Chão

Daqui não passa
ocorridos6.10.2009

Costurando o mapa

Londres foi bacana comigo. Não seria uma viagem fosfosol decente se fizesse sol o tempo todo. Então, querendo que eu reavivasse as memórias do que é uma terra da garoa de verdade, ontem começou a dar aquela chuvinha perene, gélida e meio irritante que só Londres sabe produzir, e hoje ela continuava lá, irredutível.

Último dia em Londres! Tanto a fazer! Tanto a comprar! Não seria o chuvisco que me deteria, assim, coloquei a jaqueta mais quentinha, joguei a mochila nas costas e saí pra bater perna. Primeira parada, Postman’s Park, o parquinho que passou a ficar conhecido por conta do filme Closer. Eu já tinha ido lá antes, mas não tinha foto da parede de onde a personagem da Natalie Portman pega seu nome, e é bem perto da casa do Roger, então deu pra resolver essa missão sem grandes delongas.

Próxima parada, voltar para o Tate Modern para comprar uma camiseta do Keith Haring. Eu me conheço, e sei que passaria os próximos dez anos me arrependendo se não a comprasse. No caminho, impressionantemente, várias pessoas correndo, com aquela capacidade de enfrentar chuvinha de shorts e camiseta que só o britânico tem. Pode ser uma impressão viciada a minha, já que agora que eu trabalho na Runner’s eu reparo mais no pessoal que corre, mas suspeito que realmente haja mais gente correndo agora do que antes. Mais impressionante é vê-los atravessando a Millenium Bridge em passadas confiantes. Eu teria medo de escorregar e parar no Tâmisa.

De lá cruzei o rio de volta na busca de uma agência dos correios pra mandar pro Brasil uma caixa com os papéis que eu já juntei mas não ia precisar mais carregar. Depois, fui eu no meu zigue-zague pelo mapa até Shaftesbury Avenue pra comprar o ingresso com disconto para ver o Billy Elliot. Só? Nããããããããããooooo!!! Próximo compromisso, voltar para o Guardian para tomar um chazinho com Gareth McLean, amigo e ex-colunista de TV do jornal. Ele embarcou num programa de demissão voluntária que rolou lá faz alguns meses por conta da crise (por contrato o jornal não pode demitir ninguém) e agora está há dois meses tranquilamente vivendo das economias enquanto resolve o que vai fazer. Foi até lá só pra me ver, olha que bonitinho.

Roger aproveitou nossa presença lá pra fazer um intervalinho também, e entre nossos assuntos “catch up” de praxe dizia como as coisas estão puxadas no jornal agora que tem menos pessoas, que o povo se mandou e a chefia não recoloca ninguém na vaga e fica todo mundo trabalhando demais. Num momento Ana Paula, eu sorria (tristemente) e concordava, enquanto pensava que, tadinho, não sabe como as coisas podem ser piores. Pelo que eu vi, um dia puxado dele é um dia normal na Abril, onde mandar gente embora e não colocar ninguém no lugar é uma tradição de quase dez anos - e lá no Guardian nem inventam especiais a serem feitos por um frila de texto e um de arte.

Um busão depois, lá estava eu de novo do outro lado da cidade, de volta na minha querida Trafalgar Square, correndo para pegar a National Portrait Gallery aberta e conseguir entrar na exposição Gay Icons. Esse é um desses eventos que demonstram como o Reino Unido está a anos-luz do Brasil em termos de respeito à diversidade. A idéia é simples, mas genial: pediram para um número de personalidades gays (como Elton John, Ian McKellen, Jacke Kay e Waheed Alli) para listarem pessoas que, em sua opinião, são ícones gays. Essas pessoas não precisavam ser gays, apesar da maioria que foi listada ser. Assim, ao lado de um retratão do “dono” daquela parede e seu perfil, ficavam retratos das pessoas que ele ou ela escolheram: figuras como princesa Diana (que era hétera), Tchaikovsky (que, olha só, era gay), Nelson Mandela e Maya Angelou (héteros), Walt Whitman e Village People (beeshas).

Isso tudo num espaço nobre e um mega destaque - mas tudo muito fino, jamais chegando perto da apelação pelo espetáculo. É um evento muito inspirador, que tenho certeza vai elevar a auto-estima de todos os gays, e fazer que os straights respeitem todos os queers. Não resisti e, quebrando meu voto de não gastar dinheiro em livro, corri pra loja do museu e comprei o catálogo da exposição.

Agora, pra isso acontecer no Brasil… rá.

Nos quinze minutos que sobraram antes de fecharem a NPG, eu consegui ir para a parte de retratos recentes e olhar o que havia de novo. Lá estavam os retratos que o Julian Opie fez dos membros do Blur e o auto-retrato que o Marc Quinn fez tirando um molde da própria cabeça, enchendo-o com o próprio sangue e congelando (a peça está lá, dentro de um freezer transparente). Mas o que eu mais curti foi o retrato da Zaha Mohammed Hadid feito pelo Michael Craig-Martin. É um monitor de LCD enorme em que os traços do retrato ficam sempre em preto, mas as cores mudam aleatoriamente o tempo todo. O efeito é hipnótico - sério, demorou pra alguém ter essa ideia.

Mais um busão e chegava eu em Victoria Station, pronto pra ver Billy Elliot - The Musical pela segunda vez na vida. Dessa vez meu lugar ficava no “segundo andar” da platéia, na frente, o que significava que eu estava bem perto do palco, mas via tudo de um ângulo de cima pra baixo. Ou seja, boa parte da cenografia não funciona muito bem, e volta e meia você vê as pessoas se movimentando por trás dos cenários. Mesmo assim, o espetáculo foi excelente, melhor agora que eu já conhecia as músicas. Pude me concentrar melhor em decifrar o sotaque do norte usado na peça inteira, e reparar nas coreografias como um todo. Impressionante. E, realmente, o treinamento dos moleques que fazem o Billy Elliot deve ser animal, ele faz coisas no palco de tirar o fôlego.

De volta para o apê do Roger, ele ainda estava com pique pra gente ir prum bar lá perto beber uma última antes de eu ir embora. Andamos até o novo Trash Palace, que está com mais cara de pub que o antigo. Super vazio, talvez por ser terça, mas pra gente não fez diferença: o que importava era brindar a semana que passou e torcer pra que outras viessem.

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ocorridos5.10.2009

Back to the Jungle

Existe algo muito preocupante se incubando em Londres. Está acontecendo bem debaixo dos nossos narizes, e ninguém faz nada a respeito. Quando as autoridades competentes acordarem para esta questão, será tarde demais, e inúmeros crimes já terão sido cometidos. Estejam alertas: a moda dos anos 1980 está voltando.

As evidências estão por toda parte. As cores fosforescentes estã em alta. A chamada de capa da InStyle recomenda sem a menor vergonha “power shoulders”. Os jovens rapazes estão exibindo suas longas franjas assimétricas sem a menor vergonha. Cuidado, garotos, Boy George começou essa história e hoje está cumprindo pena por ter acorrentado um garoto de programa.

Hoje eu tinha meus últimos encontros para tirar do caminho em Londres. Primeiro, voltei para a minha ex-faculdade para conversar com uma outra professora. Ao contrário da outra vez, que eu me fiz anunciar e fiquei esperando, dessa vez fui entrando no vácuo dos outros alunos, e funcionou maravilhas. Falei com a professora, fui até a biblioteca, procurei algumas coisas que eu precisava, usei a internet que alguém tinha deixado ligada e fui embora sem levantar a menor suspeita. Brasileiro um, segurança zero.

O próximo item na agenda era voltar pra Jungle Drums e finalmente reencontrar Juliano Zappia. Dessa vez ele estava lá, olha que maravilha. Peguei-o no meio de sua marmita, de boca cheia. Enquanto ele terminava seu almoço, eu fui conhecer meus sucessores. A Jungle continua no mesmo lugar, mas melhorou bastante, a parte comercial agora ocupa a maior parte do apartamento, com o pessoal do editorial agora escondidinho onde era o quartinho do Tubarão. Mas isso é bom; agora que têm mais foco no comercial, a revista está dando lucro de verdade pela primeira vez, apesar da crise, e tem mais funcionários do que nunca. Fiquei muito orgulhoso do trabalho que o Juliano vem fazendo.

Depois de uma reuniãozinha com seus vassalos, o Juliano me levou para um café lá perto para a gente colocar a conversa em dia. Fiquei sabendo do lado dele das histórias do tempo que ele passou na casa onde eu morei, como estão os outros ex-jungle agora, das mudanças no projeto gráfico, e contei do que fiz nos últimos anos. Antes de eu ir embora, Juliano me mostrou a ediçã comemorativa de 6 anos de Jungle, e lá num cantinho tem uma foto minha. Fiquei feliz de ter deixado minha marca naquele território.

Depois de ponderar um pouco, resolvi ficar por Central London mesmo e fui revisitar a National Gallery. Eu, que só tinha visitado o museu de fim de semana, conheci um lado todo novo. Por todos os cantos tinha estudantes de arte copiando quadros com toda calma e parcimônia. Mas, mas legal ainda, a quantidade de alunos de escola p&uaacute;blica era impressionante. Eu vi três classes distintas, desde uma turma de aluninhos de uns cinco anos que tentava decifrar um quadro da visita dos Reis Magos com a ajuda da professora, até um grupo de aborrecentes que não conseguia responder às perguntas do professor. Eu tive que sair de perto, porque ficava com vontade dar a resposta para todas.

E para acabar bem a noite, fui até Victoria Station para assistir a Wicked. Eu consegui um lugar bem bacana, sem ninguém muito cabeçudo na minha frente. Estou cada vez mais certo de que sou um banana de musicais mesmo; assim que começa, o povo entra e os atores começam a cantar, eu começo a achar aquilo tudo tão lindo que eu choro. E Wicked é lindo mesmo. Apesar de o livro em que ele se baseia ser bem chato (se duvida, leia-o de graça aqui), o pessoal que o adaptou para o teatro fez um trabalho excelente de peneirar o que prestava e resolver as lacunas de uma maneira melhor que o livro. Os diálogos sã espertos e engraçados, as músicas são ótimas, figurino luxuoso e um cenário impressionante, todo baseado em círculos concêntricos. E, sério, a melhor iluminação que eu já vi.

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ocorridos4.10.2009

Crianças e Darwin

O primeiro programa de hoje era visitar a menina que morava comigo quando eu estava aqui em Londres, a Fransje. Ela é uma bióloga molecular que vive de pesquisar o virus HIV, muito gente boa e nerd o suficiente pra ter jogado mais RPG na vida do que eu - e olha que isso não é fácil. Desde que eu deixei a casa que a gente compartilhava, ela se casou com o namorado e os dois tiveram um filho, batizado Johannes.

Os dois estão morando na metade inferior de uma casa no mesmo bairro em que morávamos antes. O apartamento é pequenininho, mas simpático all things considered. Fiquei com aquela impressão de que eles não têm muita grana sobrando, o que meio que é de se esperar para casais jovens com filhos na Europa - hell, no mundo inteiro. O marido dela arranjou um emprego fiscalizando os níveis de radiação em hospitais; ela continua pesquisando. Ela adora o que faz mas agora dá mais atenção pro filho; ele não aguenta o próprio emprego, mas tem que colocar dinheiro em casa.

Johannes, o rebento dos dois, está com um ano e é um desses bebês extremamente loirinhos que raramente acontecem no Brasil. Ainda encantado com sua recém-descoberta habilidade de andar, passou a hora e meia que eu fiquei em sua casa carregando brinquedos de um lado para outro, caiu uma vez, chorou, parou de chorar e continuou brincando. Enquanto a Fransje e seu marido me contavam como tinham sido os meses na casa de Fremantle Street depois que eu saí, como foi o casamento, como estão os avanços da pesquisa contra a AIDS e como foi viajar para o Japão, Johannes participava batendo cubos e puxando as roupas dos pais. Apesar de nenhum dos dois ter o menor pudor de interromper qualquer assunto pra dar atenção pro filho, eles são bem práticos com ele: segundo contaram, quando resolveram que já era hora dele parar de acordar à noite para comer, simplesmente pararam de dar comida à noite e deixaram ele se esgoelar por dois dias. No terceiro dia, ele cansou e passou a dormir a noite inteira. Parabéns para eles, conheço vários casais que não têm culhão pra fazer isso.

Depois da visita, fui encontrar o Roger e um de seus amigos em South Kensigton, para visitarmos o recém-inaugurado Darwin Centre dentro do Museu de História Natural. O Natural History Museum em si já é um espetáculo, com ossadas de dinossauro e mais N coisas divertidas e científicas que eu infelizmente não vi. Fomos direto para o Darwin Centre, uma estrutura de 4 andares dentro do museu, toda dedicada a mostrar como os cientistas trabalham, como os seres vivos são classificados, como as espécies se relacionam e como disso pode-se entender a evolução. Nas extremidades de cada andar dá pra ver através de janelas os cientistas trabalhando naquilo que a exposição acabou de explicar. Lindo e lúdico como todos os museus de Londres, faz você querer virar cientista pra você se divertir como eles enfiando alfinete em besouro e comparando folha de samambaia. Sim, é bom nesse nível.

Quando anoiteceu, fui com o Roger para a Union Chapel assistir a um show de uma dessas bandas que ele fica conhecendo antes de todo mundo. Os amigos do Roger dizem que ele tem um programa que mistura duas ou três palavras aleatórias e imprime um ingresso, e eu quase acredito. Foi ele que me apresentou a Antony and the Johnsons, The Magic Numbers, The Arcade Fire e Sufjan Stevens. A de hoje era Joan as Policewoman.

Enquanto esperávamos o ônibus, o Roger apontou pra uma igreja do outro lado da rua, e me disse que naquela igreja havia sido fundada a Igreja Metodista. So now you know. E então chegou um cara com uma cara de sofrimento, pediu um dinheiro para pegar um ônibus para casa e levantou a manga de sua blusa, mostrando um corte horroroso cheio de sangue que atravessava seu antebraço da mão ao cotovelo. Ele dizia que estava OK mas que na queda de bicicleta que tinha causado o acidente ele tinha perdido toda a grana e precisava de uma ajuda pra conseguir voltar pra casa. Era um negócio tão impressionante que demos as moedas que tínhamos no bolso. Depois, quanto mais a gente pensava, mais chegamos à conclusão de que era golpe: a blusa estava inteira, afinal, não rasgada conforme o corte, e ele estava até que bem racional para quem tinha capotado de bike e feito um corte de 20cm no braço. Não se pode confiar mais nem em vítimas do trânsito.

A Union Chapel é uma igreja da Church of England que está caindo aos pedaços, então seu vigário, bastante moderninho, resolveu alugar o espaço à noite para shows, e assim juntar dinheiro para restaurar a igreja. Acaba sendo um espaço super legal, de ótima acústica, lugares bem dispostos e visão privilegiada do artista - que acaba cantando na frente do altar e não pode subir no púlpito, mas fazer o que, não se pode querer tudo. Minha educação em colégio de freiras fazia eu me sentir meio herege o tempo todo, mas os brits não têm essa culpa cristã toda e não passam o show com medo de que um raio fulmine todos.

O show em si foi OK. Joan as Policewoman é basicamente uma mulher que tinha trazido um colega para tocar baixo ou bateria. Quando ele tocava baixo, eles punham uma fita cassete com os sons de batera. Ela de roupa de oncinha verde, ele com uma roupa básica preta e um vestido de onça por cima. Meio estilo perua bêbada, mas com boa presença de palco.

Mais uma vez fiquei meio passado com como não se exige virtuosismo nenhum aqui na Europa pra você montar uma banda e ter fãs. As músicas eram passáveis, a moça tinha habilidades na guitarra comparáveis às do meu tio Zé Roberto, mas cantava com vontade e tinha uma voz bonita. Como só tinha uma guitarra, passava um tempão mudando a afinação do instrumento entre uma música e outra. Mesmo assim, Roger e suas amigas presentes saíram do show achando ela muito boa. Eu fiquei sem graça de dizer o que tinha achado. Não dá pra ser sincero em tudo.

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ocorridos1.10.2009

Dessonífera ilha

Demorou. Custou. Mas consegui sair de férias. Férias quase arrancadas a fórceps, postergadas por dois anos e tanto, sempre com algum evento mais ou menos inesperado atrasando-as para “daqui a uns quatro meses”. Mas finalmente tudo confluiu, e eu consegui largar a editora por um mês para relembrar como é a vida sem um computador na sua frente por 16 horas por dia.

O destino escolhido para minha big trip foi a Europa. Era de se esperar: além dos amigos que eu quero reencontrar, existe tantos lugares no Velho Continente que eu não vi ainda, tudo tão perto e baratinho, que não havia outra opção.

A partida foi ontem à tarde. Mamadi foi supersupimpa, desmarcou todas as consultas do dia e veio de Campinas pra me pegar e me levar pro aeroporto. Chegamos bastante adiantados, apesar do trânsito, almoçamos, e então eu ingressei no portão de embarque. Comprei umas lembrancinhas levemente cafonas no duty free para levar para os amigos que me receberiam em suas casas europeias, e então basicamente fiquei enrolando. Para minha tristeza, fecharam a LaSelva do lado do embarque internacional do aeroporto, agora só os voos domésticos têm o privilégio de comprar revistas e livros enquanto aguardam para entrarem no avião. Não pude comprar algo pra ler no caminho nem ficar fuçando nas revistas.

O voo foi felizmente sem incidentes. Ainda não consigo superar a impressão a cada decolagem de que isso é tudo um absurdo, mas depois passa. Fiquei com um lugar no corredor, o que significava que cada vez que eu ia pegar no sono, alguém passava e esbarrava em mim, me acordando. Dez horas mais tarde, minhas olheiras chegaram no aeroporto de Heathrow.

A chegada teve direito a cão farejador revistando todos que saíam do avião. A imigração teve as enormes filas de costume; a senhora que me atendeu só faltou pedir meu mapa astral, porque no fim da entrevista ela sabia da minha família, da minha intimidade, do meu trabalho, do meu itinerário, da minha conta no banco e pra que time eu torcia. Por fim, consegui recuperar minha mala, e fui encontrar o Roger no desembarque.

O Roger foi meu chefe quando eu trabalhei no Guardian, ficamos muito amigos durante o ano e meio que trabalhamos juntos, então ele topou me hospedar em Londres sem pensar duas vezes. Tomamos o trem expresso do aeroporto para a cidade conversando animadamente, contando de todas as novidades e mudanças que aconteceram desde que eu voltei para a Americadossul. Ele tinha mudado de casa, o jornal tinha mudado de sede, metade do povo não trabalha lá mais por conta da crise (mas só demissões voluntárias, porque o Guardian não pode despedir ninguém, por contrato). Enquanto a conversa rolava, a paisagem tão típica da Inglaterra ia passando pela janela, e eu ia ficando todo contente.

O metrô deu altos problemas no caminho para a casa do Roger, mas eu ia ainda me aguentando por conta da conversa e da alegria de ouvir “mind the gap” de novo. Depois de despejar minha bagagem na casa dele, resolvemos ir até o Tate Modern para que eu não dormisse e assim me ajustasse mais rapidamente ao fuso horário. Um metrô e uma caminhada depois, estávamos cruzando o Tâmisa, a caminho do Tate, para ver uma exposição sobre artistas contemporâneos chamada Pop Life.

Nela estão uma série de obras de artistas contemporâneos que não têm o menor pudor de usar a arte para ficarem ricos ricos ricos e usar a mídia para ficarem famosos famosos famosos. Vi obras do Warhol (que começou tudo), Keith Haring (que eu AMO) e muitos outros. Entre os destaques está um artista que, resampleando o Warhol e suas obras que repetem a mesma imagem várias vezes, fez dois quadrinhos de bolinhas quase iguais e botou debaixo deles dois gêmeos idênticos vestidos iguais. Cada dia um par de gêmeos vai lá e ficam lá o dia inteiro, cada um sentado debaixo de um dos quadros. Outra obra se destaca por sua ausência: um retrato da Brook Shields pelada aos dez anos fazendo boca de desejo foi retirado da exposição depois que o Daily Mail reclamou que aquilo era pornografia infantil. Na sala ao lado, tem uma sala cheia de fotos explícitas do Jeff Koons transando com a Cicciolina.

O Roger tem carteirinha de sócio do Tate, então entramos na exposição sem pegar fila, vimos tudo e depois fomos para o bar exclusivo para sócios no quinto andar. Tomei um expresso tão forte que faria o Maroja chorar para tentar me manter acordado, enquanto via as pessoas passarem pelas margens do Tâmisa.

Já mal me aguentando de pé, ainda me arrastei até minha ex-universidade para conversar com meu ex-orientador de mestrado. Devia estar na cara minha falta de sono, porque ele perguntou na hora que me viu se eu tinha chegado naquele mesmo dia. Depois de meia hora de conversa, voltei para a casa do Roger e finalmente dormi algumas horinhas, antes que eu me encostasse num ponto de ônibus e dormisse com os indigentes.

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