Chão

Daqui não passa
ocorridos31.5.2009

Demorô mas chegô

Convite da festa

Convite da festa

Muitos anos atrás a família comprou uma chácara, que depois foi divida em 3, mas que continuam irmãzinhas entre os irmãozinhos. E a família sempre fez muitas festas nesses pedaço de chão.

E desde que a Ana Paula começou a atravessar todo o processo do transplante, a chácara entrou em recesso. Não dava pra ninguém fazer um churrasquinho com ela lá. Se não tinha festa pra ela, não tinha festa pra ninguém. A minha família é assim.

E eis que tudo deu certo, e conforme a Ana Paula recuperava as forças e voltava a andar, a animação da família toda foi se reerguendo.

Ana Paula

Ana Paula

Até culminar no último sábado, data marcada para a festa de aniversário (atrasada) da Ana Paula. No dia do aniversário dela ela estava recém-operada, ainda na UTI, e a gente teve que cantar parabéns sem fazer barulho para não incomodar o resto dos pacientes. Agora a gente ia compensar com todo o barulho que a ocasião merecia, numa daquelas festas do divino típicas dos Carlos.

Foi a festa das vontades da Ana Paula. “Ah, será que podia ter espetinho de carne moída?”, disse ela uma vez. Teve. “Gosto tanto daqueles bombons de leite ninho!”. Teve. O bolo, escreveu ela numa cartinha, “não estranhe, tá, a massa podia ser branca, com recheio de doce de leite, cobertura de chocolate, com granulado colorido em cima.” Foi.

Tia Nilva, com todo o talento e capacidade que tem, criou o bolo que ela pediu, mais beijinhos, e brigadeiro de colher, e bombons, e tortas doces, e tortas salgadas… tanta coisa e tudo tão bom, comemos todos até sair pelo ouvido.

Todos foram todos mesmo: amigas da Ana Paula, seis irmãos do meu pai com seus filhos e netos todos, três irmãos da minha mãe com seus filhos e mais netos ainda. Mais primos deles, mais amigos. Quem não se via a tempo matou as saudades, quem não cantava faz tempo cantou, as crianças saíram mais sujas de terra que tatus, os cães corriam de um lado pro outro.

Se alguém ainda duvida que nós somos gêmeos...

Se alguém ainda duvida que nós somos gêmeos...

Na hora dos parabéns, eu feliz da vida, Mãinha e Anselmo chorando, todo mundo alegre, as velas que insistiam em serem apagadas mais uma vez. Depois, mais música, mais comida, mais festa, até todo mundo ir sendo vencido pelo cansaço.

Foi um pódio para a vitória da nossa irmãzinha, que conseguiu passar por cima de mais esse morro. E a gente fez questão de levantá-la.

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ocorridos26.4.2009

Força pra força voltar

Ana Paula, minha mãe e Luana, dentro do carro, logo antes de pegarem estrada para Campinas

Ana Paula, minha mãe e Luana, dentro do carro, logo antes de pegarem estrada para Campinas

Abandonei meus leitores pendurados na minha saga familiar no emocionante momento em que a Ana Paula saiu da UTI, duas semanas atrás. Bastante coisa aconteceu desde então, tudo apontando para um final feliz.

Fumpácia ficou no quarto normal de hospital uma semana. Colocaram ela na ala pediátrica do AC Camargo, muito simpática e pitoresca, com paredes cheias de ilustrações infantis e passatempos para os pacientezinhos resolverem com os dedos. A saída da UTI significava mais visitas, menos aparelhos apitando ao redor e o retorno de atividades corriqueiras como tomar banho.

Infelizmente, o único aperto por que passamos nessa semana aconteceu exatamente por conta do banho - e no meu plantão. Cheguei na terça-feira de manhã para trocar o posto de acompanhante com meu pai. Ana Paula, depois de meses deitada na cama, estava com a musculatura muito fraca, e tinha orientações para tentar andar 3 vezes por dia, cada vez um pouco mais, para começar a recuperar as forças. Antes de Pai ir para o trabalho, fomos eu e ele ajudar minha irmã a dar uma andadinha até fora do quarto. Como ela ainda estava com um soro numa mão e um dreno enfiado na barriga, para dar saída aos líquidos que se acumulavam na barriga por conta da cirurgia, esta era uma operação um tanto complexa. Um escorava a menina e segurava a bombinha do dreno, enquanto o outro empurrava o poste do soro e abria a porta, e ela reclamava e ofegava do esforço todo. Mas, devagar e sempre, deu tudo certo.

Deixamos ela sentada no sofá para que aguardasse a enfermeira chegar para dar banho - subir na cama para descer depois era muito esforço para nossa convalescente. Depois de aguardar quase duas horas, a enfermeira veio. Levei a Fumps pro banheiro e a deixei lá sentada num banquinho, segurando a bomba do dreno, para que a enfermeira viesse cuidar do banho.

Foi uma questão de dois minutos. A enfermeira entrou, encostou a porta, e eu só ouvi minha irmã reclamando cada vez mais alto: “Não vou conseguir levantar. Não vou conseguir! Não dá! EU VOU CAIR! AAAAAAAAAAAAAAA!!!!!”

Entrei correndo no banheiro e lá estava a menina sentada no banco de novo, encostada na parede, chorando aos berros. O dreno no chão, a meio metro dela, arrancado da barriga da menina. E a enfermeira tentando conter com uma toalha o líquido que esguichava do abdome da Ana Paula, parecendo um cartoon quando tenta impedir que a represa desabe enfiando o dedo na fenda.

São aqueles momentos em que é tudo tão absurdo que seus pudores caem todos. Ana Paula chorava, assustadíssima, dizia que não queria mais tomar banho, e a enfermeira insistia que claro que vai tomar banho sim. Respirei e disse pra Ana Paula acalmar que estava tudo bem. Que não, dona enfermeira, você não vai enfiar no chuveiro uma menina recém-operada e imunossuprimida, ainda mais com um buraco aberto na barriga. Que ela chamasse um médico. Bem, então vou eu chamar um médico, irmãzinha, fica aí que eu já volto, e você troca o lençol da cama pra gente colocar a menina lá.

Quando a poeira baixou, liguei pra minha mãe, que lá de Campinas acionou os médicos todos do hospital, e em dez minutos a enfermeira meio enfezada veio dizer que tentar arranjar alguma solução provisória pro problema. Daí fui eu ajudar a dar banho de esponja na menina, dar um help pra virá-la pra lá e pra cá pra trocar mais uma vez a roupa de cama.

Minha mãe veio correndo de Campinas, e eu fui trabalhar. A semana se passou sem maiores acidentes: a solução deles não deu certo, a famiglia se responsabilizou por cuidar da barriga da Ana Paula, e ensinou as enfermeiras a fazerem ponto falso direito com tirinhas de hidropore. A Ana Paula ganhou uma colega de quarto, a Ana Carolina, em tratamento de câncer aos 14 anos. Fazendo químio, sem cabelo e sem um olho, e sem previsão de que aquilo tudo tivesse fim logo. Hospital é mesmo um lugar em que se coloca tudo em perspectiva.

Enquanto não volta às aulas, Ana Paula vai ficando craque nos games

Enquanto não volta às aulas, Ana Paula vai ficando craque nos games

Enfim, na segunda-feira dia 20, antes de Tiradentes, Ana Paula recebeu alta e finalmente pôde voltar para casa. Luana, a poodle dela, quase morreu de emoção ao rever a dona: depois de dois meses de ausência, já devia estar achando que tinha sido terceirizada para sempre lá pro meu apartamento. Aninha voltou para casa com as pernas hesitantes e os braços finos, vestindo sua camiseta do High School Musical e o relógio que ganhou de aniversário como tinha planejado fazer desde que essa história começou.

Ontem eu vim para Campinas visitar a família em seu primeiro fim de semana de volta ao lar, e Aninha já demonstra melhoras visíveis. Já anda mais ereta, já come mais, deu uma passada no salão de beleza e ficou nos trinques. Deve demorar um pouco para voltar para a escola, mas tudo bem. Duas vezes por dia alguém dá uma voltinha com ela pelo prédio para que ela vá se fortalecendo aos poucos (hoje eu tive esse prazer). Luana fica a seu lado o tempo todo, e rosna para qualquer um mais estranho que chegue perto da sua dona - agora que ela recuperou a dona, não quer que ninguém a leve embora.

Em compensação, ganhando alta pós-Páscoa, o apartamento dos meus pais acabou virando um depósito de chocolate. A geladeira está abarrotada com tudo que a Ana Paula ganhou durante a internação. E cada um que chega traz um chocolatinho novo para alegrar a menina. Estamos virando sucursal do Willy Wonka.

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ocorridos12.4.2009

Transplante 2.0

No La suma de los dias, a Isabel Allende fala a uma certa altura que existem eventos na vida familiar que passam a servir de referência para todos os outros eventos na época. Coisas como “ah, isso aconteceu depois da saga dos peitos” ou coisa assim.

Bem, esse último mês vai ficar, no mínimo, como referência na vida de todos da minha família. Isso se não virar marco para redefenir todas as referências de data.

Quem não convive comigo talvez não saiba, mas minha irmã Ana Paula fez um transplante de fígado há duas semanas.

Dá pra demarcar o início do evento por volta de 2 meses atrás. Apesar de ter sempre tido um fígado problemático, e já ter feito um transplante de rim, tudo ia aparentemente bem até que, antes de uma consulta periódica com o médico do transplante, a Ana Paula começou a vomitar sangue. Eu não estava presente, mas consta que it wasn’t pretty. Obviamente o alerta vermelho soou, correram com ela pro Hospital das Clínicas, onde ela ficou internada alguns dias até ser transferida para Campinas.

Ninguém sabia direito a razão para aquilo, mas havia de ser relacionado ao fígado. O pessoal do Centro Médico de Campinas olhou, olhou, olhou, controlou a situação e deu alta. Mas dava pra ver que ela não estava bem, sempre cansada, fraquinha, a barriga inchando e a pele amarelando.

Uma ou duas semanas depois, no começo de março, os sintomas não passavam, a menina só piorava, então levaram ela de novo pro hospital. Ela foi direto pra UTI, e a família se mobilizou da melhor maneira possível pra orbitar essa situação. Minha mãe passou a dormir na UTI com ela, meu pai trocava o plantão sempre que possível, eu deixei minhas férias para depois e fiquei por aqui.

Durante as visitas que eu consegui fazer em Campinas, o quadro parecia cada vez mais preocupante. Entre uma e outra, Ana Paula ficava mais magra, mais fraca e mais amarela. Além de tudo, o rim transplantado dava sinais de que estava em risco. Cada exame de sangue ficava mais feio que o anterior.

Depois de uma estadia um tanto traumática na UTI do Centro Médico de Campinas (lugar com enfermeiras cheias de má-vontade, sem um chuveiro quente para os acompanhantes, e que deixa os pobres passarem fome apesar de terem direito a comida), uma das médicas que acompanha o caso da Ana Paula desde criança conseguiu que ela fosse transferida para o hospital AC Camargo. A essa altura a inevitabilidade de um transplante de fígado já era mais que clara, e ela foi inscrita na fila do estado de São Paulo nesse hospital. Claro que o convênio não queria ceder a internação dela sem luta, mas depois de algum conflito ele liberou a internação no novo hospital. Mas se recusou a pagar a ambulância para levá-la de Campinas para São Paulo.

A diferença de um lugar para o outro foi gritante. O caso da minha irmãzinha era claramente complicado demais para o povo de Campinas. Uma vez no AC Camargo (vulgo Hospital do Câncer, em que qualquer caso é complicado), o tratamento da Ana Paula foi ajustado e em poucos dias a situação dela melhorou. Não que ela ficasse bem - ao longo do processo, a situação ficou tão preta que ela ficou em segundo lugar na fila do transplante -, mas se ela conseguiu superar essas semanas foi graças ao pessoal do AC, principalmente à dra. Massami, uma abnegada onipresente que resgata seus pacientes do fundo dos poços.

Assim que ela veio para Sampa, meus irmãos Danilo e Anselmo começaram a fazer os exames para checar a compatibilidade entre eles e a Ana Paula para um transplante. Eu faria, mas sendo gêmeo do Danilo, acharam que não precisava - qualquer coisa, somos geneticamente idênticos e o resultado de um havia de servir par ao outro.

Duas semanas depois de vir para Sampa, a situação da Ana Paula ficou sob controle. Tanto que a posição dela na fila caiu para 50 e tantos. Então se decidiu em fazer um transplante intervivos mesmo. Os últimos exames do Danilo ficaram prontos, e os resultados vieram positivos. Conseguiram marcar a cirurgia para dali a dois dias.

O dia do transplante foi um dos mais tensos que eu já vivi. Tanta coisa acontecendo, e tudo o que eu podia fazer era manter as velas de Reiki do Danilo acesas no meu apartamento. A presença do meu tio Emerson nas cirurgias nos manteve informados, felizmente. Tudo começou às 8 da manhã, e terminou às nove da noite. Felizmente, tudo correu bem.

Eu mangando de Danilo, que mal se aguentava no dia seguinte ao da cirurgia.

Eu mangando de Danilo, que mal se aguentava no dia seguinte ao da cirurgia.

Começou então a segunda parte da história, a recuperação. Danilo ficou internado 1 dia na UTI, mais 3 no hospital. Está de repouso em casa até agora, mas no fringir dos ovos se recuperou as fast as it can.

Já Ana Paula passou por apertos bem maiores - todos normais e esperados em alguém que recebe um fígado novo, mas mesmo assim exaustivos, principalmente para uma adolescente que já está há semanas na mesma cama de UTI. Ela inchou horrores, ficou com uma sonda urinária, e um soro em cada braço. Sem falar dos exames de sangue diários.

Mãinha continuou ao lado da Ana Paula o tempo todo, revezando com meu pai quando precisava trabalhar. Eu peguei o plantão uma ou duas vezes por semana. Nunca vou me esquecer do dia em que, quando eu estava lá, precisaram trocar a agulha do soro. A menina já tinha sido tão furada por tanto tempo que nenhuma veia funcionava mais, e achar uma veia nova era dificílimo. A enfermeira tirou a agulha antiga (doloroso) e furou uma vez (muito doloroso), duas vezes (torturante), três vezes (excruciante). Ana Paula chorando e gritando, e, mais uma vez, tudo que eu podia fazer era tentar consolar e dizer que ia passar. Mais uma vez a dra. Massami came to the rescue, mesmo assim não foi fácil.

O coelho gigante ocupa o lugar do meu pai na poltrona dos acompanhantes, na UTI.

O coelho gigante ocupa o lugar do meu pai na poltrona dos acompanhantes, na UTI.

Ana Paula fez aniversário na UTI, poucos dias depois do transplante. Levamos bolo e fizemos uma festinha silenciosa e limitada a meia hora, mas já felicíssimos: Danilo, o doador, ainda internado, ainda na cadeira de rodas; Mãinha; Pai; Dany; Anselmo; Vó Maria. E eu. Também surgiu um casal tocando violão, do nada, e tocou “Como uma onda”, pedido da aniversariante. Nós todos ficamos lá tentando não chorar. Dias depois, tio Emerson veio com tia Nilva, Lucas e tio Eraldo, e deixou de presente um coelho de pelúcia maior que ela.

Enfim. Eu posso contar pouco, não passei tanto tempo lá no cotidiano do hospital. Só sei que foi um trabalho lento e cuidadoso para conseguir equilibrar o órgão novo, o rim transplantado e a recuperação da cirurgia.

Há três dias tiraram um dos soros da Ana Paula, e ela voltou a beber água, aos montes. Ontem tiraram a sonda urinária. Hoje, de presente de Páscoa, ela ganhou a alta da UTI e foi para um quarto normal de hospital. Finalmente o dia em que Ana Paula vai voltar para casa - bem - parece estar chegando.

E assim a vida há de entrar nos eixos de novo, para melhor. E nossa família daqui a algum tempo vai poder olhar para trás e falar de todas as bobagens que aconteceram “na época do transplante”.

p.s.: Confira o relatório do período pós-UTI neste post.

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