
Já não era um dos dias mais propícios. Depois das férias coletivas, estávamos com uma semana e meia até o fechamento e 75% da revista ainda por fazer. Meu chefinho tinha acabado de me dar uma matéria complicadíssima, com dez páginas, para destrinchar. Era sexta-feira, fim da tarde, e nada indicava que sairíamos do serviço tão cedo.
E então acabou a luz.
Acabar a luz na Editora não é algo tão trágico assim. O prédio dispõe de geradores que se ativam automaticamente quando a energia falha, evitando que se ouça um coletivo “EEEEEUUUUU NNNÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOO SALVEEEEEEEEEEEIII” urrado entre lágrimas e cabeçadas na mesa em todos os andares. As luzes se apagam mas os computadores continuam funcionando, o que dá tempo para todo mundo salvar o que estava fazendo e dar umas risadinhas.
Já estávamos procurando umas revistas para ler enquanto aguardávamos que a energia fosse restaurada, quando alguém olhou pela janela e disse “gente, tá desabando o buraco!”.
As obras da estação de metrô nova que vai abrir do lado da Editora têm sido o entretenimento de todos há dois anos, já. Quando eu estava em Londres o pessoal da Recesso já me contava como saíam todos correndo para tirar fotos no meio da Marginal vazia durante as breves interdições na pista que ocorriam todos os dias no mesmo horário. Quando eu voltei ao Brasil e à Editora, já não interditavam mais a pista, mas as detonações subterrâneas para abrir os túneis continuavam, fazendo o prédio todo tremer. Da janela da redação da NI, onde acabei arranjando emprego, volta e meia acompanhávamos os movimentos de um guindaste sobre um buracão gigante que ninguém sabia ao certo para que servia.
E agora o buracão estava engolindo as ruas. Como o povo adora ver uma desgraça, em quinze segundos estavam todos encostados nas amplas janelas que davam pro ex-túnel, que só aumentava. Quando eu consegui chegar, uma rua já tinha ido pro fundo do poço, e, sem saber quando que a erosão ia acabar, acompanhávamos fascinados o buraco chegar mais e mais perto do prédio vizinho.
Entre risinhos meio tensos, acompanhávamos o movimento no dito prédio: um engarrafamento instantâneo na saída de seu estacionamento, dezenas de luzes de freio acesas, se sentindo numa espécie de Torres Gêmeas tupiniquins, esperando sair de lá antes que tudo desabasse. Uma grua ameaçava cair, ia girando de um lado para o outro “para modificar o centro de gravidade”, nos explicaram os colegas ex-engenheiros. O trânsito na Marginal foi interrompido, e o congestionamento em poucos minutos se estendia a perder de vista. Ligamos a TV, mas nada aparecia na BandNews, nem na UOL. Não sabíamos bem o que estava acontecendo, mas o buraco ainda parecia distante, e o fascínio era maior.
Não deu cinco minutos depois de descobrirem o buraco e que portanto seja o que for que estivesse acontecendo ia ser sério, e nossos colegas da redação ao lado juntou os pertences, falou “Ueba! Fim de semana prolongado!” e partiu. Nós, com um dos piores fechamentos da curta história da revista nas mãos, ainda esperamos um pouco, mas, como realmente parecia que a luz não ia voltar e que o buraco podia piorar, juntamos o sangue-frio e fizemos um plano de ação. Enquanto alguns ligavam para amigos e parentes para contar o que estava acontecendo, eu gravei todo o material da minha pepina matéria num CD para trabalhar em casa. A nossa secretária, uma fervorosa crente que tenta nos converter a cada dois dias, enquanto isso entrava num ligeiro pânico bradando “GENTE, VOCÊS SÃO MALUCOS! O PRÉDIO VAI CAIR! QUE QUE CÊS TÃO FAZENDO PARADOS? EU VOU-ME EMBORA!”, e o nosso chefinho respondia “Não vai embora! Você é nossa conexão com o homem lá em cima! O que vamos fazer sem você?? Fica com a gente!”. Eu recolhi todo o meu material, olhei bem para a minha recém-adquirida mesa, juntei tudo o que eu não queria perder pra sempre num eventual desabamento do prédio, e fui pra casa.
Uma vez na rua, o prédio estava sitiado por pessoas que não sabiam se iam ou se ficavam, se acompanhavam o movimento ou iam pro fechamento, se largavam a carteira que ficou lá em cima junto com as chaves de casa ou se subiam dezesseis andares de escada. Eu, de bike, fui mais uma vez atravessando feliz da vida os engarrafamentos que começavam a se formar. Quando cheguei no meu apê, quinze minutos depois, os plantões de notícia já tinham todos sido acionados e divulgavam que algo muito errado tinha acontecido.
Quando voltei ao trabalho na segunda-feira, tudo tinha voltado a uma realidade meio improvável. Os murais de aviso do prédio tinham informes que tentavam tranqüilizar os funcionários, dizendo que o edifício não se apresentava sob risco nenhum. Três ou quatro helicópteros de diferentes canais de TV sobrevoavam a área, e bombeiros, policiais civis e militares e guardas de trânsito interditavam as ruas em volta. As pessoas do outro lado do andar vinham à nossa janela ver a situação do buraco, que começava a ser escorado com concreto. A cada quinze minutos, alguém da nossa redação ou da vizinha levantava para ver os procedimentos, e qualquer comentário era capaz de levar quatro ou cinco curiosos para observar.
Perplexos, descobrimos que a Rede TV!, a Record e a Gazeta estavam preenchendo toda sua programação vespertina com o evento, contando quantas pessoas teriam sido soterradas, entrevistando ex-moradores das ruas ameaçadas, parentes de pessoas desaparecidas, e imagens que pouco diferiam entre si do ex-túnel. Ao ir embora no começo daquela noite, fui tentar pegar uma rua que costumava pegar antes e não pude; os puliças me avisaram gentilmente que tinha otoridade lá e que era pra eu dar a volta. Mais uma vez de volta ao apê doce apê, descobri que nosso governador José Serra tinha ido visitar o túnel, o que me fez ter muita dó do coitado, que, apesar da total inutilidade do gesto, tinha que se enfiar num túnel úmido e precário para mostrar que fazia alguma coisa.
Quatro dias depois, a Sonia Abrão ainda espremia cada gota do assunto durante as intermináveis horas da tarde. Os jornais haviam nos presenteado com as manchetes “Primeiro corpo encontrado”, “Segundo corpo encontrado” e “Terceiro corpo encontrado” em três dias consecutivos. A culpa já havia sido delegada a deus e todo mundo, e declarações do misterioso “Consórcio da Linha 4” surgiam periodicamente. Já sabíamos todos mais do que jamais quiséramos saber sobre o funcionamento do túnel, das obras e do buraco.
Se teve uma coisa boa nisso tudo, porém, foi que voltaram a interromper a marginal por algumas horas por dia. Ruim para os motoristas. Bom para a Renatinha, minha amiga, que aproveitou a interdição para tirar fotos saltitantes na pista deserta, que ela há de mostrar para os netos.
“E isso aqui, Marcinho, se chama ‘vulva de arara’”, disse Beto Sandall, apontando pra um rabanete.
Tudo por causa da minha convicção em não comer alimentos com nomes antropofágicos. A lista não é muito grande, mas revolta muita gente: eu desprezo baba-de-moça, teta-de-nega e bicho-de-pé. Pé-de-moleque eu como porque aprendi a comer antes de chegar na fase da minha vida em que comecei a imaginar moleques encardidos com seus pés mutilados. Na noite anterior, ao pararmos numa doceria em Copacabana, eu descobri um docinho branco chamado barriga-de-freira, e imediatamente fiz mais uma adição ao meu rol de alimentos a evitar. Léo Favre e Beto Sandall, meus queridos anfitriões nesse meu révellon carioca, ficaram inconformados, e no dia seguinte ainda não deixavam o assunto morrer. Enquanto preparavam a salada do almoço, iam vendo até onde que minhas aversões sintagmáticas iam me levar. Beto tirou um tomate-cereja do pirex e disse “Isso aqui, Caparica, se chama olho-de-saci”. Léo pegou um pedaço de brócolis e continuou “E isso aqui vem do latim broccho lisum, e quer dizer pentelho-de-bode”. Não levou nem quinze segundos a mais para o pobre rabanete virar vulva-de-arara, mas eu me mantive fiel aos meus princípios e continuei ignorando os alimentos com nomes genuinamente metonímicos.
Havia já dois dias que eu tinha chegado ao Rio de Janeiro, para passar meu fim de ano. Eu havia visitado Léo e Beto três semanas antes, já que não via Léo pessoalmente desde antes de ir para Londres. Durante o fim de semana que passei em terras fluminenses, choveu o tempo todo sem parar, e minhas esperanças de voltar para Sampa sem a tez verde-escritório que já tinha substituído meu bronzeado mediterrâneo foram por água abaixo. Depois que resolvi voltar para o Rio no fim de ano, a esperança de pelo menos começar 2007 com um bronzeado razoavelmente decente só crescia. Léo me escreveu no dia anterior à minha partida dizendo que estava fazendo um sol esplendoroso e que dessa vez o projeto bronze ia dar certo. Que ilusão.
Cheguei na rodoviária do Rio às sete e meia da matina, tendo sobre minha cabeça um céu de nuvens negras digno de Londres. Num ombro, carregava uma mala vermelha gigante com roupas, laptop e outros petrechos necessários para se passar uma semana fora de casa. No outro, a trombolhuda mala de bicicleta, coadjuvante importantíssima da minha viagem pela Europa. Sim, Angelana Paula, a Intrépida, me acompanhava em mais uma aventura.
Sempre temeroso de taxistas dispostos a tirar vantagem de paulistas otários, fui para as cabines de táxis pré-pagos, fiz uma pesquisa rápida de quem poderia me levar junto com a megabagagem, e fiquei pasmo da variação encontrada: os preços iam de R$ 17 a R$ 40, “por conta da bagagem”, para me tirar dali e me deixar em Laranjeiras. Fui no mais barato, e a mocinha, ao ver a bagagem da bike, adicionou mais R$ 3 por conta da bagagem. Arrastei tudo até o ponto de táxi, e vi, entre pasmo e horrorizado, três motoristas simplesmente se recusarem a me levar por conta da Angelana. Por fim uma Dobló-táxi, de porta-malas gigante, veio me resgatar. Feliz? Não. O cara, mesmo tendo um porta-malas com mais espaço que muitos quartos que eu já vi por aí, começou a reclamar que minha bagagem era muito grande, e só me aceitou depois de eu oferecer mais 4 reais, que era tudo o que eu tinha na carteira.
Desembarquei temporariamente em Laranjeiras, para tomar café-da-manhã com Jimmy W. Depois de alimentado e de colocar a conversa em dia, Jimmy gentilmente me levou Rio adentro até a Gávea, onde mora o Léo. Lá, enquanto mister Favre aprontava o almoço com seus insuspeitados dotes culinários, fazíamos planos para aproveitar meus dias fluminenses e usufruir do sol que mais cedo ou mais tarde havia de dar as caras.
Antes fosse. Como não fazia sol, acabei acompanhando Leozinho até a academia, me assustei com como são marombados os cariocas, e passei vergonha ao descobrir que Léo levanta muito mais peso do que eu. Essa noite, Léo me levou para um passeio ciclístico pela lagoa Rodrigo de Freitas, em que era impossível se ver o Cristo devido às nuvens. Fomos para o cinema ver o novo 007; quando saímos de lá, o já se via o Redentor, mas dois minutos mais tarde ele já havia se escondido de mim.
No dia seguinte, fui convocado por Louis Piereck, que também estava passando o fim de ano no Rio, até Ipanema, e mesmo com a persistência cumulonímbica eu fui lá dar um oi para meu velho amigo. Nada de sol durante todo dia, com chuva leve ao final da tarde, quando saímos de um bar da Gávea e voltei à residência de Léo.
Acordei dia seguinte com um sol esplendoroso, e resolvi não esperar que Léo e Beto acordassem: convoquei Jimmy e corri para a praia. Foi só eu me instalar na areia, porém, e lá se foram os raios fúlgidos. Me restou só ficar conversando sobre princípios lingüísticos e mitos na psicologia com Jimmy, enquanto me queimava com o mormaço.
Dia 31 nem havia esperança de sol, já que tradicionalmente chove no Rio toda virada de ano. Debaixo de uma chuvinha indecisa, fomos eu, Léo e Beto para uma festinha de revéllon de um grupo de amigos deles. A presença armada se sentia pelo caminho todo, cheio de puliças ostentando escopetas, show de horror. Nós três pedalando, claro; devido às poças do caminho, Beto chegou com as costas de sua camisa branca cheias de barro (a roda das bikes joga a sujeira pra cima, nas costas do ciclista); Léo, que desviou da maioria das poças que cruzaram seu caminho, estava apenas um pouco sujo; eu, que tenho uma soberba bike com pára-lamas, estava impecável.
A festinha estava meio devagar, mas valeu para provarmos o divino pavê que Léo tinha feito para o evento. Onze e vinte da noite nós três nos despedimos de todos os presentes e começamos a correr para Copacabana, para ver os fogos. Foi uma pedalada desabalada, desviando de inúmeros festeiros que já se instalavam para assistir os fogos da Lagoa, enfrentando multidões que também se dirigiam para Copa, e, é claro, desafiando a chuvinha que continuava caindo. O esforço valeu, no entanto, e, depois de prender as bikes e abrir caminho na multidão, estávamos com o pé na areia dois minutos antes de começar a contagem regressiva. O ano virou, a gente gritou, os fogos começaram, e comemoramos com champanhe (francesa, que Beto é chique) bebida no gargalo, enquanto deixávamos os fogos nos encherem de alegria e a chuva embaçava os óculos de Léo Favre.
Terminado o show pirotécnico, voltamos às magrelas e rumamos para Ipanema, felizes da vida de que éramos os únicos a nos locomover razoavelmente rápido na região congestionada e cheia de gente. Ficamos algumas horas indo do lado em que estava o palco do show dos Black Eyed Peas para o outro em que estava rolando uma rave electro, abismados em como tinha gente mijando à beira-mar. Dezenas de caras, o tempo todo. Fez pensar em quanto mijo é produzido todo dia.
Os dias seguintes foram gastos dentro do apê do Léo mesmo, já que o sol se recusou a fazer o começo de 2007 feliz e ensolarado. Ficamos dormindo, lendo e comendo, numa vida de puro ócio romano, ou quase. Beto fez que Léo fizesse uma forma do pavê do fim de ano para seu deleite pessoal, junto com uma panela de brigadeiro. Eu, que ainda não desenvolvi grandes habilidades culinárias, assumi meu papel tradicional lavando a louça. Da janela da sala do Léo via-se o morro Dois Irmãos. Ou melhor, não se via, já que durante esses dias todos eles ficaram cobertos de nuvens. Chegamos à conclusão de que o problema era comigo mesmo, e Beto e Léo começaram a considerar seriamente me expulsar do Rio para que levasse as nuvens comigo, e eles pudessem ter um começo de ano ensolarado. Jimmy passou para se despedir, que no dia seguinte ele rumaria com o cão Teddy para a fazenda da sua família, mas queria assuntar um pouco mais antes. E, entre páginas de livros e Páginas da Vida, sessões gastronômicas e Sessão da Tarde, passaram-se dois dias e chegava a hora de eu pegar o ônibus de volta para Sampa.
Cheguei em Sampa e, é claro, a chuva continuava. Até o momento em que termino de escrever isso aqui, ela ainda não parou. Não sei como está no Rio, mas não me surpreenderia ao descobrir que o tempo abriu poucas horas depois da minha partida.
Quando chegou o momento de decidir o que fazer com a minha mudança de Londres para Sampa, que não era pouca, eu fiz uma pesquisa internética de preços e serviços. Pedi orçamentos para várias empresas de frete internacional, e decidi por uma que parecia um presente dos céus: por metade do preço das outras, mandava caixas de papelão para sua casa, buscava a carga, e entregava em poucas semanas no país desejado. Tudo o que eu deveria fazer era buscar meus pertences no porto de Santos.
Rá.
De fato tudo o que eles prometeram se cumpriu. Quando eu desembarquei em Guarulhos minha mudança já estava me aguardando no porto de Santos a semanas. A triste realidade se revelou quando chegou a hora de ir lá buscar tudo. Eu tinha mandado quatro caixas para o nome e endereço do meu pai.
DIA 1: Na esperança de resolver tudo num dia, fomos eu e Pai para:
1. Pagar as taxas extra da companhia de transporte, o que foi a parte mais veloz e simples de todas. Descobrimos que uma das caixas havia sido danificada no transporte, e precisarímos ou agendar uma vistoria para os dias seguintes, ou abrir mão de reclamar quaisquer danos da companhia.
2. No escritório do armazém, Pai assinou o termo que abria mão da vistoria; conseguiu o número do registro de carga.
3. Visita ao escritório da Marinha Mercante para registrar o CPF de Pai e ganhar o privilégio perante a Marinha de receber cargas internacionais. O lugar só abria depois das 14h. Chegamos lá e fomos indicados para a mesa da Fulana.
3a. A Fulana olhou para nossa cara, nossos papéis, e nos mandou falar com a Cicrana, da mesa ao lado.
3b. A Cicrana olhou para nossa cara, nossos papéis, e nos mandou falar com a Beltrana, na mesa logo à direita.
3c. A Beltrana olhou para nossa cara, nossos papéis, e nos mandou de volta falar com a Fulana, na mesa logo à frente.
3d. A Fulana olhou pra gente de novo e disse que então só quem podia resolver era a Coisinha, que estava chegando do almoço.
3e. Quando chegou do almoço, a Coisinha, sem opção, tomou conta do nosso caso, mas, para minha infelicidade, o sistema de registro na Marinha caiu, não voltou o resto do dia (eu esperei) e assim tive que retornar para Campinas.
DIA 2: Lá fui eu de ônibus para Santos continuar minha missão.
3f. Cheguei antes do almoço na Marinha Mercante, fui falar direto com a Coisinha, que me afirmou entre um sonho de valsa e outro que o sistema hoje estava funcionando. Daí se deu conta de que tinha esquecido de pedir pro meu pai assinar um papel quando estava lá no outro dia, e falando baixo me disse para clandestinamente falsificar a assinatura do meu pai pra resolver aquilo, o que fiz na mesma hora.
4. Achando que agora ia, segui para a Alfândega. Perguntei na portaria onde resolvia o meu problema, e me mandaram para uma sala no primeiro andar.
4a. O tio do guichê olhou para a minha cara e me mandou para um guichê no segundo andar.
4b. O tio do guichê do segundo andar olhou para a minha cara e me mandou para outro guichê do outro lado do mesmo andar.
4c. No guichê do outro lado, três funcionários liam e-mail e jogavam paciência impassivelmente, não se prontificando a dar um auxílio que fosse, porque o responsável por bagagem já tinha saído pra almoçar.
4d. Horas depois, já almoçados todos, o tio adequado me diz pra ir pro terceiro andar pegar uma senha para liberação da minha carga.
5. No terceiro andar, depois de esperar e ser atendido com má-vontade, me dizem que eu não podia pegar a senha porque a carga estava no nome do meu pai, e ele precisaria endossar o documento do registro de carga com firma reconhecida transferindo-a para mim caso eu pretendesse retirá-la sem ele. Revoltado, voltei para Campinas.
DIA 3
6. Munido de documento endossado e com firma reconhecida, procuração just in case e exercícios de respiração zen-budista, voltei para o terceiro andar da Alfândega e peguei a tal senha.
7. De volta ao guichê do segundo andar, fui informado que deveria fazer uma lista dos meus pertences presentes na mudança, dando valor a eles. E que deveria comprovar minha moradia no estrangeiro por período maior que um ano. Não, meu passaporte carimbado com todas as minhas idas e vindas não servia. E deveria comprar um envelope específico para encaminhar tudo, vendia nas papelarias ao redor. E que só retornasse depois do almoço.
8. Fui na papelaria e comprei um envelope, fui numa lan-house e tentei imprimir meus extratos bancários britânicos sem sucesso porque não lembrava a senha. Acabei imprimindo os editoriais da Jungle Drums em que se afirmava que eu trabalhei lá por um ano e torci para que colasse. Aproveitei e imprimi a lista dos meus pertences de forma genérica.
9. De volta ao mesmo guichêe da Alfândega, o tio deu entrada no meu pedido, passou meia hora dando comandos e digitando registros no computador, e daí entregou o monte de papéis para seus chefes. Que olharam, olharam, olharam, se convenceram que eu tinha morado no exterior e não era muambeiro, e liberaram minhas caixas de pagar impostos. A vistoria fiscal nas minhas caixas ficaria para o dia seguinte.
10. Soltando fumaça de raiva, segui para o escritório do Armazém para descobrir quanto deveria pagar já que ia retirar a carga no dia seguinte. Enfiaram a faca até o cabo, e eu, vendo minha conta entrar no vermelho, paguei.
DIA 4: Fui eu sozinho mais uma vez, deixando Pai e sua caminhonete de sobreaviso.
11. Caminhando e bufando descobri onde era o armazém, e depois de meia hora andando cheguei na portaria.
11a. O tio da portaria disse que ali era pra retirada da carga, que para marcar a vistoria eu devia ir para a outra portaria.
11b. Uma mocinha me recebeu, disse que estava já ciente do meu caso, tirou mais xerox, preencheu mais formulários, levou tudo para baixo e para cima, e me pediu pra esperar o momento da vistoria na sala dos despachantes, onde passei duas horas lendo revistas do ano passado.
12. Depois de muito tempo, me avisam pra ir lá acompanhar a abertura das caixas e aguardar o fiscal, que tinha chegado. Quase vendo a luz no fim do túnel, fui para o armazém em si, onde me apontaram minhas caixas. A que havia sido danificada estava toda remendada com fita para manter o conjunto coeso, já que o lado havia se rasgado. Mas aparentemente nada havia se perdido.
12a. Uma hora e tanto mais tarde, finalmente o fiscal dá o ar de sua graça. Ele chega, olha de longe minhas caixas abertas, me libera sem quase falar comigo. As caixas são fechadas, ainda incerto se ele tinha realmente me liberado, eu ligo pro meu Pai descer a serra.
13. Duas horas mais tarde, Pai avisa que está chegando; a mocinha me diz que é só entregar os mil documentos para o guichê na saída para “Uma última conferência”. Feliz que a via crucis vai chegar ao fim, entrego tudo ao rapaz do guichê, que, depois de muito conferir, me pergunta onde está a exoneração do imposto de renda. Eu pergunto, incrédulo, que exoneração, ninguém tinha me dito nada a respeito. Mas precisava da exoneração, a Secretaria da Fazenda ficava logo ao lado da Alfândega, quem sabe eu não conseguia pegá-la aberta? Desejando uma morte lenta e dolorosa a todos os burocratas e funcionários públicos, encontrei Pai, corremos até a Secretaria, mas ela já estava fechada.
DIA 5: Não aguentando mais ver a rodoviária de Santos, eu desço de novo a serra.
14. Portando o Envelope Com Todos Os Documentos, depois de perguntar para pessoas eu localizo o lugar em que se faz a tal exoneração. O tio lá quase me mandou de volta para o primeiro andar para que eu fizesse um registro preliminar eu mesmo, mas ficou com dó da minha cara desesperada, resolveu que seria mais fácil se ele fizesse tudo lá em cima, e em meia hora imprimia meu comprovante de exoneração. Ligo pra Pai de novo.
15. No meio da tarde, Pai chega no armazém comigo. Entregamos tudo naquela primeira portaria, e descobrimos que temos que esperar porque eles têm que registrar o carro e o motorista.
16. Mais uma hora de espera até que autorizem a entrada de carro e Pai… e ninguém mais. Eu tive que sair do carro e entrar pela outra portaria, como visitante, para ajudar a carregar as caixas na caminhonete.
17. Saímos eu por uma portaria, Pai e carro pela outra, com as caixas finalmente dentro da caminhonete. E eu convencido que valia muito mais ter pagado o dinheiro que as outras companhias, que entregavam em casa, cobravam a mais.
Pra minha mãezinha já telegrafei
Que já me cansei de tanto sofrer
Nesta madrugada estarei de partida
Pra terra querida, que me viu nascer
Já ouço sonhando o galo cantando
O inhambu piando no escurecer
A lua prateada clareando a estrada
A relva molhada desde o anoitecer
Eu preciso ir pra ver tudo ali
Foi lá que nasci, lá quero morrer
- Goia e Belmonte, Saudades da minha terra
E foi assim, mais uma vez de madrugada, que eu deixei Lisboa - dando um adeus sonado e agradecido à Aline, descendo as escadas dela uma última vez e tomando rumo para o aeroporto, por ruas que dessa vez eu conhecia bem melhor. As avenidonas vazias já sentiam como o caminho para casa, e o misto de ansiedade, impaciência e medo já se faziam sentir uma vez mais. Dessa vez o retorno era definitivo até segunda ordem.
Tendo de novo ido dormir tarde na noite anterior por conta do rolê pelo Bairro Alto na noite anterior, o embate contra o sono se estabeleceu antes do que eu gostaria. Enquanto havia o que fazer - desmontar a bike uma vez mais, comer algo enquanto lia Os Lusíadas, empolgadíssimo, desbravar o aeroporto - eu tinha uma certa vantagem, mas quando as atividades se acabaram e só me restava esperar para que abrissem o check-in, Morfeu foi ganhando força, e só mesmo o muito medo de perder o vôo me manteve (mal) desperto.
No fim das contas, minha bagagem toda - as mochilinhas e sacolas amarradas juntas, para virar um volume só, e a bicicleta desmontada como outro - não deu excesso de peso, o que muito me tranquilizou. Ela teve que ser entregue num terminal especial para bagagem fora do tamanho-padrão, no entanto, o que só fez aumentar meu perpétuo temor das minhas coisas acabarem no Timbuktu.
Ainda tive que lutar contra o sono até depois da primeira refeição, uma hora depois de iniciado o vôo - a fome dava uma força. Assim que recolheram minha bandejinha, no entanto, me acomodei o melhor que podia e puxei o ronco; quem já conseguiu dormir nas cadeiras de faquir do ônibus entre Barcelona e Madri consegue dormir em qualquer frincha.
Horas depois, já do outro lado do Equador, os chutes na parte de trás da minha cadeira me despertaram. Resolvi manter a boa e não fiz mais do que lançar alguns olhares fulminantes para o moleque de quatro anos que mal se mantinha na poltrona anterior à minha, o que, obviamente, não surtiu efeito algum. Durante todo o resto do vôo Mateus, o moleque, pulou, gritou e se revirou, sua avô, ao lado, tentava apaziguá-lo, e os passageiros ao redor se dividiam nas facções que achavam ele uma graça e os que gostariam de distribuir seus órgãos para transplante.
Conforme o avião se aproximava, minha inquietação ia aumentando, mas eu não tinha a liberdade do Mateus para me remexer e pular e gritar; duvido que muita gente fosse achar isso uma gracinha, e eu acabaria espalhado entre vários doentes agradecidos. Como não era o único, só me restou entrar nas prosas dos passageiros no entorno, dominadas principalmente por um casal de brasileiros que voltava à pátria amada pela primeira vez depois de vinte e tantos anos morando em Portugal. Concordando com a cabeça e fazendo comentários genéricos entretive a última hora antes do pouso.
Voltar para seu próprio país sempre é moleza, chega a ser quase anticlímax para alguém como eu que durante um ano se acostumou a temer o povo da imigração cada vez que voltava para a Inglaterra. Mas, para manter a emoção, a espera para ver minha bagagem surgindo na esteira foi longuíssima. O medo de ser parado na alfândega também rolou, como sempre, mas mesmo com uma bicicleta no carrinho de bagagem não houve qualquer problema.
E então foi só atravessar o portão, e encontrar a família inteira me esperando. E eu estava de volta em casa.
Eu tenho uma confissão a fazer.
Essa história toda de viagem de bicicleta pela Europa não passava de uma desculpa para conhecer a Costa da Caparica.
Meu sobrenome é Caparica, afinal. Desde que eu descobri que em Portugal existia uma praia cujo nome era o meu sobrenome, eu resolvi que um dia iria para lá. Achava o fim que ninguém da minha família conhecia o lugar. Em algum ponto da minha estadia em Londres, eu decidi que sairia da ilha, iria para França, e dali iria pedalando até Lisboa, para conhecer a Costa da Caparica.
Mas daí o Gui me disse pra eu visitar ele em Amsterdam antes de ir embora, e eu resolvi que fazia sentido, então eu decidi começar por lá. Depois, a Tutu me chamou para visitá-la na Itália, então eu achei que o desvio fazia sentido. Em seguida a Ludmila me chamou para conhecer o sul da França onde ela morava… e assim se traçaram todos os desvios que eu já narrei aqui.
Santa Déia em Seu Lar tinha usado seus contatos para me descolar um teto acolhedor em Lisboa: eu ficaria no apartamento da Aline, amiga do Marcelo, amigo da Déia. Sim, esse lance de amigo do amigo do amigo é um pouco assustador, mas tudo tinha dado tão certo até o momento, não havia porque não confiar que ia dar certo nesse final de jornada.
Cheguei em Lisboa pela manhã. O aeroporto da capital portuguesa difere dos de outras cidades importantes da Europa em que é bem próximo da cidade em si; a Aline tinha me dado instruções de como chegar na casa do Marcelo, e em nenhum momento tinha-se que pegar estrada ou algo do gênero.
Depois de montar a bicicleta, fui avançando por solo lusitano debaixo de um tempo ensolarado. Logo de cara, eu trombo com um outdoor exibindo… a Ivete Sangalo. Ela é a garota-propaganda de uma cerveja portuguesa, e está por todas as partes. Quanto mais eu adentrava a cidade, mais eu me dava conta da dominação brasileira na terrinha: cartazes com shows de Marisa Monte (esperado), Chico Cesar (curioso), Sandy & Junior (impressionante) e Gian & Giovani (incrível).
Mas comovente mesmo foi, depois de meses em que ao esforço de encontrar caminhos se somava o exercício mental de pedir orientações em língua estrangeira, poder simplesmente parar e perguntar como chegar à avenida tal sem ter que pensar. Tudo bem que os sotaques diferem bastante, mas eles nos entendem e a gente entende eles. Consegui chegar no apartamento do Marcelo sem maiores contratempos que minha sacola de supermercado cheia de bugigangas estourando no meio de um cruzamento lusitano.
Fui recebido pelo colega de apartamento do Marcelo, já que ele estava trabalhando. Depois de comer um pouco, tirei uma soneca (havia dormido quase nada na noite anterior), e depois resolvi ir conhecer a cidade, já que fazia um dia lindo lá fora. Me informei de onde ficava um metrô, do metrô perguntei onde era a oficina de turismo, e na oficina eu descolei um supermapa de Lisboa que indicava as principais atrações da cidade - procedimento padrão.
Deixei a Angelana presa perto da Praça do Comércio, e fui andando pela margem do Rio Tejo. Logo me vi na frente do Museu do Fado, e, apesar de ser meio avesso a museus, não resisti: paguei entrada e fui ver qual que era a do fado. Gostei horrores, é um museuzinho muito bem organizado, mostra a trajetória do fado toda, cheio de recursos multimídia.
Dali eu saí e resolvi visitar o castelo de são Jorge. Perguntei para uns transeuntes como eu fazia para chegar lá, eles me olharam com uma cara incrédula e me disseram para subir sempre, ora pois. E eu esperando uma indicação de ruas. Achei que isso seria uma prova da parvoíce lusitana, mas certos estavam eles. O castelo de são Jorge fica no alto do morro, e para chegar lá pega-se um emaranhado de ruelas jogadas pelas encostas. É virtualmente impossível descrever um caminho do sopé até o cume sem listar trinta ou quarenta vias. O mais sensato é simplesmente subir sempre, que mais cedo ou mais tarde chega-se no castelo.
Durante minha tenra infância toda ensinaram-me a desenhar castelos com torres de dentinhos quadrados no topo. Provavelmente vem desse castelo, que é exatamente assim. O castelo por si só já é muito legal de se ver. Além disso, ele oferece uma vista fantástica da cidade, e nele também está uma apresentação multimídia que conta (meio apressadamente, devo dizer) a história de Lisboa. Dentro do castelo e à sua volta, lojinhas e mais lojinhas com todos os suvenires que você pode querer e imaginar de Lisboa.
À noite conheci Aline, minha anfitriã, e ela me instalou confortavelmente em sua casa. De lá, fomos jantar na casa de amigos do Marcelo, os quais nos deleitaram com uma legítima bacalhoada lusitana (de bacalhaus noruegueses, todavia; aparentemente não existem mais bacalhaus nas costas portuguesas). Nessa ocasião, descobri que bué giro quer dizer muito legal, e me convenci que, parafraseando Mark Twain, Brasil e Portugal são dois países separados pela mesma língua.
No dia seguinte, fui euforicamente cumprir minha missão de conhecer a Costa da Caparica. Pedalei até a estação de trem mais próxima, descobri como fazia para cruzar o estuário do Tejo, e uma hora mais tarde Angelana Paula estava rodando em direção à praia que me dá o nome. A jornada demorou um pouco mais do que devia porque eu não resistia tirar uma foto junto de cada placa com “Caparica” escrito que passava pelo meu caminho.
A Costa da Caparica é uma cidade-satélite de Lisboa, e, devo orgulhosamente dizer, possui as melhores praias que eu vi na Europa. Até porque segue o conceito brasileiro de praia: ondas, areia, alegria. Da cidade em si, desenrolam-se quilômetros e quilômetros de praias, mais ou menos familiares, ao gusto do banhista. Comprei um par de óculos de sol muito giros no começo das praias (os anteriores tinham sido roubados em Barcelona), montei na bike e fui pedalando até a última. Me tornando cada vez mais envaidecido da minha costa, e cada vez mais convencido de que os britânicos são um povo muito triste por crescerem tendo Brighton como referência de praia.
À noite eu e Aline íamos fazer alguma coisa, mas acabamos nos descobrindo cansados demais para sair de casa, e ficamos vendo novela. Belíssima se aproximava dos capítulos finais, os quais eu não tinha assistido via internet na Inglaterra. Para minha indignação, porém, constatei que em Portugal ignoram acintosamente o padrão Globo de qualidade. A novela começa atrasada, reprisa dez minutos do dia anterior, e daí segue com mais quinze minutos de novidade. As interrupções para intervalos comerciais com ganchos cuidadosamente planejados pelos autores são desconsideradas, e os comerciais entram quando os portugueses acham que têm que entrar, mesmo que seja no meio de uma cena. Revoltante.
Meu penúltimo dia na Europa foi gasto batendo perna pelo Chiado, onde se encontram inúmeras livrarias e restaurantes. Visitando a Fnac que fica num shopping na área, me dei conta de como o Brasil já colonizou Portugal. Seção de discos: uma estante de dois metros de largura de discos portugueses, outra do triplo do tamanho de discos brasileiros. Seção de livros: a quantidade de livros portugueses é tão inferior à de brasileiros que acharam por bem unir tudo como literatura lusófona. E não se iluda: de recente, tem bem pouca coisa lusitana mesmo.
No dia final, Marcelo ia fazer uma feijoada na casa de amigos seus que moravam perto de Estoril, e levou eu e Aline junto. A feijoada demorou para sair; enquanto esperávamos, deixamos o Marcelo cozinhando e fugimos para a praia. À noite, Aline me levou para o Bairro Alto, onde brotou a boemia lisboneta. Bares e mais bares, de todos os tipos, num passeio delicioso que eu devia ter feito antes.
E, na manhã seguinte, fiz a pedalada final de volta para o aeroporto, já mal contando as horas. O Brasil me esperava.
Num desses acessos de paranóia que tanto cabem aos ditadores, o generalissimo Franco, em seus tempos de Guernica e outros crimes contra a consciência limpa, resolveu que corria-se o risco de que as nações vizinhas invadissem o soberano espaço espanhol… de trem. Para evitar tal ultraje, ele fez com que os trilhos das estradas de ferro espanhola fossem mais estreitos que os trilhos usados no resto do mundo, garantindo que apenas trens espanhóis conseguissem correr sua grande fatia da península Ibérica.
As consequências disso são: no Brasil, por uma dessas idiossincrasias que tanto nos caracterizam, metade dos trilhos foram feitos segundo o padrão inglês (e mundial), e outra metade foi feita seguindo o padrão espanhol, o que faz com que a integração da malha ferroviária impossível; e, quando se viaja de trem para a Espanha, não existe trem expresso, sempre tem que se parar na fronteira, ir para o outro lado da estação e pegar outro que te leve a seu destino. Foi assim que numa madrugada fria lá estava eu de novo fazendo mais uma dessas manobras que tanto caracterizam essa minha viagem, carregando bicicleta e malinhas de uma plataforma para outra a fim de chegar naquela manhã em Barcelona.
Não era a primeira vez que eu punha meus pés nessa cidade; depois que fiz o Caminho de Santiago eu estiquei até lá, e um ano depois eu aproveitei uma semana em que as coisas estavam mais tranquilas para retornar enquanto ainda era verão. Em todas as vezes (incluindo a atual) minha super anfitriã era Andréia Moroni, colega de faculdade e amiga para toda a vida, menina de planos tão destemidos quanto eu. Foi quem me inspirou a fazer o Caminho de Santiago; do meu círculo de amigos, foi a pioneira em se casar, a pioneira em migrar para estudar em terras estrangeiras, e a pioneira em se divorciar. Quando, há seis anos, eu pedi sua barraca de camping emprestada para que eu fosse passar o carnaval em Trindade, não imaginava que iniciava uma amizade que daria tantos frutos.
A novidade dessa visita é que, dessa vez, Andréia desbrava mais um limiar da vida antes de todo mundo, e está mais que levemente grávida. Quando cheguei em seu novo velho apartamento no centro de Barcelona, JP, o pai da criança, foi me receber nas escadas, enquanto Andréia me esperava redonda na porta do apê. Nas visitas anteriores a gente já tinha discutido seus planos de adentrar a horda das mães tatuadas e modernas, e pude ver imediatamente que ela estava cumprindo suas promessas: me abraçou vestindo um top que deixava a superbarriga à mostra, com o tigre que ela tem tatuado nas costelas já levemente deformado e um piercing colorido no umbigo, a esse ponto já totalmente distendido. Me instalaram no que será o quarto de Mateo, o rebento, e tudo indica que JP e Déia serão os pais mais legais de todas as galáxias: no berço, um ursinho se escondia de vários aliens de pelúcia que dominavam o quarto.
Barcelona é uma cidade linda que sempre me faz feliz por simplesmente estar lá. Seus cruzamentos octagonais e ruas largas enchem-na de sol, os prédios do Gaudi a temperam com um sabor único, as ramblas chamam para que se esqueça as preocupações da vida. Apesar de ser uma cidade costeira, as partes legais da cidade estão longe do mar; na verdade, para se pegar uma praia em Barcelona necessita-se um esforço razoável. Eu já tinha conhecido os principais pontos turísticos da cidade (Parque Guell, Catedral da Sagrada Família, Bairro Gótico…) nas minhas outras visitas, então nessa minha estadia apenas me dediquei a percorrer a cidade montado na Angelana Paula, situar tudo em meu mapa mental, e torrar nas praias o máximo possível.
Déia mora em Gracia, região muito bacana e central de Barcelona, e que, justo no dia em que eu cheguei, estava iniciando seu tradicional Festival de Gracia, em que os moradores das ruas decoram suas calles (ou, sendo apropriadamente catalão, carrers) com temas de sua própria invenção, para uma semana de festa de rua e música. Feitas em geral com sucata, as decorações iam do cafoninha ao bem bolado, mas sempre divertido e entertaining. Várias noites, num de ja vu da minha noite em Cambrai, eu ouvia bandas de alguma rua dos arredores cantarem animadamente sucessos do Roxette com sotaque castelhano.
Os espanhóis almoçam às quatro da tarde e jantam quase no dia seguinte; Déia e JP já tinham se adaptado aos horários, mas eu custei um pouco. Mas valia a pena: JP, sendo mexicano, cada dia agraciava sua esposa e o hóspede intrometido com delícias de sua cozinha natal, que me faziam lavar a louça com alegria. Nos momentos de ócio, eu assistia aos seriados enlatados devidamente dublados em castellano, e assim me diverti imensamente assistindo Embrujadas, Perdidos e Mujeres Desesperadas. Tirando isso, tive mais uma prova de que a rede Globo está entre as melhores do mundo, a TV aberta espanhola dá vontade de chorar. Mas nada ainda bate o desleixo da TV italiana.
Depois de uma semana de minha presença na casa, Rolando, um amigo de JP, chegou para visitar o compadre antes de retornar a Guadalajara. Eu me transladei para a sala, e aumentei meu convívio com Chope, o gato amigo. A chegada do Rolando deu novos ânimos para os passeios, e continuamos a sair para comer tapas à noite. Um dia nós três e meio visitamos um museu científico no alto dos morros de Barcelona que apresentava um pouco de tudo, desde biologia até f&isica;, incluindo uma mini mata alagada onde descansava impávida uma capivara brasileira, bicho que os olhos mexicanos de JP nunca tinham visto. Me surpreendi me empolgando com os experimentos que o museu oferecia para explicar o mundo na prática, desde a quinta série que eu não passava por isso.
Ao fim de vários dias de reflexões e cálculos mentais, resolvi que gastava a mesma coisa e seria mais útil descartar minha passagem de Air France e tentar comprar uma outra que me levasse antes para o Brasil. Foi assim que depois de alguma pesquisa internética no meio de agosto, comprei um bilhete de TAP saindo de Lisboa para São Paulo na semana seguinte. Uma mudança de planos tão súbita que até eu passei alguns dias atordoado, mas que foi comemorada com iupis! e uhuuus! saltitantes da Ana Paula, lá no Brasil.
Meus últimos dias de Barcelona passaram voando, e seu grande barato foi filosofar com a Déia e acompanhar o desenvolvimento de Mateo, o rebento. O garoto está enorme, e depois de uma visita ao médico ela voltou com a notícia de que ele provavelmente nasceria duas semanas antes do previsto. Estava com ela no metr&oacirc; quando ela me anunciou que estava tendo contrações, as quais continuaram até a noite, mas felizmente, depois de que JP a levou para a maternidade levemente preocupado, não passaram de alarmes falsos ou, como bem disse a Déia, um ensaio geral para a grande noite. Ela ainda não se acostumou ainda com o conceito de dar leite e morre de vergonha cada vez que os peitos escorrem, e não tem defesa minha a favor do conceito da vaca das divinas tetas que a faça parar de ficar constrangida.
Foi com o aperto no coração de sempre que exatamente duas semanas depois de chegar eu me despedia da Déia em plena madrugada, para partir a meu destino final antes de retornar ao Brasil. Ficou a promessa de retornar assim que possível, para matar a saudade, conhecer Mateo ex utero e dar uma força à Déia em seu propósito de fazer que esse moleque, que vai nascer com três nacionalidades e que vai ter que aprender duas línguas para sobreviver em Barcelona, ainda aprenda português. Espero que seja em breve.
Depois de tantos dias de turismo pelos drops marítimos de Côte d’Azur, chegou a hora de iniciarmos os preparativos para nossas partidas iminentes. Lud ainda tinha que comprar coisas e mais coisas para a sua viagem, e eu, sempre feliz em acompanhar, fui ajudá-la a carregar as sacolas.
Dessa vez conseguimos acordar num horário decente e chegamos no Mercado Municipal de Antibes a tempo de pegar as barracas ainda armadas. Com seus conhecimentos culinários aprimorados por meses de cuisine française, Lud ia desbravando as tendinhas todas, provando patês e temperos que eu nunca tinha visto mais gros. Em seguida, voltamos à loja dos azeites, onde Lud voltou a ter seus dilemas por excesso de opção mas, depois de vários momentos de angústia, comprou uma garrafa de azeite francês doce mesmo. Próximo item na lista de compras era uma mochila para que ela carregasse tudo, a qual foi comprada não sem uma boa pesquisa de preços, porque nós somos brasileiros deslumbrados na Riviera Francesa mas não somos tontos.
Lud voltou para casa mais cedo para despedir-se de seu alemão confortavelmente; eu fiquei percorrendo a cidade, para gravá-la na memória e dar tempo aos dois. Eu tinha deixado Angelana Paula pra fazer um check-up na única bicicletaria da cidade no dia anterior; no fim da tarde fui buscá-la, e na hora combinada cheguei no hotel. Os dois tinham se desencontrado, e Lud estava desconsoladamente tentando fazer com que todos os seus pertences coubessem nas malas. Eu também fiz minhas malas compactas, e assim que tínhamos liberado espaço o suficiente, começamos a maior faxina que aquele quarto já tinha visto: Lud tinha que entregar o apartamento às sete, e sempre é bom evitar dores de cabeça. Migramos toda nossa bagagem para o quarto da Ava, amiga e também estagiária que morava no andar de baixo, terminamos a faxina com um belo pano úmido da varanda até a porta de entrada, e não voltamos a colocar os pés sujos lá dentro.
Ocupada e popular como é, nessa última noite Lud foi visitar os outros N amigos e pretês que ela ia deixar na França, enquanto eu fiquei no apartamento da Ava recebendo os recados e as pessoas que iam lá se despedir dela. O alemão enamorado apareceu lá, quase foi embora sem vê-la, mas eu consegui segurá-lo num papo furado em francês tempo suficiente para que se encontrassem na saída. Lud voltou aos prantos depois de uma noite de despedidas, mas no fim foi bom.
Meu despertador biológico anda cada vez mais apurado; no dia seguinte, acordei sozinho a tempo de despertar Ludmilla para que não perdesse seu vôo. Meu trem para Barcelona só sairia à noite, o que me deu mais um dia para matar em Antibes. Passeei mais um tempo a esmo, parei pra ver um cara que tocava violão clássico na rua, e, seduzido pela fada verde, fui pro bar em que tinha sido tão feliz e comprei um vidrinho de essência de absinto (70% de teor alcólico) para misturar nas minhas coca-colas quando estiver no Brasil.
Ludmilla levou consigo o Code Da Vinci que eu vinha lendo; depois de um breve embate interno, na hora de ir embora decidi que era melhor comprar a minha cópia para não ficar sem saber como terminava aquela desgraça. Too bad. Acontece que o comércio no primeiro mundo fecha às sete da noite (loja aberta até as dez só no Brasil, e loja 24h é um conceito quase exclusivo de São Paulo…), as livrarias já tinham todas se fechado. Corri para um supermercado que fazia o esforço de ficar aberto até as oito da noite, fui na seção de livros… e, desacreditei, não tinha uma cópia sequer dessa minha nêmesis que me perseguiu por anos, mas quando eu fui atrás dela me eludia. Para ter-se uma idéia do prestígio da nossa literatura na França, no super tinha TODOS os livros do Paulo Coelho devidamente traduzidos, mas nada do Dan Brown. Quase em pânico com a possibilidade de uma longa viagem de trem sem nada pra ler, comprei dois livrinhos cujo autor aparentemente era francês legítimo e que aparentemente não era uma das Sabrinas da vida.
O autor (ou autora? O ser assina apenas como Cavanna) parece ser francês mesmo. Já a história…
Que com um simples beijo pode-se aprender um idioma não há dúvida. Você beija uma chinesa, aprende chinês; chupão no alemão, alemão; um estalinho na francesa: oui.
A questão é quando forem comprovadas as propriedades medicinais do beijo, e, conseqüentemente, da língua, o constrangimento da família dessa menininha, na fila de espera por uma lambida compatível com seu pequenino coração.
- Michel Melamed, Regurgitofagia
Segunda-feira partimos na direção contrária. Destino: Mônaco. Se em Cannes já empinávamos os narizes para passarmos despercebidos, lá os elevamos ao nível do torcicolo, correndo riscos reais de vida já que não víamos o que cruzava nosso caminho, mas sem jamais perder a pose. Mônaco, segundo menor país do mundo (depois do Vaticano), paraíso fiscal mais chique da Terra. Você já se sente mais in só de estar lá.
A primeira providência que tomei ao chegar foi procurar um par de óculos escuros que me salvasse da cegueira iminente. Havia perdido meus fiéis óculos rachados em algum ponto do trajeto do dia anterior, e ia entrando em desespero quanto mais tempo passava ofuscado pelo sol de cândida que fazia. Obviamente, estando onde estava, a missão de encontrar qualquer coisa que coubesse no meu orçamento era bem complexa, mas depois de alguma pesquisa quase às cegas no centro comercial comprei um bem vagabundo numa banca de souvenires.
Já que já estávamos por lá, entramos num shopping center dentro de uma montanha, onde acabamos por almoçar. No alto do shopping tinha um museu exibindo a coleção de carros do príncipe, mas consideramos demais pagar pra vê-la, meu primo também fazia o mesmo, só que não eram em tamanho natural. Não sabíamos ainda, mas esse museu destilava a essência da cidade.
Mônaco é um principado que respira a vida de sua família real, não estou bem certo se por opção ou não. Existem ruas e mais ruas do príncipe ou princesa tal, tenho certeza que se um principito não tem a sua deve fazer um ataque de birra até consegui-la. Um dos principais pontos turísticos é a mansão do príncipe, no alto de uma montanha, com vista para o porto. Na praça em frente, uma estátua do primeiro Grimaldi, cuja família até hoje reina sobre Mônaco. E, como ser da realeza não resolve problemas de rejeição e auto-estima, por lei todas as lojas têm que ter um retrato do príncipe Albert III, de preferência na vitrine. Sem brincadeira. Batemos um lero com uma atendente de uma loja, e ela disse que quando o príncipe Rainier morreu todas tiveram que colocar uma bandeira de Mônaco na entrada em sinal de luto, e daí trocaram os retratos do príncipe antigo pelo novo.
Além disso, o GP de Formula 1 também ocupa uma parte importante na imagem da cidade. O mapa que você pode pegar no escritório de turismo vem com as ruas do trajeto demarcadas pra quem quiser percorrer, e existem bancas que vendem retratos dos principais pilotos em vários pontos da cidade, inclusive (ainda) do Ayrton Senna. Não esqueçamos, afinal, que ele ganhou a prova seis vezes.
Mas é inegável que a cidade é linda de morrer. Descendo do palácio do príncipe, entra-se em jardins encarapinhados nos rochedos, tudo muito lindo e bem-tratado, quase caindo naquele mar azul-mentira ao qual nunca se acostuma. Muitas fotos e suspiros depois, contornamos o porto, lotado de iates carésimos, e seguimos para o cassino de Mônaco, um prédio lindo todo em estilo art-noveau, na frente de uma longa praça que deve estar entre as mais bem-cuidadas do mundo, repleta de esculturas modernas e contemporâneas (entre elas um dos relógios do Dali). Mais pra frente, eu e Lud encontramos uma exposição do Romero Britto no shopping Metropole – e devemos ter sido os seres mais empolgados com ela que passou por aquele templo do consumo. Lud fotografou todas as obras, eu algumas, só pra fazer invejinha no povo da Recesso.
Sobe e desce ao longo da costa, passa um parquinho de diversões, tendas de mágicos vendendo equipamento de ilusionismo, fomos chegando em Monte Carlo, cidade gêmea siamesa de Mônaco. Por então já se aproxima das praias, e, ao lado de placas anunciando as grifes que se encontra na rua, vê-se outras que avisam que é proibido andar na rua sem camisa, e apenas em trajes de banho, então, é inconcebível. Afinal, ali, imagem é tudo.
Já meio cansadinhos de tanto andar, resolvemos parar na praia pra quem sabe cair na água um pouco. Sentamos nas pedrinhas, reparamos que ninguém entrava nas águas mais calmas que chá de camomila, e achamos que havia de ter algo de errado nelas. Provavelmente não, apenas nenhum dos pseudo-banhistas queria adicionar o caótico fator água em seu visual, mas por via das dúvidas… Enquanto observávamos as pessoas lindas e bronzeadas a ouro, no entanto, vimos a horripilante figura de uma legítima vítima de anorexia, uma esqueleta de biquíni preto e óculos escuros, cuja pele bronzeadésima embrulhava os ossos e me embrulhava o estômago. Com que músculos ela se movia não sei, porque não se via, mas ela ia se equilibrando de um lado pro outro, e a gente não conseguia tirar os olhos dela, com o mesmo fascínio que se tem por um acidente de ambulância. Entristecedor e deprimente. Tanta gente linda pra gente ver, e não conseguíamos, a mirada sempre voltava praquele cabide vivo que ainda devia se achar muito gorda. Nos estragou tanto a praia que decidimos ir embora dali. Já era riqueza demais pro meu gosto.
Aos poucos eu devo estar adquirindo uma cara de nativo: durante minhas caminhadas e pedaladas por Antibes e arredores, volta e meia para alguém que me pergunta em francês como se faz pra chegar em lugar tal ou tal. Fico muito orgulhoso por alguns mili-segundos, já que deve significar que eu consigo me fazer passar por alguém endinheirado cuja excentricidade é usar uma camiseta mulambenta e desbotada, mas a fachada noveau-riche desmorona quando, num francês vacilante, eu respondo que não faço a menor idéia de onde seja o tal lugar.
Provando que somos quase incapazes de aprender com nossos erros, Lud e eu acordamos tarde domingo de novo. Mesmo assim, decidimos que iríamos a Cannes, algo que já programávamos há dias. Pegamos um ônibus rumo ao sul e, em vinte minutos, pisávamos na cidade do festival de cinema, empinando os narizes para não nos sentirmos excluídos.
Quem quer que seja que teve a idéia de fazer o festival de cinema em Cannes devia ganhar uma estátua no lugar de maior destaque possível, mas inaugurar estátua deve ter ficado demodê há muito tempo. Tudo lá faz referência a cinema: calçadas com as listas de vencedores, escadaria de hotel repetindo a mesma lista entre um degrau e outro, cabine telefônica em forma de filme… O festival move a economia de uma cidade que de outra maneira seria apenas mais uma cidade linda entre tantas. Suvenires de filmes, lojas especializadas em cinemas, e os hotéis mais chiques florecem por conta do evento. No resto do ano outros festivais e congressos ocorrem por lá, mas é inegável que seu maior atrativo é o festival.
Batendo perna como sempre, visitamos o prédio onde a festa ocorre, mas desistimos de tirar uma foto no tapete vermelho porque a quantidade de turistas competindo pra tirar a mesma foto era tão grande que mal se via o tapete, e facilmente o único vermelho que se veria em pouco tempo seria do sangue derramado pelas pessoas que lutavam para tirar foto primeiro. A avenida à beira-mar em Cannes tem todas aquelas lojas que eu já cansei de enumerar nesses relatos, com seus lânguidos vestidos que custavam módicos 1600 euros. A cada uma dessa que a gente passava, minha camiseta desbotava mais um pouco.
Quando se aproximou o fim da tarde, resolvemos tomar um solzinho; desviamos da praia paga, fomos na de grátis e nos acomodamos o melhor que podíamos. De nada valeu nossa alegria e tez brasileira, nem nossos olhares promíscuos, não conseguimos seduzir ninguém e nossas esperanças de dar um golpe do baú na Riviera Francesa se afundaram nas pedrinhas da praia. Pegamos o bumba de volta pra Antibes debaixo de chuva, tão solteiros (ou pseudo-comprometidos, no caso da Lud) quanto antes, mas não de todo derrotados porque mais oportunidades surgiriam no dia seguinte.