em Londres o pessoal da Recesso já me contava como saíam todos correndo para tirar fotos no meio da Marginal vazia durante as breves interdições na pista que ocorriam todos os dias no mesmo horário. Quando eu voltei ao Brasil e à Editora, já não interditavam mais a pista, mas as detonações subterrâneas para abrir os túneis continuavam, fazendo o prédio todo tremer. Da janela da redação da NI, onde acabei arranjando emprego, volta e meia acompanhávamos os movimentos de um guindaste sobre um buracão gigante que ninguém sabia ao certo para que servia.

E agora o buracão estava engolindo as ruas. Como o povo adora ver uma desgraça, em quinze segundos estavam todos encostados nas amplas janelas que davam pro ex-túnel, que só aumentava. Quando eu consegui chegar, uma rua já tinha ido pro fundo do poço, e, sem saber quando que a erosão ia acabar, acompanhávamos fascinados o buraco chegar mais e mais perto do prédio vizinho.

Entre risinhos meio tensos, acompanhávamos o movimento no dito prédio: um engarrafamento instantâneo na saída de seu estacionamento, dezenas de luzes de freio acesas, se sentindo numa espécie de Torres Gêmeas tupiniquins, esperando sair de lá antes que tudo desabasse. Uma grua ameaçava cair, ia girando de um lado para o outro “para modificar o centro de gravidade”, nos explicaram os colegas ex-engenheiros. O trânsito na Marginal foi interrompido, e o congestionamento em poucos minutos se estendia a perder de vista. Ligamos a TV, mas nada aparecia na BandNews, nem na UOL. Não sabíamos bem o que estava acontecendo, mas o buraco ainda parecia distante, e o fascínio era maior.

Não deu cinco minutos depois de descobrirem o buraco e que portanto seja o que for que estivesse acontecendo ia ser sério, e nossos colegas da redação ao lado juntou os pertences, falou “Ueba! Fim de semana prolongado!” e partiu. Nós, com um dos piores fechamentos da curta história da revista nas mãos, ainda esperamos um pouco, mas, como realmente parecia que a luz não ia voltar e que o buraco podia piorar, juntamos o sangue-frio e fizemos um plano de ação. Enquanto alguns ligavam para amigos e parentes para contar o que estava acontecendo, eu gravei todo o material da minha pepina matéria num CD para trabalhar em casa. A nossa secretária, uma fervorosa crente que tenta nos converter a cada dois dias, enquanto isso entrava num ligeiro pânico bradando “GENTE, VOCÊS SÃO MALUCOS! O PRÉDIO VAI CAIR! QUE QUE CÊS TÃO FAZENDO PARADOS? EU VOU-ME EMBORA!”, e o nosso chefinho respondia “Não vai embora! Você é nossa conexão com o homem lá em cima! O que vamos fazer sem você?? Fica com a gente!”. Eu recolhi todo o meu material, olhei bem para a minha recém-adquirida mesa, juntei tudo o que eu não queria perder pra sempre num eventual desabamento do prédio, e fui pra casa.

Uma vez na rua, o prédio estava sitiado por pessoas que não sabiam se iam ou se ficavam, se acompanhavam o movimento ou iam pro fechamento, se largavam a carteira que ficou lá em cima junto com as chaves de casa ou se subiam dezesseis andares de escada. Eu, de bike, fui mais uma vez atravessando feliz da vida os engarrafamentos que começavam a se formar. Quando cheguei no meu apê, quinze minutos depois, os plantões de notícia já tinham todos sido acionados e divulgavam que algo muito errado tinha acontecido.

Quando voltei ao trabalho na segunda-feira, tudo tinha voltado a uma realidade meio improvável. Os murais de aviso do prédio tinham informes que tentavam tranqüilizar os funcionários, dizendo que o edifício não se apresentava sob risco nenhum. Três ou quatro helicópteros de diferentes canais de TV sobrevoavam a área, e bombeiros, policiais civis e militares e guardas de trânsito interditavam as ruas em volta. As pessoas do outro lado do andar vinham à nossa janela ver a situação do buraco, que começava a ser escorado com concreto. A cada quinze minutos, alguém da nossa redação ou da vizinha levantava para ver os procedimentos, e qualquer comentário era capaz de levar quatro ou cinco curiosos para observar.

Perplexos, descobrimos que a Rede TV!, a Record e a Gazeta estavam preenchendo toda sua programação vespertina com o evento, contando quantas pessoas teriam sido soterradas, entrevistando ex-moradores das ruas ameaçadas, parentes de pessoas desaparecidas, e imagens que pouco diferiam entre si do ex-túnel. Ao ir embora no começo daquela noite, fui tentar pegar uma rua que costumava pegar antes e não pude; os puliças me avisaram gentilmente que tinha otoridade lá e que era pra eu dar a volta. Mais uma vez de volta ao apê doce apê, descobri que nosso governador José Serra tinha ido visitar o túnel, o que me fez ter muita dó do coitado, que, apesar da total inutilidade do gesto, tinha que se enfiar num túnel úmido e precário para mostrar que fazia alguma coisa.

Quatro dias depois, a Sonia Abrão ainda espremia cada gota do assunto durante as intermináveis horas da tarde. Os jornais haviam nos presenteado com as manchetes “Primeiro corpo encontrado”, “Segundo corpo encontrado” e “Terceiro corpo encontrado” em três dias consecutivos. A culpa já havia sido delegada a deus e todo mundo, e declarações do misterioso “Consórcio da Linha 4” surgiam periodicamente. Já sabíamos todos mais do que jamais quiséramos saber sobre o funcionamento do túnel, das obras e do buraco.

Se teve uma coisa boa nisso tudo, porém, foi que voltaram a interromper a marginal por algumas horas por dia. Ruim para os motoristas. Bom para a Renatinha, minha amiga, que aproveitou a interdição para tirar fotos saltitantes na pista deserta, que ela há de mostrar para os netos.