Comeco esse post avisando que estou num computador velho e sem memória, cujo teclado come os espacos e nao dispoe nem de til nem de cecedilhado. Quaisquer erros devem ser considerados sinais de autenticidade, nao de ignorância.
Ah, as delícias de voar low-fare. Você basicamente vende a sua paz de espírito e seu conforto por um voo ridiculamente barato. Que pode ficar bem caro num piscar de olhos, e cuja vantagem de tempo acaba nem sendo tanta assim em muitos casos. Como o meu.
Meu vôo saía do aeroporto de Beauvais,que simplesmente fica a uma hora e quinze de Paris.Pra chegar lá, deve-se ir até uma estacao de metrô quase no fim da linha um e pegar um ônibus meio que fretado pela companhia. O que nao o faz ser de graca, pelo contrário, custa 13 euros, o que por si só pode acabar custando mais que a passagem de aviao.
Como recomendam que você faca check-in duas horas antes do voo sair, o ônibus sai três horas e meia antes da sua decolagem. Ecomo o amor por filas nao é exclusividade dos brasileiros, o povo comeca a se enfileirar na frente de qualquer onibus que esteja parado no estacionamento-ponto-de-onibus quarenta minutos antes de se ligar o motor. Onibus avancando pra cima das filas na intencao de chegar ou sair nao foram cenas incomuns.
Depois de ser rejeitado no primeiro onibus porque tinha lotado e ter que pegar o ao lado, que na verdade era pro povo do voo para Alicante mas que juravam que me deixaria no mesmo lugar no mesmo horario, tentei recuperar a forma da minha autoestima, mas nao consegui fazê-lo por muito tempo. Porque ao chegar no aeroporto, depois de uma hora e vinte de sono, vem a humilhante parte do check-in.
Você,que já pagou um extra para poder levar uma bagagem na sua viagem, descobre que há um limite de quinze quilos de peso. E que a sua mala pesa 19. Entao toca abrir a mala na frente do balcao, tirar todas as cuecas do topo da mala e comecar a colocar revistas e entuchar camisetas na minha mochila, que iria como bagagem de mao. Quatro quilos e meio de camisetas e revistas na pobre mochila que já nao estava vazia. Ela mal se aguentava.
Acabou? Nao. Pra entrar na área de embarque, sua mala de mao tem que caber na grade-teste pra garantir que ela nao é ridiculamente grande. E minha mochila, agora estufada com camisetas, nao encaixava. La fui eu reorganizar tudo, jogar xampu fora e otimizar espaco, sem sucesso, pra faze a pobre encaixar na grade. Tanto fiz e refiz o tetris da minha bagagem que o comissário na frente da porta disse que estava bom assim mesmo e medeixou entrar.
Entao chega a temida hora do raio-x. Nao basta deixar mochila, chave, jaqueta e o coracao na esteira. Voce tem que deixa seu cinto. E, atencao: depois que a mochila passa no raio-x, aquele seu tubo de talco é suspeito, seu perfume e seu desodorante tem que ser colocados numa bolsa plástica, e sorry, mas seus óleos pós-banhos sao grandes demais pra embarcar.Conforme-se em ficar com a pele ressecada se quiser voar low-fare.
E tudo isso pra… ficar uma hora e meia esperando pra embarcar. Sem cadeiras pra todos, o povo se encostava na pequena área dos 3 portoes de embarque como podiam. Os mais empreendedores já comecaram a formar fila assim que descobriram em que portao embarcariam. Eu, na certeza de que nao voariam sem mim, fui um dos últimos a embarcar, e descobri que nao tinha mais bagageiro pra colocar minha mochila estufada. Mas, escolado, rapidamente a coloquei sob o banco da frente, me apertei com as outras sardinhas e lá fomos em nossa lata voadora para Madri.
Sair do voo depois de aterrisar foi outro suplício de mais de meia hora, mas pelo menos o aeroporto de Barajas em Madri tem metrô ligando direto e em apenas uma hora e meia eu estava chegando no albergue. Às oito e meia da noite. Depois de ter saído da casa do Michael às quinze pro meio-dia. Estou certo de que uma viagem de trem teria sido mais confortável e demoraria pouco mais.
Mas nao nos concentremos nas tristezas, que depois de umbanho e um pulinho no supermercado eu já estava pronto pra conhecer a cidade. Como eu AMO esse momento de explorar uma cidade nova. Se perder, descobrir novos nomes de rua… eu viajo pra isso. Peguei um mapa no albergue, pedi umas orientacoes e deixei a rua me levar.
Os espanhóis fazem tudo mais tarde, entao as dez da noite estao todos na rua. O albergue é super bem localizado, depois de cortar poucas ruazinhas cheguei na Gran Via, subi e desci e cortei outras calles até cansar e parar num bar bem simpático. Pedi um mojito, que eu merecia, sentei na praca em frente e fiquei lá me sentindo feliz.
Hoje tinha almoco com o pessoal da Runner’s Espanha.Que, como todos os bons espanhóis, almocam só às duas da tarde. Entao tirei a manha para explorar mais. Caminhei até o Palácio Real, consegui ver a troca da Guarda no nível série B (a troca “solene” só acontece na primeira quarta-feira de cada mês, nas outras quartas eles fazem uma versao pokémon só pra nao deixar a turistaiada na mao) e dali fui andando para a Porta do Sol, para a Gran Via, para o Monumento da República, e desci pelo parque do Bom Retiro. Estava um dia lindo de sol, e eu fiquei feliz de estar ao ar livre cultivando um pouco de melanina. No caminho, várias feiras de livros usados, olha que pitoresco. Depois de sair do parque, contornei por fora do museu Reina Sofia e cheguei na rua da Motor-Press, que publica a Runner’s.
Dessa vez a ginga brasileira venceu novamente a seguranca, mas por W.O. Tinha um povo entrando ao lado da cancela na frente do prédio da editora, entrei junto. Na recepcao, nao tinha ninguem pra atender. Entao esperei uma mocinha entrar, perguntei em que andar ficava a Runner’s, ela disse que no terceiro, entrei no elevador e subi. Devia ter pegado umas revistas também, mas daí ia me complicar mais ainda no próximo voo da Ryan Air.
O almoco foi muito bacana, e foi meu primeiro grande teste de castelhano desde que saí de Barcelona em 2005 -onde, aliás, falam catalao, eu sei, esse post tem falta de espacos mas nao de cultura.Mas lá eu falava castelhano. Os editores disseram que eu falo bem, entao tá.Só sei que no fim do almoco eu estava com estafa mental e, enquanto eles falavam animadamente de futebol e Ronaldos, eu mais uma vez tive um momento Ana Paula, sorria e concordava com a cabeca.
Meu plano era andar pelas duas horas seguintes para pegar um tour guiado de bicicleta pelas margens do rio Manzanares, organizado pela prefeitura. Mas cheguei no lugar de partida no horário que informava o folheto, e a moca me disse meio sem graca que o folheto estava errado e o tour tinha saído às cinco. Fiquei meio puto, mas estava sol e a moca foi gente boa, entao passou logo. Voltei a dar voltas pela cidade, comprei um livro novo (Inés del Alma Mía, da Isabel Allende, pra substituir A Viagem do Elefante, do Saramago, que terminei ontem), comprei alguns suvenires pra família, e fiquei andando e vendo a cidade anoitecer.
E olha só, acabei de descobrir onde fica o ç no teclado aqui do albergue. Os próximos posts terao apenas faltas de til e de espaços, que maravilha.
É, eu sei que é muito mais legal ter um monte de posts, um para cada dia, mas sacumé. Um dia a gente chega cansado, no outro dia janta com os amigos do seu host, no outro ele faz jantar em casa, no outro você tá de saco cheio, quando vê você nao escreveu há um monte de dias. Entao agora vai um resumo de impressoes mais ou menos aleatórias sobre Paris:
- Os franceses sao um dos poucos povos que nao perderam a vergonha de fumar. Fumam sem o menor pudor na rua, com aquela confianca e vaidade que fez com que fumar ficasse tao chic. Os outros países do mundo perderam essa arte de tanto fumarem escondidos em fumódromos. Aqui, sao capazes de fumar, andar de bicicleta e falar no celular ao mesmo tempo, sem perderem a elegância.
- Quando for ao Louvre ver todo o material egípcio, tenha certeza de que ama muito o Egito Antigo. É tanta, tanta coisa que qualquer nível de apreciacao inferior a amor sem fim pelos faraós e tal vai fazer com que você se alegre que eles morreram a milhares de anos e torca para que nunca ressuscitem.
- A parte mais pop do Louvre, a de pinturas italianas, é quase infernal de tanta gente e requer enorme boa vontade. A Mona Lisa é mais concorrida que o Mickey na Disneylândia.
- Depois de dois enormes museus cheios de artes renascentistas e posteriores, o hit parade de temas so far é:
- Sao Sebastiao sendo flechado. Deus do céu, como o povo adorava espetar o Bastiao.
- Sao Jorge matando o dragao. Mas nem sempre o dragao é muito grande.
- Salomé recebendo a cabeca de Sao Joao. A cabeca dele rola por aí sem parar até hoje.
Hors-concours, claro, é Jesus sendo supliciado das mais diferentes maneiras, com mais ou menos sangue, com mais ou menos sofrimento. E depois reclamam do fenômeno da violência no entretenimento hoje. Tolinhos, isso acontece há mais de mil anos.
- O Espaco Dali em Paris NAO vale a visita. É caro, feio, mal-iluminado e só tem os refugos da obra dele. Mas andar por Montmartre é legal.
- O metrô de Paris tem um monte de estacoes e todas se cruzam nos lugares errados. Voce tem que fazer duas ou três baldeacoes pra ir pra qualquer lugar.
- Quando na barraquinha de informacao turística em Paris tentarem te vender um maravilhoso cartao-turista de dois dias por 36 euros, aponte pro moco e diga: É UM FANFARRAO! O ingresso pros museus custam entre 6 e 9 euros, e por mais que o cartao te coloque dentro do museu de grátis, pra ele compensar você teria que ir para cinco museus por dia. O que obviamente nao vai rolar.
- Todos os dourados sao mais dourados em Paris, e tudo fica mais bonito dito em francês
Uma das grandes dicas que eu aprendi quando morei em Londres é que o melhor jeito de se ir de Londres para Paris é de trem. Sempre. Nã importa as promoções das linhas aéreas barateiras; de trem, você sai do centro de Londres e vai direto para o centro de Paris. Por mais baratinho que seja o bilhete de RyanAir, você tem que sair muito antes de casa pra ir pra algum aeroporto distante de Londres a tempo de fazer check-in uma hora antes da decolagem, chegar em outro aeroporto distante, pegar outro transporte para a cidade… o desperdício de tempo é enorme, e os gastos de trem acabam equivalendo (se não ultrapassando) a diferença de preço entre um e outro.
Assim sendo, saí hoje ás seis da matina para pegar o metrô atê a estação de St. Pancras, de onde sai o Eurostar para Paris. Em dez minutos eu estava lá, com tempo de sobra pra passar pela imigração. Fica a dica: se você conseguiu convencer a tiazinha do aeroporto de Heathrow, cê tá feito, porque a mina de St. Pancras não me fez uma pergunta, olhou meu passaporte e carimbou sem abrir a boca.
Meu vagão ficava na extremidade do trem. Na minha frente estava sentada uma família de indianos com uma filha de um ano e pouco de idade. O lugar já não era muito confortável, e quando eu conseguia me ajeitar pra tirar um cochilinho, a menina soltava um grito e me acordava. Nada de compensar o sono perdido na viagem.
Chegando à estação de Paris Nord, foi todo aquele trabalho pra entender a estação e descobrir pra que lado eu ia pra pegar o metrô pra casa do meu anfitrião, o Michael. Acabei comprando um passe de cinco dias, e andei andei andei andei andei dentro daquela estação enorme até chegar na linha que me interessava, láááááá no final. Em compensação, em quatro estações eu já tinha chegado.
Eu conheci o Michael durante uma das vezes que eu fui visitar a Andréia em Barcelona; ele também é designer, a gente acabou ficando amigo, me recebeu durante meu findi relâmpago em Paris em 2005, e desde então a gente mantém contato. Super francês, é perfeito pra se ter uma estadia parisiense que vá além do clichê do turista. Quando eu o conheci, ele morava num apartamentinho térreo sem janelas; agora ele mora num apartamento estilo loft no quarto andar, todo branco e cheio de janelas. Ele disse que uma empresa de fotografia tinha construído o prédio inteiro para ser um conjunto de dez estúdios fotográficos, mas em algum ponto de crise eles resolveram manter só dois e venderam o resto. Ele comprou um, e agora mora e tem seu estúdio de design num lugar lindo e descolado numa área boêmia de Paris.
Depois de colocarmos a conversa em dia um pouco, achei por bem vazar e ir explorar Paris, pra ele conseguir trabalhar sem maiores preocupa&ccecil;ões. Pedi umas dicas de onde ir, botei uns euros na carteira e me fui. A princípio pensei em comprar um mapa, mas nã demora muito pra você perceber que tem um mapa da cidade em cada estação de metrô, no qual você se localiza facinho. Aliás, não demora nada: Paris tem um número absurdo de estações de metrõ, quase uma a cada dois quarteirões, então é inevitável trombar com uma.
Andei andei andei até chegar na Bastilha, e vendo o anjinho no alto do monumento fiquei com o “Il pleut toujours sur le genie de la place de la Bastille” do Chansons d’Amour na cabeça. Caminhando e cantando, fui até Notre Dame, onde meu repertório Disney tomou conta e eu fiquei cantarolando as músicas do Hunchback of Notre Dame. Lá dentro, consegui pegar uma guia em inglês que foi mostrando os cantinhos da catedral e contando histórias. Por exemplo, foi lá que inventaram a segunda parte da Ave Maria, “rogai por nós pecadores” e tal.
Depois de uma hora e meia de tour na catedral (ainda tinha mais 40 minutos, mas eu não aguentei) eu saí e resolvi andar até a Torre Eiffel, seguindo o rio. Nessas caminhadas eu lamento cada vez mais o que os energúmenos de São Paulo fizeram, construindo as marginais. O povo em Paris curte o rio, senta perto da margem pra conversar, corre, toma sol… a gente anda de trem ao longo do Pinheiros. Lamentável.
Levei uma hora e tanto e muitas fotos pra chegar lá (tô ficando craque em tirar autorretrato). Já meio cansado, fui numa banquinha perto da Torre pra comprar uma garrafa d’água. “Quatro euros”, disse o atendente, com a maior cara lavada. “É UM PÂNDEGO, FAZ-ME RIR!”, respondi, e virei as costas. E assim, com fome e sede na área com a comida mais superfaturada do mundo, segui caminhando até algum lugar menos espetaculoso.
Voltei para o apê quando já anoitecia, e Michael me disse todo contente que tinha festa logo mais. Estamos na semana de moda de Paris, e algum amigo dele tinha arranjado um jeito dq gente entrar na festa do Paco Rabane. Eu, Carlos e araraquarense, na festa do Paco Rabane, como esse mundo dá voltas. Aqui em Paris, com roupas folgadas e usadas e um par de tênis sofrido que talvez não aguente atê o fim da viagem. Revirei minha mala e o Michael, com seu estilo parisiense, riu de várias das minhas roupas andarilhas até que encontramos um par de calças risca de giz que eu pus na mala sem achar que jamais as vestiria. Ele me emprestou uma camisa e um par de botas, e foi assim que eu fui pro VIProom, numa festa fashion, com uma calça da praça Benedito Calixto, uma jaqueta da Cancer Research que vamos chamar de vintage e roupas emprestadas. Super hi-lo.
A festa foi simplesmente um arraso, cheia de gente fina e elegante (a sinceridade devia estar em falta, but who cares). A hostess usava um vestidinho de pirâmides metálicas, uma DJ usava outro feito de meias esferas. A champanhe rolou solta, e depois da minha terceira eles passaram a só servir rum com suco, oh well, passa dois. A música era excelente, no meio da festa teve uma apresentação da V. V. Brown, com músicas muito bacanas. Saí de lá tarde da noite, já trançando as pernas, mas contente da vida. Não dava pra ter um primeiro dia em Paris melhor que esse.
Londres foi bacana comigo. Não seria uma viagem fosfosol decente se fizesse sol o tempo todo. Então, querendo que eu reavivasse as memórias do que é uma terra da garoa de verdade, ontem começou a dar aquela chuvinha perene, gélida e meio irritante que só Londres sabe produzir, e hoje ela continuava lá, irredutível.
Último dia em Londres! Tanto a fazer! Tanto a comprar! Não seria o chuvisco que me deteria, assim, coloquei a jaqueta mais quentinha, joguei a mochila nas costas e saí pra bater perna. Primeira parada, Postman’s Park, o parquinho que passou a ficar conhecido por conta do filme Closer. Eu já tinha ido lá antes, mas não tinha foto da parede de onde a personagem da Natalie Portman pega seu nome, e é bem perto da casa do Roger, então deu pra resolver essa missão sem grandes delongas.
Próxima parada, voltar para o Tate Modern para comprar uma camiseta do Keith Haring. Eu me conheço, e sei que passaria os próximos dez anos me arrependendo se não a comprasse. No caminho, impressionantemente, várias pessoas correndo, com aquela capacidade de enfrentar chuvinha de shorts e camiseta que só o britânico tem. Pode ser uma impressão viciada a minha, já que agora que eu trabalho na Runner’s eu reparo mais no pessoal que corre, mas suspeito que realmente haja mais gente correndo agora do que antes. Mais impressionante é vê-los atravessando a Millenium Bridge em passadas confiantes. Eu teria medo de escorregar e parar no Tâmisa.
De lá cruzei o rio de volta na busca de uma agência dos correios pra mandar pro Brasil uma caixa com os papéis que eu já juntei mas não ia precisar mais carregar. Depois, fui eu no meu zigue-zague pelo mapa até Shaftesbury Avenue pra comprar o ingresso com disconto para ver o Billy Elliot. Só? Nããããããããããooooo!!! Próximo compromisso, voltar para o Guardian para tomar um chazinho com Gareth McLean, amigo e ex-colunista de TV do jornal. Ele embarcou num programa de demissão voluntária que rolou lá faz alguns meses por conta da crise (por contrato o jornal não pode demitir ninguém) e agora está há dois meses tranquilamente vivendo das economias enquanto resolve o que vai fazer. Foi até lá só pra me ver, olha que bonitinho.
Roger aproveitou nossa presença lá pra fazer um intervalinho também, e entre nossos assuntos “catch up” de praxe dizia como as coisas estão puxadas no jornal agora que tem menos pessoas, que o povo se mandou e a chefia não recoloca ninguém na vaga e fica todo mundo trabalhando demais. Num momento Ana Paula, eu sorria (tristemente) e concordava, enquanto pensava que, tadinho, não sabe como as coisas podem ser piores. Pelo que eu vi, um dia puxado dele é um dia normal na Abril, onde mandar gente embora e não colocar ninguém no lugar é uma tradição de quase dez anos - e lá no Guardian nem inventam especiais a serem feitos por um frila de texto e um de arte.
Um busão depois, lá estava eu de novo do outro lado da cidade, de volta na minha querida Trafalgar Square, correndo para pegar a National Portrait Gallery aberta e conseguir entrar na exposição Gay Icons. Esse é um desses eventos que demonstram como o Reino Unido está a anos-luz do Brasil em termos de respeito à diversidade. A idéia é simples, mas genial: pediram para um número de personalidades gays (como Elton John, Ian McKellen, Jacke Kay e Waheed Alli) para listarem pessoas que, em sua opinião, são ícones gays. Essas pessoas não precisavam ser gays, apesar da maioria que foi listada ser. Assim, ao lado de um retratão do “dono” daquela parede e seu perfil, ficavam retratos das pessoas que ele ou ela escolheram: figuras como princesa Diana (que era hétera), Tchaikovsky (que, olha só, era gay), Nelson Mandela e Maya Angelou (héteros), Walt Whitman e Village People (beeshas).
Isso tudo num espaço nobre e um mega destaque - mas tudo muito fino, jamais chegando perto da apelação pelo espetáculo. É um evento muito inspirador, que tenho certeza vai elevar a auto-estima de todos os gays, e fazer que os straights respeitem todos os queers. Não resisti e, quebrando meu voto de não gastar dinheiro em livro, corri pra loja do museu e comprei o catálogo da exposição.
Agora, pra isso acontecer no Brasil… rá.
Nos quinze minutos que sobraram antes de fecharem a NPG, eu consegui ir para a parte de retratos recentes e olhar o que havia de novo. Lá estavam os retratos que o Julian Opie fez dos membros do Blur e o auto-retrato que o Marc Quinn fez tirando um molde da própria cabeça, enchendo-o com o próprio sangue e congelando (a peça está lá, dentro de um freezer transparente). Mas o que eu mais curti foi o retrato da Zaha Mohammed Hadid feito pelo Michael Craig-Martin. É um monitor de LCD enorme em que os traços do retrato ficam sempre em preto, mas as cores mudam aleatoriamente o tempo todo. O efeito é hipnótico - sério, demorou pra alguém ter essa ideia.
Mais um busão e chegava eu em Victoria Station, pronto pra ver Billy Elliot - The Musical pela segunda vez na vida. Dessa vez meu lugar ficava no “segundo andar” da platéia, na frente, o que significava que eu estava bem perto do palco, mas via tudo de um ângulo de cima pra baixo. Ou seja, boa parte da cenografia não funciona muito bem, e volta e meia você vê as pessoas se movimentando por trás dos cenários. Mesmo assim, o espetáculo foi excelente, melhor agora que eu já conhecia as músicas. Pude me concentrar melhor em decifrar o sotaque do norte usado na peça inteira, e reparar nas coreografias como um todo. Impressionante. E, realmente, o treinamento dos moleques que fazem o Billy Elliot deve ser animal, ele faz coisas no palco de tirar o fôlego.
De volta para o apê do Roger, ele ainda estava com pique pra gente ir prum bar lá perto beber uma última antes de eu ir embora. Andamos até o novo Trash Palace, que está com mais cara de pub que o antigo. Super vazio, talvez por ser terça, mas pra gente não fez diferença: o que importava era brindar a semana que passou e torcer pra que outras viessem.
Existe algo muito preocupante se incubando em Londres. Está acontecendo bem debaixo dos nossos narizes, e ninguém faz nada a respeito. Quando as autoridades competentes acordarem para esta questão, será tarde demais, e inúmeros crimes já terão sido cometidos. Estejam alertas: a moda dos anos 1980 está voltando.
As evidências estão por toda parte. As cores fosforescentes estã em alta. A chamada de capa da InStyle recomenda sem a menor vergonha “power shoulders”. Os jovens rapazes estão exibindo suas longas franjas assimétricas sem a menor vergonha. Cuidado, garotos, Boy George começou essa história e hoje está cumprindo pena por ter acorrentado um garoto de programa.
Hoje eu tinha meus últimos encontros para tirar do caminho em Londres. Primeiro, voltei para a minha ex-faculdade para conversar com uma outra professora. Ao contrário da outra vez, que eu me fiz anunciar e fiquei esperando, dessa vez fui entrando no vácuo dos outros alunos, e funcionou maravilhas. Falei com a professora, fui até a biblioteca, procurei algumas coisas que eu precisava, usei a internet que alguém tinha deixado ligada e fui embora sem levantar a menor suspeita. Brasileiro um, segurança zero.
O próximo item na agenda era voltar pra Jungle Drums e finalmente reencontrar Juliano Zappia. Dessa vez ele estava lá, olha que maravilha. Peguei-o no meio de sua marmita, de boca cheia. Enquanto ele terminava seu almoço, eu fui conhecer meus sucessores. A Jungle continua no mesmo lugar, mas melhorou bastante, a parte comercial agora ocupa a maior parte do apartamento, com o pessoal do editorial agora escondidinho onde era o quartinho do Tubarão. Mas isso é bom; agora que têm mais foco no comercial, a revista está dando lucro de verdade pela primeira vez, apesar da crise, e tem mais funcionários do que nunca. Fiquei muito orgulhoso do trabalho que o Juliano vem fazendo.
Depois de uma reuniãozinha com seus vassalos, o Juliano me levou para um café lá perto para a gente colocar a conversa em dia. Fiquei sabendo do lado dele das histórias do tempo que ele passou na casa onde eu morei, como estão os outros ex-jungle agora, das mudanças no projeto gráfico, e contei do que fiz nos últimos anos. Antes de eu ir embora, Juliano me mostrou a ediçã comemorativa de 6 anos de Jungle, e lá num cantinho tem uma foto minha. Fiquei feliz de ter deixado minha marca naquele território.
Depois de ponderar um pouco, resolvi ficar por Central London mesmo e fui revisitar a National Gallery. Eu, que só tinha visitado o museu de fim de semana, conheci um lado todo novo. Por todos os cantos tinha estudantes de arte copiando quadros com toda calma e parcimônia. Mas, mas legal ainda, a quantidade de alunos de escola p&uaacute;blica era impressionante. Eu vi três classes distintas, desde uma turma de aluninhos de uns cinco anos que tentava decifrar um quadro da visita dos Reis Magos com a ajuda da professora, até um grupo de aborrecentes que não conseguia responder às perguntas do professor. Eu tive que sair de perto, porque ficava com vontade dar a resposta para todas.
E para acabar bem a noite, fui até Victoria Station para assistir a Wicked. Eu consegui um lugar bem bacana, sem ninguém muito cabeçudo na minha frente. Estou cada vez mais certo de que sou um banana de musicais mesmo; assim que começa, o povo entra e os atores começam a cantar, eu começo a achar aquilo tudo tão lindo que eu choro. E Wicked é lindo mesmo. Apesar de o livro em que ele se baseia ser bem chato (se duvida, leia-o de graça aqui), o pessoal que o adaptou para o teatro fez um trabalho excelente de peneirar o que prestava e resolver as lacunas de uma maneira melhor que o livro. Os diálogos sã espertos e engraçados, as músicas são ótimas, figurino luxuoso e um cenário impressionante, todo baseado em círculos concêntricos. E, sério, a melhor iluminação que eu já vi.